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sábado, 24 de dezembro de 2011

Notas praieiras – Parte II: A Ignorância do Mundo em quinze dias à beira-mar

Na antiga Grécia, e provavelmente em muitas outras culturas, até mesmo naquelas chamadas “primitivas”, inumeráveis são os rios e riachos, lagoas, montes, colinas, montanhas e pântanos aos quais são relacionados os mais diversos mitos. Ou, no mínimo, são merecedores de um nome que os distingua, o que é algo muito mais importante do que se pensa. Pois nada existe sem um nome. Ainda que, na natureza encontrem-se, de fato, um número incalculável de animais, plantas e minerais ainda desconhecidos, é a partir do momento em que são nomeados que se tornam relevantes. Dar nome às coisas, é sabedoria e poder. Conhecimento e domínio.
Antes de sermos um país, quando ainda éramos uma colônia portuguesa – melhor dizendo, um arquipélago de vilas, cidades e fazendas, isoladas pela mata – boa parte da topografia brasílica já havia sido nomeada pelos ameríndios, ainda que em pequena escala, geralmente regional (relativa aos deslocamentos das tribos num âmbito relativamente estreito). E, o que era pior, conhecidos por pequenos grupamentos: as informações, então, não circulavam muito entre gentes sempre em pé de guerra umas com as outras. Havia, entretanto, formidáveis exceções, como as lagoas do Vapabuçu e do Paraupava, cujos nomes eram familiares a diversas etnias, mas cujo lugar real permanece incerto (especula-se que a lagoa da Paraupava, que apareceu em diversos mapas europeus dos séculos XVI a XVIII, ora ao Norte, ora ao Nordeste ou mesmo no Centro Oeste, trate-se, na verdade, do Pantanal Matogrossense). Sem falar na utópica “Terra sem mal” (Yvi Mara Ey ). Mas devem-se aos navegadores (como no caso do Monte Pascoal cabralino), aos jesuítas (Pedro Lozano, no século dezoito, foi o primeiro a chamar de Caminho do Peabiru a rota indígena que ligava o litoral Sul-Sudeste brasileiro ao Paraguai e ao Peru) e aos bandeirantes (que não só incorporaram muitos hábitos dos silvícolas, como também a sua própria língua), devem-se a estes, portanto, o real batismo de muitos acidentes geográficos de nosso território.
A ocorrência de muitos nomes idênticos, quer de origem indígena ou já portuguesa, designando este ou aquele rio, morro, lagoa, nos mais variados cantos desta terra, explica-se justamente pelo relativo isolamento das comunidades do passado. Daí termos tantos rios chamados de Grande, Feio, Turvo, Pardo, Paraibuna e Piracicaba, por exemplo: ou os dois de nome Paraíba, um emprestando seu nome ao Estado nordestino, outro recebendo o acréscimo de “do Sul”, muito posteriormente à sua descoberta, no vale paulista e fluminense). O mesmo não vale para as incontáveis cachoeiras ou cascatas que receberam o nome de “véu-de-noiva” ou “véu-da-noiva”: neste caso é, pura e simplesmente pobreza de imaginação.
Já no que se refere aos morros e montes, a ânsia de nomeá-los parece ter sido sempre meio preguiçosa por aqui. O grande historiador mineiro Diogo de Vasconcelos (1843-1927) quando trata das expedições dos bandeirantes pela terra mineira, diz que aqueles bravos avançaram por ela “servindo-lhes de norte o pico de algumas serras, que eram os faróis na penetração dos densíssimos matos..”. Assim, aos picos couberam alguns nomes, aos demais morros, quase nada, salvo se em locais relativamente planos. Estes são nomeados por sua condição estranha à paisagem. Mas no meio de uma serra, a maior parte deles permanece anônima e pagã. O que em grande parte parece até justificável, em nosso território de dimensões continentais. Haja nome para tanta coisa! Mas inquieta-me por que tantos habitantes locais, ao longo dos séculos, sequer se interessaram por chamar seus morros e montes disto ou daquilo.
Não conheço os Alpes e sua toponímia em pormenores. Nem preciso. Posso abrir um mapa confiável e ler como são chamados seus inúmeros picos, montes, vales, platôs, passagens, geleiras, etc. Os rios, cascatas, passagens, o que for. Ali estão nomeados com precisão. Se recorro a uma carta topográfica, além dos nomes, tenho acesso às altitudes máximas, médias, mínimas e intermediárias daqueles terrenos. Mas tente-se fazer o mesmo em nosso país! Encontramos altitudes, está certo. Nomes? Nem em sonhos.
A mesma coisa vale para as ilhas, cabos, rochedos, promontórios e o que mais se deita pelo mar da nossa pátria. Os mapas, em geral, silenciam quase completamente quanto a eles. Se buscarmos alguma informação mais profunda neste assunto, temos de recorrer às cartas náuticas, dificílimas de serem encontradas, quando não caríssimas, em muitos casos. Então, diante de tais obstáculos, pensamos: vamos recorrer ao conhecimento local. Mas que desilusão! Ninguém sabe dizer nada de nada.
Passei, recentemente, quase quinze dias percorrendo o extenso litoral de Ubatuba e Paraty. Conversei com gente que ali vivia, das mais diversas origens; mas, no caso em questão, com vistas ao que pesquisava, preferencialmente ouvindo a conversa de caiçaras, ou seus urbanizados descendentes: em suma, tratei com os nativos. Pois bem, não encontrei vivalma que me dissesse o nome – não falo nem dos montes e pontais – das ilhas que povoam aquelas praias e que, dia após dia podem vê-las plantadas diante deles. Senti tal comportamento não só como fruto da simples ignorância, mas, antes, de uma presunçosa ignorância. Só encontrei similar atestado de preguiça mental nalgumas vezes em que, visitando tal ou qual cidade, perguntei a alguns moradores dali, vizinhos de uma igreja, qual era o santo ali reverenciado, qual era o seu orago. E, para minha surpresa, ouvi a resposta: “Não sei. Sou evangélico!”. Ouvi isto de gente moça e velha. É de pasmar que certa incivilidade atinja tais níveis que acabe por voluntariamente ignorar a simples paisagem que se revela, quotidianamente, diante dos olhos locais.
Pois bem, na praia é a mesma coisa. O indivíduo passa, dia após dia, por mais de vinte anos, diante de uma ilha que se apresenta à sua frente. Trabalha, por outros tantos anos, defronte à mesma. E se perguntamos o nome dela, ignora-o completamente. Tenta-se outro informante, mais velho: o mesmo resultado. Com muita sorte, depara-se com algum pescador que ainda se lembre de alguma coisa. No mais, reina a mais profunda ignorância. Mas que não se invoque, como causa disto tudo, o eterno e retornável mito da suposta indolência do caiçara. O problema é de outro natureza, e grave: ninguém quer aprender mais nada, esta é a verdade. Contentam-se com o trivial, com as banalidades, com o que se pode adquirir e consumir, e tão só. Este é o novo mundo em que estamos mergulhando de cabeça e que não poupa sequer os românticos moradores do litoral, imersos em sua inocência e simplicidade, como julgam muitos, muito erroneamente, ainda hoje. Pois o “bom selvagem” morreu de tédio lendo Iracema no Ensino Médio. Índio não quer mais apito, espelho e miçangas: quer celular, tênis de marca e roupa de grife – o quê, no fundo, no fundo, é a mesma coisa...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 17 de dezembro de 2011].

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Notas praieiras – Parte I: A História do Mundo em três horas à beira-mar

A praia do pontal, em Paraty, não é a menina dos olhos dos fanáticos por mar, sol e areia. A água não parece muito limpa, e o mesmo, diria, das areias, freqüentadas por um número de cães muito maior do que o desejável. Os quiosques também não são lá grande coisa, à primeira vista – mas garanto que a segunda melhor caipirinha da cidade é servida ali. A paisagem também não é empolgante para os obsedados por praias oceânicas. Ela não passa de umas poucas centenas de metros, contida por um molhe de pedras, ao Sul, e por um morro, ao Norte, onde se encontra, oculto pela vegetação, o Forte Defensor Perpétuo. Mas nas fraldas deste morro, imersas no mar, encontram-se grandes e belas pedras, cobertas de cipós que parecem aparados com precisão por um hábil jardineiro e, no entanto, todo este efeito se dá pela água salgada, que àqueles dá tal feição e que não erode os rochedos locais, mas, antes, parece acariciá-los com brandura. Para o Oeste, há umas casas meio feias, pousadas não muito elegantes, e até mesmo um camping. Porém, olhando mais para o interior, um espesso arvoredo se eleva, ocupa o espaço, sobe por um desses morretes praianos meio raros em São Paulo ou no Rio de Janeiro – mais à feição dos Guararapes, em Recife, ou do outeiro do Carmo, em Olinda – em cujo topo assentam-se, imaculados sob a luz do sol, a capela e o cruzeiro do cemitério local, como numa paisagem de Guignard: um tanto brejeira, muito agradável e pitoresca, mas um tanto quanto insólita. Já para o Leste, lá estão as ilhas, os barcos e o mar absoluto.
Pois bem, este é o cenário. Vejamos alguns de seus personagens.
Numa tarde de quarta-feira, assim como noutras, anteriores e posteriores, minha mulher e eu estávamos ali, movidos pela necessidade de uma saudável mudança de ares. A poucos metros de nós, havia um jovem casal de canadenses: ele muito esguio; dela, se dissesse que era obesa, tal seria uma gentileza, pois sua enormidade era verdadeiramente colossal. Pouco adiante, um sujeito com ares de velho lobo do mar relegado à terra e a contragosto, tendo por companhia seu bem cuidado cão, um english springer spaniel, adestrado não para a caça de tiro, mas para arrancar mariscos dos fundo das areias, as quais escavava até quase nelas desaparecer: dele avistava-se apenas a cauda castanha, oscilante, tão logo intuía sua presa. Noutra direção, um casal da modernidade, ou da pós-modernidade, composto por dois rapazes: um chinês, ao sol, acompanhando-se sabe-se lá o que em seu tablet; e um belga, refugiando-se na sombra, entretido com um bom, velho, prosaico e insubstituível livro.
Minha mulher e eu, ao contrário de muitos compatriotas, temos verdadeiro horror à bajulação de estrangeiros em solo pátrio, esta perversão do conceito de hospitalidade em que se comprazem muitos, tratando por meio de verdadeiras micagens, quando não rebaixamento de conduta, qualquer estrangeiro que por aqui aporte. De modo que não demos muita atenção àqueles personagens. Preferimos nos voltar à divertida tarefa de recolher conchas da areia, para a futura montagem de um arranjo decorativo. Para matar o tempo antes que ele nos mate. Nesta divertida faina, em que nos revezávamos, uma menina, moreninha, e seu irmão, com ares de maranhenses ou caiçaras, se aproximam de minha mulher e lhe dizem algumas palavras incompreensíveis, mas nem tanto, a ponto de percebermos se tratarem de pequenos hindus. E num inglês meio estranho – do pensar em português para a versão inglesa, da parte de dois adultos, e do hindi, ou sabe-se lá que língua, para o inglês, por duas crianças – acabamos por nos entender e juntos colhemos conchas à beira do mar.
As horas se passaram, voltamo-nos a outros interesses, como as crianças, às suas brincadeiras. Quando delas nos despedimos, estavam, o menino e a menina, cobrindo de areia, tapando mesmo o buraco que aquele cachorro de linhas atrás cavara horas antes.
Diante do que vimos não houve como deixar de pensar se a História, esta mesma, a História, com “H” maiúsculo, não o seu registro, mas a sucessão dos fatos, também não se daria como nesta série de inocentes eventos praianos: numa terra distante, ocupada por um povo, outros vêm, das mais variadas origens, e tomam seu lugar; ainda outros passam apenas por ali; e as obras e trabalhos de uns sucumbem, sob uma simples diversão alheia, e de tudo, nada restando, sequer o testemunho. Refreio meu impulso de afirmar que a História poderia ser traduzida como “um buraco na areia feito por um cão inglês numa praia brasileira, e depois fechado por duas crianças hindus, algo feito à vista de todos e por todos esquecido”. Não divirjo completamente desta teoria, mas não a afirmo na íntegra. Acho que, sempre, existe algo mais a ser visto, em toda parte. Quer nos anais históricos, quer numa simples tarde de praia.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 10 de dezembro de 2011].

quinta-feira, 1 de dezembro de 2011

Crônicas Baianas – Parte IV: O Oxalá eucarístico, ou o Cristo demonizado

Pouca gente atenta para a etimologia das palavras, ainda menos se latinas, e ainda em menor número aos nomes científicos que, para muitos, parecem existentes desde sempre, quando não ditados por um Deus absoluto, ou pelo tagarela Adão, louco para nomear o tudo e o nada. Assim como o Primeiro teria dito Fiat lux (“faça-se a luz”) et facta est lux (“e a luz se fez”), o segundo, no julgar de muitos, provavelmente também exclamara, num momento desprezado pelos cronistas bíblicos, fiat camelus dromedarius, e o dromedário se fez, pronto e acabado, com nome científico e tudo, e à mesma feição de hoje em dia. Ou, como pensam outros, atendo-se às fontes, Javé fez o o bicho tal como ainda o vemos: coube ao ignaro Adão dar um nome à besta. Quanto ao idioma escolhido para nomeá-lo, séculos de estudos sobre o tema jamais chegaram a um ponto pacífico. Mas os fundamentalistas norte-americanos têm convicção de que a língua era a inglesa...
Assim, portanto, não é uma surpresa para muitos o significado da palavra passiflora, que denomina um gênero botânico de cerca de 500 espécies que tem no maracujá a mais conhecida delas. Um etimólogo tresloucado, falsamente estribando-se na lógica, explicaria a origem da seguinte maneira: “ora, o suco de maracujá acalma, torna a pessoa pacífica, passiva, ou apaziguada, portanto passiflora deve significar a flor (daí flora) e seu fruto, que traz a paz... ou algo assim”. Uma explicação tão bonita quanto errada, ainda que muita gente acredite piamente nisto. Pois passiflora significa, literalmente, “flor da paixão”. É por este motivo, aliás que, em francês, o fruto do maracujá se chama fruit de la passion (“fruto da paixão”). O mesmo etimólogo amalucado juntaria os termos “francês” e “paixão” (quem sabe se lembrando de que a expressão dá nome a uma marca de roupas íntimas femininas), e pensaria em arrebatadoras cenas românticas, quando não fortemente carnais, envolvendo sedas, champanhe, cama, etc., e até convertendo o maracujá em afrodisíaco, quem sabe.
O que pouquíssimas pessoas sabem – e que o nosso amigo meio passado das ideias jamais descobrirá – é que a paixão a que se refere o nome da flor vem a ser a Paixão de Cristo. E tal se deve ao fato das pretensas semelhanças encontradas, por missionários jesuítas da América do Sul, entre a flor do maracujá e elementos do martírio de Jesus: pois, segundo eles, o pistilo, os desenhos da corola e várias peças florais assemelhavam-se à coroa de espinhos, ao martelo e aos pregos da Crucificação – e a cor roxa do interior delas, à do luto litúrgico católico. Nascia, assim, a passifora, cujo primeiro registro encontra-se na Historia medicinal de las cosas que se traen de nuestras Indias Occidentales (1565-1574), do botânico espanhol Nicolás Monardes (1493-1588).
Outra fruta associada a Cristo é o abacaxi, ou ananás. “O quê?! Comparar o Salvador a um abacaxi!”, gritaria o nosso doido amigo supracitado. Pois é isto mesmo. Diversos religiosos nos séculos XVII e XVIII, e mesmo leigos católicos, viam naquele fruto um resumo alegórico de Jesus. Em primeiro lugar, por ambos terem um coroa de espinhos. A casca grossa tanto poderia significar Seu corpo flagelado, como, por seu aspecto, lembrar diamantes, símbolos da magnitude e incorruptível pureza de Sua Pessoa, ou ainda a excelsa recompensa que receberiam Seus seguidores. Considerando-se a casca e as dificuldades de rompê-la, estas remeteriam ao fato de que seguir Seu caminho não é fácil, mas o resultado é doce e certo e um alento para alma: um verdadeiro refresco às tribulações do mundo. Mas e se o abacaxi for azedo? Ácido também foi Cristo quanto aos pecadores, mas doce, no fundo, quanto à Humanidade. E se seu interior for branco? A candura do Cordeiro de Deus, então, se manifesta. E se for amarelo? O ouro, o supremo ouro, que outro melhor não poderia representar o Salvador.
Outra fruta associada a Cristo é o abacaxi, ou ananás. “O quê?! Comparar o Salvador a um abacaxi!”, gritaria o nosso doido amigo supracitado. Pois é isto mesmo. Diversos religiosos nos séculos XVII e XVIII, e mesmo leigos católicos, viam naquele fruto um resumo alegórico de Jesus. Em primeiro lugar, por ambos terem um coroa de espinhos. A casca grossa tanto poderia significar Seu corpo flagelado, como, por seu aspecto, lembrar diamantes, símbolos da magnitude e incorruptível pureza de Sua Pessoa, ou ainda a excelsa recompensa que receberiam Seus seguidores. Considerando-se a casca e as dificuldades de rompê-la, estas remeteriam ao fato de que seguir Seu caminho não é fácil, mas o resultado é doce e certo e um alento para alma: um verdadeiro refresco às tribulações do mundo. Mas e se o abacaxi for azedo? Ácido também foi Cristo quanto aos pecadores, mas doce, no fundo, quanto à Humanidade. E se seu interior for branco? A candura do Cordeiro de Deus, então, se manifesta. E se for amarelo? O ouro, o supremo ouro, que outro melhor não poderia representar o Salvador.
O leitor deve estar se perguntando o que quero dizer com tudo isto. Pois bem, minha intenção é revelar um mundo não muito distante em que tudo era encantado, o mesmo que permitiu ao poeta Cláudio Manuel da Costa vislumbrar na banana o fruto da Árvore do Conhecimento: pois, afinal, ao se cortar uma banana em rodelas, vemos, em seu interior, uma cruz. Em suma, mesmo na queda do Homem, já estava prevista a sua Salvação, como pregam as tradições religiosa e literária.
Na Bahia, esse encantamento do mundo ainda é, em boa parte, presente. Daí que o Cristo, ou o Senhor do Bonfim , é representado no candomblé pelo coco. Trata-se de uma adaptação realmente engenhosa e altamente lírica. Pois sem conhecerem a ideia do Livro de Deus (a Bíblia) e do Livro da Vida (o mundo), e suas correspondência (uma noção que justifica o tratamento dado outrora aos já citados maracujá, abacaxi e banana), sem conhecerem a escolástica, nem Alain de Lille (c. 1128-1202) e seu Rhythmus de incarnatione Christi, nem São Boaventura de Bagnoreggio (1221-1274) e seu Breviloquium, nem mesmo nada de Roger Bacon (1214-1294), procuraram a confirmação das Escrituras nas coisas do mundo, de seu mundo próximo e tangível. E, assim, a carne e o sangue da Eucaristia (Lc 22:19-20, Mt 26;26-29, Mc 14:22-25 e I Co 11:23-26), converteram-se na polpa e na água do coco! Desnecessário é dizer que o coco confunde-se com o crânio humano e, pronto, temos a referência ao Calvário e ao crânio de Adão sepultado em seu sopé. E depois chamam isto de sincretismo... Qual o quê! É pura interpretação alegórica, aplicada aos elementos que estavam à mão. Além de sumamente inspirado. Não tenho dúvidas, apesar da falta de registros, de que os jesuítas, excelentes pedagogos no passado – que celebraram missas em que as hóstias eram feitas de farinha de mandioca, no Brasil, e de arroz, na China, pelo profundo significado cultural que possuiam tais alimentos em tais ambientes –, se não referendassem a apropriação do coco como símbolo eucarístico, ao menos o tolerassem com benevolência.
Hoje em dia há seitas, proclamadas igrejas que, numa espécie de teologia reversa, na falta de uma própria, subvertem as de outrem, empregando termos alheios com sentido trocado, por sua incapacidade intelectual de formular os seus, para não dizer que tal se dá graças ao mutismo do Espírito Santo, que não lhes assopra ao ouvido nada de novo (mas este não é o meu campo). Estas congregações religiosas afirmam que os rituais afrobrasileiros são ditados pelo demônio. Segundo elas, todos os orixás seriam diabos. Assim, Oxalá, a interpretação africana do Senhor do Bonfim, seria, na verdade, uma criatura infernal! Ora, já vi, ou li, diversos tratamentos dados a Jesus – diábolos, foi um deles, na medida em que Ele acusava os erros anteriores e lançava uma nova Ordem; e Lúcifer também, por trazer a verdadeira luz aos seus fiéis – mas vê-lo passível de ser tratado, segundo a capenga teologia de algumas seitas, como uma espécie de demonhão africano, esta é de pasmar! E é de se perguntar: como uma visão tão natural e bela da Eucaristia, no coco, poderia ser inspirada por algum ser infernal?! Só na cabeça de gente sem ideias, sem compaixão nem reflexão: algumas das quais, por sinal, reunem-se num suntuoso templo que, em Salvador, é apelidado de “Casa da Moeda”...
Das ruínas de Salvador, uma fênix pode se levantar, já que nem tudo está perdido por lá. Certa tolerância, para não dizer um quase ecumenismo, ainda prevalece ali. Que as reflexões do grande Volney (citado em crônica anterior) finquem raízes. Que os povos as leiam. Que os fanáticos retratem-se. Que as ruínas, todas elas, recuem.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 26 de novembro de 2011].

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

As Crônicas Baianas: Parte III – As Ruínas, em ponto menor

O francês Constantin François Chassebœuf de La Giraudais (1757-1820), conde de Volney (nome pelo qual se tornou mais conhecido e que é a origem, ainda que em geral desconhecida, de todo indivíduo que se chame Volney, desde então), além de filósofo e político (uma contradição em nossos dias!), foi um orientalista e historiador de renome. Seu livro mais influente é, sem dúvida, As Ruínas, ou meditações sobre as revoluções dos impérios, publicado em 1791, depois de uma visita à antiga cidade romana de Palmira, localizada no território da atual Síria. Ali, pôde aquele autor observar as ruinosas condições de uma cidade outrora grande e influente, um verdadeiro símbolo do Império Romano em sua máxima extensão. E refletindo sobre Palmira, concluiu que os impérios, apesar de seus colossos que parecem lhes prometer uma vida eterna, acabam por perecer, vítimas que são de uma lei natural. Esta contemplação das ruínas e dos tempos passados, a partir da qual se pode tirar uma lição, é um tema quase tão velho quanto o mundo. Mas no agonizante Antigo Regime, no século XVIII, ele eclode em sua plenitude. Basta lembrarmos das estampas de Giovanni Battista Piranesi (1720-1778), das pinturas de Hubert Robert (1733-1808) e no rigor arqueológico dos prédios de John Soane (1753-1837), cuja planta (num “corte transversal”, se assim podemos nos referir àquela imagem) de sua mais importante obra, o Banco de Londres, foi desenhada como se aquele novíssimo prédio estivesse já em ruínas. Em suma, todos se davam conta de que um velho mundo estava em colapso.
O âmbito atingido por Volney naquele seu livro foi considerável – encontrei em Ouro Preto uma edição francesa de 1822, mesmo ano em que era traduzido em Portugal por Pedro Cyriaco da Silva, versão esta publicada até 1911, no Rio de Janeiro, pela Livraria Garnier, como atesta o exemplar que possuo. Tem-se também, como quase definitivamente acertado, que ele seria um precursor do Romantismo – e as imagens dos poemas homônimos Ozymandias (1818), tanto o de Percy Bysshe Shelley (1792-1822), quanto o de Horace Smith (1779-1849), na minha opinião, são provas disto. E há até quem diga que suas ideias chegaram aos conjurados baianos de 1798.
Uma prova eloquente do efeito simbólico das ruínas, porém atualizado, pode ser observada em Salvador, no monumento erigido ao príncipe herdeiro de um potentado baiano de notoriedade nacional falecido há poucos anos. Naquela cidade, próxima ao aeroporto, está uma estátua do (não tão) jovem sucessor do defunto dignitário, sobre o seu pedestal, em meio a uma praça cuidadosamente ajardinada. Diante de sua figura de bronze, encontra-se uma suntuosa fonte, que noutros tempos lançava jatos d’água coloridas artificialmente pela luz de holofotes, e jatos dançantes, em determinados horários, espetáculo este embalado pelos acordes musicais do Hino Nacional Brasileiro e do Hino da Bahia. Porém, desde que a morte depôs aquele neocoronel, tais mimos, com ares de praça do interior ou de número do Circo Orlando Orfei, já não mais são celebrados. Os canteiros ainda são muito bem cuidados e uma coroa de flores é depositada diariamente aos pés do enaltecido. Mas há pelo menos um guarda, dia e noite, zelando pelo conjunto da estátua, coroa de flores e fonte aos seus pés, num claríssimo sinal de que tal monumento conta com detratores. E todo esse zelo enfrenta severas críticas locais. Em suma: se tudo aquilo fosse uma unamidade, não era necessário um guarda para cuidar da traquitana. É, pois, uma ruína já: quanto aos fins e quanto ao uso.
Outros exemplos não faltam, pois as ruínas, físicas e morais, se suscedem e se amontoam por toda Salvador. Na Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, por exemplo, anda-se na ponta dos pés, reprimem-se os espirros, evitam-se os gestos expansivos, tal o medo de que tudo desmorone. E o que dizer, então, da veneranda igreja da Celestial Ordem da Santíssima Trindade, próxima ao porto, diante da qual estarrecemos de medo: um simples olhar mais aplicado pareceu-nos motivo bastante para causar o seu colapso. Quem observa a favela Ocupação das Malvinas, que data daquela guerra entre Argentina e Reino Unido (e desta já lá se vão trinta anos), é incapaz de acreditar que tudo aquilo não caia, não desbarranque morro abaixo, com o simples soar de um bater de palmas. Sem falar na situação e no indizível nome de outra favela: Planeta dos Macacos, uma manifestação de racismo tão ignóbil que, até onde me conheço por gente, nunca vi igual. E tudo isto na “Capital da Alegria”. Penso que é mais “Capital da Tristeza”, isto sim!
A tristeza de Salvador, e da Bahia, faz lembrar a do planeta Marte, tal como idealizado pelo escritor norte-americano Ray Bradbury (1920) em seu livro Crônicas Marcianas (EUA, 1950) – obra que é uma vaga referência para esta série de escritos. Tal melancolia, por assim dizer, provém justamente do acúmulo de magníficas ruínas, quer as soteropolitanas da realidade, quer as marcianas da ficção, cujas funções originais vão sendo esquecidas ao longo do tempo, convertendo-se, muitas delas, num sutil registro de algo um tanto vago que pertenceu a um passado já dado como morto. Os fastos de um povo cujos descendentes tornaram-se invíveis: porque muitos deles, bem como sua cultura, pereceram, e porque outros tantos, os conquistadores, não querem vê-los, preferindo ignorar a situação em que vivem. Por outro lado, o novo, sem história nem tradição, que não comove nem envolve, qual as barracas do meio-oeste americano plantadas em Marte, da já citada obra, erguem-se, enraizam-se, espraiam-se por Salvador. Um exemplo? Durante minha estada ali, precisei cortar o cabelo. Pensei, imediatamente, num velho salão de barbeiro, onde escutaria os boatos de uma cidade inteira. Qual o quê! Não houve voz que praticamente não me obrigasse a fazê-lo num shopping center. Neste local, aliás, um funcionário jurou de pés juntos que eu encontraria o melhor acarajé – da Bahia, é claro – ali mesmo! O que não desminto, mas aqui entraríamos já num assunto que dá muito pano para pouca manga de camisa...
Retornando a Volney, por mais aparentemente negativista que fosse sua visão do mundo e das civilizações que o engendraram, foi ele capaz de uma interessante síntese do que poderia trazer paz à Terra, e possivelmente evitar a queda dos futuros impérios. Tratava-se da tolerância religiosa, o quê, noutros termos, poderia ser lido de uma única e singular maneira: a não condenação, por parte de um credo, de outras experiências religiosas. Mas, neste ponto, parece que os baianos seguiram a lição do francês. Ou, pelo menos, a melhor parte dela, como veremos, noutra ocasião. E vivas ao Bom Jesus, a São João Batista, a Apolo e Dioniso, e aos Orixás, com seu magnífico cortejo!

P.S. (Este completamente fora do assunto ora tratado): Na próxima semana, entre os dias 23 e 25/11, ocorre, no saguão do prédio das Faculdades de História e Geografia, da USP, na Cidade Universitária (Butantã, São Paulo), mais uma edição da Festa do Livro. Dezenas de grandes e pequenas editoras oferecem livros de seus catálogos com preços a partir de 50% (o mínimo para participarem) de desconto. Trata-se de uma ótima ocasião para quem gosta de ler — e se queixa que os livros são caros — de renovar suas leituras, formar seus acervos. É a demolição do álibi de muitos que não leem por preguiça, mas que, publicamente, culpam os altos custos dos livros por sua inércia enquanto não-leitores.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 19 de novembro de 2011].

P.P.S. A feira foi cancelada entre a publicação do texto acima e esta aqui no blog. Ela ocorrerá agora no prédio da Poli entre os dias 14 a 16 de dezembro. O puxão de orelhas original permanece inalterado.

As Crônicas Baianas: Parte II – Seguindo alguns rastros literários, na falta de outros

Um dos maiores desserviços prestados pelos professores de Literatura manifesta-se quando tratam daquela meia dúzia de páginas, pouco mais ou pouco menos, da Carta de Pero Vaz de Caminha, classificada, segundo vários deles, como “certidão de batismo da terra brasileira”, ou, ainda pior, como a primeira obra literária de nosso povo. A Carta, mero relato burocrático que o foi, em seu tempo, mofou durante séculos em arquivos, por razão de sigilo de Estado, e sem que ninguém o lesse, até 1817, pelo menos. Sua relevância, digamos, literária, é menos que nada. Ninguém pensou o Brasil, durante trezentos e tantos anos, a partir daquela carta. Um único verso ou página sequer de nossa história, neste período, foi baseado em sua leitura. Todavia, pensando nela, e no registro dos primeiros habitantes deste país, é chocante verificar que em Salvador não se observa qualquer indício da presença indígena. É como se eles não existissem, no passado ou no presente. Tudo parece ser vinculado apenas e tão somente à ocupação lusitana ou à mescla afrobrasileira, com predominância da africana sobre a brasileira. Para que se tenha uma ideia, segue aqui um exemplo. Uma amiga, percussionista, encomendou-me um maracá, autêntico instrumento indígena, posteriormente incorporado a certas religiões afrodescendentes que sofreram influências, aqui, daquelas culturas autóctones. Encontrei-o, é claro, sem muita dificuldade. Dificultoso foi, no entanto, ter que ouvir do vendedor o quanto aquele objeto era de origem africana, relacionado a não sei mais qual orixá, etc, etc, etc.
Também de Castro Alves, que nomeia uma praça e um teatro e, quiçá, uma rua ou avenida, não permanecem quaisquer indícios, seja de sua pessoa ou de sua obra. E isto é, de certa maneira, até justo em relação à sua memória, ainda que tal prodígio se dê por ínvios caminhos. Pois choraria de dor o mulato poeta d’O Navio Negreiro e Vozes d’África ao ver que os negros ainda se encontram na base da pirâmide social e, quanto mais escuros, mais próximos daquela base, mais escorchados, mais infelizes e mais miseráveis.
Não se veem mais em Salvador, também, os personagens de Jorge Amado. Nem com muito esforço de imaginação enxerga-se nos raquíticos meninos viciados em crack, que nos abordam, uma pálida sombra dos “capitães da areia”. O Elevador Lacerda parece uma Galeria Prestes Maia melhorada. Não há mais coronéis, doutores e rábulas de terno branco. As baianas de turbante restringem-se às agentes de restaurantes, caçando fregueses na rua, e a uma ou outra vendedora de Acarajé, no circuito turístico. Os padres não trazem mais batinas, nem os monges, hábitos. E não avistei um único bêbado boquirroto vagando pelas ruas. Tudo é passado na obra daquele escritor, cuja casa, segundo me informaram, está à beira do desmoronamento: seus ricos herdeiros esperam verbas públicas para a restauração da mesma...
Por outro lado, Vieira e Gregório de Matos parecem nos acompanhar em cada passo, do Pelourinho à Barra, da Cidade Baixa ao Bonfim, e pelo Comércio, e para qualquer lado que se vá. De Vieira, há até resquícios, podemos dizer, físicos. Lá está ainda, ou assim é apontada, a cela onde viveu, num anexo da Catedral Metropolitana. Ou melhor, em parte do que era o antigo Colégio dos Jesuítas, por que o grosso dele se transformou na Faculdade de Medicina – que, hoje em dia, frise-se, não funciona mais ali. E a própria Catedral, que era a igreja dos Jesuítas, a esta posição só foi elevada depois que a primeira foi demolida, em 1933 (como disse anteriormente, pensa-se todo o tempo em algo ao mesmo tempo mais e menos do que uma árvore...). Mas, como dizia, indica-se, lá, a cela onde teria vivido o Padre Vieira em seus últimos anos em Salvador. Lá está um púlpito do qual, supostamente, ele teria pregado (não nos é informado de que local ele foi retirado) e a sua cadeira (de cujo uso, se particular ou público, também não há registro). Mas a força de seus sermões parece repercutir em nossa memória, seus libelos quanto à ganância, contra a opulência criminosa, contra a frieza do coração dos poderosos frente aos negros explorados, parecem nos acompanhar a cada passo.
Ao se contemplar os suntuosos prédios do Corredor da Vitória, ou do Campo Grande, frente às tétricas e miseráveis moradas da não tão distante Ladeira da Preguiça (cujo nome deveria ser Ladeira do Desconsolo), não há como não lembrar dos versos do Boca do Inferno: “Estupendas usuras nos mercados,/todos, os que não furtam, muito pobres,/ e eis aqui a cidade da Bahia”. Da mesma maneira, se alguém se quiser alijar da forçada alegria que se cobra em toda praça, e se pretender uma visão séria e crítica do todo, lá vem os versos: “Quem cá se quer meter a ser sisudo/ Nunca Ihe falta um Gil, que o persiga,/E é mais aperreado que um cornudo”. E por aí vai. Mas a presença física, por assim dizer, do poeta, não há. Existe uma rua Gregório de Matos, mas que ele tenha morado ali, ou que o prédio ainda se conserve, é quase impossível saber.
E por falar num Gil, lembrei de um outro mais recente, e de sua trupe, e de seus contemporâneos ou precursores. Pois é, anda-se pelas ruas de Salvador e não se escutam ecos, nem entramos no clima, das músicas de Gil, Gal, Bethânia, da família Caymmi, de João Gilberto ou dos Novos Baianos. Aquela Bahia brejeira, da meiguice e da malemolência, é coisa definitivamente do passado. Por toda a parte, é só axé e suas musas – de uma delas, aliás, aquela tão onipresente na mídia quanto um ditador comunista de outrora (vejam a crônica de 11 de junho de 2011), não há motorista de táxi que se não lhe aponte o prédio onde ela mora, como, presumo, só se faça o mesmo com a casa dos chefes de Estado. No mais, escuta-se a batucada do Olodum, ou de suas franquias, ou legiões ou coortes, que embora muito bem executada, nada tem de alegre. Pois, convenhamos, é muito mais marcial do que dobrado de banda de música e ressoa a marcha militar. A única exceção audível em tal cenário é Caetano, pelo menos aquela canção que fala que “o Haiti é aqui”. Como tema de fundo, ela é quase onipresente, sobretudo no Pelourinho e nas partes menos afortunadas...
Voltando aos assuntos sérios, no que diz respeito às belas artes, que o visitante percorra suas igrejas e museus em busca do nome do artista por trás de uma pintura, de uma escultura, do arquiteto responsável por uma grande obra do passado. Quando encontrar uma sucinta ficha catalográfica, comemore, exulte, solte rojões. Mas que não ouse sair em busca de livros a respeito, pois os que existem há muito estão fora de catálogo, remontando aos anos 1960. Não há novos estudos. Não há nada.
Os historiadores dos anos 1940 e 1950 diziam que, no tocante aos acervos documentais do período colonial lusitano, a África era um verdadeiro “cemitério de papéis”. Pois bem, neste ponto, certamente, Salvador revela-se, sem sombra de dúvida, uma fidelíssima seguidora das tradições africanas que tanto apregoa, um lugar de rica memória oral e quase nenhuma escrita, a ponto de seus antigos monumentos chegarem, pouco a pouco, a desaparecerem ante nossos olhos sem que deles se conserve, sequer, o nome.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 12 de novembro de 2011].

As Crônicas Baianas – Parte I : Algo mais e menos do que uma árvore

O baiano, quando não fala demais – e como fala, meu Deus, suas palavras jorrando qual de uma fonte – é um poço de brevidade, ou melhor, quase uma furna, de onde mal se extrai alguns monossílabos. Sob alguns aspectos, prefiro estes aos primeiros, pois nos dão tempo de ouvir, refletir e perguntar quanto àquilo que nos interessa. Algo que os outros não nos permitem. E tal é o falatório que, muitas vezes, acabamos por nos esquecer de onde estamos vindo e para aonde prosseguimos.
Mas uma coisa que aprendi por meio deles é que o baiano é um ser quase mítico, beirando a abstração. Esqueçam a área do Estado, de 567.295,669 km², e a população de 14.016.906 habitantes. Os que parecem contar, realmente, sãos os 706,799 km² de Salvador e os seus 2.676.606 habitantes, isto se não existirem divisões ainda mais internas e mais exclusivistas, pois é evidente que o soteropolitano considera-se apenas ele próprio, e tão somente ele, como baiano. Todos os vizinhos da Grande Salvador, ou os fronteiros de Itaparica, e, claro, todo o resto do Estado, tudo isto não é bem Bahia. É quase um outro país. E pertencentes a outro país somos nós para eles. Pois, de fato, visitando a cidade, tem-se a impressão de se pisar uma terra estrangeira, um pouco parecida com a nossa, mas estranha. Talvez os bonairenses, ao visitarem Montevidéu, ou os montevideanos, de passagem por Buenos Aires, sintam a mesma coisa, o que seria mais compreensível.
Grosso modo, imagina-se Salvador como uma espécie de Havana, um cenário com ricos e antigos prédios em completa decrepitude, habitado por uma população majoritariamente negra, que alterna picos de imensa alegria com fossas de sinistro silêncio. Sim, isto existe ali. Mas há toda uma face à la Miami Beach na cidade. Bairros que lembram o Rio de Janeiro (um pouco de Santa Teresa, Botafogo e Gambôa), Belo Horizonte (Savassi e Funcionários), misturado ao centro e à Ponta da Praia de Santos. E mesmo São Paulo. Um trecho da Avenida Sete de Setembro, por exemplo, conhecido como Corredor da Vitória, lembra muito, curiosa e coincidentemente, a rua Bahia, em São Paulo, de uns vinte anos atrás. Em ambos os lugares, as mesmas árvores altas, cujas copas se encontram no alto, criando um verde dossel sobre as ruas, e casas elegantes dos anos 1910, 1920 cedendo espaço para caros prédios de apartamentos. E o próprio Pelourinho tem o seu quê de Ouro Preto, das cariocas Praça Quinze e Rua do Ouvidor, de Olinda, Recife e São João del Rey, estes fragmentos coloniais em pleno século XXI. Todavia muitíssimo mais imponente quanto a certas construções. Entretanto, vire-se na rua errada, saia-se um pouco dos lugares turísticos ou daqueles onde vivem os mais abastados. Nestes locais, somem São Paulo, Miami e Rio de Janeiro. Parecemos mergulhar não em Cuba, mas, sim, no Haiti, depois do terremoto.
A ruína, a decrepitude, a miséria e a sujeira dos prédios e das pessoas é algo que beira o inenarrável. Lembra um pouco a Mogadíscio, da Somália, tal qual mostrada no filme “Falcão Negro em perigo” (Black Hawk down, EUA, 2001). Mas que não se culpe somente a pobreza ou o descaso das autoridades por isso. Sentimos como se algo que beira o perverso pairasse ali, numa quase relação sinestésica horripilante. Para além da simples metáfora ou alegoria, o físico parece se confundir com o metafísico, manifestando-se em nossos sentidos a ponto de julgarmos escutar o que deveria ser visto, tatear algo que só existe enquanto som, ver um aroma, sentir o cheiro de um valor moral ou da ausência dele. O grande escritor inglês G.K. Chesterton (1874-1936), em sua curiosíssima novela O Homem que era quinta-feira (1908), logo no início do capítulo VI, trata de uma situação limite, fronteiriça entre algo que se conhece muito bem e algo que extrapola tal consciência, que muitas vezes se apresenta na vida de alguém e que é de quase indecifrável solução. A passagem, aliás, não é de pronta compreensão e merece mais do que uma releitura. Dizia ele que, diante de tais casos, apenas se poderia fantasiar, “como em alguma fábula da antiguidade, que, se um homem caminhasse para o extremo leste, rumo ao fim do mundo, encontraria alguma coisa – uma árvore, digamos – que era ao mesmo tempo mais ou menos que uma árvore: uma árvore possuída por um espírito; e que, se seguisse pelo oeste rumo ao fim do mundo, encontraria algo também que não era inteiramente ela própria – uma torre, talvez, cuja própria forma fosse perversa”.
Tais coisas, condições ou situações, “violentas e inexplicáveis”, tornam-se claras em Salvador. E a cidade, bela e bruta que é, concentra mais contradições do que se imagina. Trataremos de algumas delas nas próximas semanas, salvo por algum episódio fortuito que requeira uma maior atenção. Em todo caso, quero deixar bem claro um ponto: Salvador é detestável e apaixonante, ao mesmo tempo. Na mesma medida em que é incontornável e imprescindível. Podemos passar toda a nossa vida sem conhecer Brasília. O mesmo não se aplica, pelo contrário, a Salvador. À Bahia, enfim, como querem eles. Àquela terra que é, ao mesmo tempo, mais e menos do que uma cidade: em suma, alguma coisa dificilmente decifrável.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 5 de novembro de 2011].

sexta-feira, 16 de setembro de 2011

São João del Rei à vol d’oiseau

São João del Rei, que visito pela quarta vez (mas, desta, com calma), é uma cidade com aspectos muito curiosos. Como eles gostam de dizer por aqui, este é o lugar onde o “barroco encontra o moderno”, e coisas que tais. De fato, da janela do hotel onde me hospedo, vejo, quase alinhados, uma ponte de pedras de 1797, um casarão colonial do mesmo período. Este, ladeado por um prédio dos anos 1920 e outro dos 1930. À esquerda do primeiro, um outro dos anos 1950, e, logo por detrás dele, as torres – neoclássicas, pombalinas – da Matriz do Pilar. A um quarteirão de onde estou, há um sobrado colonial dos mais típicos que há, com balcões de ferro e hastes de lampiões de intrincados arabescos: e quase defronte a ele, um moderno mini-shopping center. É de espantar. Acho que, em termos brasileiros, somente no Rio de Janeiro se vai de um extremo ao outro tão rapidamente: penso na Praça XV de novembro, com o Arco do Teles, o chafariz de Mestre Valentim e o Paço dos Governadores (todos do século XVIII), a Estação das Barcas (do XIX para o XX) e as torres modernas de escritórios (anos 1970 ou 80).
Mas a população tem seus traços pitorescos também. Há quase todo instante se encontra uma freira, se topa com um soldado (aliás, foi aqui que avistei pela primeira vez uma soldada, que não a Maria Quitéria dos livros escolares), ou se cruza com um grupo de estudantes – estes, aliás, muito mais evidentes atualmente em São João del Rei do que em Ouro Preto. Todavia, os de cá parecem menos boêmios... Minha mulher e eu nos aboletamos num café (na verdade uma chopperia, que também serve café, e que meteu a bebida da rubiácea no seu nome) por volta das seis da tarde. Estivéssemos em Mariana ou Ouro Preto (ou nas cercanias da Esalq, em Piracicaba, ou da Unicamp, em Barão Geraldo), e teríamos como vizinhos de mesa pelo menos uma dezena de estudantes. Aqui o que víamos eram dúzias de jovens com trajes de ginástica, deixando uma academia ou rumo a elas. E, dado curioso, todas as moças, rigorosamente todas, usando compridas meias brancas sobre as calças, como, pelo que me lembro, parece que foi moda em São Paulo há uns dez anos atrás. Quando elas passam por algum prédio colonial dão, por instantes, a impressão de vislumbrarmos trajes dos homens do século dezoito, usando meias de seda até os joelhos. Já quando atingem outra construção mais moderna, nosso equívoco, nossa breve ilusão se desfaz: o anacronismo do acessório, como acabamos percebendo, é de uma década, e não de dois séculos...
Nos primeiros dias chamou-se a atenção também um certo culto à memória de Tancredo Neves (1910-1985) quase com ares de adoração ou veneração de santo. A toda hora parece que nos deparamos com uma avenida ou Praça, Casa de Saúde ou Escola, que levam o seu nome ou homenageiam sua mulher, Dª. Risoleta. Há uma praça onde uma estátua de Tiradentes olha diretamente para outra de Tancredo, posta em frente. E no Memorial Tancredo Neves, com seu busto no átrio, encontra-se outra estátua sua, sentada num banco na calçada, para que os turistas tirem fotografias ao seu lado (e pelo grau de luzimento do bronze do braço, percebe-se que muitos sentam-se junto a ele: o nariz também brilha de dourado, mas não me perguntem o porquê). Fiquei pensando nisto alguns dias, nesta Tancredolatria dos sanjoanenses, até que refleti melhor, lembrando que, afinal, não só o homem era natural daqui, como foi deputado estadual, federal, governador, ministro de Estado, Primeiro-ministro e Presidente da República (eleito). Tinha, portanto, uma senhora trajetória política. Bem diferente de certos senhores de São Paulo, que com bem menos cargos políticos, com histórias de vida bem mais provincianas, paroquiais quase, andam dando nome a tudo que é logradouro público do Estado, só faltando cemitério e sanitário público. Mas, talvez, seja só uma questão de tempo...
Fiz meu mea culpa: felizes os sanjoanenses por terem de quem se orgulhar!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 3 de setembro de 2011].

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Anotações de viagem

Primeira nota. Há coisa de alguns dias, embarquei num vôo Campinas-BH, tarifa promocional: o que não é vergonha para ninguém, pelo contrário, mas que muitas vezes nos põe em contato com vários de nossos concidadãos que os leitores de Veja consideram exóticos, quando não subumanos. Tal não foi o caso do grosso dos passageiros, mas uma dupla, formada aleatoriamente, e que viajou justo nas poltronas anteriores à minha, chamou a atenção por ser, de uma certa maneira, composta de “marinheiros de primeira viagem”. Um deles, tomando da palavra, perguntou ao vizinho se era aquele o seu primeiro vôo. O outro, respondeu que não, já era o quarto ou quinto, não se lembrava bem. E o seu interpelante, com algo de superioridade, confessou ser aquela a sua oitava viagem aérea. Em seguida, passaram a trocar impressões sobre a melhor maneira de adquirir passagens promocionais, o serviço de bordo das diferentes companhias aéreas que oferecem tais tarifas mais baixas, a oferta limitada e, bastante específica, de uma para outra, no que se refere a sucos, refrigerantes e salgadinhos, o espaço entre as poltronas, e a vantagem, neste ponto, que se obtém pela escolha dos primeiros assentos nesta ou naquela operadora. Um deles se queixou que, nas aeronaves de uma delas, o sinal do celular era muito fraco. O outro, mais experiente, garantiu que, noutra, pelo contrário, não havia interferência nas ligações. Ao fim desta breve conversa, a princípio entreouvida, e que depois captou a minha maior atenção, comuniquei-me, silenciosamente, por olhares e gestos, com meu vizinho de poltrona, aleatoriamente colocado ao meu lado, um senhor septuagenário que, percebi, observava, também, o diálogo que se desenrolou à nossa frente. Pois ambos compartilhamos da mesma surpresa, ou pasmo: os dois passageiros nas poltronas anteriores às, nossas, que debatiam tais assuntos, não passavam de meninos de dez anos de idade! Que foram embarcados, trazidos pela mão, por aeromoças, que logo em seguida começaram a tratar de assuntos de seus interesses mais próprios ao seu tempo – ou aquilo que esperamos que sejam assuntos da idade deles, como jogos eletrônicos e desenhos animados – mas que, a princípio, conversavam como experientes, quase profissionais, viajantes.
Segunda nota. A pousada onde me hospedei. Tal conceito, ou classificação de hospedagem tem variado muito nos últimos tempos. Aquela onde me instalei tinha mobiliário moderno, decoração esmerada – e temática – banheiros irrepreensíveis nas suítes, aparelhos de tv de tela de plasma, conexão wireless, etc. Não tinha ainda tv por assinatura – prometeram que na próxima semana terão – e talvez só mereça a qualificação de pousada pelo pequeno número de apartamentos e pela ausência de um elevador entre os pisos. Ou, talvez, porque às vezes é mais “charmoso” batizar de “pousada” (um termo cálido, acolhedor) frente a “hotel (com laivos de impessoalidade, frieza, etc.).
Pois bem, estava eu já ali instalado, defronte dos aborrecidíssimos canais abertos – a tv por assinatura não é o Paraíso, longe disto, mas, convenhamos, está a léguas, escatológicas, do Purgatório do Faustão, e dos círculos infernais das Hebes e Datenas – quando decidi baixar algumas músicas no meu notebook. Comecei a escutá-las. E, logo, notei estranhos ruídos do apartamento ao lado. Não demorou muito para que notasse ser aquela uma reação ao “barulho” (Monteverdi! Pachelbel! Mozart!) que minha máquina fazia ressoar. Penso daqui, penso de lá, e ocorreu-me uma ideia. Liguei a televisão, sintonizei-a num programa “consagrado”, pus o volume num tom “médio”, virei meu computador noutra direção, e tudo se resolveu. A cantilena, reconhecível, que saía da televisão, apaziguou os vizinhos. A algaravia criada por aquela transmissão impondo-se sobre o que, de fato, eu ouvia, passou despercebida. Realmente, o ruído da televisão, para muita gente, deve causar o mesmo efeito que, num bebê, provoca o escutar do coração da mãe. Ou no caso dos filhotes de cão, o despertador que se põe debaixo de suas caixinhas.
Terceira e última nota. Na viagem de volta, uma prova de que a “mentalidade de empresa de ônibus” está invadindo as companhias aéreas, muito mais do que o público daquela, como se diz. Comprei tanto a passagem de ida, quanto de volta, quase dez dias antes desta última. E selecionei meu assento. Na hora do check in, foi me designada outra poltrona. Entro no avião e, surpresa das surpresas, o número do assento não existia! O comissário de bordo alegou que tal se devia a uma troca de aeronaves, e que eu deveria esperar. E esperei, até que a porta fosse fechada e não entrasse mais ninguém, sobrando, por isso, poltronas. E se tal não ocorresse? Seria eu posto para fora? Não, francamente, assim não é possível. Ataca-se o povo, mas quem lida com ele ainda pensa estar tangendo gado. Há muito que melhorar, é não é só no Estado. A sacrossanta iniciativa privada anda precisando de uns puxões de orelha.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 2 de julho de 2011].

domingo, 12 de junho de 2011

Viagem sentimental à roda de meus livros – V – Os salvados de naufrágios

Acredito que uma das principais funções de um historiador, ou interessado na História, é não tanto conhecer, em minúcias, o mundo em que vivem, mas, sim, o mundo que os precedeu. Explicando melhor: de que adianta saber das mais novas descobertas da Física, por exemplo – que podem vir a ser questionadas na próxima semana, no mês vindouro ou no ano que vem – se desconhecemos todo o cabedal que a precedeu, por décadas, séculos, milênios? É muitíssimo mais útil ao estudioso da História, portanto, compreender a Física aristotélica e ptolomaica, bem como a longa vigência das mesmas e, destas, à sua passagem para as teorias de Copérnico, Galileu, Kepler e Newton (bem como a repercussão de suas obras no tempo em que se tornaram públicas) do que, pontualmente, conhecer a mais nova teoria em vigor. Saber que estrelas, satélites e planetas foram, mui antigamente, vistos como deuses, depois como corpos celestes não muito diferentes da Terra, presos a esferas fixas de cristal (os globos armilares, equivocadamente chamados de astrolábios pelos decoradores, que adornam tantas são reflexos ainda deste pensamento), interessa muito mais a um estudioso dos fatos passados, e da cultura que estes geraram, do que a massa de Marte, a órbita de Saturno e se Plutão deve ou não ser considerado um planeta: estes são assuntos para os historiadores do Futuro.
Assim, retornar às fontes, desentranhar o passado por meio de seus testemunhos documentais e compreender a repercussão dos mesmos em seu período, é a verdadeira função do historiador ou do estudioso da História. Além de, é claro, situar o âmbito de certas influências. Por mais moderno que possa ter sido um texto, no passado, se ele pouco circulou, evidentemente não pode ser tomado como súmula do pensamento de toda uma época, como um formador de opiniões. São indícios, não índices. O mesmo vale para certas teorias que, de tão polêmicas, foram rechaçadas em seu nascedouro, sendo somente adotadas séculos depois: sinalizam, de fato, tais ou quais correntes de pensamento num dado período, mas, evidentemente, não são provas de que todos compartilhavam delas. A importância de um livro, portanto, é muito mais útil quando sabemos de seu impacto em seu tempo, do que por acharmos que o mesmo já antevia algo de nossa própria época. Ou, pior ainda, quando julgamos que ele já nasceu como um clássico, foi lido e relido por séculos, num contínuo até os dias atuais.
Tive a feliz oportunidade de adquirir, há poucos anos, um famoso livro do qual somente ouvira falar. Trata-se de uma versão espanhola moderna (Madri: Editora Nacional, 1983 929p.: il.) da "Genealogia dos deuses pagãos" (Genealogia Deorum gentilium, 1374), de Giovanni Boccaccio (1313-1375), autor do célebre Decamerão (1371). O livro é um verdadeiro manual de mitologia grega e romana, que reúne os principais deuses e heróis daquelas culturas – ou melhor dizendo, da cultura clássica e, obviamente, ocidental. E graças ao seu índice remissivo, moderno, funciona também como uma espécie de dicionário. Nele, Bocaccio não só compõe um resumo daquelas antigas deidades, como revela duas importantes informações. A primeira é que, apesar de Homero ter sido a base da educação moral e gramatical dos antigos gregos, suas obras não foram traduzidas para o Latim. E as cópias no idioma original que circularam no Ocidente, desapareceram com a queda do Império Romano Ocidental (476 d.C). Ou seja, desde então, e por quase toda a Idade Média, sabia-se de Homero, da "Ilíada" e da "Odisséia", mas ninguém mais o lera na íntegra, só excertos, mal e mal traduzidos. E, em segundo lugar, que a primeira versão latina – considerada péssima, aliás – devia-se justamente a Bocaccio e ao seu professor de Grego, o calabrês que viveu na Grécia, ou ateniense de nascimento, Leôncio Pilato – o qual, até onde sei, nada tem a ver com aquele que entrou à força no Credo.
Por outro lado, outras fontes preciosas quanto à mitologia greco-romana puderam sobreviver aos séculos. Foi o caso d’A Argonáutica, de Apolônio de Rodes (c. 295-230 a.C.), texto em grego que sabe-se lá porque foi conservado; das Metamorfoses, do latino romano Ovídio (43 a.C.-17 ou 18 d.C) – talvez o maior bestseller de todos os tempos, em virtude de suas inúmeras cópias, impressões e reimpressões por quase dois mil anos; e também da obra do romano Cícero (106-43 a.C) – Sobre a natureza dos deuses – , supremo mestre da língua latina, cuja influência apavorou tanto Santo Agostinho (354-430), quanto São Jerônimo (347-420), que por vezes se consideravam, quanto aos seus escritos, como mais de origem ciceroniana do que provinda do Verbo Divino. E ambos estavam entre os primeiros Doutores da Igreja, e ao último coube, nada mais nada menos do que a versão da Bíblia, do grego e hebraico, para o latim. Sinta-se, daí, a importância de Cícero.
Um caso ainda mais interessante quanto à sobrevivência de certos documentos, que tinham tudo para desaparecer, é o que envolve o filósofo grego Celso (séc. II d.C.), e sua obra Discurso verdadeiro, que passou para a posteridade como Contra os cristãos. A versão original de seu texto – no qual ataca as crenças dos judeus e dos cristãos (estes, vistos como pertencentes a uma mera seita judaica, cismática: quase prevendo a futura piada que diz que, onde há dois judeus, há três sinagogas) e tece horripilantes comentários acerca da origem de Jesus e do caráter dos apóstolos – foi não só pouco lida em sua época, como desapareceu por completo. Todavia, suas principais ideias, quase que palavra por palavra, foram guardadas para a posteridade por Orígenes (c.185-253), Padre da Igreja, numa obra intitulada, justamente, Contra Celso. Ou seja, com o fim de combater Celso, Orígenes acabou, paradoxal e ingenuamente, conservando as teorias de seu opositor!
Já li, e conservo, as obras aqui citadas, com exceção da última, de Orígenes, da qual conheço somente alguns excertos. Não me sinto à vontade para endossar muitas das idéias do Discurso verdadeiro – como o fez Voltaire, citando-o quase textualmente em seu Dicionário filosófico e nas Questões sobre os milagres, já mencionadas – mas até onde as compulsei, salvo algumas terribilíssimas suposições de Celso que não cabem aqui, concordo que seu discurso é essencialmente lógico, passível de ser aceito como uma contraprova histórica às provas religiosas, cujo fundamento é todo teológico. Mas é preciso ler Orígenes, portanto, chega de especulações.
O curioso nestas circunstâncias é que tudo parece retornar ao Logos, à palavra, ao discurso. Seja ele lógico, adquirido e aperfeiçoado pelo Homem, ou teológico, ditado por Deus, e apreendido pelos homens sabe-se lá de que forma. E depois dizem que as ciências exatas é que são as verdadeiras adversárias da religião...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 12 de março de 2011].

Viagem sentimental à roda de meus livros – IV – Editores à força

Na semana passada, tratei de sebos, físicos e virtuais, que têm ótimos acervos, enriquecidos por muitos títulos. São, todos eles, alternativas eficientes para quem procura verdadeiras raridades, ou até livros mais comuns, e não têm como pagar por eles, nem acesso à bibliotecas que os emprestem, até mesmo por não terem exemplares da referida obra.
Mas aqueles que procuram raridades fora de catálogo, devem recorrer a sítios interessantes como o www.books.google.com e o – na minha opinião, muito melhor – www.archive.org. O primeiro tem dois defeitos: um de natureza moral, outro de natureza técnica. Do ponto de vista moral porque sua ação sobre os acervos, e seu critério de cópia, são altamente excludentes e monopolistas. Robert Darnton, historiador americano que é, atualmente diretor da biblioteca da prestigiadíssima Universidade Harvard, tem falado exaustivamente quanto a isto. E, do ponto de vista técnico, ressente-se, o books.google, do fato de que muitos dos livros que anuncia só podem ser visualizados (por que não lidos?) parcialmente. Já o segundo, além das riquíssimas obras que possui, tem uma apresentação impecável e total dos volumes, que podem ser baixados de várias maneiras. A ponto de, para quem tenha certa preguiça ou desconforto em ler na tela do computador, poder imprimi-las e, quem sabe, encaderná-las, rumo à coleção incompleta que grita nostálgica da estante. Ou, também, a uma nova a ser criada, naquele nicho onde se abrigavam Ian Fleming, a Enciclopédia do Comércio, etc.
Caso alguém queira optar pelas reimpressões, elas não saem muito caras, graças às novas técnicas e à concorrência entre quem oferece tais serviços. Há, inclusive, uma editora norte-americana – Kessinger Publising Rare Prints (www.kessinger.net) – que publica um sem fim de raridades, a grande maioria em língua inglesa, as quais podem ser adquiridas pelo próprio sítio ou por outras de importação. Mas o preço sobe às alturas, graças ao envio e à tributação. O irônico da coisa toda é que muito do que eles publicam é retirado diretamente do Google books, imagem por imagem, e com as falhas que este sistema de cópias de livros reproduz ad nauseam.
Neste ponto poderia ser concedida uma trégua aos pesquisadores. Eu mesmo já me meti em arquivos, fotografando livros, cujas condições eram das mais infelizes. Tente-se manusear um livro de trezentos anos, calçado de luvas cirúrgicas. No rosto, uma máscara de mesma função. A temperatura ambiente elevada, fazendo a testa porejar o suor adquirido durante dias de má alimentação e pior hospedagem. O tempo correndo até o quase sempre iminente fechamento do acervo – decorrente da espera, interminável, até que se encontrem a obra, e do horário do almoço dos funcionários, sempre dilatável. A mesa, ou atril, onde o volume que nos é exposto, não correspondendo às mínimas noções de ergonometria ou conforto. E a iluminação, parca. Misture tudo isso e acrescentem a dificuldade no manejo de uma sensível câmera fotográfica digital, pelas mãos cujo tato foi prejudicado pelas luvas . Sem falar que não se manuseiam livros tão antigos como se fossem uma lista telefônica. Moral da história: passado um certo tempo, qualquer um pensa em se dedicar a outro ramo de atividades. São raros, aliás, os pesquisadores de acervos religiosos que não se tornem ateus ou agnósticos – e violentamente anticlericais – depois de um certo tempo, tal o montante de imposições, restrições e suspeições que são levantadas em torno de quem pesquisa. Os poucos que se livram de tais achaques são os membros da famiglia. Mas pouca gente lê o que eles escrevem, tal o aspecto ínfimo de seus trabalhos, em geral sonsas e soníferas cronologias das ordens religiosas, encômios a um Frei Fulano ou Bispo Beltrano de quem ninguém mais lembra e só.
Porém, retornando aos sítios provedores de obras raras, as quais são essenciais para o conhecimento geral de nossa cultura ocidental, recomendo a todos que busquem tais fontes. Um sem fim de documentos encontram-se ali, à nossa disposição. A bibliografia mais rara, os estudos mais distintos e vários, encontram-se ao alcance de poucos “cliques”.
Não há, portanto, qualquer motivo para que se diga, em nosso país, que os livros são inacessíveis pelo seu custo. Que compreendam isto os leitores, mais ou menos relapsos, os professores preguiçosos, os bibliotecários ineptos e os administradores da coisa pública iletrados, diante das verbas que têm de gastar nas pastas de “Educação e Cultura”. Livros são caros apenas para aqueles que não gostam de ler. Quem gosta, de fato, troca a picanha e a cervejada por eles. Um bom livro é melhor do que a melhor iguaria servida à mesa, e sustenta uma pessoa, moralmente, muitíssimo mais do que mil porcos no rolete, destes que são assados em cerimônias políticas, para o contento do eleitorado...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 05 de março de 2011].

Viagem sentimental à roda de meus livros – III: De Sebos e afins

O sítio de buscas Estante Virtual (www.estantevirtual.com) é uma ótima oportunidade para quem procura livros usados, baratos ou raros, ou ainda semi-novos por um bom preço. Graças a ele completei diversas coleções ou séries que, havia anos, lançavam-me sorrisos banguelas das prateleiras. Tal se deu com as obras completas de Gil Vicente, as Reminiscências da Academia, de Almeida Nogueira, os Autos da Devassa da Inconfidência Mineira, o Palmeirim de Inglaterra e As Vidas de Vasari – incompleta na tradução. Hoje ostentam um belo sorriso colgate lá das seções em que se encontram. Exagero. Livros novos, ou bem cuidados, ao lado de velhos, brilham quais dentes postiços numa boca veneranda.
Por meio do referido serviço virtual ainda quero conseguir os volumes que faltam do Movimento Academicista Brasileiro, já mencionado, da minha própria L’art de connaitre les hommes par la physionomie (citada anteriormente, da qual tenho cinco dos oito volumes, da primeira edição), os números que ainda me faltam da revista Barroco (quase impossíveis, sobretudo o 6, 7, 9 e 11), bem como do Correio Braziliense ou Armazém Literário, de Hipólito José da Costa. Sem falar no Dicionário Bibliográfico Português, de Inocêncio Francisco da Silva, já que o Brasileiro, de Sacramento Blake, é impossível de se encontrar. Os Voluntários da Pátria na Guerra do Paraguai estão a três cliques de se formarem em ordem unida numa estante de casa. E minha História da Caricatura no Brasil, deixará em breve de se apresentar, caricatamente, sem o primeiro volume.
Tanta praticidade tem seus custos.
O primeiro é uma certa perda no prazer do garimpo em sebos, quando vislumbramos, sob pilhas de livros pouco interessantes, a obra, aquela que procuramos há décadas, ou de cuja existência meramente suspeitávamos, quando não desconhecêssemos novas edições para além das primeiras, inencontráveis. Um caso destes, de grande felicidade, ocorreu-me quando encontrei uma edição portuguesa de 1942 do Palito Métrico e correlativa Macarrónea latino portuguesa (em 1792 encontrava-se já na quarta edição). Trata-se de um coletânea de poemas em português e latim aportuguesado (macarrônico) escritos pelos estudantes de Coimbra, no século XVIII, muito conhecida na história da literatura e, todavia, pouco lida, junto à qual, possivelmente, nossos poetas árcades mineiros Cláudio Manoel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga, Silva Alvarenga, Alvarenga Peixoto e Francisco de Melo Franco, deixaram suas contribuições – ou foram influenciados por ela.
Já o segundo custo é no bolso mesmo. Como vários sebos são cadastrados no sítio, tão logo um deles encontre um livro com ar de raridade, põe-se a pesquisar os preços do mesmo junto à concorrência. E daí inflacionam-se os custos e deflaciona-se a sorte do leitor que busca por uma raridade por uma pechincha – o que não se trata de má-fé, mas de regra do jogo. Uma situação destas ocorreu-me há menos de um mês num sebo desorganizado e mal gerido. Descobri, numa pilha de livros em petição de miséria, junto ao chão, uma primeira edição do romance Caetés (então grafado Cahetés), de Graciliano Ramos. Dado o desleixo à que o volume fora relegado, pensei que desconhecessem o seu valor, e que poderia pagar uns vinte ou trinta reais, se tanto. De fato, ignoravam completamente do que se tratava, mas depois de uma consulta ao referido sítio de buscas, ofereceram-me o livro por 400 reais, muito além do que vale. Ou seja, uma boa parte do prazer da descoberta dissipou-se no ar. Só não lamentei mais porque já li livro e não sou bibliófilo. E por tal valor encomendo verdadeiras raridades da Europa e que me são de fato úteis e proveitosas. E sem fetiche: plenas na sua utilização.
O mesmo ocorre com alguns livros nem tão raros assim de Direito. Declaro que esta não é a minha praia, felizmente, há muitos anos, mas, para uma melhor compreensão de como pensavam, e o que liam, por exemplo, os poetas-bacharéis do século XVIII, achei por bem possuir algum conhecimento a respeito. E procurem-se nomes como Heineccius, ou Pufendorf – celebrados como modelos de pensamento jurídico depois da reforma pombalina da Universidade de Coimbra (1772), e vejam-se os preços que atingem suas obras – geralmente disponíveis em traduções não muito fiéis do alemão para o francês. Chegam aos milhares de reais. Fico pensando quem compra tais livros, frente ao estado geral das leis, da jurisprudência, e da qualidade teórica e estilística que se nota nos processos em geral. Acredito que devam ser advogados e juízes aposentados, todos eles milionários, por volta dos 89 e 120 anos de idade – alguns, talvez, graças à maquilagem e outros reforços da química, ainda na lide.
Mas é um fato que, no quadro geral, o ônus submete-se ao bônus. Pois a possibilidade de se encontrar o mais procurado dos títulos se torna real, sem termos de percorrer corredores escuros, estantes mal arrumadas, erros na classificação das áreas de interesse, etc.
Desde há muito tempo, por exemplo, eu procurava um guia de viagens Baedeker – em vários países da Europa, Baedeker é tão sinônimo de guia de viagens quanto Gillete é de lâmina de barbear. Mas eu queria um anterior à Primeira Guerra Mundial, pelo menos. Vaguei anos entre poeira e mofo atrás de algum. E, graças ao site, basta digitar Baedeker, e me apresentam todas as ocorrências. Pense, portanto, o leitor, no título mais esdrúxulo ou raro, e tente a sorte ali. Dificilmente não há de encontrá-lo.
Um outro aspecto curioso, que se verifica tanto nos sebos reais quanto virtuais, é seu aparente desconhecimento de que o brasileiro letrado não é mais monoglota. Dessa maneira, livros em outras línguas, em geral, são vendidos a preço de banana. Procure-se uma tradução, até mesmo do inglês, que quase toda gente lê desde os anos 1980, e veja-se o preço da versão original. Já vi, estas, serem vendidas por um terço do que era pedido pela obra traduzida.
Em suma, para quem gosta de livros, há várias possibilidades de adquiri-los, sem ter que pagar por eles os olhos da cara. Não há mais motivo, portanto, para certos leitores alegarem que não compram livros porque são caros demais ou por morarem longe das capitais: as obras de estudo e trabalho tem seus preços cada vez mais baixos, assim como certos bestsellers – que, passado algum tempo, servem apenas para calço de porta, desde que sejam graúdos.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 26 de fevereiro de 2001].

segunda-feira, 23 de maio de 2011

Viagem sentimental à roda de meus livros – I

Quem me conhece, ou lê minhas crônicas, sabe que gosto de livros. Todavia, digo de antemão, não me considero um bibliófilo, ao contrário. Pois, na verdade, tenho sincero horror a esta palavra, que me soa como uma espécie de patologia sexual, uma parafilia, como chamam os especialistas a certas manias naquele campo. Porque, na maioria dos casos, diga-se, os bibliófilos são meio que voyeurs dos livros, fetichistas em busca de um objeto mais por sua procedência ou aspecto do que por seu conteúdo. Para muitos, aliás, este sequer interessa. Vejamos alguns casos.
Conheci um, por exemplo, que colecionava livros do século XVII independentemente dos assuntos. Em sua biblioteca, em lugar de destaque, viam-se diversos in-planos (livros cujo tamanho de página mede por volta dos 60 x 90 cm) em latim (língua que ele ignorava totalmente) e versando sobre teologia (assunto que lhe era absolutamente estranho). E que, claro, jazeriam para sempre sem serem lidos.
Outros têm o fetiche da primeira edição. Só vale esta, e nenhuma outra. Se vier autografada ou com alguma anotação ou ex-libris de uma pessoa ilustre, então seu gozo é incomensurável. Não critico, mas acho meio besta. Primeiras edições têm grande valor econômico, são um tremendo pé-de-meia, sobretudo com autógrafos ou marca de pertencimento a alguém conhecido, mas, em geral, e graças aos cochilos dos tipógrafos, vêm cobertas de erros, que seriam corrigidos na segunda, às vezes terceira edição. Em suma, como costumo dizer, são cadeiras de museu: lindas de se ver e impróprias para sentar, para usar.
Já um outro escolhia seus livros pela encadernação. Fosse ela bonita, adquiria a obra, não importando se o tema fosse jardinagem, pediatria ou jurisprudência. Soube ultimamente que anda passando por apuros para continuar sua coleção, visto que agora os sebos e alfarrábios têm seções específicas de “belas encadernações”, vendidas aos metros para decoradores e pessoas que querem ostentar às visitas seu “apreço pela leitura”. Em suma, tornaram-se disputadíssimos os seus objetos de desejo.
Há outros, da mesma linha, que enchem suas estantes com livros norte-americanos e ingleses, de editoras especializadas em “belos livros” (a Folio Society – www.foliosociety.com – é uma delas), preenchendo suas estantes com belas lombadas e ignorando completamente o que há dentro delas. Algo não muito diferente do que faz uma certa associação de bibliófilos daqui de Pindorama, reeditando em capa dura, com gravuras especiais, monumentos literários como Gabriela, cravo e canela, ou raridades como Iracema, vendidos a preços escorchantes e com a garantia de serem poucos e numerados os exemplares: ou seja, é mais apego ao sentido de grife, exclusiva, do que amor ao livro – que comprem cães com pedigree ou obras literárias dá no mesmo.
E há ainda aqueles cuja volúpia se projeta sobre os livros intonsos, muito comuns até algumas décadas, sobretudo em Portugal, cujos cadernos vinham unidos pelas bordas, sendo necessária uma faca ou régua para separar as páginas (intonso remete à tonsura, o corte de cabelo no alto da cabeça dos clérigos: ou seja, “não cortado”). Um caso que, como se vê, grita aos céus sua proximidade com alguma parafilia.
Não digo, entretanto, que todos os bibliófilos sejam condenáveis. Os que doam seus acervos para instituições públicas merecem um lugarzinho no Céu. Os que vendem, com sorte, acredito, hão de ganhar uma quitinete no Purgatório. Há os que abrem seus acervos para consultas e estudos – merecedores de um apartamento digno junto ao Altíssimo – e os que não só permitem o acesso, mas também publicam fac-símiles de obras raras, ou monografias interessantes à bibliografia e à história dos livros, ou ainda estudos sobre a circulação e divulgação das obras (como foi o caso do excelente Rubens Borba de Moraes), que merecem habitar as mansões celestes com vista para o mar. Já todos aqueles que contam, ou contavam, com uma legião de empregados ou bajuladores, ávidos no garimpo de obras raras em prol de seus senhores, que entesouram, ou entesouravam livros para seu único deleite, retirando-os do contato dos leitores honestos, aqueles, e seus acólitos, não tenho dúvida, hão de residir em barracos no Inferno, vizinhos do próprio Satanás.
Meu amor pelos livros, entretanto, não ignora nenhum dos delitos acima. Simplesmente ele não é exclusivista nos detalhes, nos quais, dizem, é onde o Diabo espreita ou mora. Gosto de livros bem encadernados, com belas estampas ou tipos. De livros antigos e raros. Mas, principalmente, do conteúdo dos mesmos. Que pode relacionar-se, também, com os fatores antes mencionados. Um caso flagrante é o das Fábulas, de Jean de La Fontaine (1621-1695), que todo mundo conhece. Pessoalmente, tenho quatro edições da mesma obra. Uma bilíngue (péssima, aliás, mas como tem o texto em francês, vale como fonte), outra com ilustrações do insuperável mestre do desenho Gustave Doré (1832-1883) – gravadas pelo ótimo Adolphe-François Pannemaker (1822- 1900) –, com traduções das fábulas por Bocage (1765-1805) e demais literatos, outra ainda com uma definição mais nítida das estampas e em tamanho maior, e uma cópia desta para empréstimo. Sim, tenho, nalguns casos, duplicatas de ótimos livros para emprestar aos amigos, o que é uma dupla garantia de não perder nem o livro, nem o amigo.
Também não me furto ao gosto pelos livros de papel de linho ou seda, mas não sou capaz de depreciar um outro impresso naquela péssima celulose dos anos 1940-50 (cujas páginas literalmente se quebram com o passar do tempo) enquanto objeto: seu conteúdo é o que me fez comprá-lo, não sua apresentação. Se a única maneira que tenho de ler suas informações é aquela, que seja!
Meus livros são, portanto, em sua imensa maioria, objetos reais de pesquisa, trabalho e lazer. Gosto de saber que os tenho – ainda que alguns deles só sejam lidos meses depois de sua compra – ao alcance de minha mão, na hora que desejar, sem ter que procurá-los em bibliotecas públicas desorganizadas, ou que não permitem a consulta ou empréstimo de certos títulos; ou ainda tentar comprá-los e descobrir que estão esgotados, que viraram raridades, ou que simplesmente desapareceram – o que, pasmem, é muito mais real do que se imagina: que o diga quem procura, assim como eu, o 2º volume do 2º Tomo d’O Movimento Academicista no Brasil–1641-1820/1822.
E pretendo contar alguns episódios curiosos relacionados a eles, ao comércio livreiro e às antigas edições nas próximas crônicas. Salvo, é claro, se ocorrer algum outro desastre, ou quedas de governos, ou efemérides incontornáveis. Aguardem.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 5 de fevereiro de 2011].

domingo, 29 de agosto de 2010

Violência policial francesa?

Um casal de amigos viajou, recentemente, para um “lugar paradisíaco”, o tipo de destino turístico que me causa arrepios. Pelos motivos lógicos, aliás: pois, como no Paraíso, não tem água encanada, luz elétrica, vivalma, e há toda sorte de animais – sobretudo insetos, que superam em número todas as demais classes de seres vivos não vegetais – que nos lembram, minuto a minuto, de sua existência e de sua maioria numérica sobre nós. Depois, lembremos: no Paraíso tinha ao menos uma serpente: nos lugares paradisíacos, geralmente, são várias; neles não há soro antiofídico nem médico, nem um sequer, para tratar de uma insolação, machucado causado por queda de cachoeira, ou coisa que tais.
Pois bem, contou-me o dito casal que, ao chegarem de ônibus na cidade mais próxima do destino, rumaram para uma praça onde os turistas que buscavam o tal lugar paradisíaco eram recebidos por alguns jipes que os deixariam no novo e terrenal Éden. Além do já mencionados marido e mulher, já bem passados dos trinta anos, estavam mais dois casais, um na casa dos vinte e poucos anos, outro mal chegado àquela década, como revelavam suas roupas espalhafatosas, seus cabelos com dreadlocks: para quem não sabe, são aqueles cachos copiados dos rastafaris. Pois bem, estavam ali, todos, esperando a condução, quando uma patrulha policial militar aborda todo o grupo, formado à revelia de seus membros. Meus amigos foram então informados, muito gentilmente, que suas bagagens seriam inspecionadas, “que quem não deve não teme”, e que era ordem do comando, etc., etc. O mesmo se deu com o outro casal dos vinte e poucos anos, ou melhor, quase o mesmo: a polidez fora francamente diminuída, no caso deles. Quando chegou a vez dos jovens de dreadlocks, então, todo o verniz de educação, ou correto procedimento policial, pareceu evaporar por completo. Foram maltratados, abertamente tratados como suspeitos, sob uma chusma de palavras que não posso reproduzir neste espaço. Chegou-se ao cúmulo de um agente homem tentar revistar a moça e de outro, frente, à justa indignação do parceiro daquela, sacar de sua arma para intimidá-lo. Só não houve um desastre porque o outro casal – não o dos meus amigos – eram advogados, identificaram-se enquanto tais e impediram que tudo desandasse. Os policiais engoliram sua fúria, revistaram as malas dos jovens e foram embora.
O grupo então rumou para o tão almejado destino e se divertiram por alguns dias. O casal mais jovem, entretanto, partiu mais cedo. Quando meus amigos e os outros retornaram à cidade, souberam do destino dos outros, pelas páginas do semanário local: presos por posses de drogas.
Meus amigos e o outro casal então refletiram: visto que nada foi encontrado na bagagem dos jovens quando da primeira vistoria; visto que o grupo não se avistou com ninguém desde então; visto que certas drogas não brotam naturalmente no mato e precisam de processamento químico; visto ainda que foram presos justamente ao voltarem: era lógico que foram vítimas de uma armação. E os advogados procuraram o jovem casal na delegacia local. E os encontraram, bastante machucados.
Tudo isto se deu num estado de nossa República Federativa que investe somas consideráveis em propaganda que decante suas belezas naturais e a simpatia de seu povo.
Saltemos para esta semana, e para o noticiário. Nele, vimos que um vídeo gravado por um amador, no qual estava registrado um flagrante de violência policial ocorrido na França, contra imigrantes, teria chocado os habitantes daquele país e de outros lugares do mundo. Talvez os belgas, os holandeses, os islandeses, os escandinavos em geral e os canadenses tenham, de fato, considerado o episódio violentíssimo. Para quem, entretanto, não vive naqueles países, versões ricas do paraíso terrestre, até que achou o comportamento dos policiais franceses bastante polido. Pois estamos tão acostumados com a violência em nosso próprio quintal que até já se disse alhures: “pobre só vai pra frente quando o cacetete acerta a nuca”.
O que mais causou espécie, entretanto, foi o comportamento de certos conterrâneos achando o que ocorreu na França “violentíssimo”, “inominável”. Não defendo, evidentemente, o que ali se deu, mas se olharmos para o nosso terreiro, temos exemplos muitíssimos mais violentos, de fato chocantes e indesculpáveis. Vi, por exemplo, no mês passado, oito policiais militares, de arma em punho, em Belo Horizonte – capital de um estado governado por um partido que odeia mendigos – desalojarem três miseráveis sem-tetos de uma marquise e atirarem seus míseros pertences – mas seus únicos bens e, por isso, seus tesouros – no Córrego Arrudas, sem possibilidade de recuperação. E a simples visão das margens cimentadas daquele córrego revela ser aquela uma prática comum, dada a quantidade de roupas e colchões – decerto ganhos nas Campanhas do Agasalho, para as quais todos doamos – apodrecendo ali.
Violência policial francesa? Olhem para seus pés, ó pavões...

[Crônica publicada originalmente no jornal A Notícia, de Leme, São Paulo, em 7 de agosto de 2010].

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Alguns roteiros e um destino

Um amigo português, há pouco tempo, descreveu-me o seguinte plano de viagem e o justificou. Dizia ele que, depois de visitar boa parte dos sítios históricos de seu país, gostaria de empreender uma visita ao Brasil, mas não em busca das principais construções históricas de nossa pátria tropical, que ele já conhecia, e, sim, precisamente, de um roteiro diferente: um roteiro literário, que abrangesse não só as casas dos grandes vultos de nossa literatura — e, convenhamos, por mais de trezentos anos, da literatura dele também — bem como, se possível, os cenários e as paisagens descritas por nossos maiores autores.
No primeiro instante senti-me, como era de se esperar, extremamente envaidecido. Como se ouvisse rufar aos meus ouvidos aquele velho — e patético — chavão, outrora repetido em nosso país, em timbre triunfante, acerca de tudo e acerca de nada, que dizia que “a Europa irá se curvar ante ao Brasil” ... etc., etc., etc. Mas depois, acordando do breve e injustificável letargo ufanista, considerei nossas condições e passei a ponderar com o amigo.
Em primeiro lugar, adverti, aqui não é como a Inglaterra, que não só tem um “roteiro literário” para Londres, visitando as casas de Charles Dickens, W. M. Thackeray e Conan Doyle, bem como os cenários em que seus vários personagens, como David Copperfield, o Sr. Pickwyck, Betty Sharp e Sherlock Holmes percorreram, com direito a placas afixadas às ruas onde “viveram”. Igualmente não temos um roteiro como o do Distrito dos Lagos, visitando as moradias dos poetas românticos Wordsworth, Coleridge, e Southey — autor também de um dos primeiros (ótimo aliás) compêndios da História do Brasil —, ou do polígrafo Thomas de Quincey, ou do grande crítico e filósofo da arte John Ruskin, autor das imortais “Pedras de Veneza”, dentre outros talentos que viveram na região.
Longe estamos de Paris, que anuncia a cada canto a morada deste ou daquele poeta, escritor ou filósofo, com direito a placas de indicação plantadas em plena rua e outras comemorativas nos lugares que, de uma maneira ou outra, figuraram em suas obras. O turista quer conhecer a casa de Victor Hugo, Verlaine, Rimbaud, Gide ? É simples, basta seguir a placa: e por esta indicação, conhece quase todas as moradias dos escritores franceses, os cenários por onde passaram e os quais descreveram. Paris, neste tipo de roteiro, é tão rica que se dá ao luxo de indicar até mesmo as moradias de escritores das mais diversas nacionalidades que ali habitaram, desde o russo Turgeuniev ao nicaragüense Rubén Darío, passando pelos americanos Gertrude Stein, Hemingway e Scott Fitzgerald
Da mesma maneira, não possuímos a variedade de roteiros que, por exemplo, o distrito de Concord, Massachussets, Estados Unidos, se dá ao luxo não só de apresentar, como apresentá-los aos montes, quer seja enfocando as construções coloniais, ou os campos de batalha da Guerra da Independência, e ainda, principalmente, as casas de moradia e as paisagens descritas por Henry David Thoreau, Louisa May Alcott, Ralph Waldo Emerson, Nathaniel Hawthorne e Margaret Fuller, que valem não só por uma verdadeira aula de literatura americana de meados do século XIX, como pelo fato destes autores serem os fundamentos da literatura norte-americana moderna.
Nem mesmo, senti-me obrigado a reconhecer, temos as indicações como as que Portugal pontuou em seu mapa, as vastas indicações à casa de Camilo Castelo Branco, em Vila Nova de Famalicão, ou a de Guerra Junqueiro naquele rincão cujo nome é tão belo quanto uma poesia épica: Freixo de Espada-à-Cinta. Ou como as da casa de José Régio, em Portalegre.
Nem temos indicações em nossas cidades, da moradia dos grandes vultos das letras e das artes pátrias. A casa de Mário de Andrade, em São Paulo, só meia dúzia de pessoas a conhecem. A casa onde viveu Guilherme de Almeida, que até já foi museu, menos gente ainda. E no Rio de Janeiro e Recife, a coisa não é muito melhor. Não só faltam indicações, quando faltam mesmo as próprias casas, devoradas pela voragem das grandes cidades e seu apetite por arranha-céus.
A solução, ponderei com o amigo, é Ouro Preto: lá estão ainda de pé não só as casas onde viveram os poetas árcades Cláudio Manuel da Costa, Tomás Antônio Gonzaga e Alvarenga Peixoto, como também a moradia a do tribuno conservador Bernardo Pereira de Vasconcelos, do escritor romântico Bernardo Guimarães, do poeta simbolista Alphonsus de Guimaraens e do parnasiano Augusto de Lima.
Mas meu amigo riu, gostosamente, e disse, brincalhão: “Ouro Preto não vale, Pedro. Para você, a solução, sempre passará por Ouro Preto...”.
E depois, dizem que ninguém sabe do destino alheio.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 28 de maio de 2005].

Diário Carioca: Parte I - Entre garotinhos, serras e alquimistas

O escritor inglês L.P. Hartley (1895-1972) merece um lugar na história não só pelo conjunto de sua produção, da qual faz parte o ótimo romance “O Mensageiro” — The Go-Between, de 1954, que gerou uma boa adaptação cinematográfica em 1971 — mas, também, em minha opinião, por ter cunhado uma frase lapidar, a qual, aliás, inicia a referida obra. Ela é citada a torto e a direito, na maioria das vezes, sem mencionar seu criador, porque é de tal maneira concisa, e precisa, que faz com que se assemelhe a um provérbio antiqüíssimo. Em língua inglesa, ela se tornou uma expressão muito usada, quase um lugar comum. O célebre historiador Eric Hobsbawm, aliás, dela fez uma paráfrase em sua autobiografia “Tempos Interessantes”, e muitos no Brasil tomaram-no por seu autor. A frase de Hartley, perfeita, é “the past is a foreign country; they do things differently there”, e poderia ser traduzida em nosso idioma como “o passado é um outro país; nele, as coisas são feitas de um modo diferente”.
Foi esta idéia a primeira coisa que veio à minha mente tão longo desembarquei no Rio de Janeiro, depois de vinte anos, se não mais, sem visitá-lo. Pois, de fato, a cidade continua linda. Lá está a Baía da Guanabara, talvez a mais bela paisagem do país, e que se manteve quase sem alteração desde minha última passagem. O mar não mudou de posição, nem as praias, de maneira geral, alteraram seu aspecto. Lá estão o Pão-de-Açúcar e o Corcovado, sem arredarem um centímetro sequer de seus eternos sítios, desde que os vi pela derradeira vez. E os bairros, os monumentos, os belos prédios da orla, a Biblioteca Nacional, o Museu de Belas Artes, a Confeitaria Colombo, o Amarelinho e a Floresta da Tijuca. Porém, ao mesmo tempo, como a cidade mudou! Se o grosso da paisagem está onde sempre esteve, quanto ao resto, que não é pouco, nem muito menos resto, parece vítima de um colossal acidente, da prova definitiva do que recai sobre uma cidade quando vítima do desgoverno.
As ruas do centro do Rio de Janeiro, bem como as de muitos bairros, jazem inquietas sobre um leito esburacado, cobertas por camadas de lixo de toda espécie, como só me recordo, enquanto exemplo, nos anos da administração do então prefeito Mário Covas, à testa da capital dos paulistas. As pichações de prédios públicos e particulares, que antes pareciam uma quase que exclusividade paulistana — visto que a cidade padeceu por muitos anos do descaso das autoridades municipais e estaduais pelo seu espaço coletivo — grassam pela capital fluminense, não poupando sequer seus sítios históricos: a Igreja da Santa Cruz dos Militares, jóia da arquitetura barroca, apresenta parte de suas venerandas obras de cantaria coberta pelos mais vulgares grafitos; o Paço Imperial, que foi moradia dos Vice-Reis, da Família Real Portuguesa, e domicílio de D. Pedro I e D. Pedro II, não foi poupado da tinta infame lançada por alguns covardes. E quanto às intervenções urbanas de caráter “revolucionário”, e que desfiguram a cidade de forma irreversível, o Rio de Janeiro conta também com as suas: lá estão a Linha Vermelha e a Linha Amarela, monstrengos da mesma família do Minhocão, e que comprometeram a paisagem e a vida das pessoas que vivem ao seu redor para sempre, em troca de benefícios questionáveis: vê-se que, nesta categoria, São Paulo faz escola...
Mas, por outro lado, algumas coisas permaneceram iguais ao que eram na “cidade maravilhosa” que conheci no passado. As quais, aliás, deram muitos frutos na terra paulista. Assim, o eterno mal-cheiro que se sentia na entrada do Rio de Janeiro, e que permanece, não ofenderá os narizes acostumados ao Tietê, Pinheiros e Tamanduateí. As favelas, que lá estão, e que não param de crescer, alastram-se também por aqui, com indiscutível vigor, sobretudo nos últimos doze anos, convivendo lado a lado com exclusivíssimos condomínios, os quais tem tanto apreço pelo espaço público quanto os políticos que permitem as favelas e os seletíssimos condomínios. Outra prática tradicional que se verificava no estado vizinho, e que ora também se manifesta aqui — mas não como cópia, não, leitores: como somos inovadores e pujantes, como nossa terra é o motor da nação, a nossa versão é maior, mais poderosa e mais rica — é a ousadia do crime organizado. Pois se lá, uma terra que os paulistas julgam ser de falhados, o crime se afigura infalível, em São Paulo, pátria de vencedores, o crime parece invencível. O que é uma grande distinção: agradeçamos a nossos últimos, e quiçá futuros, governantes estaduais.
Voltando à citação inicial — “o passado é um outro país; nele, as coisas são feitas de um modo diferente” — e à impressão geral que tive do Rio de Janeiro, sou forçado a concluir que, inevitavelmente, ambas combinam entre si. O carioca que conheci, vinte e tantos anos atrás, não é o mesmo de hoje, nem procede da mesma maneira. Conserva ainda uma certa fé no futuro, meio que desprovida de sentido, como se vê entre garotinhos e garotinhas. Mas no produto final, ele mudou muito. Na verdade, não há nada debaixo e acima da Lua que não tenha mudado muito nos últimos anos, desde nós mesmos, as cidades, o país, o mundo e para além dele. O que dizer então da política e da gestão do bem público...
Pensando nisso quando deixei aquela terra de garotinhos e garotinhas cheios de uma implausível esperança, cruzando ásperas, frias e sombrias serras que se estendem pelo território paulista, eis que ouvi notícias de que um bando de alquimistas, decerto absorvidos por insondáveis e cabalísticas questões, ou silenciavam sobre o caos que vem assolando o estado, ou imputavam sua causa ao limbo, lembro, ou a uma “esfera” superior, e pensei nos tempos em que os seguidores da alquimia se dedicavam à busca da pedra filosofal, em lugar do também hermético e quase incompreensível “choque de gestão”, este prodígio, dos dias de hoje, que ninguém viu, só ouviu falar. Assim, inclinei-me a concluir que, na verdade, o presente é, de fato, um mesmo país, e nele se faz tudo da mesmíssima maneira, quer se tratem de sanguessugas nos brejos, quer de lacrimejantes crocodilos nas furnas. E não há segredo da alquimia que os possa encobrir.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 26 de agostode 2006].

Diário Carioca: Parte II — Museus com música ambiente

Em minha última visita ao Rio de Janeiro, visitei alguns monumentos e instituições que são referências no Brasil e em boa parte da América Latina, sendo uma delas, aliás, um exemplo para todo o globo, tanto por seu acervo, quanto pelo profissionalismo empregado em seu atendimento ao público.
Falo, em primeiro lugar, da Biblioteca Nacional, a quarta maior do mundo, que contém obras que fazem morrer de inveja muitas outras grandes bibliotecas espalhadas pelo planeta. Pois não bastasse seu imenso acervo, não bastassem suas instalações magníficas que fazem do prédio um verdadeiro palácio dedicado ao livro, ela possui todo um serviço de pesquisa que fornece ao interessado, esteja ele a milhares de quilômetros de distância ou mesmo a meia dúzia deles, as principais informações para sua pesquisa, desde a mais simples até aquelas sobremodo complexas, e sem que o mesmo tenha de sair de casa: o resultado é disponibilizado quer de forma impressa, quer por xerox, ou por cópia eletrostática. Mas se ainda assim a pessoa se decida por pesquisar no local, orgulha-se a biblioteca em afirmar que a espera entre o pedido do livro e a entrega ao leitor não excede trinta minutos. Já quando pensamos na Biblioteca “Mário de Andrade”, a segunda maior do país e orgulho de São Paulo...Não falo das instalações do prédio, com suas infiltrações e rachaduras, da morosidade no único serviço de reprodução de texto, um departamento de xerox que atravessou várias gestões com a maioria das máquinas quebradas, sem previsão de reparos, e com funcionários sempre à beira de uma greve ou recém saídos dela, quando não exercendo-a em sua plenitude. E quanto ao legado das últimas — e atuais — administrações, só o futuro dirá: o balanço, até o presente, só da notícia de um roubo espetacular ocorrido ninguém sabe quando. E neste ponto, os cariocas, mais uma vez, estão na nossa frente, porque também sofreram um roubo de iguais proporções, e identificaram-no no prazo de uma semana.
Todavia, foi o Museu Histórico Nacional, das instituições visitadas, a que mais chamou minha atenção. Porque lá podemos verificar o tratamento que o Estado dá à nossa memória, que é tão particular, ao mesmo tempo tão coletiva, e que reside não só em nossas lembranças, mas também em livros, papéis,e em todo o tipo de objetos por meio dos quais procuramos reconstituir e compreender a nossa história. Ele pertence a uma “família” de museus, por assim dizer, que acumula as funções de repositório — ou depósito, como queiram — de antigüidades nacionais ali reunidas não como “testemunhas do passado”, que de fato são, mas, intencionalmente, como “testemunhas da História”, ou seja, aquela que se quer sacralizada. De modo que, por exemplo, uma cadeira do século XIX, deixa de ser uma peça antiga de mobiliário e se converte “na cadeira onde se sentou D. Pedro II quando assinou a declaração de Guerra contra o Paraguai”, digamos. Muda todo o contexto, não é verdade? Entretanto, isto acarreta certos perigos. Porque, muitas vezes, peças do mesmo gênero não se vinculam diretamente à nenhum “fato significativo da História”, só que por estarem no mesmo local, ganham ares de igual importância. Assim, o público procura ver em toda cadeira que encontra no Museu o assento de algum grande nome da história nacional: mesmo que não identificadas como tal, ele supõe que um dia o serão, e naquela simpática poltrona que ele viu num canto de um salão, acredita, haverá de certo, no futuro, uma placa indicando ter sido onde se sentava Rui Barbosa, digamos, “quando comunicado da Proclamação da República”. Que um cidadão pense em algo dessa natureza, é até bom. Curiosidade e imaginação histórica são coisas ótimas. O problema surge quando os museus dão mais ênfase às eventualidades históricas do que às realidades. E o empilhamento de toda a sorte de objetos num ambiente conduz, inexoravelmente, a isto. É preferível, mil vezes, uma série de museus intitulados “museu da casa paulista”, “museu da casa fluminense”, “museu da casa alagoana”, por exemplo, do que meter toda sorte de salas de jantar, armários e escarradeiras num museu dito “histórico”. Porque, ao fim e ao cabo, o Trono Imperial e a pena com a qual a Princesa Isabel assinou a Lei Áurea acabam nivelados à espreguiçadeira da Baronesa Fulana, exposta na sala anterior, e à faca de abrir cartas da Viscondessa Cicrana, exibida duas salas mais adiante.
A concepção museológica nacional, é preciso que se diga, nunca seguiu a História, que é crítica, propositiva, aberta a interpretações e possibilidades várias, mas, sim, a memória, que, apesar de bem-intencionada, nada mais é do que uma tentativa de se criar uma narrativa do passado brasileiro, um todo uniforme, conduzindo a um determinado fim que outro não é senão o culto à Pátria, ou da idéia que se pretendia construir de “Pátria” à época da construção dos museus, conceitos de tal maneira impositivos, dogmáticos e alheios a possíveis críticas, que acabaram por se parecerem com grandes templos ou santuários consagrados a uma idéia. Quando não imensos, colossais túmulos, onde toda uma série de objetos, conceitos, pessoas, deveriam jazer mumificados e adorados pelas gerações vindouras.
Exemplos de tal procedimento não faltam. Falamos já daquela “família” de museus que seguia tal procedimento. Mas não cabe ao Museu Histórico Nacional o papel de patriarca. A primazia cabe, de fato, ao Museu Paulista, o Museu do Ipiranga, fundado em 1895 para a exposição de exemplares da fauna e flora brasileiras (leia-se: “animais empalhados e folhas secas”), e convertido em museu histórico em 1917. Vem então o já citado, inaugurado no Rio de Janeiro em 1922, em razão do centenário de nossa Independência, seguido pelo Museu Republicano da “Convenção de Itu”, de 1923. Este, aliás, celebra de tal maneira o acontecimento, extrapolando em tantos simbolismos, que, dentro dele, às vezes temos a impressão de estarmos numa igreja — brinco entre amigos que não se trata de um museu, mas sim, da igreja de Nossa Senhora da Convenção de Itu: até a mesa à volta da qual se sentaram os republicanos é disposta de uma maneira, com os retratos deles na parede, que evoca claramente a Ceia dos apóstolos. Quanto ao último membro dessa família — falo aqui daquele dentre a prole que se tornou mais vistoso, não da parentalha tímida, que se deixa esquecer nalguma lonjura —, trata-se do Museu da Inconfidência, de Ouro Preto, inaugurado em 1940.
Todos eles, por mais impressionantes que sejam seus acervos, recaem num erro comum: buscam uma imagem coletiva do passado que não existe, e assim são eles próprios testemunhas de como um dado presente procura enxergar certas coisas no passado à custa da verdade e da veracidade, chegando a ponto de, quando não as encontram, serem capazes de fabricá-las.Pensemos novamente no exemplo das cadeiras, dentre muitos outros possíveis.
Nós, paulistas, ainda temos um consolo quando visitamos os museus de nosso Estado. Pelo menos não somos submetidos às músicas de fundo que os museus cariocas tocam nas salas, para que o público “entre no clima” do momento histórico ali apresentado: nosso “cardápio”, um pouco indigesto, ainda que regional, é praticamente o mesmo, mas, pelo menos, estamos a salvo de uma questionável, e óbvia, música ambiente.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 16 de setembro de 2006].

O Olhar brasileiro sobre a América do Sul

Não faz muito tempo que o conhecimento que o brasileiro médio possuía acerca da América do Sul resumia-se a meia dúzia de informações, freqüentemente distorcidas, relativas a apenas dois países: Argentina e Paraguai. Quanto ao primeiro — motivo de ódio irracional permanente — sabia-se que possuía bons jogadores de futebol, mas desonestos, ante aos nossos ótimos e impolutos craques; tinha-se conhecimento, também, que lá se comia churrasco, o qual, obviamente, nada valia se comparado aos nossos, até mesmo àqueles de fundo de quintal, no fim-de-semana; e aqui e ali alguém tinha ouvido falar que a capital do país era bonita — do que se duvidava, pois nada poderia rivalizar a “pujança” de São Paulo — e de que era um lugar bom para comprar, muito barato, malhas de lã e casacos de couro, que muitos consideravam só ligeiramente superiores aos fabricados em Monte Sião e Serra Negra. Já quanto ao Paraguai — tema de todo o tipo de chacotas — até que se sabia um pouco mais, afinal, eles perderam uma guerra para nós, “aquela do Duque de Caxias”; também sempre foi de conhecimento público que o país parecia ser o maior foco de contrabando e falsificações de produtos importados do mundo todo (quem, afinal, nunca tinha ouvido falar das cidades de Puerto Stroessner e Pedro Juan Caballero?); todavia, os elogios eram mais comuns, visto que a cerveja era mediana, os rios eram bons para pescar, havia cassinos, e tudo, absolutamente tudo, era ridiculamente barato.
Nas últimas duas ou três décadas, entretanto, outros países passaram a ser mais conhecidos pelo brasileiro, de uma forma geral. Ele aprendeu, por exemplo, que o Uruguai, além de ser a pátria daquela seleção que nos derrotou no Maracanã em 1950, era também um paraíso-fiscal. Que o Chile era uma ditadura “onde tudo funcionava”. E que o Peru, “lugar muito atrasado, cheio de índios mascando folhas de coca o tempo todo”, até que tinha umas ruínas bonitas, “daquele povo inca, ou seria asteca?”, “uns lugares muito místicos”. Pelo Equador ninguém nunca se interessou, afinal, como ele não faz fronteira com o Brasil, era como se não existisse. Já quanto à Colômbia, logo todo mundo aprendeu que era um antro de produtores e traficantes de cocaína, um lugar onde “o crime organizado está em toda parte”. Já o Suriname, a Guiana e a Guiana Francesa, simplesmente não existem, não fazem parte da América do Sul, no máximo alguém se lembra de que “ainda são colônias de países da Europa”. Porém, de uns tempos para cá, duas novas nações começaram a ganhar a atenção dos brasileiros: a Bolívia e a Venezuela.
É verdade que muitos já tinham ouvido falar na Bolívia, só que por alto. Havia sempre alguém que tinha um parente ou conhecido que alguma vez viajara no “Trem da Morte”, ou que, pescando em Corumbá, comprou algum contrabandozinho em Puerto Suarez. E Santa Cruz de la Sierra é um nome familiar a muitos aspirantes ao curso de Medicina, como também às pessoas ligadas, do topo à base, ao agro-negócio. Os mais curiosos, muitas vezes, até tinham conhecimento de um lugar com o “ridículo” nome de Cochabamba. E muitos cariocas não ignoram que o bairro de Copacabana homenageia Nossa Senhora de Copacabana, um culto boliviano à Virgem, para ali levado há séculos por um bandeirante, de cujo nome ninguém se lembra.
Quanto à Venezuela — cujo nome, para início de conversa, muita gente acha até difícil de falar —, trata-se de uma verdadeira novidade para o Brasil. Há pessoas que até duvidavam de sua existência. “Não fica no Caribe?” ou “Com certeza, fica na América Central”, foram frases já ouvidas por mim em diversas ocasiões, quando o tema era nosso vizinho ao Norte. Certa vez ouvi a suspeita de uma pessoa quanto àquele país possuir uma grande colônia de imigrantes oriundas do Vêneto, ma Itália. Pois, segundo argumentava, “se temos uma Nova Veneza, em São Paulo, porque os outros não podem ter a sua?’. Notável... Mas, de resto, a ignorância a respeito da Venezuela sempre foi, praticamente, absoluta: no máximo algum gaiato se lembrava que a capital do país tinha o “impagável” nome de Caracas. E então, a risada corria solta...
Ironias à parte, a ignorância do brasileiro em relação aos nossos vizinhos sul-americanos não tem a menor graça, mas tem, por outro lado, um aspecto cultural, histórico, muito forte. Pois o fato é que a maioria da população de nosso país, não considera que o Brasil faça parte da América do Sul e, sim, que ele seria uma espécie de “entidade superior”, um “modelo de unidade”, um continente cercado de ilhotas onde se fala o espanhol. “Somos melhores que eles”, é um discurso que se ouve em todo lugar, reproduzido naquele mesmo tom de arrogância empregado pelos norte-americanos em relação às Américas, às quais eles ignoram quase tanto como nós, discurso que, todavia, tanto criticamos quando é dito por eles, mas que endossamos, na nossa versão rasteira, dia após dia. Logo, não é por acaso que sejamos apanhados de surpresa quando surgem novos atores na cena sul-americana. Ainda que, convenhamos, não sejam atores de primeira — quando muito, uns protagonistas muito dos canastrões — estão sendo, apesar dos pesares, suficientemente hábeis para complicar a peça e bagunçar todo o cenário.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 1º de dezembro de 2007].