segunda-feira, 18 de julho de 2011

Anotações de viagem

Primeira nota. Há coisa de alguns dias, embarquei num vôo Campinas-BH, tarifa promocional: o que não é vergonha para ninguém, pelo contrário, mas que muitas vezes nos põe em contato com vários de nossos concidadãos que os leitores de Veja consideram exóticos, quando não subumanos. Tal não foi o caso do grosso dos passageiros, mas uma dupla, formada aleatoriamente, e que viajou justo nas poltronas anteriores à minha, chamou a atenção por ser, de uma certa maneira, composta de “marinheiros de primeira viagem”. Um deles, tomando da palavra, perguntou ao vizinho se era aquele o seu primeiro vôo. O outro, respondeu que não, já era o quarto ou quinto, não se lembrava bem. E o seu interpelante, com algo de superioridade, confessou ser aquela a sua oitava viagem aérea. Em seguida, passaram a trocar impressões sobre a melhor maneira de adquirir passagens promocionais, o serviço de bordo das diferentes companhias aéreas que oferecem tais tarifas mais baixas, a oferta limitada e, bastante específica, de uma para outra, no que se refere a sucos, refrigerantes e salgadinhos, o espaço entre as poltronas, e a vantagem, neste ponto, que se obtém pela escolha dos primeiros assentos nesta ou naquela operadora. Um deles se queixou que, nas aeronaves de uma delas, o sinal do celular era muito fraco. O outro, mais experiente, garantiu que, noutra, pelo contrário, não havia interferência nas ligações. Ao fim desta breve conversa, a princípio entreouvida, e que depois captou a minha maior atenção, comuniquei-me, silenciosamente, por olhares e gestos, com meu vizinho de poltrona, aleatoriamente colocado ao meu lado, um senhor septuagenário que, percebi, observava, também, o diálogo que se desenrolou à nossa frente. Pois ambos compartilhamos da mesma surpresa, ou pasmo: os dois passageiros nas poltronas anteriores às, nossas, que debatiam tais assuntos, não passavam de meninos de dez anos de idade! Que foram embarcados, trazidos pela mão, por aeromoças, que logo em seguida começaram a tratar de assuntos de seus interesses mais próprios ao seu tempo – ou aquilo que esperamos que sejam assuntos da idade deles, como jogos eletrônicos e desenhos animados – mas que, a princípio, conversavam como experientes, quase profissionais, viajantes.
Segunda nota. A pousada onde me hospedei. Tal conceito, ou classificação de hospedagem tem variado muito nos últimos tempos. Aquela onde me instalei tinha mobiliário moderno, decoração esmerada – e temática – banheiros irrepreensíveis nas suítes, aparelhos de tv de tela de plasma, conexão wireless, etc. Não tinha ainda tv por assinatura – prometeram que na próxima semana terão – e talvez só mereça a qualificação de pousada pelo pequeno número de apartamentos e pela ausência de um elevador entre os pisos. Ou, talvez, porque às vezes é mais “charmoso” batizar de “pousada” (um termo cálido, acolhedor) frente a “hotel (com laivos de impessoalidade, frieza, etc.).
Pois bem, estava eu já ali instalado, defronte dos aborrecidíssimos canais abertos – a tv por assinatura não é o Paraíso, longe disto, mas, convenhamos, está a léguas, escatológicas, do Purgatório do Faustão, e dos círculos infernais das Hebes e Datenas – quando decidi baixar algumas músicas no meu notebook. Comecei a escutá-las. E, logo, notei estranhos ruídos do apartamento ao lado. Não demorou muito para que notasse ser aquela uma reação ao “barulho” (Monteverdi! Pachelbel! Mozart!) que minha máquina fazia ressoar. Penso daqui, penso de lá, e ocorreu-me uma ideia. Liguei a televisão, sintonizei-a num programa “consagrado”, pus o volume num tom “médio”, virei meu computador noutra direção, e tudo se resolveu. A cantilena, reconhecível, que saía da televisão, apaziguou os vizinhos. A algaravia criada por aquela transmissão impondo-se sobre o que, de fato, eu ouvia, passou despercebida. Realmente, o ruído da televisão, para muita gente, deve causar o mesmo efeito que, num bebê, provoca o escutar do coração da mãe. Ou no caso dos filhotes de cão, o despertador que se põe debaixo de suas caixinhas.
Terceira e última nota. Na viagem de volta, uma prova de que a “mentalidade de empresa de ônibus” está invadindo as companhias aéreas, muito mais do que o público daquela, como se diz. Comprei tanto a passagem de ida, quanto de volta, quase dez dias antes desta última. E selecionei meu assento. Na hora do check in, foi me designada outra poltrona. Entro no avião e, surpresa das surpresas, o número do assento não existia! O comissário de bordo alegou que tal se devia a uma troca de aeronaves, e que eu deveria esperar. E esperei, até que a porta fosse fechada e não entrasse mais ninguém, sobrando, por isso, poltronas. E se tal não ocorresse? Seria eu posto para fora? Não, francamente, assim não é possível. Ataca-se o povo, mas quem lida com ele ainda pensa estar tangendo gado. Há muito que melhorar, é não é só no Estado. A sacrossanta iniciativa privada anda precisando de uns puxões de orelha.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 2 de julho de 2011].

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