segunda-feira, 18 de julho de 2011

Que bons tempos eram aqueles em que o trem era sinônimo de progresso!

Curiosa a história da estação de metrô em Higienópolis...
Morei, dos meus três aos vinte e dois anos, exatamente na mesma rua onde se planejava abrir a referida estação, hoje, ao que parece, baldada. Mais ainda, na mesmíssima quadra, da rua Sergipe, entre a Itacolomi e a avenida Angélica, o local escolhido para a obra embargada, e por onde passei quase todos os dias de minha vida durante dezenove anos. E, naquele tempo, se houvesse planos de uma estação de metrô justamente naquela esquina, a ideia seria entusiasticamente saudada pela maioria dos habitantes do bairro, e por quem nele trabalha. Bons tempos aqueles...
Higienópolis, durante décadas, foi um bairro bastante cosmopolita, um pedacinho de Europa, quase. Nele viveram, outrora, muitos barões do café, riquíssimos; seus filhos, cuja afetação e seu pressuposto aplomb aumentavam na razão inversa de seus capitais minguantes; e seus netos, muito educados, cultos e viajados, mas já quase sem recursos. Já por volta dos anos 1930-1940, aumenta a proporção de habitantes ligados às profissões liberais, ao serviço público, e também executivos das grandes empresas que então se constituíam. Porém o aspecto mais relevante daqueles anos foi a chegada de muitos judeus e outros perseguidos pelo nazismo que ali se estabeleceram. E não eram fazendeiros do sul da Rússia e Ucrânia, ou pequenos comerciantes dos inúmeros guetos europeus. Eram médicos, políticos – naquela época, tal palavra denotava ainda certo respeito –, advogados, artistas dos mais variados meios, professores universitários: em suma, todo um rol de gente muito intelectualizada e urbana, acostumada aos transportes públicos, a valorizar o espaço coletivo, ao viver em sociedade. Entre os anos 1950-1960, e mesmo 1970, um expressivo número de intelectuais de centro, centro-esquerda e esquerda, com bons empregos nas universidades públicas, somou-se aos locais. Ali vivia, então, por exemplo, um sujeito à época muito afável, que andava nas ruas como qualquer mortal e que, longe de pedir que esquecessem o que ele havia escrito, queria, pelo contrário, que se lembrassem de suas ideias. Seu nome então era Fernando Henrique (hoje, mais que um homem, é uma sigla: que tempos vivemos...). E este perfil social do bairro se estabeleceu por muitos anos, como pude ainda verificar naqueles dezenove de vivência por lá.
É claro que havia gente de direita em Higienópolis. Aliás, de ultra-direita. No bairro localizava-se a sede da hoje moribunda TFP (Sociedade Brasileira de defesa da Tradição, da Família e Propriedade), cujo líder e fundador, Plínio Correia de Oliveira, figura simpaticíssima no trato, aliás (mas esquisito na aparência), caminhava pelas ruas como qualquer cidadão, até que a idade o impediu e, só então, valeu-se de automóvel: um Opala que, àquela altura, já era velho. E utilizava todos os serviços do bairro como os demais moradores: cortávamos o cabelo, inclusive, no mesmo barbeiro, sempre em cadeiras contíguas. Havia também alguns banqueiros – que tinham amigos na esquerda da época, mas de que lado do espectro político estavam poucos sabiam, ou queriam saber, ainda, que certamente, soubéssemos, mas parecia-nos melhor não pensar nisto. Um deles, inclusive, foi Olavo Setúbal, que morava num sobrado extremamente discreto (para não dizer feio) em frente ao meu prédio. É verdade que ele não era ainda, então, o “teramilionário” dos seus últimos dias de vida. Na época, talvez só fosse “megamilionário”, ainda que não aparentasse nem um pouco (a gente bem-nascida daqueles tempos tinha horror à ostentação). E, nomeado prefeito, lembro-me dele apanhando o ônibus Circular Avenida, da CMTC, para verificar, in loco, “ao vivo”, as condições do trânsito, a qualidade e pontualidade do transporte público. Quando lembramos que o Chirico (que nunca foi morador do bairro em questão, frise-se), eleito prefeito só circulava pela cidade de helicóptero, notamos o quanto decaiu a qualidade dos homens públicos nacionais. Mas isto é outra história.
Pois bem, como mostrei, Higienópolis foi um lugar onde muita gente culta e bem-educada, urbanizada e cosmopolita viveu, respeitando os interesses e bens públicos dos quais todos eram contribuintes, usufruidores e defensores. Parece, no entanto, que isto acabou. Não creio que tal repúdio a uma estação de metrô no bairro (e lembremos que, em Londres e Paris, os imóveis mais valorizados são os que têm por perto uma estação de trem subterrâneo, e que as mesmas não estão ausentes dos pontos mais elegantes de Manhattam) deva-se somente à gente nova que para ali tem mudado nos últimos anos. Tremo ante a ideia de que amigos que há tempos não vejo e antigos vizinhos ou colegas de escola, pessoas muito decentes, agora pensem assim.
É triste pensar que um bairro que outrora se pautou pelos valores do que noutras épocas se chamou de uma sociedade humanística, agora se paute pelo que há alguns tempos é conhecido como sociedade automobilística, formada por essa gente que trafega em mini-blindados altamente consumidores de combustível fóssil, que trata o pedestre como um lixo, o ônibus como um estorvo, e o metrô, como uma mera abstração, preconceituosa, visto que não o conhece. É triste, muito triste, ver o cidadão de bem ser substituído pelo parvenu prepotente. Mas explica muita coisa a respeito da cidade. E do Estado onde ela se encontra.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 21 de maio de 2011].

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