segunda-feira, 18 de julho de 2011

Sensibilidade, carência, Porsches, maiôs e Ferraris

Na quinta-feira passada, desci para comprar cigarros e dei uma espiada nas revistas à venda na loja de conveniência. Com exceção de uma ou outra, eram, em sua maioria, daquele tipo de publicações que se prestam mais a serem vistas do que lidas, o que é um tanto paradoxal já que, para imagens, temos a televisão. Todos conhecem tal gênero de jornalismo, sempre disponível em abundância nas salas de espera de consultórios e que não aliviam nem um pouco a expectativa, não ajudam a passar o tempo, porque seus textos são ralos, rasos e banais, dedicados às platitudes de sempre, dessa ou daquela celebridade. Numa destas revistas, aliás, a que vi na quinta-feira, constava na capa uma jovem e bela atriz (o rosto é meio irregular, a boca muito grande, mas o conjunto e os olhos consertam o todo), que ora surpreende num folhetim global. E a chamada do semanário trazia as seguintes palavras, de autoria da moça: “Sou sensível e carente”. Notável...
Até onde me lembro, todos os seres vivos, das amebas ao Homem, dos corais aos periquitos, dos elefantes às araucárias, são sensíveis – isto é têm a capacidade de sentir, de reagir aos estímulos externos ou internos nos campos do tato, olfato, visão, audição, paladar, calor ou frio, luz ou ausência dela, em maior ou menor grau, e mesmo que alguns deles não disponham de uma destas sensibilidades, alguma das outras certamente não lhes é desconhecida. E, sobretudo no caso dos humanos, se compreendermos a sensibilidade como uma natural disposição a ser influenciado por impressões, sentimentos e emoções.
Mas deixemos a mocinha de lado: é jovem e é bonita, e a beleza e a juventude desculpam quase tudo. O problema está em publicar uma matéria na qual nada se diz e a ninguém importa.
Volto para casa, abro o computador, entro na rede e vejo as seguintes chamadas: “Fulana – aquela tão onipresente em cartazes e outros meios quanto um ditador comunista – posa de maiô para revista”; “Beltrano compra Porsche”; e sob o título Uma Ferrari como meta de vida, somos informados de que “Cicrano tem praticamente tudo da escuderia italiana, menos um carro de verdade”. E abrindo-se qualquer uma daquelas notícias, somos remetidos a informações preciosíssimas, indispensáveis, quanto à vida íntima de modelos, jogadores de futebol e das ditas mulheres-frutas. Mulheres-frutas! Constranjo-me, já de antemão, pelo nosso tempo e país, frente aos historiadores do futuro, quando se depararem com este fenômeno nacional e olharem para nós certamente nos julgando como um bando de cabeças ocas.
Quanto ao Beltrano que comprou um automóvel da marca Porsche, um cantor dublê de ator que viveu como sem teto (há não muito tempo era o mesmo que mendigo) por três anos, não há como deixar de notar um certo tom preconceituoso na matéria. Como se dissessem: “Olhem só o negão, que diz ser alternativo: na primeira chance, compra um carrão”, e por aí vai.
Já no que se refere ao Cicrano que tem tudo da Ferrari, menos um carro, lembra-me um tipo que adorava aviões, colecionava quepes de pilotos e restos de aeronaves e, evidentemente, não tinha um avião. Sua apreciação por este tipo de coisas, desligadas do objeto concreto, era chamada de parafilia, e seu comportamento, como beirando o esquizofrênico. Em suma, tudo que acima foi reproduzido é nada. O mais completo vazio. É uma vergonha que revistas de circulação nacional dediquem-se a este tipo de divulgação de inutilidadees. E que exista um público ávido por isto. Em que mundo estamos, afinal? Na Terra Prometida dos boçais? Se for o caos, acertamos em cheio.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 11 de junho de 2011].

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