segunda-feira, 18 de julho de 2011

Juntos pelo Coronel Augusto César

Sei que o assunto da vez é a misteriosa morte de Osama Bin-Laden, que deve ter sido trucidado por balas, a ponto de ser necessário um exame de DNA (provavelmente de seus restos, tornados irreconhecíveis), e dos norte-americanos vedarem a publicação de fotos do falecido, ou do que restou dele. Mas como a nuvem de poeira sobre o assunto está muito densa, é melhor esperar que ela abaixe, para uma melhor reflexão. Deixemos, por enquanto, os estadunidenses com seus mortos, vinganças, libelos de sangue e coisas do gênero. Estão á milhares de quilômetros uns e outros assuntos, dos quais não possuímos qualquer controle ou influência. Voltemos os olhos a temas mais próximos, por ora.
Assim, afirmo que foi com absoluta surpresa e consternação que li, n’A Notícia da semana passada, a manchete e a matéria que tratavam das precaríssimas condições em que se encontram a Escola Coronel Augusto César – um fato ainda mais estarrecedor quando pensamos que seu estado calamitoso coincide, justamente, com seu centésimo décimo aniversário. Que terrível circunstância assinala esta data! Digna de entrar para a história do descaso público (“público” no sentido de “político-administrativo”, pois no sentido de “cidadão”, será certamente um marco a ser reverenciado a participação de professores, alunos e ex-alunos no abraço simbólico ao prédio, declarando seu amor por aquela instituição e seu repúdio a quem deixou que suas instalações imergissem em semelhante caos: parabéns, povo decente de Leme!).
São realmente incompreensíveis certas formas de gestão do patrimônio coletivo. Em muitos lugares parecem ainda campear a velha mentalidade do “deixa cair, que reforma não rende voto; depois a gente constrói outra coisa no lugar, que chama mais atenção e tem repasse de verbas”. E assim vão sendo dilapidados, sem dó, os prédios, as receitas, a memória, o passado, convertendo estações ferroviárias em teatros, deixando que teatros se tornem casas de jogos, casas de jogos em museus, e museus em mercados, que vendem “conceitos” e “idéias” de seus “patrocinadores”...
Casos como o do Coronel, por exemplo, são altamente preocupantes, se considerarmos os mesmos frente a uma administração mais avara, ou matreira (em público, este tipo de gente se considera “moderna”, “antenada”, além de outras falácias do gênero). Estivéssemos nestas circunstâncias – e creio que não estamos – o descaso com o prédio da velha escola seria facilmente justificável pela seguinte equação: “de um lado temos um prédio caindo aos pedaços e com poucos alunos, porque a demanda local diminuiu, e situado na região mais central da cidade; do outro a possibilidade de desocupar o terreno, cedendo a um particular, com a promessa de geração de empregos, ou construirmos algo que glorifique o nosso governo. Então, o que faremos: deixar que ele se arrebente de podre, ocuparmos o terreno com algo previsto nas variantes anteriores, e construirmos uma outra escola – que também assinalará o dinamismo de nosso governo – numa região de maior demanda! Ou manter a velharia em pleno centro?”. E, como acreditamos que um dia possa vir a ocorrer, clamou-se: “Deixa cair! Deixa cair! Bravos, parabéns! O Sr., meu secretário de obras, há de pavimentar meu caminho rumo à Assembleia Legilativa”... parece que possamos até ouvir tal diálogo...
Tive a honra de estudar no Coronel em duas ocasiões, no tempo em que era ainda a E.E.P.G “Coronel Augusto César”. Ali conheci excelentes professores, ótimos colegas e brilhantes diretores – em especial um, professor de Matemática (a disciplina mais horripilante da minha infância e que, graças às suas aulas, se tornou mais clara) o qual possuía o invulgar dom de apaziguar nossas badernas não com o terror e a rigidez, mas com um conversa serena, paciente, lógica e compreensiva. De todas as escolas ou colégios onde estudei foi o Coronel o único que não me deu vontade de fugir, pulando o muro: o que, aliás, era bem fácil, bastava que nos içássemos, combinando os pés, num quartinho de ferramentas, e as costas, no muro do vizinho Liceu, que dali cairíamos em território livre, pois naqueles dias, ninguém do Gloriam Dei podia nos recambiar de volta para a escola: vivíamos uma espécie de cordial rivalidade, inflamada, mas respeitosa. Algo impossível até de se imaginar atualmente.
E tínhamos, também, nossos problemas, então. Vazamentos vários nos banheiros da ala nova, poeira de cupim e caca de morcego que caía em nossas cabeças, uma biblioteca minúscula e mal aparelhada e uma sala-laboratório bem aparelhada, mas que raramente víamos em operação. E uma APM (Associação de Pais e Mestres – existem, ainda?) que tinha ótimas intenções, reunia-se bastante, e que nunca, aparentemente, conseguia resolver a falta de papel para a rodagem das cópias mimeografadas nem diminuir o custo dos jalecos dos alunos de baixa renda. Como já possuía uma certa atenção estética, incomodava-me ver, a todo momento, a substituição das antigas janelas – que não presenciei – pelos maçantes vitrôs que até hoje lá estão. Mas esta é uma questão menor. Porque tínhamos, para coroar os desmazelos de então (pálida sombra dos atuais), um velho piano de meia-cauda, decompondo-se aos nossos olhos num tablado do pátio, onde às vezes encenavam-se algumas pequenas adaptações teatrais (meu début, ali, tenebroso, foi numa adaptação e tradução de minha autoria do Henrique V, de Shakespeare, baseado num livrinho da Longman para crianças, de vinte e poucas páginas, para a qual, na falta do vestuário característico para representar o monarca inglês, vali-me de um robe chinês que pertencera ao meu pai, e que era a coisa mais parecida às roupas de princípios dos século XIV–XV que consegui encontrar. Não me arrependo nem me envergonho do que fiz, lá pelos meus treze, quatorze anos. Mas garanto que não o repetiria). E voltando ao piano, ruína de uma outra época, era ele, então, altamente respeitado por nós, pois se tratava do grande mistério da escola, afinal, diziam ser ele assombrado. Corria a lenda que, em certas noites, apesar de seu estado ruinoso, ouviam alguém tocar melodias inteiras em seus carcomidos teclados; e até alegavam ter visto duas mãos fantasmagóricas, separadas do corpo, dedilhando as teclas: uns diziam ser o velho Coronel Augusto César; outros, uma sua filha, que teria sido professora ali. O fato é que a lenda é, muitas vezes, melhor do que o fato.
Possui também o Coronel um aspecto histórico muito curioso em defesa dos valores paulistas. Meu avô, Zezito Queiroz (estudante da mesma escola) contava que, quando da invasão de Leme pelas tropas federais, na Revolução de 1932, os professores dali defenderam com unhas e dentes os livros didáticos que elogiavam a tradição piratininga, a ponto de, somente por meio da violência dos invasores, separarem-se dos mesmos, cujo destino era a fogueira.
Quero concluir dizendo que passei algumas das épocas mais felizes de minha vida no Coronel. Mas isto é o de menos, porque só diz respeito a mim. De maior relevo é meu desejo por defendê-lo, em que instâncias sejam necessárias. Pois a importância desta escola no cenário intelectual, memorialístico e afetivo de Leme é insubstituível, e, portanto, sua estrutura física, e moral, não pode desaparecer do cenário da cidade, o que seria muito mais do que lastimável, seria verdadeiramente um crime, para não dizer um motivo de se rogar uma tremenda, profunda, e sinistra praga contra às autoridades que se omitirem a esta questão. E, de preferência, numa única voz.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme,SP, em 7 de maio de 2011].

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