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quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Máquinas do tempo

Dizem as más línguas que os historiadores adoram velharias. Não é verdade. Não colecionamos telefones de baquelite, ferros de passar roupa aquecidos a carvão, antigos estribos, luminárias de trens, e coisas do gênero. Temos curiosidade quanto a estes objetos e, não raro, alguns de nós têm, de fato, alguma velharia em casa. Mas a maioria delas, se ali se encontra, deve-se mais por um fator afetivo do que a um verdadeiro “culto”: são frutos de herança, ou um achado num antiquário, ou ainda algo que nos sirva de lembrete quanto às mudanças no correr do tempo.
Também é exagero dizer que os historiadores vêem as cidades ditas “históricas” como uma espécie de “parque de diversões” de usufruto exclusivo da “categoria”. Amo Ouro Preto graças a motivos que me são muito particulares e porque, também, é uma beleza de cidade. Por outro lado, tenho colegas que não trocam São Paulo por nada, pouco se lixam quanto à preservação do patrimônio histórico, e preferem os arquivos, os textos antigos, a qualquer “atmosfera”, “cenário”, ou como se queira chamar o ambiente das nossas venerandas urbes com seus antiqüíssimos prédios.
Outro engano que precisa ser desmentido trata do “sonho” dos historiadores de que fosse criada uma máquina do tempo, a qual permitiria uma visita ao Passado. Não nego que, por mais absurdo, e improvável, por tudo que se conhece da Física, tal invento desperta, às vezes, uma certa vontade de que ele existisse. Mas não para que fizéssemos aquilo que a imensa maioria das pessoas gostaria de fazer. Não voltaríamos a Roma para impedir o assassinato de Júlio César, ou a Jerusalém para impedir a crucificação de Cristo, ou ainda para o México ou para o Peru com o fim de revelar aos astecas e aos incas que os conquistadores não eram deuses. Tais atitudes alterariam de tal maneira o futuro, que poriam em risco até a nossa própria existência. A propósito desta complicação e de suas possíveis conseqüências, é freqüentemente citado o “paradoxo do avô”. Imaginemos que um sujeito – vamos chamá-lo de José – volte no tempo e, acidentalmente, mate seu avô. Com o homem morto, nem José, nem seu pai, teriam nascido, logo José jamais poderia ter voltado ao Passado; mas, no entanto, ele voltou, e matou sem querer seu avô, porém com o avô morto ele não poderia ter partido. Vejam, é um círculo vicioso, e lógico, que impede a coisa por si só. Confesso que não gosto muito deste exemplo. É radical por demais. Prefiro um que eu mesmo elaborei, mais amplo, mais sujeito ao acaso que uma intervenção no Passado poderia criar. Imaginemos que, com as roupas e o dinheiro apropriado – tudo para não destoar do tempo – voltemos à cidade de São Paulo nos anos 1920 e entramos num bonde, apinhado de gente, ocupando o lugar de alguém “destinado” a tomar aquela mesma condução. Eis que esse alguém carregava uma carta que solucionaria alguma questão complicada e urgente. Mas tomamos seu lugar, ele se atrasou, o destinatário, sem resposta, matou-se, e seu colega de quarto, abalado pela perda e pela súbita compreensão da efemeridade da vida, ao invés de voltar para a terrinha e desposar sua noiva, decide tentar a sorte no Mato Grosso. Agora imaginemos que este colega de quarto do falecido, cuja carta nunca chegou, porque tomamos o lugar do seu emissário no bonde, fosse nosso avô. Teria ele, decerto, seus netos mato-grossenses, mas não nós. E como poderíamos ter viajado ao Passado?
Sei que as impossibilidades apresentadas no primeiro exemplo, e no segundo, são praticamente as mesmas. Mas cada exemplo fala por si próprio quanto à extensão do dano possível ao Futuro em ambos os casos: quer seja a interferência radical (“morte do avô”) quer seja incidental (“viagem do avô”).
E a quantidade de senões, em razão destes paradoxos, cresce de forma exponencial. Imaginemos que pudéssemos voltar, por exemplo, à Roma Imperial, levando autênticas moedas do período. Como seria possível que coexistissem as nossas moedas (antigüidades) e as mesmas, as mesmíssimas peças, que então correriam livremente? E ainda que as cunhássemos a partir do ouro de jazidas recém-descobertas, correríamos o risco de provocar uma inflação de preços ou de financiar atividades que não estavam “previstas” na História.
Ou seja, por maior que seja a vontade de espiar alguns momentos do Passado, para compreender desde aspectos mais importantes como trivialidades do dia-a-dia, esta seria uma viagem que nenhum historiador faria. Historiador responsável, quero dizer. Para os irresponsáveis, felizmente, temos ainda as impossibilidades físicas e tecnológicas a barrarem-lhe os caminhos.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 20 de setembro de 2008].

Ficção científica brasileira

Há pouco tempo, um amigo pediu-me uma sugestão de leitura. Mais especificamente, ele queria a indicação de “um bom livro de ficção científica escrito por um autor brasileiro”.
“Que coisa!”, pensei. “Está aí uma questão complicada”.
Seria tentador incluir numa relação do gênero a História do Futuro, do Padre Vieira (1608-1697), como obra precursora, aliás. Pois seu a autor a julgava científica, ainda que não passe de pura ficção. Mas seria errôneo, porque, na sua origem, era uma tentativa do douto Vieira de prever o futuro, o surgimento do Quinto Império, a conversão da humanidade ao catolicismo, etc. Assim, perdemos o posto de inventores do gênero para o francês Cyrano de Bergerac (1619-1655), com suas História Cômica dos Estados e Impérios da Lua e História Cômica dos Estados e Impérios do Sol (1657). Se o nome dele é familiar ao leitor é porque sua vida iria inspirar, séculos mais tarde, o escritor Edmond Rostand (1868-1918), resultando na peça Cyrano de Bergerac (1897), adaptada para o cinema inúmeras vezes.
Na verdade, o mais antigo texto brasileiro no gênero creio que foi o Doutor Benignus, do português radicado no Brasil Augusto Emílio Zaluar (1826-1882), publicado em 1875. Bem ao estilo das histórias de Júlio Verne (1828-1905), cheia de interpolações de termos técnicos em meio a cenas movimentadas, não tinha a graça das novelas do francês, mas a elas se assemelhava na medida em que eram mais um relato das possibilidades científicas do período do que uma obra que olhasse para o futuro, que antevisse maravilhas, horrores, novidades...
De Zaluar há um salto até um conto de 1895, de Aluísio Azevedo (1857-1913), intitulado Demônios. Trata-se de uma história bastante singular, contando o destino de um casal num mundo apocalíptico. Uma raridade. E deste, até a próxima obra mais conhecida – algo deve ter sido escrito mas pouco divulgado, acredito –, foram necessários mais trinta e um anos, até que Monteiro Lobato (1882-1948) publicasse o Presidente Negro, em 1926. O único romance escrito para adultos daquele autor era, em todo o sentido da palavra, uma narrativa de ficção científica. O livro, que conheceu dois nomes (O Choque das Raças ou O Presidente Negro e, mais tarde O Presidente Negro ou O Choque das Raças: romance americano do ano 2228), foi um grande fracasso de público e crítica. Ganhou uma sobrevida no ano passado por conta da eleição de Barack Obama à Presidência dos EUA – aliás, tratamos, neste espaço, então, a respeito desta coincidência. E embora cumpra todas as características do gênero, e tenha até algumas boas passagens, é muito fraco como um todo. O que não o impede de ser lido por muita gente hoje, como tenho visto, em vários lugares.
Salvo outras histórias pouco conhecidas, foi preciso chegar o ano de 1930 para que outro vulto literário produzisse sua contribuição para a ficção científica. Naquele ano, Menotti Del Picchia (1892-1988) publicaria o romance República 3000, mais tarde renomeado como A Filha do Inca. Este, confesso que nunca li. E me parece que bem poucos o leram, por sinal. Mas pelos títulos – que coisa curiosa esta, de se trocar de nome justamente quando se trata deste gênero... – não é difícil imaginar do que trata o enredo.
Com exceção, novamente, das possíveis histórias pouco conhecidas de autores quase desconhecidos, nada mais parece ter sido escrito até um argumento para balé, de 1942, de Oswald de Andrade (1890-1954), intitulado Princesa Radar. Não sei se o testo foi publicado, se o espetáculo foi encenado e menos ainda quanto à sua repercussão. Mas algo assim deve ter acontecido, pois sua trama seria adaptada para o cinema em 1992, como um episódio de mesmo nome do curta-metragem Oswaldianas (este, inclusive, um filme muito simpático que, infelizmente, pouca gente viu).
Nos anos 1950, 1960 e 1970, há um verdadeiro surto de narrativas de ficção científica publicados no Brasil, sobretudo em pequenas revistas de duração efêmera. Inspiradas por modelos norte-americanos, surgem histórias povoadas de robôs, ameaças alienígenas, viagens interplanetárias e coisas assim. Ouvi falar de uma, inclusive, que punha o cangaceiro Lampião às voltas com naves extraterrestres, mas acho que é lenda. Em todo caso, parece que o único escritor de maior peso – que chegou a ser por muitos, ainda que erroneamente, considerado apenas autor de ficção científica – foi Rubens Teixeira Scavone (1925-2007).
Para quem se interessa pelo assunto, há um livro que se chama Ficção científica brasileira, de Mary Elizabeth Ginway, publicado em 2005, que parece ser bastante bom. Só é curioso que, ainda que pouco se produza na área, que se importe modelos e tramas para as hisórias, caiba justamente a uma norte-americana tratar de nossa ficção científica...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 28 de março de 2009].

quinta-feira, 10 de setembro de 2009

Literatura e História – Parte III: Castas e raças na ficção científica

Já tratei, noutra ocasião, aqui, da dita ficção científica, embora eu considere que o termo mais apropriado seria fantasia futurística, ou mesmo ucronia. E, ainda assim, é de se ficar tentado ante a possibilidade de se utilizar a expressão romance – ou novelaapocalíptico contemporâneo.
Volto ao assunto porque acredito que o gênero revele muito mais curiosidades do que um leitor apressado é capaz de notar. Não falo das engenhocas futuristas com maior ou menor grau de verossimilhança ou possibilidade, nem das excêntricas teorias científicas que justificam o funcionamento das mesmas. Nem, tampouco, dos seus mundos implausíveis, das suas viagens no tempo e no espaço, das múltiplas coincidências necessárias para a sustentação das tramas. Muito menos, por fim, do fato de que seus personagens parecerem se comunicar num único e mesmo idioma com relativa facilidade, sejam ingleses ou marcianos, norte-americanos ou nativos da galáxia de Andrômeda, franceses ou seleníticos (uma forma elegante de dizer “habitantes da lua”, já que lunático é outra coisa). Não, o que tem chamado minha atenção, com maior espanto, é a freqüente polarização entre raças ou castas irreconciliáveis dentro das tramas, numa visão não só enviesada como maniqueísta.
Lembremos o romance A Máquina do Tempo (1895), de H. G. Wells. Lá estão as duas raças, Elois e Morlocks. A primeira, bela e apática, morando na superfície. A segunda, monstruosa e operativa, escondendo-se nos subterrâneos. Uns descendentes da alta classe ociosa. Outros, dos trabalhadores braçais. E estes, alimentando-se, literalmente, daqueles. Quando ouvimos a justificativa do autor, então, ficamos estarrecidos. Tais naturezas foram criadas pela evolução da humanidade nos termos seguidos pelo século XX. Chocante! Quanto mais se pensarmos que Wells era um profundo conhecedor do marxismo e um influente socialista (fabiano) inglês.Em suma, para ele não haveria luta de classes e, sim, uma evolução genética derivada do trabalho e dos hábitos: menos Darwin e mais Lamarck. É, realmente, de cair o queixo.
Poderíamos proceder com o mesmo autor e a outras de suas obras. Nos romances A Guerra dos Mundos (1898), e O Primeiro Homem na Lua (1901), os vilões da vez serão marcianos irredutíveis e os homens-insetos implacáveis que habitam o nosso satélite. Nenhum diálogo com eles é possível. Nossos únicos argumentos perante eles são as armas, em resposta às suas iguais proposições.
Saltando alguns anos, temos o Admirável mundo novo (1932) de Aldous Huxley, que não deixa de ser uma espécie de releitura de alguns trechos d’A Máquina do tempo, acrescida de drogas e de culto à juventude (criticado). O canibalismo está implícito, assim como uma evolução degenerativa, se podemos assim dizer. E as relações antagônicas são praticamente as mesmas.
A tradição deste diálogo irreconciliável, ou apriorística ausência de diálogo entre os diferentes não pertence somente a este gênero: utopias e ucronias, por vezes, trazem o mesmo traço. Basta pensarmos nos povos de Lillipute e Blefuscu, minúsculos e beligerantes personagens da novela Viagens de Gulliver (1726), de Jonathan Swift. Indo mais longe ainda, poderíamos ainda ecoar resquícios da Titanomaquia, a luta que opôs os belíssimos deuses olímpicos aos horrendos e disformes titãs numa antiguidade muito mais que remota.
A vertente inglesa – e, por extensão, norte-americana – não é difícil de compreender do quê procede. Filhos e netos dos cismas que dividiram a cristandade a partir do século XVI, e ardentes defensores de seus propósitos, para além da racionalidade que professavam seguir, muito cedo demonizaram todo o resto do mundo católico, o qual não deveria ser convertido, mas, sim, exterminado.
Já se pensarmos na escola francesa do gênero, em grande parte também moralista, o pano de fundo é outro e há bem mais tolerância entre os povos aparentemente rivais, já que seu modelo foi o contato com o Oriente e com as Américas. Basta lembrarmos, por exemplo, das novelas História cômica dos estados e impérios da Lua (1657) e História cômica dos estados e impérios do Sol (1662), de Cyrano de Bergerac (1619-1655). Sem falarmos em Micrômegas (1752) de Voltaire (1694-1778).
E da alta literatura às histórias em quadrinhos, a mesma relação frente ao outro se repete segundo aquelas mentalidades que as produziram. Basta comparar o alienígena em Buck Rogers (1928), de Anthony Rogers, ou Flash Gordon (1934), de Alex Raymond, a Valérian, agente espaço-temporal (1967), de Pierre Chrsitin, Jean-Claude Mézières e Évelyne Tranlé: é quase como confrontar o conquistador Hernán Cortés (1485-1547) ao nosso beato José de Anchieta (1534-1597).
Em suma, até a leitura da ficção mais desvairada é capaz de revelar muito do povo que a escreve. Fiquemos atentos ao que virá...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 5 de julho de 2009].