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sexta-feira, 12 de março de 2010

O Carnaval de 2010

Neste ano, confesso que não tive a menor vontade de assistir aos desfiles de Carnaval, fossem eles do Rio de Janeiro ou de São Paulo. Pensei, mais uma vez, e em boa parte a realidade confirmou minhas expectativas, que veria, como sempre, uma reedição de tudo que já foi exibido nos sambódromos, uma cópia mais ou menos servil do que já fora tentado. Muda-se o ano, muda-se a escola de samba e, invariavelmente, alguma ideia velha é oferecida como nova.
Vejamos um exemplo. Do pouco que vi, lembro-me, muito por cima, de uma escola carioca apresentando carros alegóricos e fantasias versando algum tema científico, ou um enredo “futurista”, com forte predominância do branco, do prateado, ou tons oscilando entre um e outro. Pois é, em todos os carnavais, ou em quase todos, alguma agremiação, quando não várias, se arriscam neste tema. E o resultado é sempre idêntico. Uma tola versão do futuro, com todos os clichês do gênero, ou pior, ultrapassada: parecem pensar ainda o porvir como o mesmo era imaginado nos anos 1950, 1960... E o resultado visual é sempre enfadonho graças àquela mesmice branco-metálica serpenteando pela avenida, qual uma gigantesca cobra-d’água – um dos animais menos graciosos e mais estúpidos que rastejam pela terra.
Recordo-me também, por alto, de uma outra que tentou homenagear Dom Quixote de La Mancha, o imortal personagem da obra de Miguel de Cervantes (1547-1616), cujo riquíssimo enredo povoaria o desfile das mais invulgares figuras e cenas. Qual o quê! Tiveram de enfiar naquela esparrela metida à espanhola um bando de toureiros, dançarinas de flamenco e que tais que, absolutamente, não fazem parte da trama do romance! Em suma, foram mais realistas do que o rei! E nem quero me delongar sobre as bobagens ditas pela carnavalesca responsável: “Don Quixote encanta pela loucura da luta por ideais dos quais a razão desistiu”, disse aquela senhora. Muito me intriga qual o conceito de razão, vigente no século XVII, que a responsável pela frase deve ter. Se levada a sério sua afirmação, um novo capítulo da história do conhecimento poderia ser iniciado ali mesmo, na Marquês de Sapucaí. Tremei, ò acadêmicos! De joelhos, ò sábios das Universidades!
Uma surpresa, de fato, surgiu com o desfile daquela que seria a campeã carioca deste ano. Não gosto nem um pouco das tais comissões de frente que se utilizam das artes cênicas em sua apresentação. Parecem sugerir uma espécie de consciência crítica que, no entanto, morre ali mesmo, sendo abolida completamente diante do resto do que é apresentado. Acho muito mais simpático, ou achava, pois quase não se vê mais, aquela fileira da velha guarda, às vezes trôpega, apresentando sua escola. Tem a sua razão de ser e é justo com os decanos das agremiações. Mas, no caso da vencedora, que exibiu alguns truques de ilusionismo, pareceu-me uma escolha, se não de todo acertada, ao menos inédita. Inédita até agora, bem entendido: no próximo ano, pelo menos uma meia dúzia de outras escolas devem tentar repeti-la, com melhores resultados... ou não. Quanto às outras acrobacias, não gostei. Acredito que ginástica fica muito bem numa quadra de esportes ou estádio. Como no circo, evidentemente. Mas carnaval é música e dança, não é competição esportiva ou espetáculo circense. E quanto aos super-heróis apresentados, só revelaram uma coisa: suas fantasias são tão feias e ridículas, que destoam até mesmo em desfile carnavalesco!
Com tantas novidades neste ano, há que se temer o que nos reserva o próximo. Estamos acostumados com as variações sobre o mesmo, a constantes imitações, reciclagens, etc. Afinal, foi sempre assim. Agora, procurar imaginar o que pode vir a ser visto a partir de um novo que, muitas vezes, não costuma ser bem assimilado, é de arrepiar os cabelos. Ou um tédio só...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 20 de fevereiro de 2010].

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Quando a leveza parece densa, e a solidez, leviana

A escritora italiana Maria Savi Lopez (1846-1940), criou um bela fábula em seu livro Leggende del Mare (Turim, Loescher, 1894), a qual, no entanto, parece ter sido escrita para os tempos atuais — aliás, como toda boa fábula. Segundo ela, teria existido em Alexandria, Egito, uma espécie de parque de esculturas, monumentais e horrendas, na orla do mar, e que há muito caiu em ruínas. Sua origem se deveu aos seguintes fatos. Quando Alexandre, o Grande, construía a cidade, um grupo de monstros marinhos saía das águas todas as noites e destruía as obras ali realizadas durante o dia. O rei, então, estabeleceu o seguinte plano: ordenou a construção de uma gaiola de vidro, mandou que colocassem um artista dentro dela, e que esta fosse submergida no mar: dali, o homem poderia observar os monstros e desenhá-los. Trazido o artista de volta, Alexandre mandou que se erguessem estátuas daquelas medonhas criaturas, tomando por base os desenhos tomados do natural, e que as mesmas fossem colocadas na praia. Quando os monstros saíram do mar e viram suas exatas cópias, fugiram aterrorizados. E nunca mais voltaram. Acredito que, em boa parte é esta mesma sensação que muita gente tem quando entra em São Paulo, pela Marginal do Tietê.
Falar da feiúra da capital paulistana já se tornou, praticamente, um lugar-comum. Há poucas semanas, inclusive, o jornal Folha de S. Paulo consultou dezessete arquitetos paulistanos, o que resultou numa lista dos prédios mais feios da cidade. Não houve propriamente uma unanimidade quanto ao vencedor (o “campeoníssimo”, que abriga a Sede Mundial da Igreja Pentecostal Deus É Amor, no Glicério, recebeu três votos, e os demais, no máximo dois), mas, dentre eles, contavam-se não só os “suspeitos de sempre”, como também novíssimas feiúras. E também, na minha opinião, alguns que foram injustamente avaliados. De modo que lá estavam, pela “velha guarda do horror”, o eterno alvo de críticas, o Edifício São Vito, o famoso treme-treme em frente ao Mercado da Cantareira; o Memorial da América Latina, feio, inútil, e quente como um deserto; o Palácio dos Bandeirantes, que recende à arquitetura fascista em cada centímetro de fachada e, que, como resumia magistralmente uma amiga minha, “mais parece um caixote com uma coroa carnavalesca em cima dele”; e o Edifício Martinelli, que, na minha opinião, não deveria ser arrolado entre os mais feios, nem entre os mais “equivocados”: na época em que foi erguido, influências neoclássicas, como as que ele apresenta, ainda estavam na ordem do dia. Da mesma maneira, discordo da inclusão do Edifício Dacon, ali na esquina da Faria Lima com a 9 de Julho. Ele podia ser mais “encorpado”, possuir um térreo mais alto, e, afinal, parece mesmo um grande prédio, só que em escala menor do que a necessária para aquilo que ele se propõe a ser. Mas ele sempre fez uma bela figura no horizonte daqueles lados da cidade.
Quanto à “jovem guarda da feiúra”, dela fazem parte os dois vice-campeões (dois votos cada). Foram eles o Edifício Villa Europa — um monstrengo que se avista da Marginal Pinheiros, famoso tanto por exceder o limite de altura permitido, quanto por seu neoclassicismo de butique, e cujas formas, à distância, lembram um grande pente banguela —; e o prédio da Daslu, que, indiscutivelmente, é um dos prédios mais feios que há em São Paulo, quer do ponto de vista estético, quer, principalmente, do ponto de vista ético, moral, político, econômico, fiscal, etc. Logo abaixo deles, seguem-se a Plaza Iguatemi e o Edifício Renata. Quanto a este último, não há muito o que falar. É feio, convencional, metido à besta, mas há outros piores na cidade. Quando ao primeiro, sempre horrorizou-me que fosse sequer concebido. Pois nunca me esqueço de quando aquele que foi o pioneiro dos shoppings centers de São Paulo, leve, arejado, e quase “democrático”, converteu-se numa espécie de catedral do consumo. Sempre pareceu-me um prenúncio de um futuro muito pior por vir. E que veio: está aí a Daslu, a Sé de uma nova e exótica religião revelada outrora pela Plaza Iguatemi.
Mas nem só de prédios trataram os arquitetos consultados pela Folha de S. Paulo. Criticaram, muito apropriadamente, aquele horror que é o Minhocão e a ausência de qualquer “personalidade” nas pontes e viadutos da cidade. E, convenhamos, com exceção da Ponte das Bandeiras, dos viadutos do Chá e Santa Efigênia, o que resta em São Paulo que seja digno de nota, no gênero?
É claro que a degradação dos espaços públicos produz um efeito muito mais nefasto na cidade do que uma meia dúzia de prédios “feios”. As praças abandonadas, as construções pichadas e decadentes, a própria sinalização desordenada da cidade, as marginais degradadas e as favelas superam em feiúra qualquer das obras acima relacionadas. Mas essas, convenhamos, são resultado do descaso do poder público e da marginalização da população decorrente deste mesmo descaso. E quanto ao resto, que se dá por obra de uma iniciativa privada bruta e insensível? Não tem ela uma parcela de culpa muito maior?
Os efeitos do brutalismo, por assim dizer, na arquitetura paulistana, deitam suas influências em outros campos até então pouco sondados. E, a partir daqui, retornamos ao início desta crônica, à fábula do parque monstruoso em ruínas de Alexandria. Pois que outra sensação um visitante tem que não a de horror quando entra em São Paulo pela Marginal Tietê e se depara com aquela sucessão de terrenos baldios e galpões improvisados que guardam toda a sorte de restos dos desfiles carnavalescos do passado recente e distante? O que pensar daqueles esqueletos disformes, daquelas ruínas sem glória ou história?
Assistindo, pela televisão, os desfiles das Escolas de Samba de São Paulo e do Rio de Janeiro, somos lembrados, a todo momento, de um truísmo corrente que diz que ambos os eventos não podem ser comparados, visto que as agremiações cariocas estariam acima de qualquer comparação. Seriam hors-concours — ou seja, tão excelentes por suas qualidades que a simples emulação com algo vagamente parecido mostrar-se-ia impossível por natureza. Este é um fato que se demonstra com tranqüilidade diante do que foi dito e do que diremos.
Os carros alegóricos do carnaval carioca são, sem sombra de dúvida, monumentais. Já os de São Paulo, são, por assim dizer, “monumentosos”. Se um se dá ao direito de representar obras do Aleijadinho, de erguer uma réplica da igreja de Nossa Senhora de Paris (Notre Dame) e do Coliseu romano, com uma leveza exemplar, autenticamente belos na sua inequívoca aparência efêmera, passageira, os de cá parecem afundar em seu peso, atravancar o Sambódromo, buscar uma permanência no tempo que, para tal tipo de obra, torna-se exorbitante. Desmedida. Presunçosa. Como a arquitetura da capital dos paulistas. Tudo muito grande, tudo muito robusto, muito caro... e muito sem graça. E com pretensões à eternidade. Veja-se a longeva sobrevida que o que restou dos carros alegóricos têm nos galpões e terrenos improvisados. Veja-se o seu excessivo volume, sua ausência de graça, sua longa decomposição sem ao menos a aura de um certo fascínio de outrora.
É de se pensar se o mal-estar que sentimos à vista destes restos de festas passadas se deve à natural feiúra resultante de seu abandono. Creio, entretanto, que o sentimento se deve á sua própria composição. Não seríamos, todos nós, paulistanos e paulistas, pouco diferentes dos monstros da fábula? Será que aquilo que nos horroriza de tal maneira, assim o age menos por sua aparência, e mais por ser um retrato, se não de nós mesmos, daquilo que permitimos que fosse feito em São Paulo?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 24 de fevereiro de 2007].

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

O Carnaval, a Aids e a “pílula do dia seguinte”

Como todo mundo sabe, o Carnaval não é uma festa exclusivamente brasileira. Ele não nasceu da malemolência tropical, do cruzamento do índio, do branco e do negro, aqui, no lado de baixo do Equador, região supostamente sem pecado. O Carnaval é fruto de uma piscadela de olho, ou cochilo consentido, da Igreja Católica medieval, que permitia um certo abrandamento dos costumes, durante quatro dias da festa, entre o fim do inverno europeu e a Quaresma. Para alguns fundamentalistas ou restauracionistas, a aceitação de tal costume seria algo vexatório para a Igreja, uma prova de que ela merecia, desde aquela época, uma correição, por permitir a existência de “práticas pagãs” entremeadas ao calendário litúrgico. Mas os padres da Igreja daquele tempo sabiam que sua comunidade era composta de santos e pecadores, e compreendiam a necessidade de um certo alívio das regras, principalmente depois de meses e meses de frio, tristeza, escuridão, isolamento e privações. É verdade que, já naquele tempo, a quebra de certos comportamentos habituais descambava em graves excessos. Mas não é comum aceitar aquela época como um período rude e violento? Uma era de certa barbárie, ignorância e superstição? Sabemos que não era bem assim. O que não entendemos é como, em nossa época tão “racional”, os mesmos excessos impensados ainda se verifiquem. Ora, os tempos não mudaram? E a compreensão do mundo, também não? Portanto, a manutenção de certos hábitos deveria ser, se não revista, ao menos questionada.
Pensemos na polêmica do Carnaval deste ano, opondo Estado, Igreja e sociedade, que parece ter sido causada apenas e tão somente pela ampla distribuição de preservativos — prática que já dura mais de uma década — e das “pílulas do dia seguinte assuntos que suscitam não só comentários como, também,uma ampla discussão. Assim, em primeiro lugar, temos de pensar nos três envolvidos nesta questão e seus respectivos papéis: e que são, como foi dito, o Estado, a Igreja e a sociedade.
O Estado tem toda a razão em fazer o que faz. Porque ele é laico; porque ele tem que lidar com milhares de infectados por doenças sexualmente transmissíveis depois de cada Carnaval; porque ele arcará com o peso social e econômico de uma infinidade de gravidezes indesejáveis: pois tanto abortos quanto filhos imprevistos, consomem milhares de horas de profissionais das mais variadas áreas — Justiça, Assistência Social, Segurança Pública, Medicina, Educação, etc — e muitos milhões de reais que poderiam ser empregados noutras áreas.
Da mesma maneira, a Igreja está, em boa parte, repleta de razões. Seu repúdio a uma sexualidade desenfreada fundamenta-se numa doutrina ancestral, por ela reivindicada de forma documental, como tese de fé, e da qual ela seria o derradeiro baluarte; sua condenação aos métodos contraceptivos, data de milhares de anos e estriba-se em sua convicção na defesa da vida; sua compreensão de que os excessos são perniciosos à carne e à alma, é mais do que conhecida: os abusos são um entrave no caminho para a Salvação, que ela defende como meta absoluta na vida de seus fiéis; ao mesmo tempo, ela também é sensível aos graves problemas sociais e econômicos decorrentes das concepções impensadas, e sabe das terríveis conseqüências advindas das mesmas.
E quanto à sociedade? Qual seu papel nesta trama? Pois bem, cabe a ela o papel principal: assumir a sua responsabilidade, total e absoluta, do que faz não só ao longo do ano, mas durante os quatro dias de Carnaval. Porque ela é livre — por força de Lei, frente ao Estado, e em razão do Livre Arbítrio, diante de Deus e da Igreja — para fazer o que bem entenda: desde que arque com as conseqüências de tal disposição. Cabe, pois, à sociedade avaliar, pesar, repensar este furor de baixo ventre que domina tanta gente de forma absoluta durante quatro dias do ano, e seus resultados para o resto de suas vidas cívicas, sociais, econômicas, familiares e espirituais.
Trata-se, pois, de ponderar, ou arcar com as conseqüências. Porque os alertas, de todas as naturezas, já foram dados. Ou se tem consciência, ou que se esteja disposto a agüentar o fardo de uma consciência pesada, e todos os resultados de atos impensados: a culpa não decorre da imposição de uma regra, mas de sua transgressão. Portanto, um pouco de juízo, nestes dias, é mais do que bem-vindo, é fundamental.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 2 de fevereiro de 2008].

Pode o Carnaval mudar de data?

A respeito do último Carnaval, um dos fatos mais curiosos que notei dizia respeito à sugestão de uma sua possível mudança de data, pleiteada por meio de cartas de diversos leitores em alguns grandes jornais. A idéia, à primeira vista exótica, tem lá o seu fundamento histórico e alguma boa parte de razão. Ou seja, ela é possível do ponto de vista legal, já foi empregada no Brasil, ainda que, na verdade, não tenha dado certo, mas, por outro lado, fundamenta-se em alguns motivos bastante sólidos. Vejamos quais são eles. E, para tal, precisamos retornar à História.
Como todos sabemos, depois do estabelecimento da República em nosso país, foi decretada a separação entre o Estado e a Igreja: o Brasil tornou-se, institucionalmente, uma terra laica, que respeitaria a liberdade de culto e as práticas religiosas de qualquer natureza — salvo quanto às religiões afro-brasileiras, mas isto é outra história que será tratada noutra ocasião. Assim, nosso Estado proclamou-se soberano e livre de quaisquer influências, por assim dizer, metafísicas — está certo, havia o Positivismo e a Maçonaria inviabilizando tal “neutralidade”, e é esta uma outra história a qual voltaremos numa ocasião futura. Mas, em suma, o que ocorreu, é que nossos governantes sentiram-se livres a tal ponto que chegaram mesmo a alterar o calendário da festa, outrora, mais popular do Brasil. De modo que, em 1892, o Carnaval foi transferido para os dias 26, 27 e 28 de Junho.
O quê? Carnaval em junho? Pois é. Alegava-se, então, que era por razões de salubridade pública. E tinham lá seus motivos, em sua época, pelo fato de Fevereiro, Março e princípios de Abril, períodos em que costumam cair o Carnaval, serem muito quentes e favoráveis à proliferação de mosquitos e outros males “miasmáticos” — lembremos que a existência dos micróbios ainda era questionada, bem como a eficiência das vacinas, naquele tempo.Em suma, a Ciência daqueles anos e o Estado, andavam lado a lado, por mais inconstantes que ambos possam ser, em seus discursos, como vemos.
Entretanto, havia ainda um outro motivo para a alteração das datas: o conforto dos foliões ricos. Afinal, o Rio de Janeiro, capital da República, ditava as regras e as modas para o resto do país. E as damas e cavalheiros daquela época queixavam-se do clima da cidade, naqueles dias, que impedia ou dificultava o uso de fantasias elegantes, suntuosas, como as utilizadas em Paris, exemplo de conduta, exemplo de civilização: lembremos que, naqueles tempos, todas as cidades espelhavam-se na capital francesa e o Rio, principalmente. O que também rende outra crônica...
Mas a verdade é que, como dissemos, a alteração da data não deu certo. Feria as tradições. E festa popular, tem que ser tradicional, estribada num calendário secular, pelo menos. Em razão disto, acredito que um dos principais problemas do Carnaval reside num aspecto aparentemente dúbio quanto à sua origem. Pois, afinal, ele é, de certa maneira, uma festa religiosa. E, ao mesmo tempo, não é nada disso. Ele é regido pelo calendário litúrgico, entretanto não entra na liturgia. Justifica-se, historicamente, por sua tradição, como um legado medieval, como uma permissão da Igreja, para certas liberdades, entre o fim do longo e triste inverno europeu e as privações da Quaresma. Mas, no nosso caso, estamos livres dos rigores hibernais da Europa, e a abstinência ou, antes, a moderação, durante a Quadragésima, é algo que vemos recuar ano após ano.
Daí até ser possível desvincular Carnaval da época em que ele ocorre, deslocá-lo para uma data fixa do calendário, a ser marcada. Segundo os argumentos de muitos dos defensores da mudança, baseados no que ocorreu neste ano, o fato da folia de Momo ter caído tão próximo do fim das férias e do reinício das aulas, prejudicou o pleno gozo desta celebração. Afinal, alegaram, “quem é que tem dinheiro sobrando para bancar, num período tão curto, viagens de família, compra de material escolar e, ainda, os gastos carnavalescos, ao mesmo tempo em que se está pagando, ainda, as compras do Natal?” Sem falar na pressão da Páscoa: desde o último domingo os ovos de chocolate já estão sendo oferecidos nos supermercados.
Restam, portanto, algumas perguntas. Se deslocarmos o Carnaval para uma época que não comprometa, em muito, as rendas dos foliões — épocas em que a pressão do comércio é mais branda, nas quais sobra mais dinheiro — qual o sentido da Quarta-Feira de Cinzas? Será criada uma folia especial na terça-feira que a antecede, para justificá-la? E, ao mesmo tempo, será deslocado o tríduo momesco — que, nalguns lugares, passam de uma semana — para outra data mais oportuna? E oportuna em relação a quê? Ao desejo de consumo e à submissão dos consumidores aos apelos do mercado? Há que se ponderar, com calma, com moderação...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 9 de fevereiro de 2008].

Fugindo do Carnaval

E o Carnaval chega novamente...Lembro-me de ter lido uma matéria no ano passado, lá por estes dias que antecedem a “Folia de Momo” (será que alguém ainda usa tal expressão hoje em dia? Duvido). Pois bem, a referida reportagem contava das pessoas que amam o “tríduo momesco” (outro termo caído em desuso e que só se justifica historicamente: hoje a farra vai de sexta-feira até a madrugada da quarta, cinco dias, portanto) em contraposição àquelas que, não propriamente o odeiam, mas preferem ficar a distância dele. E trazia casos e mais casos de quem percorre o país em busca das festas mais animadas (alguns poucos davam-se ao luxo de viver um quase que eterno carnaval, atrás de micaretas e que tais sobretudo no Norte e Nordeste, ao longo do ano) como, também, dos que se internavam nalgum lugar no qual, acreditavam, estariam longe da fuzarca. Estariam longe, pensavam, porque isto nunca é garantido, como veremos.
Tenho um amigo que odeia Carnaval. Anarquista convicto, um dos últimos que conheço, diz ele que uma festa criada pela Igreja, sancionada pelo governo, e permitida pela polícia, não é festa, mas, sim, um tipo diferente de desfile, parada ou procissão. E nos quatro últimos anos vem tentando fugir ainda da mais simples referência, vaga que seja, ao evento, das mais variadas formas. No primeiro ano, ele e a mulher hospedaram-se no sítio do cunhado (irmão dela), lá para os lados de Atibaia. No primeiro dia, tudo correu bem, ouvindo os passarinhos, descansando. No segundo, o caseiro recebeu uns amigos, improvisaram uma festinha ao som de Axé e que tais tocados em altíssimo volume pelo rádio e lá se foi a sua paz. E, por pouco não se foi também a sua “solidariedade com as classes trabalhadoras”. Fez as malas no mesmo instante e voltou para a Capital.
Chegou o ano seguinte e meu amigo tentou algo diferente. Alugou uma casinha numa praia isolada do Sul, muito bonita, por sinal. Lugar meio remoto, fora do circuito da folia. No lugar, contavam-se somente mais três casas e, ele pensou, nenhum folião procuraria aquele ponto tão pacífico. Ledo engano! As casas também foram alugadas para gente de fora que, claro, improvisou seu próprio Carnaval ali, no meio do nada. Como o aluguel já estava pago, teve que aguentar cinco dias embalado pela voz de Dª. Daniela Mercury.
No terceiro ano de “exílio momesco” (a expressão é dele), tentou algo parecido ao que fizera no ano anterior, acreditando que o raio nunca cai por duas vezes no mesmo lugar. Ou melhor, julgando que a experiência não poderia se repetir, estatisticamente, em semelhantes condições. Foram então para uma outra praia, desta vez deserta mesmo, no litoral Sul do Rio de Janeiro, perto de Paraty. Lá nem casa havia e o plano deles era dormir numa barraca. E apresentava uma garantia extra: o acesso até ali só se dava por barco, logo, a possibilidade de uma invasão seria muito mais remota. Primeiro dia: um paraíso! Segundo dia: um barco é avistado na linha do horizonte, pela manhã. A tarde vão surgindo mais outros. E outros. E outros. E se aproximam da praia. E fazem um Carnaval marítimo bem defronte à sua barraca. Tudo ao som da voz de Dª. Ivete Sangalo (mais onipresente, segundo ele, que os antigos ditadores comunistas: está toda semana em cartazes, capas de revistas, programas de televisão e rádio, anúncios disto e daquilo). E o pior, dali ele não tinha para onde ir.
No ano passado, ele radicalizou. Decidiu acampar com a mulher numa reserva natural, num parque no Sul de Minas Gerais que não permite o acesso a muita gente. Ali, garantiu-me, estaria seguro. Qual o quê! Bastou um único outro casal, numa barraca a uns quinhentos metros da sua, para estragar seu idílio. Ali, no meio do nada, um rádio berrava os inesquecíveis e altamente elaborados sucessos musicais do grupo Chiclete com Banana...
Já meio desesperado, não sabia o que fazer este ano. Sugeri, e ele aceitou, o melhor lugar para se sentir longe do Carnaval: o interior de São Paulo, de preferência uma cidade entre média e grande. Nelas só percebemos a época do ano em que estamos quando ligamos a televisão, tão animadas são no quesito folia. Disse-me ele que vai experimentar...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 21 de fevereiro de 2009].

O Carnaval do MacGyver

Prometi a mim mesmo que não escreveria uma só linha sobre o Carnaval até o ano que vem. Acredito mesmo que todos já devem estar fartos deste assunto. Todavia, mais uma vez, não pude me conter. E o principal motivo foi o desfile da escola de samba paulistana Acadêmicos de Tucuruvi, homenageando Ouro Preto.
“Ai, meu Deus, ele vai falar de Ouro Preto de novo!”, deve ter pensado algum leitor mais impaciente. Pois é, confesso que resisti. Minha primeira intenção foi tratar da reforma ortográfica. Mas empaquei no segundo parágrafo. Não me acostumei ainda quanto a grafar, em lugar de lingüística, um reles linguística. Convenhamos, não parece língua estica? Tem ares de trava-língua. Ou melhor, travalíngua, segundo a reforma. Esquisito, não acham? Ainda assim, perseverei, firme, em meu intento, até que novo baque me sobreveio enquanto escrevia “A legislação recém-aprovada...”. Alto lá! Terei que grafar recenhaprovada? Que monstrengo é este? Não parece resenha aprovada? Como vêem – perdão, como veem – não daria muito certo.
Prometo que, na próxima, trato deste assunto que, em minha opinião, se já dá muito trabalho hoje em dia, imaginem daqui a alguns anos, quando toda uma geração for alfabetizada sob estes novos preceitos... Podem dizer, por ora, que a nova ortografia não altera a pronúncia. Balela! O que veremos, creio, será de estarrecer. Podem anotar. Aliás, cabe aqui uma nota – em lugar de escrever balela, estava pronto a usar o bom e velho duvide-o-dó. Mas a forma, nova, duvideodó paralisou minhas mãos frente ao teclado...
De modo que voltemos ao Carnaval, aos Acadêmicos de Tucuruvi e à sua homenageada, Ouro Preto: sem antes, todavia, darmos um pequeno salto no tempo e no espaço. O que não tem nada de errado. As agremiações carnavalescas dão saltos muito maiores. É verdade que se estatelam, quando caem na realidade. Mas prometo que me safo.
Lembro-me de ter assistido, muitos anos lá se vão, um episódio da conhecida série norte-americana de televisão MacGyver, em nosso país rebatizada como Profissão: Perigo e exibida entre os anos 1980 e 90. Não lembro nada da trama do tal episódio, apenas que ela se passaria no Brasil (governado por um Presidente cujo nome era Ramirez, Rodriguez, Alonzo, ou outro nome espanhol qualquer) durante o Carnaval (uma cópia dos desfiles de Nova Orleãs, só que embalada ao som de uma caliente rumba). Num dado momento, o herói vê-se diante de uma cerca, num beco, que ostenta uma placa de alerta, na qual está escrito, em letras garrafais, ِ¡ PELIGRO !, em lugar da brasileiríssima PERIGO!
Pois bem, a Ouro Preto das Acadêmicos de Tucuruvi me lembrou o Brasil do filme do MacGyver. Havia alguma coisa de real, mas debaixo de camadas e camadas de simplificações, estereótipos, fantasias das mais tresloucadas e de uma ignorância patente. Sem falar no deboche: não sou lá um exemplo de devoção, não sou muito mariano, mas, francamente, colocar Nossa Senhora dançando numa comissão de frente de desfile carnavalesco, convenhamos, é de lascar! Até meu amigo anarquista concordou comigo, achando que era falta de decoro. Imagino o que os membros de outras religiões, ou de seitas cristãs, vão dizer dos católicos do Brasil! Sem falar que a Nossa Senhora do Pilar, a homenageada do enredo, era indistinguível da mexicana Nossa Senhora de Guadalupe...
Religião à parte, o fato é que todo o resto mostrou-se uma barafunda lamentável. Fantasias pobrinhas, anjos acrobatas que não faziam acrobacias; reproduções razoáveis de fachadas de igrejas, que eram desmentidas em todo o resto; a demagogia de sempre travestida de “crítica social”. E por aí vai. O mais triste foi a pretensão de reproduzir “o esplendor do ouro” e, ao mesmo tempo, verem-se tão poucos dourados em todo o desfile.
Pode-se argumentar, como muitos o fizeram, que este é o primeiro Carnaval sob os rigores da nova grande crise econômica mundial. Que, por isto, as escolas não tiveram patrocinadores, e que o improviso foi a tônica da vez. Pode ser. Daí o título que pensamos para esta crônica: O Carnaval do MacGyver. Como deve se lembrar quem assistia à série, o grande trunfo do protagonista era improvisar toda e qualquer solução à base de um canivete suíço, fita adesiva e qualquer coisa que tivesse à mão. E, não tenho dúvidas, foi exatamente isto o que vimos neste ano, não somente nos Acadêmicos de Tucuruvi, como em quase todas as outras, de São Paulo e Rio: uma série de improvisos, cujo resultado muito pouco se aproxima do satisfatório – eficiente, mas não memorável (“não façam isto em casa, crianças, sem a supervisão de um adulto”) – e sem a menor verossimilhança, sem um pé, sequer, na realidade.
Do jeito que vão as coisas, aguardemos, leitores o próximo ano. No centenário de nascimento de Tancredo Neves, teremos, certamente uma grande homenagem a ele, personificado por algum louro ator global maquilado de careca, que desfilará no alto de montanhas mineiras que lembrem os Alpes e rodeado de mulatas em minúsculas fantasias. Fantasias? Sim. Para quem cria e para quem as vê. Mas que tipo de fantasias...? Bem, basta por hoje. Não exploraremos mais o leitor neste resto de semana de cinzas.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 28 de fevereiro de 2009].