Neste ano, confesso que não tive a menor vontade de assistir aos desfiles de Carnaval, fossem eles do Rio de Janeiro ou de São Paulo. Pensei, mais uma vez, e em boa parte a realidade confirmou minhas expectativas, que veria, como sempre, uma reedição de tudo que já foi exibido nos sambódromos, uma cópia mais ou menos servil do que já fora tentado. Muda-se o ano, muda-se a escola de samba e, invariavelmente, alguma ideia velha é oferecida como nova.
Vejamos um exemplo. Do pouco que vi, lembro-me, muito por cima, de uma escola carioca apresentando carros alegóricos e fantasias versando algum tema científico, ou um enredo “futurista”, com forte predominância do branco, do prateado, ou tons oscilando entre um e outro. Pois é, em todos os carnavais, ou em quase todos, alguma agremiação, quando não várias, se arriscam neste tema. E o resultado é sempre idêntico. Uma tola versão do futuro, com todos os clichês do gênero, ou pior, ultrapassada: parecem pensar ainda o porvir como o mesmo era imaginado nos anos 1950, 1960... E o resultado visual é sempre enfadonho graças àquela mesmice branco-metálica serpenteando pela avenida, qual uma gigantesca cobra-d’água – um dos animais menos graciosos e mais estúpidos que rastejam pela terra.
Recordo-me também, por alto, de uma outra que tentou homenagear Dom Quixote de La Mancha, o imortal personagem da obra de Miguel de Cervantes (1547-1616), cujo riquíssimo enredo povoaria o desfile das mais invulgares figuras e cenas. Qual o quê! Tiveram de enfiar naquela esparrela metida à espanhola um bando de toureiros, dançarinas de flamenco e que tais que, absolutamente, não fazem parte da trama do romance! Em suma, foram mais realistas do que o rei! E nem quero me delongar sobre as bobagens ditas pela carnavalesca responsável: “Don Quixote encanta pela loucura da luta por ideais dos quais a razão desistiu”, disse aquela senhora. Muito me intriga qual o conceito de razão, vigente no século XVII, que a responsável pela frase deve ter. Se levada a sério sua afirmação, um novo capítulo da história do conhecimento poderia ser iniciado ali mesmo, na Marquês de Sapucaí. Tremei, ò acadêmicos! De joelhos, ò sábios das Universidades!
Uma surpresa, de fato, surgiu com o desfile daquela que seria a campeã carioca deste ano. Não gosto nem um pouco das tais comissões de frente que se utilizam das artes cênicas em sua apresentação. Parecem sugerir uma espécie de consciência crítica que, no entanto, morre ali mesmo, sendo abolida completamente diante do resto do que é apresentado. Acho muito mais simpático, ou achava, pois quase não se vê mais, aquela fileira da velha guarda, às vezes trôpega, apresentando sua escola. Tem a sua razão de ser e é justo com os decanos das agremiações. Mas, no caso da vencedora, que exibiu alguns truques de ilusionismo, pareceu-me uma escolha, se não de todo acertada, ao menos inédita. Inédita até agora, bem entendido: no próximo ano, pelo menos uma meia dúzia de outras escolas devem tentar repeti-la, com melhores resultados... ou não. Quanto às outras acrobacias, não gostei. Acredito que ginástica fica muito bem numa quadra de esportes ou estádio. Como no circo, evidentemente. Mas carnaval é música e dança, não é competição esportiva ou espetáculo circense. E quanto aos super-heróis apresentados, só revelaram uma coisa: suas fantasias são tão feias e ridículas, que destoam até mesmo em desfile carnavalesco!
Com tantas novidades neste ano, há que se temer o que nos reserva o próximo. Estamos acostumados com as variações sobre o mesmo, a constantes imitações, reciclagens, etc. Afinal, foi sempre assim. Agora, procurar imaginar o que pode vir a ser visto a partir de um novo que, muitas vezes, não costuma ser bem assimilado, é de arrepiar os cabelos. Ou um tédio só...
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 20 de fevereiro de 2010].
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