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segunda-feira, 29 de agosto de 2011

Falatório das listas de livros do vestibular

Aproxima-se uma nova lista de livros cuja leitura será exigida dos vestibulandos de USP e Unicamp. Tal mudança implica uma série de consequências, mais ou menos curiosas. Em primeiro lugar, os títulos descartados irão inundar as prateleiras dos sebos e alfarrábios, vendidos por uma ninharia. Em segundo lugar, os novos sairão a peso de ouro, e pequenas editoras publicarão exemplares de obras cujos direitos já caíram em domínio público, com as costumeiras deficiências de sempre: edições mal cuidadas, notas pueris, análises claudicantes, etc. Em terceiro lugar, as comissões avaliadoras dos vestibulares, responsáveis pela mudança, receberão uma chuva de impropérios e anátemas dos professores preguiçosos de cursinho e ensino médio, visto que estes terão de reler (quando não ler pela primeira vez) o tal “clássico” que ora adentra na relação. Mas, em terceiro lugar, as supraditas comissões serão envolvidas por uma nuvem de bons votos, emanados de todos aqueles profissionais que não aguentam mais repetir as mesmas análises, os mesmos discursos, sobre as mesmas obras, já lá se vão três anos.
Minha cunhada, que é professora de Literatura, e eu, que gosto da área e mais ainda quanto à me manifestar sobre este assunto, trocamos algumas ideias sobre o que viria na futura lista. Apostamos, por alto, que virá algum livro do Drummond e da Clarice Lispector (está na moda); São Bernardo, do Graciliano Ramos; nos retornos d’A Farsa de Inês Pereira, de Gil Vicente, das Memórias Póstumas de Brás Cubas, do Machado, e d’O Primo Basílio, ou d’O Crime do Padre Amaro, do Eça, sem falar em Marília de Dirceu, do Tomás Antônio Gonzaga. Arriscamos ainda algo do Castro Alves e do Guimarães Rosa. Mas são meras suposições, evidentemente.
O que nos inquieta é a eterna recorrência dos mesmos títulos e autores, como se a literatura brasileira não tivesse outros nomes e obras. E assim retorno a um tema caro, que já tratei numa crônica de 15 de novembro de 2008. Trata-se do resgate de certos clássicos, relegados pelas autoridades a um papel menor e da necessidade de salvá-los do esquecimento. E uma das melhores maneiras para tal seria sua leitura e debate.
Por que, só para ficarmos na antiga literatura portuguesa, não entram na lista Francisco Sá de Miranda, ou O Lima (1594), de Diogo Bernardes? Ou ainda a poesia, ou o teatro, ou os apólogos dialogais de D. Francisco Manuel de Melo, cujo Hospital das Letras, de 1657, é tido como a primeira obra de crítica literária consistente escrita em português? Sem falar na Fênix Renascida e no Postilhão de Apolo, compilações dos melhores poemas barrocos portugueses. Ou, mais para frente no tempo, em excertos da Nova Floresta (1710-1728), do Pe. Manuel Bernardes?
Por que não, quanto ao período colonial, uma peça do Padre Anchieta ou uma do Antônio José da Silva, o judeu? Ou as Reflexões sobre a Vaidade dos Homens (1752), do paulista Matias Aires, considerado por muitos o maior nome da filosofia de língua portuguesa no século XVIII? Ou o romance Aventuras de Diófanes (1777), da também paulista (irmã de Matias Aires) Teresa Margarida da Silva e Orta, reputada como a primeira mulher a escrever ficção em nosso idioma? O orgulho pátrio não seria exaltado com a escolha de tais obras? A preeminência e pioneirismo das mesmas não valeria a sua divulgação?
Bocage é ótimo. Mas por que todo o resto do arcadismo português é repelido?
Lembremos d’O Retrato de Vênus (1821), de Almeida Garrett. Um curto poema que se confunde com uma análise estética da pintura de Rafael Sanzio (1483-1520), e que causa uma verdadeira e extensa polêmica artística no Portugal de seu tempo. Diz-se que é com Camões (1825), que Garrett instaura o romantismo em terras lusas. Sou mais favorável ao Retrato para este papel. E como ambos são ignorados?
Ainda dentre os portugueses, não compreendo por que rejeitam A Velhice do Padre Eterno (1885), de Guerra Junqueiro. Para além das suas qualidades literárias foi, certamente, a fonte de onde beberam – e ainda bebem, mas tais águas, nos últimos tempos, foram engarrafadas por outrem – nove entre dez ateus ou projetos de ateus falantes do português. É, portanto, literatura cara e de fácil compreensão para a juventude universitária, naturalmente questionadora.
No que se refere à literatura brasileira (posterior à Independência), as lacunas permanecem de dimensões oceânicas. Aceita-se o chatíssimo Macedo d’A Moreninha (1844), e rejeita-se o ótimo Memórias da Rua do Ouvidor (1878), em essência tão romântico como aquele, só que retardatário no tempo, qual o Aleijadinho esculpindo anjos barrocos já no Classicismo. Foge-se, qual o diabo da cruz, d’O Guesa (1884), de Sousândrade. Abrenunciam-se a todos os romances simbolistas, dentre eles o ótimo Mocidade Morta (1899), de Gonzaga Duque. Afonso Arinos, o velho, e João do Rio, são escolhidos quase com a mesma periodicidade da passagem do Cometa Halley. E já que falamos em alegorias estelares, é de se perguntar o caso de Monteiro Lobato: seria sua obra uma anã branca, uma supernova ou um buraco negro? Porque ele está sempre presente e, no entanto, quase invisível. E, por fim, se somos eternamente obrigados a louvar a glória de José de Alencar, por que não passarmos às ótimas crônicas de Ao Correr da pena (1874), ao invés dos purgantes indigenistas de sempre? E por que não se estudar certas traduções ou transcriações? O que Odorico Mendes fez, nas suas versões da Eneida (1864), da Ilíada e da Odisséia (publicadas após sua morte, em 1874 e 1928, respectivamente), diz muito mais sobre as potencialidades do lavor poético de então do que a obra das vacas sagradas pela crítica, de ontem e de hoje.
Mas só se escolhem os mesmos e velhos nomes, que são ótimos, mas não são os únicos. Às vezes dá vontade de bradar, como o protagonista do Falatório do Ruzante de volta da Guerra (c.1529), de Angelo Beolco: Cancaro ai campi e à la guera e ai soldè, e ai soldè e à la guera! (“Raios partam os campos [de batalha], a guerra, os soldados e os soldados e a guerra!”). Ou, ante a presente questão, “que se danem as comissões avaliadoras, as listas, os livros escolhidos e os livros escolhidos e as listas”. E se me permitem uma paráfrase do Ruzante, em complemento, “a mim é que não me apanham mais: vou mais é ler o que não li, e me fartar destes livros até rebentar”!
Pois não é o que todos temos vontade de fazer? Portanto, vestibulando, leia o que lhe impingirem para a prova. Mas leia, também, muito e muito mais. A bagagem que se leva para os exames é leve, e limitada no tempo. Já a que se adquire por conta própria, às vezes é pesada, mas é de valia, e prazer, para a vida inteira.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 27 de agosto de 2011].

segunda-feira, 18 de julho de 2011

O Dissenso educacional paulista prossegue....

A prática da autonomia universitária – ou seja, a livre gestão das universidades públicas quanto às suas políticas internas, do conteúdo dos cursos, à vigilância de suas instalações, do exame vestibular à ocupação de cargos – tal como verificada na USP, Unicamp e Unesp, revela um fato inquestionável: não há consenso, não há diálogos entre umas e outras. Vejamos um caso recente. Foi divulgado nesta semana que o Conselho de Graduação (CoG) da Universidade de São Paulo decidiu adotar cinco medidas que, em princípio, deverão tornar o vestibular da Fuvest mais difícil e concorrido, por um lado, mas que permitirá o acesso (pela “porta lateral” ou “dos fundos”), por outro lado, a um contingente razoável de alunos.
Mas o que dificultará o trabalho dos pleiteantes a uma vaga? Em primeiro lugar, voltarão a atribuir à nota da primeira fase o mesmo peso das provas da segunda, ou seja, contarão a mesma coisa. Em segundo, passarão a chamar entre dois e três alunos por vaga para a última etapa – atualmente convocam-se três vestibulandos para tal. Aliás, é divertida esta matemática universitária quando se refere a “dois a três alunos”: quer dizer que podem ser chamados dois alunos e mais meio aluno? Ou três quartos de aluno? E, em terceiro lugar, a nota de corte da primeira fase será elevada de 22 para 27 pontos.
Pois bem, e o que facilita? O número de questões da prova do segundo dia baixará de 20 para 16, o que já dispensa comentários: quatro obstáculos a menos durante uma maratona, facilitam, inquestionavelmente, o trajeto. E haverá a possibilidade de escolha de uma nova opção de carreira após a terceira chamada. Quanto a esta última medida, não há dúvidas de que incluirá muita gente, mas me pergunto quanto a pertinência disto. Quer dizer, então, que quem obteve uma boa pontuação, em Direito, por exemplo, se não for convocado pela terceira lista pode optar por, digamos, Zootecnia? Sei que no tocante aos nossos direitos, somos em geral tratados como gado de corte, mas quer me parecer que ambas as carreiras são um pouco díspares, e que tal troca, possível pelo regulamento, seria de natureza similar a substituir, hipoteticamente, um fogão por uma lavadora: ambas úteis, sem dúvida, mas tão distintas quanto fogo e água. E há, por exemplo, ainda no caso do Direito, curso que a ele se aproxime? Economia? Relações Internacionais? Convenhamos... Talvez possa até valer tal troca para quem oscila entre Veterinária e a já referida Zootecnia, entre estas e a Biologia, ou entre esta e a Farmácia ou ainda a Química, dependendo do viés de cada um. Mas quem sonha com Física, não se contenta com Matemática. E História, Antropologia, Ciências Sociais e Geografia, são tão parecidas quanto três pessoas escolhidas a esmo, dentre os moradores de um mesmo bairro, podem ser entre elas: não é porque partilham o mesmo espaço em comum, que sua visão do mesmo será idêntica, ou pautada pelo mesmo interesse. Nem, muito menos, parentes...
Isto foi o que fez a USP. Agora vejamos o procedimento da Unicamp.
Em recente oficina (um evento anual, fartamente conhecido pelos professores do ensino médio e dos cursinhos e que, no entanto, paradoxalmente, cada vez conta com menos representantes deste setor na audiência) promovida por aquela universidade, em que foram divulgadas as mudanças de seu vestibular, quem estava lá pôde ouvir, como eu, que a Unicamp escolhe os seus alunos. Isto mesmo, não é qualquer um que entra. Fazem um vestibular difícil porque, afinal, acreditam, universidade pública não é meio de ascensão social de alunos, mas celeiro de pesquisadores, de uma elite intelectual voltada ao estudo, às ciências, etc, que assim gerariam gratificantes frutos para o saber, para o Estado, para a sociedade, e, só muito depois, para os seus próprios bolsos. E já que falamos em custos, mencionaram os altíssimos que tem aquela universidade frente aos maus alunos aprovados por um exame deficiente: lá nas estatísticas deles, é elevadíssimo o número de estudantes com acentuadas, graves, incontornáveis deficiências na leitura, interpretação e produção de texto, e mesmo em cálculos matemáticos, nas áreas afins, resultando num baixo aproveitamento das turmas e em incontáveis abandonos de cursos por parte dos alunos, o que não é nem um pouco interessante a quem se desliga, nem à universidade, nem ao Estado e muito menos aos contribuintes. Só lamentei não ouvir, na dita oficina, comentários à completa ignorância alegada e provada quotidianamente por alunos frente às línguas estrangeiras – ferramenta indispensável para o conhecimento das referências bibliográficas em nove entre dez cursos – e que só comprovam como o ensino daquelas é francamente inepto. Dá a impressão de que se é aprovado no vestibular apenas com o conhecimento rasteiro da maioria dos cursos particulares de inglês, ou francês (geralmente voltado à conversação e ao “quanto custa?” ou “eu queria um sapato maior”), ou com aquele raso, quase imperceptível, que se obtém no ensino médio público, com suas salas superlotadas, ausência completa de qualquer bibliografia de apoio, audiovisuais, e por aí vai. Em suma, passa da hora de uma completa reestruturação do ensino no Estado de São Paulo – eficiente, não estes projetos espantalhos que são trocados quase de ano em ano – contemplando, pelo menos, leitura e produção de texto, matemática e línguas estrangeiras. Mas nesta terra de Alkciministas, acabamos como alquimistas, esperando a transformação do mercúrio em ouro, sem que a mesma nunca se cumpra. Quanto a Serra, só vimos cortes, em todas as áreas, condizente a seu próprio nome.
E finalmente, a Unesp, que, segundo corre, baixou a média dos alunos matriculados, em todas as disciplinas e carreiras, para um prosaico 5. Cinco é a média de dez, e a matemática do “dois a três alunos” aceitaria tal fato placidamente. Mas é de se pensar se, quando, uma instituição de ensino nivela pelo meio o seu crivo de aceitação de um aluno, ela não estaria, justamente, formando um profissional, seja de qual área for, também pela metade. Alguém, desde que conheça as deficiências originais de educação em nosso país, e as “facilidades” como estas impostas por aquela Universidade, não preferiria ser tratado por um clínico que se situava entre o 7 e o 10? Ou por um causídico que esteve na mesma faixa de notas? Quem disser o contrário que monte no primeiro monumento de praça pública e grite: “quero ser atendido por um médico (advogado, dentista) abaixo do mediano”. Os que ouvirão, certamente irão concordar que o mesmo precisa não de um daqueles profissionais, mas de outros, munidos de uma camisa-de-força. Também não quero dizer que notas, durante o curso, são provas de um saber inquestionável. Mas há que se pensar, todavia, que, frequentemente, contribuem para o mesmo, e avalizam a prática e o conhecimento.
Em suma, há que se estabelecer um consenso, entre o ensino fundamental, o médio e o superior, quanto à sua ordenação, trânsitos, equivalências e finalidades: do contrário só continuaremos a reproduzir esta equação inútil que privilegia quem já tem privilégios, e exclui quem já foi excluído, levando o meio termo em “banho-maria”. Algo que, convenhamos, é lastimável.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 4 de junho de 2011].

Polêmica vencida

Há alguns dias, na grande imprensa, ocorreu uma sonora deblateração (“debate” é outra coisa bem diferente, e ele não ocorreu) acerca do livro Por uma vida melhor, e seu suposto desserviço pela educação no Brasil. Confesso que, como a maioria dos brasileiros, eu não o li. Mas, à diferença de muitos que também não o leram, não corri a falar mal dele, a desancá-lo em texto impresso, a pronunciar-me publicamente contra ou a favor do mesmo. Aliás, sempre vejo com certa prevenção este tipo de polêmica acerca de livros didáticos, geralmente levantada por alguns jornalistas ávidos para provocarem alguma celeuma em tempos de calmaria.
Dos textos que consultei esclarecendo tal embrulhada, gostaria de citar o de José de Souza Martins, professor emérito da USP, publicado n’O Estado de S. Paulo, em 22/05 p.p., por lembrar que o idioma falado pela maioria dos habitantes do Brasil, até 1727, era a língua geral, o nheengatu, do qual conservamos ainda o sotaque: “oreia”, em lugar de “orelha”, “falá” por “falar” e “tô” por “estou” – e desafio qualquer purista xiita do idioma a negar, publicamente, diante de sua família e de seus amigos, que algum dia empregou tais variantes.
Já o segundo texto (“perfeito” e “claríssimo”, de acordo com o Prof. Sírio Possenti, da UNICAMP, outra sumidade no assunto), que merece especial menção, é o de minha amiga Thaís Nicoleti de Camargo, consultora de língua portuguesa do Grupo Folha-UOL, o qual transcrevo para quem não teve a oportunidade de lê-lo:

A polêmica provocada pela publicação na imprensa de trechos do livro de Heloísa Ramos nasce da defasagem entre a visão do ensino da língua materna cultivada pelo senso comum e uma pedagogia desenvolvida com base na linguística.
Na condição de ciência, a linguística tem por objetivo descrever a língua, não prescrever formas de realização. O trabalho do linguista passa ao largo dos frágeis conceitos de "certo" e "errado". É fato, porém, que, para os leigos no assunto, o estudo da língua parece se resumir exatamente a esses conceitos.
A pedagogia que orienta a obra afronta, portanto, o senso comum, que se expressa no temor de que a escola vá passar a ensinar o "errado".
A ideia é mostrar que mesmo realizações sintáticas como "os livro" ou "nós pega" têm uma gramática, que, embora diversa da que sustenta a norma de prestígio social, constitui um sistema introjetado por um vasto grupo social – daí ser possível falar em variante linguística.
Embora goze de maior prestígio social, a norma culta é apenas uma das variantes, não a própria língua. A visão distorcida do fenômeno linguístico municia o preconceito linguístico, manifesto na inferiorização social daqueles que não dominam os recursos da variante culta.
Cabe a uma pedagogia preocupada em promover a inclusão tratar desse tipo de questão e fomentar entre os estudantes o respeito à forma de expressão de cada um.
Isso não significa, porém, deixar de ensinar a norma culta, que é o código de mediação necessário numa sociedade complexa e um meio de acesso às referências literárias e culturais que constituem a nossa tradição e reforçam a nossa identidade.” (In O senso comum confunde a língua com a norma culta. Folha de S. Paulo, 18 de maio de 2011).

Fazendo minhas suas palavras, o senso comum, que deveria ser chamado, na verdade, de “consenso raso”, é como uma ratoeira: fundamentado na tradição (conquanto seja, muitas vezes, uma velharia) e baseado no acolhimento unânime quanto à sua eficácia (o que demonstra comodismo), é estreito em suas funções (só serve para um rato de cada vez), e geralmente se volta ao combate de algo estranho aos seus hábitos (os referidos roedores), ainda que ponha em risco até mesmo quem se vale dele (ou dela: prendendo os dedos de quem a armou): que o digam os fantasmas daqueles que, baseados em seu senso comum, pediram pela libertação de Barrabás...
O problema é que os leigos, em geral, estribam-se no senso comum que, em boa parte emana dele mesmo, e campeia nos editoriais de certas grandes revistas e jornais, fazendo a fortuna de uns tantos articulistas, em seu perpétuo obrar apascentando o rebanho e suas consciências. Os leigos bradam, imploram por verdades absolutas, que caibam em sua visão reducionista de mundo. Não raro anseiam, sofregamente, por exatidões matemáticas invariáveis, à maneira do 2 + 2 = 4 (independentemente do fato de que 2 bananas + 2 maçãs não somarem nada ).
No meu curso de Especialização em Cultura e Arte Barroca, tínhamos uma colega que se horrorizava com a crítica histórica, fundamentada em documentos, que fazíamos de certos personagens, eventos, discursos, etc. Indignada, ela gritava que estávamos destruindo a história e concluía: “Então tudo que me ensinaram foi errado? Qual é a verdade?”, inquiriu, angustiada. Diante de nosso constrangimento, salvou-nos um professor: “A verdade, minha senhora, encontra-se somente no campo da Teologia e da Revelação, como premissa para quem nelas acredita. Nas ciências, a verdade é valida tão somente enquanto não for refutada, algo o que, muitas vezes, vem mais cedo do que se pensa”.
Concluindo, livros didáticos não são mais “cartilhas”, ou quase “vulgatas”, nos quais não se explica nada, só se deitam regras. Há cada dia eles vêm propondo, muito acertadamente, em minha opinião, discussões quanto à maneira como tal ou qual “verdade” vem sido aceita, divulgada, oficializada. E os mecanismos que a formaram, sua trajetória ao longo do tempo. “República” é uma palavra que se conhece desde a Roma Antiga. Seu significado é o mesmo desde aqueles tempos até hoje? Certamente que não. E por que tal não valeria para o estudo da Língua? Por que não podem ser mostradas as engrenagens que formam um saber e o tornam positivo?
Que venham mais obras como aquela, que motivou uma polêmica vencida por bons argumentos frente à ignorância de quem a fomentou. Temos de abrir a caixa do relógio, para mostrar que dentro dela não está o Tempo, mas apenas uma série de engrenagens construídas por alguém.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 28 de maio de 2011.].

quinta-feira, 8 de julho de 2010

A Farsa das bibliotecas falsas

No Brasil, por mais que se corra quanto a certos assuntos, que se busque rapidez nisto ou naquilo, somos ainda escravos de um atraso secular. E mesmo que algum progresso seja feito em certos campos, marchamos rumo a ele em passo de tartaruga. Para não dizer de caranguejo.
Veja-se o caso da Lei nº. 1244/2010, a qual determina que, dentro de um prazo de dez anos, todas as escolas brasileiras tenham uma biblioteca cujo acervo conte com pelo menos um título por aluno matriculado. Notem bem os números envolvidos: um título por aluno, em até dez anos. E, claro, a lei não diz uma só palavra quanto a possíveis punições a quem descumprir o que ela estabelece. Se forem os mesmos fiscais responsáveis pela verificação das bibliotecas de tantas faculdades particulares que existem por aí, tudo certamente ficará como está: o nada em pleno vazio. Ou, no máximo, poderá ser verificado aquele curioso fenômeno dos livros viajantes que se verifica em tantos centros de ensino superior privados: compram-se cinco mil volumes para a Unidade A, para fazer bonito na vistoria. Segue a fiscalização para a Unidade B e para ela, na véspera, muda-se o acervo. Quando chegada a hora da visita à Unidade C, lá estarão os mesmos livros viajantes. E no final se registra que o acervo total da instituição é de 15 mil volumes!
Que existam escolas públicas sem biblioteca, em minha opinião, já chega as raias do absurdo. Seria o mesmo que hospitais sem laboratório, ou quartel de bombeiros sem água encanada. Impossibilidades, em princípio, mas... paro por aqui: é bem provável que existam. Voltemos às bibliotecas e aos números.
O primeiro censo de bibliotecas públicas, encomendado pelo Ministério da Cultura e realizado pela Fundação Getúlio Vargas, traz resultados estarrecedores. Em primeiro lugar, ele revela que 445 cidades brasileiras ainda não tem bibliotecas municipais, o que equivale a quase 10% dos municípios em todo o país. E, ao mesmo tempo, apresenta gravíssimas distorções (os números, muitas vezes, suportam tudo). Sabemos através do levantamento, que Tocantins é o estado com maior índice de bibliotecas por grupo de 100 mil habitantes. Surpresa? Sim, mas esperem. É que ele possui 100 bibliotecas para 1 milhão e trezentos mil habitantes. E São Paulo – pobre São Paulo atrasado – quantas bibliotecas possui? Meras 673: arredondando, 7 vezes mais do que as de Tocantins, mas para uma população que é 32 vezes maior do que a daquele estado! Não é à toa que estamos em 22º lugar, perdendo até para o Maranhão! Situação pior (Acre, Pará e Amazonas não contam) só o que ocorre no Rio de Janeiro (38 bibliotecas a mais que Tocantins, para uma população 12 vezes maior), e no Distrito Federal (80 bibliotecas a menos – isto mesmo, a menos – do que Tocantins, para o dobro de habitantes daquele estado). Mas, em se tratando do Rio de Janeiro e DF (eternos motivos de críticas e piadas), e das administrações que tiveram por lá, já era de se esperar...
Surpreendente tal drama com ar de farsa. E as escolas ainda não têm bibliotecas. E terão ainda dez anos de prazo para implantá-las. Isto numa época em que tanto se tem discutido o futuro dos livros – não irão acabar, é certo, e deste assunto trataremos numa próxima ocasião – mas que sensíveis mudanças nos hábitos de leitura e publicações de títulos estão previstas, ou são vislumbradas.
Vejamos no que isto vai dar, mas as expectativas não são das melhores.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 18 de junho de 2010].

terça-feira, 30 de março de 2010

Educação doméstica: esta moda pega?

Os mineiros, de uma maneira geral, são bastante ponderados. Mas quando cometem alguma bobagem, às vezes ela é monumental. Dizem que a maior delas foi Brasília...
Brincadeiras à parte, é curioso este episódio do casal da cidade de Timóteo, MG, condenado pela Justiça por “abandono intelectual” dos filhos, visto que há quatro anos os retiraram da escola para que fossem educados em casa. Um pormenor interessante é que os rapazes, submetidos a uma prova de conhecimentos gerais elaborada pela Secretaria Estadual de Educação, não só foram aprovados como também conseguiram uma nota acima da média. E, ao que parece, os pais não possuem método educacional nenhum, deixando os estudos ao critério dos filhos.
O sucesso dos rapazes, neste caso, diante do exposto, deve ter se dado mais pela boa natureza e discernimento de ambos do que pela eficácia da educação doméstica. Pois, francamente, pensemos na maioria dos adolescentes que conhecemos se expostos a tais direitos de escolha, senhores de sua própria educação: ao cabo de um ano, ao invés de aprovados em sabatinas, seriam especialistas em Twitter, profundos conhecedores de frivolidades que circulam na internet ou coisas que tais. Em suma, se no caso dos mineiros deu certo, foi porque o material humano dos jovens era bom, de fato. Circunstância que não deve ser generalizada, evidentemente.
Esta história de educação caseira, entretanto, não é uma exclusividade daquela família mineira. Em todo país, sobretudo no Sul, tem aumentado o número de famílias que preferem que seus pimpolhos estudem só e exclusivamente em casa. Parece que é um modismo importado dos EUA, o nascedouro de nove entre dez excentricidades. Mas por lá existe toda uma série de aspectos por trás da questão. Muitos norte-americanos, por exemplo, tem uma tal aversão ao Estado, e a tudo que ele representa, a ponto de pretenderem passar ao largo de qualquer relação com “os burocratas de Washington”. E alegam razões tanto políticas quanto – na maioria dos casos – religiosas para tal comportamento. Por isso, metem seus rebentos em casa para lerem a Bíblia e aprenderem com o Arcebispo (anglicano) Ussher, que a Terra foi criada exatamente às 9 horas da manhã do dia 26 de outubro de 4004 a.C....
No fundo o que verdadeiramente tem ocorrido, no caso do Brasil, para criarem-se tais manias, nada mais é do que a insatisfação de uma certa classe média que se indigna com tudo, menos com o que deveria. Critica o Estado mas não se opõe a ele, somente às suas representações. Acostumada que está a viver em cápsulas (o trabalho monótono, o clube, o condomínio, o shopping center), pretende que seus filhos também vivam encapsulados, convivendo somente entre os “eleitos”, livres da convivência democrática (que para tal segmento social cheira à baderna – bom mesmo era no tempo da ditadura e do “sabe com quem está falando?”) que os filhos usufruiriam nas escolas.
Convenhamos que o ensino – público ou privado – tem se revelado muito insatisfatório em nosso país. No Estado de São Paulo, então, a situação é calamitosa desde, os leitores sabem muito bem, que um certo partido agarrou-se ao poleiro do poder por aqui. Se o raciocínio do casal de Timóteo vingasse nestas terras, a rede pública de ensino fecharia por falta de público – iriam todos para a privada. E não se culpe o professor por isto, é toda a estrutura que está errada, do maternal ao vestibular (e, em grande parte, nas próprias universidades também).
Ora, educação não é só transmissão de informações. É convívio com o outro, é troca entre colegas, multidisciplinaridade, convívio, e outras coisas mais que uma casa, por melhor abastecida de livros que possa ser, é incapaz de dar. Ou mesmo os pais seriam capazes, por mais bem intencionados que sejam.
Em suma, educação em casa é indispensável. Mas para que reafirme ou até conteste o que se aprende fora dela. O que ela não pode ser é exclusiva.
Não acredito que este modismo vingue. Entretanto no Brasil, em se tratando de modismos ruins, tudo é possível.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 27 de março de 2010].

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O retorno de Zeus

Como objetos esquecidos no fundo de um armário, adormecidos no escuro de um poeirento sótão ou porão, que se vêem retirados por um novo ditame do gosto, ou por saudade ou curiosidade, eis que uma antiga categoria de personagens começa a ensaiar novos passos rumo à luz. E não se trata de telefones de baquelite, mobiliário pé-de-palito, sapatos de saltos plataforma, calças boca-de-sino, presilhas de cabelo ou cartazes e camisetas com o rosto de Che Guevara. Não. Tratamos de personagens, e não de quinquilharias sujeitas a um gosto duvidoso ou à completa ausência deste. São personagens, não de carne e osso, que estes nada duram, mas de pano, papel, tinta, mármore, sonhos, anseios, desejos e terrores, pois tudo isto é o que, ao final, permanece. Falo, pois, dos antigos deuses e heróis da mitologia clássica, que depois de décadas de esquecimento fazem sua reestréia nas atenções do público brasileiro.
Uma rápida pesquisa nas livrarias mostra uma infinidade de títulos. Desde a Teogonia, de Hesíodo, o mais antigo do gênero e em edição bilíngüe, até as mais variadas adaptações para jovens ou adultos preguiçosos. Na última Bienal do Livro, por exemplo, O Livro de Ouro da Mitologia, de Thomas Bulfinch (Ediouro), uma seleção de meados do século XIX, tornou-se um grande sucesso de vendas e continua em tal patamar, desde a edição mais barata à mais cara, ilustrada em cores e de capa dura. Tamanho sucesso, aliado ao (bom) modismo dos 100 melhores contos disto ou daquilo, motivou a publicação, pela mesma casa editorial, dos 13 dos melhores contos da mitologia da literatura universal, em que grandes autores utilizam-se dos antigos temas. Há até uma editora que quase se pode dizer que é especializada no assunto, apropriadamente chamada Odysseus, e que publicou uma bem cuidada versão de alguns dos principais mitos. Sem falar em toda a vasta literatura lançada que tenta analisar os mitos e os deuses dos gregos e romanos.
Não sei se o fato de este ser um ano de Olimpíadas e delas justamente ocorrerem em Atenas contribuiu um pouco pela volta do interesse sobre o assunto. E, pelo menos no caso do Brasil, se toda a divulgação do filme Tróia não influenciou ainda o seu tanto. Mas se este for o caso, se tais forem os últimos motivos, ainda assim sejam louvados! Reintroduzir, pelo menos por estas plagas, um dos principais fundamentos da cultura ocidental no convívio da juventude, geralmente tão preguiçozinha e ignorantezinha, é uma obra e tanto.
Sob o pretexto que os antigos heróis e deuses não existiram, de que eram culto de uma gente morta e acabada, ninguém mais se ocupava do assunto. Vá lá, a religião dos gregos e romanos está morta, mas não suas influências. Qualquer estudo não muito superficial centrado nas representações de Heracles (o Hércules dos romanos, grande herói e semideus, filho de Zeus e de uma mortal) e Dioniso, qualquer estudo, dizia, revelará o quanto dos atributos destes personagens foram utilizados na construção histórica da imagem de Cristo, ao longo dos séculos. Se, lingüisticamente, e a língua é uma maneira das mais fortes de se urdir conceitos e mentalidades, a palavra “Deus” está muito mais próxima de “Zeus” (em grego, numa transliteração Diaus), do que o hebraico “Javé” ou “Jeová”, é de se perguntar o quanto daquele antigo deus clássico não migrou para a imagem da divindade cristã pelas mãos e idéias dos gregos e romanos — nunca é demais lembrar que Santo Agostinho, pilar do Cristianismo, foi um cultíssimo adorador de Júpiter e todo seu panteão.
Influências que atravessaram toda a Idade Média, a despeito do que geralmente se diz. E aqui fiquemos num só exemplo, e máximo: a Divina Comédia, de Dante, tem tantos personagens retirados da mitologia greco-romana quantos da tradição judaico-cristã, pouco mais ou pouco menos. A partir do Renascimento, então, abrem-se totalmente as comportas do vasto rio da tradição clássica. Os cupidos se tornam anjinhos (putti), Miguel Ângelo pinta a Criação do Homem, no teto da Capela Sistina, figurando um Deus que é mais Zeus que qualquer outro. Para cada grande de Espanha ou Nossa Senhora que saem dos pincéis de um Ticiano, sai um Apolo, uma Afrodite. E a lista é infindável, sucessiva, ininterrupta e abrangendo todos os ramos da arte e todos os períodos. Até a modernidade dela se impregnou: pois Jean Cocteau não fez sua releitura de Orfeu? Picasso não fez sua versão do minotauro?
Fechar os olhos ante a mitologia clássica é fechar os olhos a quase tudo o que de melhor as artes do Ocidente produziram. Tornam-se incompreensíveis, um código sem a senha. São prazeres, imensos, que deixam de ser desfrutados, coisa que a maior parte das pessoas não percebem. Perde-se a oportunidade de enriquecer a vida com modelos, idéias, saberes. Perde-se mesmo uma vaga na universidade, porque dos Lusíadas só se compreende, muitas vezes, que “havia um tal de Gama, não sei por que chamado Lusitano, e um monte de deuses que não existiram, fazendo não sei o quê”, como já ouvi de alguém.
Que voltem os velhos deuses, não como objeto de culto, mas de cultura. Que a juventude herde este tesouro tão vilipendiado e compreenda-o, dele descubra novos usos. Que Zeus e sua assembléia retornem, e que sejam bem-vindos. Evoé!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em data que não me recordo, mas anterior a agosto de 2004].

Uma verdadeira auto-ajuda

Tratamos neste espaço, recentemente, daqueles livros que costumam ser intitulados de “auto-ajuda”, e que se de fato tornam-se meio de alguma ajuda, esta deve ser principalmente para seus autores.
E como é minha política (no sentido lato da palavra), e de toda a gente de bem, apresentar uma sugestão a um problema que se tenha levantado — um hábito ora raro em nosso país, pois veja-se a eterna “oposição” que ora ocupa o topo do poder nacional, que tanto criticou e nada propôs, efetivamente — eis que o que se segue é uma continuação e um estímulo, modesto, reconhecemos, a certas considerações por parte dos leitores.
Acredito que as pessoas que cultivam o hábito da boa leitura são em boa parte mais imunes às crises de desespero, depressões, cansaço da vida, falta de motivação ou coisas do gênero, do que as demais pessoas. Creio mesmo que estão muito mais a salvo de alquebramentos espirituais, prostrações morais e abatimentos psicológicos do que aquelas outras que lêem somente porcarias, ou das que não lêem absolutamente nada.
Quem é religioso e segue sua fé conforme os preceitos sabe exatamente disto. É o caso da Bíblia, socorro para todos os cristãos, e que, independentemente de sua versão, sempre serve de referência. Bem como todas as leituras próximas, ou complementares, quer seja a Legenda Áurea, de Tiago de Varaze, quer seja O Livro dos Mártires, de John Fox, quer as obras de Santo Agostinho, São Tomás de Aquino, Martinho Lutero ou John Wesley, dentre tantos outros. O mesmo se aplica aos muçulmanos e suas leituras do Corão e do Hadith — este que serve de complemento ao livro sagrado do Islã —, e aos judeus, com a Tora, o Talmude e demais compilações rabínicas. E paro por aqui em razão de que católicos ortodoxos ou orientais, hinduístas, confucionistas, budistas, xintoístas e tantos outros fiéis das mais variadas religiões do mundo são uma minoria minúscula no Brasil e, portanto, fora do convívio quotidiano dos leitores. Mas, sem sombra de dúvida, todos eles têm seus livros sagrados, que lhes servem de guia de conduta e consolo diante das tribulações do mundo, desde que devotos.
Mas também há inúmeros outros campos do conhecimento e do saber que são grandes estímulos às pessoas, quer na vida como um todo, quer naqueles momentos de privação, dor ou desespero. Pois que outra coisa não tem sido a Filosofia, ao longo dos séculos, do que uma ajuda, uma baliza para o homem frente aos dissabores, e mesmo os prazeres, da vida? Vá lá que Aristóteles esteja defasado na sua análise da Física, Química, Medicina, Zoologia e noutros vários aspectos do conhecimento humano. Mas sua análise do indivíduo, com seus poderes e limitações, bem como seus pressupostos morais, são consistentes até hoje. E o mesmo podemos dizer a respeito de muitos dos pensamentos, e ensinamentos, por assim dizer, de Platão, Cícero, Sêneca, Plutarco, Marco Aurélio e Plotino. Sem falar em tantos outros pensadores do Oriente, mesmo do Oriente, mais remoto, do qual Sun Tzu seria apenas o mais conhecido.
Que guias ótimos para o viver e justo proceder do homem nesta terra não foram aqueles sábios — não porque diretamente inspirados por uma vontade para além da humana, mas porque conheciam também a vida e pesavam as várias paixões e desencantos que nos conduzem neste orbe, e suas maiores e suas mais ínfimas relações com o todo — qual Montaigne, Cervantes, Shakespeare e o nosso Camões! E já que adentramos no campo da Literatura, quantos tesouros, quantas florestas de exemplos para a vida não podemos retirar deste magnífico campo do saber humano, desta fonte inesgotável de arte, beleza e prazer.Pois de cada bom livro, podem-se tirar inúmeros exemplos, edificantes ou mesmo reconfortantes. Mesmo que sejam livros com histórias terríveis. Mesmo que os autores tenham idéias condenáveis perante aquilo que acreditamos, pois a boa dúvida, a dúvida fruto da investigação de uma mente curiosa será sempre bem-vinda se por meio dela queremos mudar o mundo e a nós mesmos. E, por isso, perguntamos: a “boa dúvida”, por assim dizer, pode ser instigada por autores de poucos recursos?
Mas há quem diga que o problema seja outro. “Ora”, dizem alguns, “para se ler tanto é preciso tempo e dinheiro. E quem tem isto hoje em dia?”, arrematam. De fato, precisa-se de tempo. Mas este pode muito bem se subtraído de atividades infrutíferas como assistir às maçantes telenovelas, os previsíveis jogos e partidas em geral e aquelas insuportáveis mesas redondas esportivas nas quais são discutidas as profundezas de assuntos sabidamente rasos. Deixemos as Hebes, Faustões, Galistéias e Kajurássicos para lá, no mesmo limbo que os folhetins com peões, imigrantes ilegais e quejandos. Quanto ao dinheiro, ao custo para a leitura, trata-se de outra falácia, pelo menos em nossa região: pois não há uma biblioteca pública das redondezas que não possua em seu acervo vários exemplares dos autores citados.
A questão, no fundo, quanto à escolha do que ler, poderia ser resolvida por uma quase parábola, de sabor ancestral: “Separemos, portanto, o joio do trigo. Pois se o primeiro só dá lucro para quem de má-fé o junta ao cereal, na pesagem, será o grão que, verdadeiramente, dará alimento e geração”.
Ou não?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 29 de novembro de 2005].

Luz e sombra na pintura italiana: última chamada!

A exposição Luz e sombra na pintura italiana: entre o Renascimento e o Barroco — abrigada na Pinacoteca do Estado por uma curtíssima temporada que se encerra neste domingo, 30 de abril — é até agora o grande evento do ano no campo das artes. Apresentando pouco mais do que sessenta pinturas formidáveis realizadas nos séculos XVI e XVII, e nunca antes expostas no Brasil — o que já era de se esperar — ou mesmo na América Latina, é uma pequena, mas significativa amostra do que se produziu no período. Mas ao mesmo tempo que ela é, como se diz, “imperdível”, muito bem organizada, apresentando um ótimo acervo, etc., ela também padece de alguns deficiências um tanto quanto graves. Mas vamos às boas notícias, em primeiro lugar, ainda que seja necessária, primeiramente, uma ressalva.
Já de antemão previno aos leitores e potenciais visitantes de que não há nenhuma obra ali exposta que tenha sido reproduzida em livros ou em outros meios de divulgação de maior escala. Quem quer que visite a exposição não vai se deparar com nenhuma pintura e pensar coisas como: “ah, esta eu me lembro de ver estampada num livro da escola”, ou “aquela ali eu já vi à venda numa loja de pôsteres”, ou ainda “aquela outra eu tenho reproduzida num calendário”. Não, nada disso. Nada de obviedades, por melhores que elas sejam, nem de unanimidades, por mais questionáveis que estas possam ser. O quê, acredito, é uma grande virtude num tipo de mostra marcadamente didática — na melhor acepção do termo — como a presente.
Por que didática? Porquê toda ela foi montada de uma maneira que se possa contemplar a produção de três dos principais centros irradiadores da arte do período, no caso Roma, Veneza e Bolonha, e de acordo com suas características próprias, ou seja, o predomínio da luz, na primeira, da sombra, na segunda, e um certo meio termo, na terceira.
Ela é bastante didática, também, na própria escolha dos artistas representados. Nela o visitante poderá ver não só algumas obras estupendas de grandes mestres italianos — como Ticiano, Veronese, Bernini, Lorenzo Lotto, Guido Reni, Guercino, Salvator Rosa, Paris Bordone e Palma, o Jovem — mas também pinturas de outros artistas igualmente sublimes que estudaram e pintaram na Itália durante certo período de suas vidas — El Greco, Ribera, van Dyck e Simon Vouet, para ficarmos somente nos mais famosos. E, ao mesmo tempo, pode ser vista a ótima produção de pintores menos conhecidos pelo grande público — e até por grande parte da crítica, salvo especialistas e colecionadores. Ainda que seus trabalhos sejam claramente inferiores aos dos grandes nomes citados, dão uma ótima noção do ambiente, do que se produzia então, e da razão mesma de certos vultos terem passado para a posteridade e outros figurarem ainda como meras silhuetas imprecisas: a diferença entre o gênio, por assim dizer, e um artista talentoso, esforçado, mas relativamente limitado em suas pesquisas, idéias, sensibilidade e autonomia.
Outro aspecto relevante da exposição é que ela, em sua grande maioria, é composta de retratos, e retratos de meio-corpo, um gênero de representação poucas vezes exposto nos museus nacionais com tal amplitude, pois a ênfase geralmente recai sobre os temas históricos, mitológicos ou bíblicos. Todavia, nada pertence mais claramente ao Renascimento e ao Barroco do que o retrato, na sua ânsia de individualizar o homem, de quase torná-lo sagrado, à semelhança das divindades e santos ao mesmo tempo que o revela tão humano.
Depois de tantos elogios, há que se fazer algumas censuras. Pois a crítica nada mais é do que um meio termo entre estes dois pólos.
Em primeiro lugar, o nome da exposição é um tanto quanto pretensioso, se não beirando uma certa megalomania. Sugere que apresentará tudo o que de mais expressivo, de mais característico, foi produzido contrastando a luz e a sombra, bem como os principais artistas que assumiram flagrantemente sua opção por um ou por outro termo desta antítese. Assim, clama aos sentidos e à razão a falta de Rafael, pintor luminista por excelência, e dos Carracci, seus seguidores, por um lado, e, por outro, de Caravaggio, o supremo tenebrista, e todos os caravaggescos, que acompanharam seus passos. Outro ausência inquietante, é a de obras produzidas em Florença, pátria da luz, e de Nápoles, que ainda que mais ensolarada que a primeira, produziu toda uma escola baseada na sombra.
Mas se tudo isto fosse contemplado, a exposição seria não somente ótima, e sim magnífica. Temos que recordar que seu acervo não foi montado escolhendo-se obras de grandes coleções públicas: tudo o que está ali pertence a um único colecionador e, portanto, o conjunto foi mais moldado por seus gostos particulares do que por uma diretriz sistemática, absoluta. Por este motivo, entendemos também porque as pinturas apresentam um aspecto como se fossem novas ou, no máximo, de um século atrás: a vulgar restauração de que foram vítimas livrou-as da pátina do tempo, e todas elas resplendem talvez mais do que no momento em que foram criadas — como se um Ford de 1920 fosse encerado à maneira dos carros atuais, com suas pinturas metálicas. Não sejamos, entretanto, tão críticos quanto ao dono da coleção. Muito mais digno, honrado, nobre, é colecionar grandes obras de arte e exibi-las ao público, do que amealhar automóveis luxuosos e entesourá-los em garagens, como fazem os ignorantes milionários do Brasil.
Em suma: domingo é o último dia da exposição e ela é um deslumbramento só. Mais erudição do que se pode imaginar, e por muito menos do que geralmente se paga. O custo total — ônibus, metrô e ingresso — é até menor do que o do rodízio dominical na churrascaria mais próxima. E, convenhamos, o que se come ao meio-dia, já foi esquecido às seis da tarde. O que se adquire de cultura, acompanha-nos para o resto da vida.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 29 de abril de 2006].

Filosofia e Sociologia contra a apatia

O Brasil é considerado um fenômeno dentre as nações modernas por sermos capazes de criar inúmeras legislações que não têm eficácia. Tente-se, por exemplo, explicar a um estrangeiro porque determinadas leis “pegam” e outras, não. É praticamente impossível. Vemos não só que nossos argumentos não param de pé como reconhecemos, ao mesmo tempo, o absurdo desta nossa excêntrica situação — que nem é legal, mas moral, principalmente.
Veja-se, por exemplo, a lei que instituiu — e está em plena vigência — o ensino da Filosofia e da Sociologia no Ensino Médio. Ela existe, foi aprovada segundo os conformes e, no entanto, contam-se praticamente nos dedos as escolas que oferecem aquelas disciplinas aos alunos neste início do ano letivo por todo o país. Mas por que motivo não o fazem? Ou melhor, o que alegam estes contraventores penais — que é no que acabam se tranformando ao descumprirem a lei?
Quanto aos Estados, saem-se pela tangente. Alegam que não há mão-de-obra suficiente e que não há recursos. Ora, recursos sempre há. A prova é que dia sim, dia não, mas principalmente no encerramento das administrações, descobre-se algum desvio de recursos nalgum Estado do país. Pela Lógica — um dos campos da Filosofia que, enquanto disciplina, não querem as autoridades que seja adotada — chega-se facilmente pois à conclusão de que os recursos existem e que devem ser muitos, a ponto de sua saída fraudulenta ser tão pouco notada pelas autoridades competentes. Os cofres devem estar realmente abarrotados, pois só isto explica que os freqüentes descaminhos de somas consideráveis sejam notados somente muito tempo depois que ocorreram. Quanto à falta de profissionais, é de se perguntar: se estão fazendo PPPs (Parcerias Público-Privadas) para todo tipo de obras — pagas com uma rigidez e pontualidade que os precatórios alimentares nunca conheceram — por que não tentar alguma coisa do gênero na Educação? Por que não criar convênios com universidades, cooperativas de ensino, etc?
Da parte da iniciativa privada, as críticas, absolutamente, não procedem. Não propaga esta a sua “excelência de ensino”? Então, que provenha o melhor para a formação de seus educandos. Mas isto implica custos, é verdade. Pois a família dos alunos que arquem com eles! Afinal, o que mais os pais podem legar aos filhos do que uma sólida educação intelectual e moral? Dinheiro? Se o filho for um doidivanas, gastará o que herdar antes mesmo de conhecer o montante. E se o inventário se arrastar demasiado, conhecerá só dívidas, ou restos. Além disso, aluno bem preparado é o que entra numa boa universidade e que se torna um bom profissional, de renome, de projeção. Quantos não padecem em áreas como o Direito, a Economia, a Propaganda e o Jornalismo, por exemplo, em virtude de seus parcos conhecimentos quanto à Sociologia e à Filosofia? E quantos outros mais não naufragam pelo absoluto desconhecimento da Lógica em todas as funções?
As críticas, todavia, mais questionáveis, e olhem que abundantes, vêm de muitos profissionais do ensino. Tome-se, por exemplo, a de uma ex-conselheira do MEC, que disse recentemente a uma revista que a introdução da Sociologia e Filosofia na grade “[...] é uma pena [...]. Toda a orientação é para que não existam disciplinas, mas, sim, competências para que as escolas possam escolher sua proposta pedagógicas. [...] Esses conhecimentos [Filosofia e Sociologia] podem ser trabalhados em História, Geografia e Literatura”. Assim sentenciou a ilustre educadora...
Mas como é que se espera que os professores já existentes consigam suprir tais informações durante a exposição de suas disciplinas, já que mal há tempo para o básico, por assim dizer?
Pensemos, por exemplo, no caso de um professor de História que esteja ensinando a chamada Idade Moderna (para quem não lembra, estabeleceu-se que ela teve início em 1453, ou 1492, e seu fim em 1789). Pois bem, como é que se resume mais de 300 anos de história, e de história conturbada, num único ano, e tratando também das variadas correntes filosóficas surgidas ou aprimoradas naquele período? Nem por “decoreba” do tipo “catecismo” — P: Quem foi Voltaire? – R: Filósofo francês do século XVIII. – P: Que grande evento ocorreu poucos anos após sua morte? – R: A Revolução francesa... É isto que se quer? Porque seria isto, no máximo, o que o tempo permitiria, e o que, convenhamos, não é educação, mas, sim, adestramento de papagaios.
O mesmo também não poderia ser feito por um professor de Literatura. Se um estudante — por deficiências várias que vão desde um mau ensino de origem, passando pelo desestímulo à leitura por parte dos pais e da sociedade, e culminando na preguiça — mal e mal entende, tropeçando no vocabulário, algo como, digamos, um romance realista qual O Cortiço, de Aluíso Azevedo, de que maneira o professor da área pode ensinar-lhe a respeito de Marx e Durkheim, que foram contemporâneos do autor? Impossível!
Em suma, que venham a Filosofia e Sociologia para a grade. Ou melhor, que encha-se o horário escolar de toda a sorte de disciplinas, por que lugar de estudante é na escola. Chega dessa farra de ficar vadiando na rua, matando tempo em frente da televisão ou trocando banalidades pelos orkuts e que tais. E, por outro lado, basta de menores de idade trabalhando, que é péssimo para eles e para a Economia. Assim, que retorne a Educação Artística, com Música, Desenho, História da Arte e até Trabalhos Manuais. Que se estudem as religiões nas suas origens, desenvolvimento e nos seus valores. Que retorne a Educação Moral e Cívica, menos rançosa, mais arejada, ensinando que há leis no Brasil e que é nosso dever obedecê-las, concordando ou não. Mas que também ensine aos nossos jovens os meios democráticos de alterá-las, ao mesmo tempo em que os faça execrar a burla, a contravenção e o crime.
Que se ponha o aluno na escola, por seis, oito, dez horas. Com aulas, esportes, tempo para a leitura, reflexão e descanso. Que se reescreva a história da educação no Brasil. Mas, antes, que defendamos, todos, a aplicação da Filosofia e da Sociologia no currículo do ensino médio. É um direito consagrado pela lei. E uma aposta garantida no futuro.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 17 de fevereiro de 2007].

Prendam os suspeitos de sempre!

Quem assistiu àquele ótimo filme que é Casablanca (EUA, Warner Bros., 1942), ao ler o título da presente crônica, entenderá o que quero dizer. Para aqueles que nunca o viram, explicarei o sentido. Numa das últimas cenas, depois que um assassinato é cometido (não contarei o porquê nem o como, para não estragar o final), o chefe de polícia, francês, da cidade marroquina, para ocultar o verdadeiro autor do crime, manda a seus soldados que “prendam os suspeitos de sempre”. A expressão fala por si mesma. Mas o que isto tem a ver com o tema de hoje? Qual sua relação com o Brasil atual? Tudo. Ela é completa, e não é de hoje. Do medo, ainda em princípios do século XIX, de que houvesse uma grande rebelião de escravos em nosso país, tal como se dera no Haiti, à repressão aos movimentos regionais, pelo temor de que o Brasil se fragmentasse como os domínios espanhóis na América. Da saúva, como inimigo maior da economia brasileira, ao “Plano Cohen”, a falsa conspiração comunista que serviu de fundamento para a instalação do Estado Novo. Da Guerra Fria, durante a qual nossas autoridades ora agiram como sabujos — ávidos por acharem rastros de tudo e de nada, ora como fraldiqueiros — servis cãezinhos a abanar, sem descanso, a cauda — à caça ao boi-gordo, aos inimigos do “Plano Cruzado”. Dos “marajás”, da “ética na política”, por quem não tinha ética, nem fazia Política com “P” maiúsculo, aos dias atuais. E, agora, aos professores como alvo das mazelas na educação. Em suma, prendam os suspeitos de sempre, para que o verdadeiro criminoso permaneça impune.
Nesta última segunda-feira, pelo menos um grande jornal de São Paulo estampava uma bombástica manchete em sua primeira página, revelando dados estarrecedores. Tratava-se do resultado do último exame do Saeb (Sistema de Avaliação da Educação Básica), o qual revelou que quase a metade dos estudantes do Estado de São Paulo termina o ensino médio (antigo colegial) com conhecimentos em escrita e leitura correspondentes aos que se espera dos alunos da oitava série (o último ano do antigo ginásio). O exame apontou que 43,1% dos alunos do terceiro ano tiveram notas inferiores a 250, que, de acordo com a escala fixada pela Secretaria de Estado da Educação de São Paulo, corresponderia ao mínimo esperado na conclusão da oitava série. Já outros 15,2% dos alunos tiveram desempenho considerado ainda pior, equivalente ao que se almeja de crianças da quarta série do ensino fundamental (antigo primário). E quanto à situação dos alunos da rede privada, ela não é muito melhor: só 21,2% superior à media dos estudantes de escolas públicas.
Um das causas pra tal catástrofe, apontam os especialistas, seria resultado das péssimas condições de trabalhos dos educadores, submetidos a jornadas duplas, às vezes triplas, de trabalho: 70% dos professores têm emprego em mais de uma escola. Ou seja, professores exaustos não podem dar uma boa aula. Com o que concordamos, evidentemente. Mas por que eles têm jornadas duplas, triplas? Por que são gananciosos, e precisam de tantos empregos para o custeio de uma vida de luxos e excessos? Por que são viciados em trabalho, como os atletas o são em analgésicos, ou os políticos, em poder? É claro que não. Porque são historicamente mal pagos, porque não recebem estímulos em sua carreira — não importa a formação, as pós-graduações que tenham, o ganho salarial que recebem sobre isso é mínimo. Mas esta é só uma face, não digo da moeda, mas sim do dado, porque tal problema não se resume a apenas dois lados, pelo contrário, ele é poliédrico. Pois há outros fatores que agem sobre esta equação pérfida.
É um fato, incontestável, que há menos professores do que a demanda exige. Ou seja, menos gente está disposta a abraçar o magistério. E por quê? Ora, por motivos óbvios. Quem quer se submeter a jornadas extenuantes e mal-pagas, a ser degradado pelo Estado, pelos donos de escolas, e por boa parte da sociedade, e ainda expor-se a uma turba cheia de direitos e rarefeita de deveres? Exagero? Não. Qual a autoridade delegada a um professor frente a um aluno que goza das benesses da “progressão continuada”? Qual a expectativa quanto ao trabalho esperada de um profissional do ensino público diante de uma política educacional mantida por um único partido, o PSDB, durante quinze anos, no Estado de São Paulo, e que, a cada secretário novo, mudava de enfoque, de nome, mudava seus objetivos?
E o que dizer do papel das famílias? Quantas não entregam seus rebentos à escola — mal-educados desde o berço, expostos que foram a uma série de vícios de origem, a comportamentos, palavras e gestos infames — pretendendo que a mesma dê conta de formá-los de acordo com um ideal que os próprios pais não praticam? Pai que não lê, não pode esperar que o filho leia. Mãe que não acompanha os estudos de sua prole, não pode esperar que a mesma estude. E vice-versa.
Chega, portanto, de se querer prender os suspeitos de sempre. Larguem do pé dos professores. Os culpados são o Estado, alguns ávidos donos de escola que vêem a educação como simples mercadoria, e muitos, muitíssimos, pais e mães. Não quero dizer, entretanto, que os professores sejam as vítimas maiores. Não só porque há, sabemos, entre eles, alguns malandros, pois existem malandros em toda e qualquer atividade, classe social, igreja, etc. São vítimas, sim, porque estão na linha de frente do desastre, do qual já vemos claros indícios, e que se cumprirá num horizonte bem próximo. Pois a vítima maior, é o próprio futuro da sociedade, do país. Pena que o Estado, e, principalmente, o Estado de São Paulo, imerso numa estúpida política neoliberal travestida de social-democracia, não enxergue isto. Nem muitas famílias. Mas que fique aqui o lembrete. Pois se não mudarem suas práticas, o Tempo há de cobrá-los, e da pior maneira possível.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 6 de outubro de 2007].

Novas considerações acerca da educação “tucana”

Desde 1995, ou seja, há doze anos, o governo do Estado de São Paulo vem sendo conduzido por uma única agremiação política que se perpetua no cargo por meio das mais improváveis relações. Inimigos figadais tornaram-se seus aliados de primeira hora; simpatizantes históricos foram relegados ao limbo; tudo isso em prol das alianças mais vantajosas, que garantissem a um grupelho sua permanência no poder. Dessa maneira, o que era para ser uma representação democrática, mais e mais foi se convertendo num reino, governado por uma oligarquia local, com ares dinásticos, com direitos de sucessão problemáticos, mas nem um pouco como veremos. Com isso, já lá se vão doze anos de arbítrio exclusivo do PSDB.
Durante este longo reinado, assistimos ao “Roubo-Anel”; aos buracos, às crateras do Metrô, engolindo gente; a um governador que posou para as câmeras, qual artista de telenovela, negociando, pessoalmente, com um seqüestrador, o papel da vítima, riquíssimo empresário, mas deixando perecer o réu, caçado que foi, qual animal ferido, e abatido, como fera sangrenta.
Quase nada mudou nas estradas estaduais. Pagamos por um pedágio muito mais alto, sobre estradas que, todo mundo sabe, eram excelentes. E curiosamente sob a nova privatização do atual governo, revelaram-se muito mais baratas quanto aos custos daquelas praticadas pelo seu emplumado antecessor.
E não bastasse isso, eis o escândalo da educação. Além de a maioria dos estudantes paulistas do Ensino Médio, seja público ou privado, terem sido rejeitados nos exames nacionais que provam sua competência, eis que somos informados de que no estado do Acre — uma quase ficção no pensamento dos paulistas — tem-se um desempenho muito melhor de seus alunos no mesmo exame, e por um motivo bem claro: os professores de lá ganham muito mais que os daqui.
Em suma, ainda que muitos se queixem de que vários estados são mal representados politicamente (poucos deputados e poucos senadores em relação à área abrangida e o número de eleitores), um mal muito pior ronda a democracia brasileira, partindo de um estado que se diz predominante na política nacional: o descaso pela educação, o pagamento vil aos professores, cuja principal prova é atual prática salarial do governo do estado de São Paulo.
Tal descalabro já era esperado desde a última publicação dos resultados do ENEM (Exame Nacional do Ensino Médio). Naquela ocasião os especialistas foram unânimes em dizer que, de fato, o baixo desempenho dos alunos devia-se à pouca motivação dos professores. Motivação esta que, sabidamente, seria notável, desde que bem remunerados, como atestam os estudos e o próprio bom senso.
Portanto de nada valem medidas paliativas de reforma educacional propostas pelo governo endêmico da social-democracia paulista, na última década, frente a realidade nacional. A verdade é que sempre faltou um projeto, real e específico, para o setor educacional. Como, ao fim de tantos anos, com amplos poderes políticos, não foi implementada uma política educacional eficaz em um estado tão mais privilegiado de recursos do que o Acre?
Numa administração que se orgulha de dizer que saneou as contas públicas, é de se esperar que a mesma aplique seus fundos restantes em uma política efetiva para a Educação. Já que não temos segurança nem saúde, que a atual gestão se ocupe com mais seriedade da formação dos futuros cidadãos.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 20 de outubro de 2007].

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A Volta dos Capitães

A lista de livros para os candidatos aos vestibulares da USP e da Unicamp inclui, neste ano, um livro bastante curioso. Trata-se de Capitães de Areia (1937), de Jorge Amado (1912-2001), um escritor cuja trajetória, sobre muitos aspectos, é até mais interessante que o conjunto de sua obra.
Jorge Amado foi, durante décadas, para muitos, o maior nome da literatura brasileira do século XX. Para outros tantos, a suprema esperança de projeção das letras nacionais para o mundo todo. E, para o Partido Comunista Brasileiro (PCB), o grande sonho de emplacar uma voz que ecoasse sua ideologia por todo o globo.
Seus méritos como criador de tipos são inegáveis. Sua galeria de coronéis do cacau, senhores de terras, de costumes, de vícios, de valentias e despotismos compõe boa parte do melhor que já se escreveu neste país no campo das belas-letras. Suas denúncias quanto às ásperas condições da Bahia de seu tempo – seria apenas a de seu tempo? – valem por dúzias de trabalhos sociológicos, antropológicos e, de certa forma, históricos. Ele era, sem sombra de dúvida, um grande criador, capaz de aliar uma viva imaginação a uma precisa memorialística e, ambas, à arguta observação de uma época, de uma região, de uma série de práticas e costumes que, se hoje parecem meio distantes no tempo, não os são, todavia. E delas foi capaz de esboçar um retrato bastante vívido. Esboçar, bem entendido. Nunca se aprofundou, como deveria, quanto ao assunto, por motivos bem conhecidos: por sua opção política que, se em grande medida prejudicou sua “obra”, por outro lado granjeou-lhe toda uma sólida reputação, para o bem ou para o mal, em bem determinados e bem específicos meios.
Como porta-voz de uma certa “estética” comunista, o escritor baiano colheu vários frutos. Ganhou, por conta desta sua opção política, o Prêmio Stalin da Paz – mais tarde renomeado Lênin da Paz – (Moscou, 1951), o Prêmio Dimitrov de Literatura (Sófia, Bulgária, 1986) e o Prêmio Pablo Neruda, concedido pela Associação de Escritores Soviéticos (Moscou, 1989) – sendo, este último, considerado uma espécie de “prêmio de consolação”, já que o poeta chileno Neruda (1904-1973), mais comunista que o nosso escriba, abiscoitara o Nobel de Literatura em 1971.
A fase — digamos — “panfletária” de Jorge Amado foi o pior desvio de sua carreira. Toda sua espontaneidade e vigor acabaram tolhidos, mutilados, vítimas de um discurso que, evidentemente, vinha de fora para dentro, e não o contrário. Não falo apenas daquela trôpega, empolada e artificial “biografia” que tinha o líder comunista Luiz Carlos Prestes (1898-1990) como herói, incensado de tal maneira que um leitor desavisado pensaria se tratar não da vida de um homem, mas de um santo, de um novo Messias. Nem tampouco me refiro, por conta disto, àquele péssimo livro que foi A Albânia é uma festa (1951) – que, mais tarde renegou, mas o estrago já havia sido feito: chamar de festa aquela sórdida ditadura permanecerá, para sempre, como uma indelével marca em sua trajetória como homem e como escritor. Penso, sobretudo, na obra ora em questão, nos Capitães de Areia, um ótimo livro com um péssimo capítulo final: toda vez que o releio – é ótimo o seu início, espetacular o seu entrecho e decepcionante o final – tenho vontade, sincera, de arrancar o último capítulo, editar o romance por minha própria conta, para o meu bem e dos leitores: os personagens de Jorge Amado, neste romance, não merecem o fim que seu criador a eles destinou, nem do ponto de vista moral, nem estilístico, nem factível. Os meninos de carne e osso, tema do livro, transformam-se em personagens de papel-cartão. E mais não falo, porque sei que alguns de meus leitores não conhecem a obra, ainda que devam.
Leiam e releiam o romance. É ele uma prova cabal de que meter política no meio de uma narrativa, como diria Stendhal (1783-1842), é o mesmo que disparar um tiro durante um concerto: uma violência dissonante, e sem o menor sentido.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 17 de janeiro de 2009].