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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Papai Noel subiu no telhado...

Por iniciativa de uma entidade assistencial ligada à Confederação dos Bispos da Alemanha, foi criada uma campanha intitulada “Zona livre de Papai Noel”. Seu objetivo é o de resgatar São Nicolau, bispo de Mira (atual Turquia), no século IV, que, por ajudar as pessoas pobres e ser um amigo das crianças, serviu de inspiração para o símbolo do Natal. E a causa do resgate de seu culto relacionado a tal data é bem simples: porque este santo sempre foi o símbolo da celebração natalina naquele país (ao lado do Presépio, é claro, o primeiro e mais importante) e porque se pretende combater o “consumismo” nas festas de fim de ano, identificado com o “Bom Velhinho”. A pequena cidade alemã de Fluorn-Winzeln aderiu ao apelo da campanha e declarou seu território, portanto, uma “Zona livre de Papai Noel”: as escolas e os comerciantes retiraram as decorações relativas ao recém-banido Noel, e colaram, nas vitrines e muros da região, adesivos com um sinal de “proibido”. E cartazes com o rosto do personagem atravessado por uma faixa vermelha, semelhante às placas de trânsito de “proibido estacionar” podem ser vistos no interior de lojas, repartições públicas e junto à sinalização que marca as entradas do município. Especula-se que outras municipalidades irão aderir ao movimento.
Já na Argentina, o bispo católico Fabriciano Sigampa, da diocese de Resistencia, capital da Província do Chaco, além de banir o velho Noel da decoração natalina, vem exigindo a “oficialização pública da inexistência do ‘Bom Velhinho’”, pois, segundo ele, Papai Noel faz “concorrência direta” com Jesus Cristo no tocante ao Natal. Ele exorta aos pais, em programas de rádio, canais de TV locais e missas, que digam a seus filhos a verdade. Se estão acatando suas instruções, não sabemos ainda. Mas, para evitar as críticas do bispo, os comerciantes de Resistencia, sem qualquer resistência, vêm retirando a figura de Noel de suas vitrines.
Estas temporadas de caça ao velho barbudo não são novidades – já tratei do tema numa crônica de 24 de dezembro de 2008, intitulada “Dissecando o Papai Noel”, por ocasião do lançamento do ótimo livro de Claude Lévi-Strauss O Suplício do Papai Noel, em que trata de um episódio ocorrido em Dijon, França, em 1951. Permitam, aliás, uma curta transcrição:

“Diante de uma platéia formada por algumas centenas de crianças internadas em orfanatos, um boneco representando Papai Noel foi enforcado e incendiado por padres católicos. A justificativa para tal ato sustentava-se, segundo os organizadores do auto-de-fé estilizado, no fato de que aquela figura natalina seria, na verdade, a representação de um deus pagão e, portanto, anti-cristão. De acordo com o manifesto divulgado por eles ‘não se tratou de um espetáculo, e sim de um gesto simbólico. Papai Noel foi sacrificado em holocausto. De fato, a mentira não pode despertar o sentimento religioso na criança e não é, de modo algum, um método educativo’”.

É, parece que Papai Noel subiu no telhado, não necessariamente para entregar presentes pela chaminé, porém mais de acordo com uma velha piada... Pois a verdade é que, como ora podemos verificar, alterou-se o motivo da condenação à sua figura. Não mais o associam a uma entidade pagã e, sim, à sua substituição como símbolo da festa natalina, usurpando a própria Pessoa de Jesus (causa primeira, indiscutivelmente da celebração do Natal: um fato tão óbvio que nem muçulmanos, nem judeus, nem budistas, nem umbandistas, nem praticantes do candomblé, nem espíritas, nem ateus e nem agnósticos podem discordar, até por uma questão de lógica). Afinal, a data celebra o Advento de Jesus, Salvador dos Cristãos, e não a chegada do Papai Noel – o que é evidente, mas nunca é demais frisar. E, também, atualmente, vem se vinculando o velho alvirrubro à personificação do consumismo desenfreado, um patrono das compras vertiginosas em detrimento de um presente simbólico. Pois como Papai Noel daria, e não compraria, seus presentes, seria possível montar-se uma farsa, um álibi, aos consumidores, confundindo-se a graciosidade de um regalo com a ilusória ideia de que os mesmos seriam “de graça”, sem custo a ninguém – ou em suavíssimas prestações que o bolso nem sentiria...
Mas que o Papai Noel é um símbolo do consumo, ninguém tem dúvida. E a prova vem direto da Secretaria da Fazenda do Estado de São Paulo que, em campanha recente, mostra uma menina perguntando, sentada no colo do velho Noel, se é ele quem compra – frise-se, compra – todos os presentes que dá (veja-se que a ideia de dom, de gratuidade, que o sustenta enquanto símbolo, é racionalmente, convenhamos, mas um tanto quanto cinicamente, banida). E ante a assertiva do rubicundo idoso, a menina concluiu que se tal o faz é somente para gozar da devolução de tributos pela Nota Fiscal Paulista!
Celebrar o Natal, portanto, tornou-se um sinônimo, e quase rima, de comprar a se fartar. O velho gordo e bem vestido será sempre muito melhor garoto propaganda que o pobre menino nascido em Belém. O Mercado o demonstra e o Estado paulista o endossa, na sua peça de realpolitik natalina.
Acredito, entretanto, que nem todos pensem assim. Que não sucumbem aos súcubos da luxúria de gastos. Que celebrem, ou procurem celebrar, o nascimento de Cristo em lugar da ditadura sazonal de Noel. A estes poucos e bravos eu desejo um Feliz Natal. Aliás, aos outros, também. Mas que reflitam um pouco quanto aos seus gastos e quanto ao que, de fato, estão celebrando.


[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 25 de dezembro de 2010].

terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Entre presépios e presepadas

Nesta crônica, que será a última de 2009, quero dedicar muita saúde, paz de espírito e felicidade a todos os leitores, neste Natal e no próximo ano.
Ao contrário de outros textos meus publicados por esta época em anos anteriores, deixarei de lado as críticas à decoração natalina que entronizam o Papai Noel e sua corte de renas, gnomos, bonecos de neve e que tais, enquanto desterram o Menino Jesus, Maria e José, os reis magos, o anjo, a estrela que brilhou em Belém e os pastores a um verdadeiro limbo. E justo eles, os protagonistas.
Também não falarei da fúria consumista que se espalha por tais dias, das angústias das pessoas frente à expectativa de receber determinados presentes, caros ou exclusivos, e somente estes, ou vários objetos semelhantes, e elas ficam esquecidas de que o gesto, a lembrança, é o que realmente importa. Nem da frustração de tantos que, por não receberem o que lhes achavam devido, quase vociferam contra seus presentes indesejados e contra quem os deu, mergulhando num abismo de depressão por terem seus desejos baldados.
Tampouco abordarei, aqui, certas esmolas que são distribuídas, mais para o apaziguamento de certas consciências culpadas, do que para o real usufruto de quem ganha. Mais frutos de uma autopromoção do que sincero espírito de caridade ou amor ao próximo, tais mimos duram pouco mais do que a satisfação pessoal de quem os concede. Pensemos em todas aquelas bolas coloridas lançadas por caminhões, e que não duram sequer uma semana, nas bonecas que se desmontam antes da passagem do ano, e coisas assim – livros, roupas e uma peça de lombo de porco, convenhamos, duram bem mais e dizem muito mais. Além do que o preço deles longe está de exorbitante: bolas e bonecas ordinárias são acessíveis a qualquer um, nas feiras e camelôs da vida, logo, o “donativo social” que os envolveria não se sustenta.
Finalmente, ainda que se trate da última crônica do ano, não iremos recapitular os desastres, fiascos e cataclismos de 2009, suas tragédias e mortes, nem seus triunfos de resultados duvidosos, como a Olimpíada e a Copa brasileiras, futuras sangrias de dinheiro público muito mais necessário em outras áreas que nesses gigantescos e efêmeros convescotes, dos quais poucos se beneficiam. Ou o brasileiro médio acha que poderá pagar os preços que serão cobrados por tais eventos? Por outro lado, cumpre destacar, nesta retrospectiva que não estamos fazendo, que o ano em geral foi bom. Sobrevivemos muito bem à crise econômica, o povo comeu mais e comprou mais. Inclusive automóveis. Estão aí os imensos congestionamentos em São Paulo e o aumento da emissão de gás carbônico a nos lembrar, a todo momento, disto.
Assim, como prova de que a intenção deste cronista é justamente renovar nosso espírito natalino, para longe das efusões consumistas e derivativas, sugerimos aos leitores uma singela reflexão. Se a decoração natalina brasileira, sobretudo do Sul e Sudeste, ressente-se de um motivo alegre, colorido, vibrante, que não encontra (esta é de pasmar!) no nascimento de Jesus, a ponto de recorrer aos trenós, guirlandas de folhas e frutos nórdicos, por que não espalhamos por nosso Brasil as procissões das pastorinhas, e outros autos de Natal, espetáculos tão belos, musicais, leves no aspecto, e ao mesmo tempo solenes na intenção? De que riqueza de temas usufruiríamos, cores, enfeites, motivos! E em nada, em nem um milímetro, eles se afastariam da data comemorada, ao contrário do falso culto prestado a São Nicolau, a este Noel, que se presta apenas como modelo da indústria do consumo, e não à celebração do nascimento do Salvador.
Basta de presepadas! Celebremos os presépios e aqueles humildes pastores e pastoras que decerto vestiram suas melhores roupas ao visitarem a manjedoura, guiados pelo anjo e pela estrela, que trouxeram seus presentes movidos pelo coração, não pela concorrência entre quem dava o melhor ou o maior presente, mas por quem, acredito, dava o mais sincero, o mais necessário: o couro lanoso, para aquecer o Menino, uma peça de carne, para alimentar Sua Família, junto ao trigo que certamente estocaram para aquele inverno. E que lhes eram os bens mais preciosos.
O anjo e seu esplendor, a estrela jamais vista, os pastores e pastoras cobertos de fitas, as ovelhas, as espigas de trigo não são muito mais belos do que Noel, a árvore natalina, os gnomos e duendes, as renas e o visgo?
Deixo aqui esta reflexão, junto com os meus mais sinceros votos de amor cristão, serenidade e esperança de salvação. Amém!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 24 de dezembro de 2009].

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

O fim e o começo. Ou seria o contrário?

Quando faltavam exatos dez dias para o fim de 2005, tomei uma modesta resolução: decidi que não leria mais jornal ou assistiria a qualquer noticiário pela televisão até o dia dez de janeiro. Assim, passei exatos vinte dias cuidando da vida, pondo as leituras em ordem e, de vez em quando, vendo um ou outro filme. E pelo que vejo, agora que retornei àqueles hábitos por tão pouco tempo suspensos, não perdi quase nada.
Todo final de ano tem sido a mesma coisa na grande imprensa e na televisão. Numa, vemos as edições minguarem de tamanho, até alguns cadernos saem de circulação. Noutra, é a mesma charanga de sempre, os mesmos “especiais de fim-de-ano”, que de tão repetitivos tornam-se a verdadeira antítese da palavra especial. Sempre os mesmos rostos, cantando as mesmas músicas, repetindo coreografias que de início já eram sem imaginação. Poupei-me também de assistir àqueles programas que se pretendem “inventivos”, testando “novos formatos”, e que na verdade nunca passam do velho folhetim que vem dos tempos áureos do rádio, só que com imagens moderninhas e piadas um pouco mais picantes.
Outras coisas realmente aborrecidas de que me livrei, graças à minha singela resolução, foram daquelas mal-fadadas retrospectivas do ano. Que time ganhou o campeonato, qual foi rebaixado, quem morreu, quem foi preso, quem bateu não sei qual recorde, quem disse as maiores bobagens ao longo do ano, se um terremoto na Ásia matou mais gente do que um furacão na América, ou se uma nevasca na Europa fez mais estrago do que uma inundação sabe lá onde, e tudo costurado no mesmo saco, como se feitos da mesma matéria e como se tudo aquilo fizesse algum sentido na vida. Foi bom também não assistir àqueles gurus, profetas, videntes e quejandos — e incluam-se aí também os economistas e cientistas políticos palpiteiros — com seus prognósticos, expectativas, profecias, ou que nome queiram dar, e todas elas se não impossíveis, certamente improváveis.
Por fim, gostei bastante de não ser forçado a engolir toda aquelas idênticas propagandas natalinas, fosse para vender brinquedos, planos de capitalização ou celulares, com suas crianças fingindo pureza, e algum tosco Papai Noel anunciando as maravilhas disto ou daquilo, “pelo menor preço”. Uma coisa tem de ser dita, entretanto, a respeito destas peças publicitárias, das poucas que vi: neste ano elas foram extremamente sinceras. Nada daquela hipocrisia de outros Natais, quando se falava em paz, concórdia e amor como mero disfarce para as intenções reais, que era vender um determinado produto, uma espécie de anestesia antes da facada. Não. Este ano a publicidade nem sequer fingiu boas intenções, só queria vender, vender, vender, sem apelar para qualquer espírito natalino ou às nossas consciências porventura culpadas. Deve ser por isto que a figura de Jesus foi integralmente banida da televisão. Jesus não vende máquinas de lavar roupa nem panetone. Papai Noel vende até o Nada, e embalado para presente. Merecia o prêmio de profissional de marketing do ano.
Pois bem, chegou o dia dez de janeiro e abri o jornal. E ainda se falava daqueles famigerados Valério, Delúbio e o mensalão (indiscutivelmente, a gíria do ano), e uma CPI tão longa que mais parece ir se constituindo já num quarto Poder, ao lado do Executivo, do Legislativo e do Judiciário. Li que um general brasileiro se matou no Haiti, sem qualquer motivo aparente, depois de um dia absolutamente normal, e sem deixar um bilhete sequer. Um caso que, certamente, entrará para os anais dos estudos sobre o suicídio, de tal maneira é atípico. Soube que o Primeiro-ministro de Israel está prestes a esticar as canelas porque, disseram-me, na véspera de seu primeiro derrame almoçara hambúrgueres, bifes com molho chimichurri, costeletas de cordeiro, espetinhos de carne, salada e duas porções de bolo de chocolate. Mas há quem diga que na verdade ele sofreu uma praga de um grupo de religiosos. Seja como for, parece mesmo que ele há de morrer pela boca: pela sua, glutona, ou pela dos rabinos, fulminantes.
Em suma, quase nada que nos diga respeito diretamente. Pois nossa vida prosseguirá a mesma, quer com a punição de fulano e beltrano, ou não, com um general a mais ou a menos, sem este ou aquele primeiro-ministro seja lá de onde for. Mas duas notícias realmente são de assustar. A primeira é a que prevê alterações drásticas no clima do Planeta, não mais para daqui a dez anos, mas para este ano mesmo. E a segunda, que surge qual evento do Apocalipse, é a tal gripe aviária, a um passo da evolução para um estágio mais letal, não mais passando das aves para o homem, mas de homem para homem. Tal qual a Peste Negra, surgida no extremo Oriente, e que no início se limitava aos ratos e que entrou na Europa também pela Turquia.
Ao que parece, neste ano assistiremos ao começo de algo muito ruim. Ou será que assistiríamos já ao fim? Melhor batermos na madeira e, de preferência, madeira de reflorestamento.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 15 de janeiro de 2006].

Natal mecânico

Há alguns dias fui a uma loja de departamentos para comprar algo bem prosaico. Logo à entrada, contudo, deparei-me com um andar inteiro destinado à venda de objetos de decoração natalina. E no meio das árvores e guirlandas, lá estavam os bonecos de Papai Noel animados, cada vez mais ruidosos e coloridos e mais variados quanto aos movimentos que executam.
Havia bonecos que riam, roncavam, tocavam instrumentos musicais e até mesmo um que se gesticulava muito, em sintonia com aquela velha música que Frank Sinatra cantava, “Let it snow! Let it snow! Let it snow!”, e que não obstante ser cantada por uma das maiores vozes da música americana, ficou conhecida por tocar nos filmes da série “Duro de Matar” (nestes, entretanto, quem canta é um certo Vaughn Monroe).
O curioso nesses brinquedos — se é que podem ser chamados assim, já que o ato de brincar pressupõe a noção de interação entre o objeto e aquele que brinca, o que absolutamente não ocorre no caso, trata-se de uma mera contemplação e alheamento quase completo entre as partes — é que eles no fundo são subprodutos de uma ciência, ou técnica, muito antiga: a automação.
Na cultura ocidental, há notícias da criação de autômatos desde a antiga Grécia. Dédalo, aquele que construiu o misto de palácio e labirinto de Creta para o rei Minos, teria sido o primeiro criador de uma dessas engenhocas. Mais tarde, Roma e Constantinopla criaram também os seus. O mundo árabe, Índia e China, igualmente os confeccionaram. Mas o grande avanço deu-se somente no final da Idade Média, com o desenvolvimento dos relógios mecânicos e das figuras animadas que executavam verdadeiros rituais junto aos mostradores das horas, colocados em prédios importantes nas praças de cidades ricas da Europa. E sua produção avançou pelos séculos: tornaram-se famosas peças como “o jogador turco de xadrez”, construído no século XVIII e que foi exibido como uma grande atração pelo mundo afora até meados do século XIX. Algumas delas, em escala menor chegaram a inspirar diversas obras de arte noutros meios de expressão: é o caso da personagem Coppélia, o autômato que é a protagonista de um conto do escritor romântico alemãoe E.T.A Hoffmann (1776-1822), “O Homem de Areia” (1815), e do famoso balé de 1870, de Léo Delibes (1836-1891). No século XX, a peça teatral “Os Negros” (1958), do escritor francês Jean Genet (1910-1986), teve como ponto de partida uma caixa de música, do século XVIII, na qual quatro autômatos representando jovens negros, trajando libré, inclinavam-se perante uma princesinha de porcelana branca. Há até um ótimo livro a respeito: História de autômatos: da Grécia Clássica à Belle Époque, de Mario Losano, publicado no Brasil e, infelizmente, esgotado.
Quem mais tomou partido dos autômatos, entretanto, foi o cinema, só que este, também, influenciado pela literatura. Graças ao romance R.U.R, publicado nos anos 1920, do tcheco Karel Capek (1890-1938), caiu da moda a palavra autômato: ele criaria o hoje universalmente conhecido termo “robô” (da palavra robota, que em tcheco significa “trabalho forçado” e em eslovaco simplesmente “trabalho”). E desde então eles entraram em nossa imaginação, por meio de clássicos como Metropolis (1927), de Fritz Lang (que se talvez não seja o iniciador do gênero, foi o primeiro grande filme a abordar o assunto), até a platitudes como O Homem Bicentenário (1999) e outros mais. Mas não só em nossa imaginação como na dos cientistas também. E o que era antes pouco mais do que uma técnica para a fabricação de brinquedos cindiu-se, dando lugar a uma verdadeira ciência, a Robótica. Ou seja, os sofisticados robôs que se fabricam hoje no Japão, no fundo não passam de primos destes bonecos que animam as lojas.
Mas será mesmo que animam? É curioso o efeito dos autômatos desta natureza. Ainda que prendam vivamente nossa atenção, à princípio, logo os descartamos como uma bobagem, uma ninharia. Pois se eles tem uma certa graça toda própria até concluírem seus limitados enredos de gestos e sons, quando o reiniciam, tornam-se para nós, senão um martírio, ao menos uma grande amolação: é quando vemos seus defeitos e que seus parcos recursos de convencimento saltam aos olhos. O que era “mágica” — e ponha-se este termo dentro das aspas que ele merece — revela-se puramente técnica: o ato único e perfeito que vemos no começo, converte-se numa eterna repetição, metódico e de sentido estreito.
É inegável que estas traquitanas evoluíram ao longo do tempo. Lembro que tive um Papai Noel desses, que ao som de “Jingle Bells”, executado com a mesma qualidade da que se escuta num cartão musical, só que um pouco mais estridente, balançava uma sineta e caminhava alguns centímetros, até cair e ficar badalando o sino, embalado continuamente por aquela musiqueta sem nuances e agitando as pernas qual um inseto agonizante, até que o desligássemos. Ganhei o presente quanto tinha uns doze anos — era indicado para um público entre seis e oito anos de idade, e me pergunto se, hoje, tendo em vista como são as crianças desta faixa etária em nossos dias, a classificação não deveria diminuir — mas naquele tempo em que toda bugiganga importada era um tesouro, o boneco foi considerado um grande presente. Não duvido, aliás, que, até hoje, tenha ele um lugar de destaque na decoração natalina de uns parentes meus: ninguém tem culpa quanto aos presentes que recebeu nem quanto aos parentes que tem.
E resta, ainda, a pergunta: para que eles de fato servem? Para animar? Quem, ou o quê?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 25 de novembro de 2006].

Mais uma vez, a tradicional crônica de Natal

O cartunista Caco Galhardo, que publica diariamente suas tiras humorísticas na Folha de S. Paulo, criou um hábito bastante simpático. No dia 25 de dezembro de cada ano, apresenta ao público “a tradicional tira de Natal”, onde todos seus personagens parecem saudar os leitores. Muitos cronistas e articulistas, dos mais variados meios de comunicação, também não conseguem se furtar a fazer alguma menção à efeméride: nem o próprio Machado de Assis, que, além de seus insuperáveis romances e contos, escreveu diversas crônicas de primeiríssima qualidade, conseguiu fugir desta regra. Portanto, ainda que possa parecer repetitivo, ano após ano, escrever sobre um mesmo tema, a verdade é que os leitores gostam, a data é propícia para reflexões e, repetição por repetição de assuntos, todos nós as cometemos noutras ocasiões: afinal, a toda hora não tratamos dos descalabros da saúde, da educação, de tantas questões que parecem revezarem-se entre si, graças ao seu eterno imobilismo? Segue aqui, então, mais uma crônica de Natal. Como também seguirá, na primeira semana de 2008, uma revisão do ano que está encerrando. Outra mesmice? O quê é que se há de fazer? É o que se espera em tais ocasiões. Por essa razão o gênero se chama “crônica”, apontando fatos inéditos, mas, igualmente, registrando práticas consagradas e suas variações, ou constâncias, ano a ano.
Este Natal, sob alguns aspectos, parece ser muito feliz para uma multidão de brasileiros, se o parâmetro para tal felicidade for a capacidade de consumo. Os jornais dão a notícia que o poder de compra aumentou espetacularmente, na medida em que mais pessoas das classes D e E ascenderam economicamente. Ou seja, vão comprar mais, e o comércio e a indústria também viverão dias felizes. Como também os sacoleiros e camelôs. Além da China, é claro. Coisa curiosa é a tal globalização: um país oficialmente ateu e que se auto-intitula comunista, é um dos que mais lucra com uma festa religiosa, a qual, por princípio, deveria rejeitar.
Mas será mesmo que o Natal ainda é uma festa religiosa? A julgar pela decoração natalina, que a cada ano que passa concentra-se mais e mais na figura do Papai Noel, nas paisagens e na fauna polares — alguns imbecis metem até os pingüins da Antártida ao lado de ursos e renas do Pólo Norte —, torna-se bastante questionável um fundo religioso na coisa toda. É certo que alguém pode argumentar que o “bom velhinho” remete a São Nicolau de Mira (?-342). Mas a verdade é que o Natal não é o dia de culto daquele santo (a data deste é 6 de dezembro), e, sim o da celebração do nascimento de Cristo. Nem o santo tem aquele aspecto que acostumamos a ver: sua fisionomia e roupas foram criadas pela Coca-Cola Company, na primeira metade do século XX, com o auxílio do pintor norte-americano Norman Rockwell (1894-1978). Além do mais, para alguns estudiosos, Papai Noel seria um resquício de uma antiga crença pagã do norte da Europa, quanto a um mítico habitante das florestas que presenteava as pessoas com produtos silvestres e rudimentares obras de artesanato. Vê-se, portanto, que quando Getúlio Vargas tentou “nacionalizar” a crença, criando o “Pai Índio”, a idéia não era tirada do nada. Mas, voltando ao tema, são tais símbolos religiosos? Prendem-se a uma crença estabelecida? Pinheiros cobertos de algodão, bonecos de neve, anões trabalhando ininterruptamente na fabricação de brinquedos podem possuir alguma relação com uma experiência mística e familiar?
Tão contraditório quanto isto, só a decoração oficial, pública, em relação ao Natal. Diz-se que o Estado é leigo no Brasil. Mas não há prefeitura nem órgão público que não exiba uma decoração natalina. Talvez para se livrarem do rótulo de abraçarem o Catolicismo, repudiam o presépio, mas para não “fazerem feio”, nos empurram, goela abaixo, renas, trenós, neve e Papais Noéis às carradas. Misturando o tosco à hipocrisia, vemos os poderes públicos celebrando uma data e negando, ao mesmo tempo, a sua natureza, a sua essência. Êta paísinho brabo! Só falta algum candidato à Presidência — destes que passam o inverno em Campos do Jordão, em palácios ou casas suntuosas — prometer neve no “ano que vêm”, depois de eleito. Absurdo? Não duvidem, não duvidem...
Por outro lado, enquanto pensamos em nossas ceias natalinas, planejamos “cardápios”, compramos perus e leitoas, o bispo de Barra (BA), dom Luiz Flávio Cappio, jejua por uma causa honrada — a verdadeira abertura das discussões quanto à transposição do Rio São Francisco. No momento em que escrevo esta crônica, soube que ele já foi hospitalizado. Meus votos são para que ele se salve, assim como a sua causa. Assim como meus votos, para todos os leitores, são de um ótimo Natal, livre da tristeza e das cobranças que, muitas vezes, ocorrem nesta data. Pois o verdadeiro Ano-Novo do cristão é o Natal. Ainda assim, desejamos um feliz e próspero Ano-Novo a todos, com saúde, paz, felicidade, democracia, governo atuante e oposição programática, não fisiológica ou “do contra”. E que sejamos mais felizes, no ano que se inicia. Até breve!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 22 de dezembro de 2007].

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Dissecando Papai Noel

Foi publicado recentemente no Brasil um ótimo livrinho do centenário antropólogo francês Claude Lévi-Strauss, grande referência em seu campo de estudos e para a própria compreensão de nosso país, onde viveu por alguns anos. Trata-se de O Suplício do Papai Noel (56 páginas, R$ 25,00, Cosac & Naify). Chamo-o de livrinho em razão de suas dimensões. Mas o tema é formidável, a análise surpreendente e, diria, trata-se de uma obra indispensável para a compreensão das atuais celebrações do Natal. Uma boa leitura para este fim de ano. Nele, o autor conta um curioso episódio ocorrido na cidade francesa de Dijon, em 1951. Diante de uma platéia formada por algumas centenas de crianças internadas em orfanatos, um boneco representando Papai Noel foi enforcado e incendiado por padres católicos. A justificativa para tal ato sustentava-se, segundo os organizadores do auto-de-fé estilizado, no fato de que aquela figura natalina seria, na verdade, a representação de um deus pagão e, portanto, anti-cristão. De acordo com o manifesto divulgado por eles “não se tratou de um espetáculo, e sim de um gesto simbólico. Papai Noel foi sacrificado em holocausto. De fato, a mentira não pode despertar o sentimento religioso na criança e não é, de modo algum, um método educativo”.
Como o autor bem demonstra, Papai Noel não é um ser mítico ou mitológico, visto que não há um mito que dê conta de sua origem e funções. Nem, tampouco, é lendário, posto que não há nenhuma narrativa semi-histórica relacionada a ele. Na verdade, já que imutável e sem passado, ele entraria placidamente na categoria de uma divindade. E, portanto, pagã. Assim, por mais bizarra que nos possa parecer a cena do enforcamento e cremação do boneco, ela tem suas razões, em todo caso.
O autor prossegue em seu texto demonstrando que o culto àquela figura, e sua associação às renas, ao inverno, às árvores de natal, remontaria a práticas verificadas na Idade Média, no Norte da Europa e nas ilhas britânicas. Ou seja, foram fenômenos autênticos de tais lugares que extrapolaram sua área de influência. Não resta dúvida, aliás, que o culto ao Papai Noel propagou-se a partir dos EUA no pós-Segunda Guerra, momento de máxima expansão cultural daquele país. A história da instituição de sua fisionomia, inclusive, já foi rastreada até sua origem: desde um cartum, de 1886, de Thomas Nast, até algumas pinturas do também norte-americano Norman Rockwell, contratado para uma campanha da Coca-Cola cujo objetivo era associar a festa ao refrigerante e o personagem às cores da marca (é aí que se estabelece, definitivamente, a cor vermelha para as roupas do bom-velhinho).
Mas como isto se deu? Lévi-Strauss menciona o São Nicolau, cultuado pela igreja Ortodoxa, uma das bases do personagem, e suas variantes holandesas e norte-americanas (Santa Claus, termo em que o nome Nicolau ribomba qual uma salva de canhões.). Infelizmente, porém, o velho sábio francês não ousou esboçar uma genealogia histórica da questão, cuja chave, acredito, no que concerne à divulgação do culto, reside na Holanda do século XVII. As ligações comerciais das Províncias Unidas com a Rússia e, posteriormente, a grande massa de emigrantes flamengos estabelecidos nas colônias inglesas da América, certamente devem ter contribuído para a adoração daquele Santa Claus.
Também, infelizmente, não menciona a vinculação do personagem com o Homo selvaticus, ou “Homem-Verde”, uma figura mitológica européia, habitante das florestas, que no final do ano sairia de seu refúgio para presentear os habitantes – civilizados – das redondezas. Um mito cuja historicidade vem sendo defendida por muitos estudiosos e que encontra guarida até mesmo no Brasil dos tempos da Colônia. Há relatos de velhos pajés presenteando crianças com peças de artesanato, produtos da mata e pequenos animais, seguramente, desde o nosso primeiro século colonial.
Em suma, apesar de controverso, Papai Noel não é completamente anti-natural. O problema é que só ele, e apenas ele, vem sendo cultuado no Natal. Para muita gente, parece que o velho e bom presépio, uma invenção de S. Francisco de Assis de mais de oitocentos anos, se tornou cafona: chique é encher a casa de objetos vermelhos e dourados, fingir simulacros de neve, povoar a casa de pinheiros e renas e até mesmo de insólitos, e deslocados, pingüins.
Desse modo, Papai Noel vai se tornando, cada vez mais, um ícone das crianças ricas e mimadas. As pobres sabem que quem dá, de fato, os presentes, são seus pais. Ou algum pobre funcionário público, muitas vezes vizinho delas, que, fantasiado, na caçamba de um caminhão da prefeitura, atira brinquedos baratos. Salvo por um pequeno número de voluntários que visitam alguns poucos orfanatos nas proximidades da festa santa, todas as demais crianças abandonadas são obrigadas a aceitarem o mito do “bom velhinho” que nunca se mostra bom com elas, indiferentemente de seus comportamentos ao longo do ano.
Nada tenho contra a figura do velho homem. Mas, convenhamos, sua exposição tornou-se excessiva. O Natal não é mais a data do nascimento de Cristo, e, sim a da chegada do Papai Noel. É como se, numa festa de aniversário, celebrássemos não o aniversariante, mas o garçom que serve as bebidas. E o motivo disto é claro. Renega-se o Cristo porque ele nos leva a refletir sobre nossa vida, sobre as vaidades do mundo, tudo o que não interessa a certas atividades econômicas. Pois se Caifás e Pilatos mataram o Cristo no monte Calvário, a propaganda e o consumismo, novos Herodes em trajes de gala, estão matando o Filho de Deus com maior requinte e violência: atacam-nO já no berço, sem sequer lhe darem uma chance.
Mas o momento não é de amargura. Assim, desejo um feliz Natal a todos os leitores, com mais presépios e menos papais-noéis.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 24 de dezembro de 2008].