terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Entre presépios e presepadas

Nesta crônica, que será a última de 2009, quero dedicar muita saúde, paz de espírito e felicidade a todos os leitores, neste Natal e no próximo ano.
Ao contrário de outros textos meus publicados por esta época em anos anteriores, deixarei de lado as críticas à decoração natalina que entronizam o Papai Noel e sua corte de renas, gnomos, bonecos de neve e que tais, enquanto desterram o Menino Jesus, Maria e José, os reis magos, o anjo, a estrela que brilhou em Belém e os pastores a um verdadeiro limbo. E justo eles, os protagonistas.
Também não falarei da fúria consumista que se espalha por tais dias, das angústias das pessoas frente à expectativa de receber determinados presentes, caros ou exclusivos, e somente estes, ou vários objetos semelhantes, e elas ficam esquecidas de que o gesto, a lembrança, é o que realmente importa. Nem da frustração de tantos que, por não receberem o que lhes achavam devido, quase vociferam contra seus presentes indesejados e contra quem os deu, mergulhando num abismo de depressão por terem seus desejos baldados.
Tampouco abordarei, aqui, certas esmolas que são distribuídas, mais para o apaziguamento de certas consciências culpadas, do que para o real usufruto de quem ganha. Mais frutos de uma autopromoção do que sincero espírito de caridade ou amor ao próximo, tais mimos duram pouco mais do que a satisfação pessoal de quem os concede. Pensemos em todas aquelas bolas coloridas lançadas por caminhões, e que não duram sequer uma semana, nas bonecas que se desmontam antes da passagem do ano, e coisas assim – livros, roupas e uma peça de lombo de porco, convenhamos, duram bem mais e dizem muito mais. Além do que o preço deles longe está de exorbitante: bolas e bonecas ordinárias são acessíveis a qualquer um, nas feiras e camelôs da vida, logo, o “donativo social” que os envolveria não se sustenta.
Finalmente, ainda que se trate da última crônica do ano, não iremos recapitular os desastres, fiascos e cataclismos de 2009, suas tragédias e mortes, nem seus triunfos de resultados duvidosos, como a Olimpíada e a Copa brasileiras, futuras sangrias de dinheiro público muito mais necessário em outras áreas que nesses gigantescos e efêmeros convescotes, dos quais poucos se beneficiam. Ou o brasileiro médio acha que poderá pagar os preços que serão cobrados por tais eventos? Por outro lado, cumpre destacar, nesta retrospectiva que não estamos fazendo, que o ano em geral foi bom. Sobrevivemos muito bem à crise econômica, o povo comeu mais e comprou mais. Inclusive automóveis. Estão aí os imensos congestionamentos em São Paulo e o aumento da emissão de gás carbônico a nos lembrar, a todo momento, disto.
Assim, como prova de que a intenção deste cronista é justamente renovar nosso espírito natalino, para longe das efusões consumistas e derivativas, sugerimos aos leitores uma singela reflexão. Se a decoração natalina brasileira, sobretudo do Sul e Sudeste, ressente-se de um motivo alegre, colorido, vibrante, que não encontra (esta é de pasmar!) no nascimento de Jesus, a ponto de recorrer aos trenós, guirlandas de folhas e frutos nórdicos, por que não espalhamos por nosso Brasil as procissões das pastorinhas, e outros autos de Natal, espetáculos tão belos, musicais, leves no aspecto, e ao mesmo tempo solenes na intenção? De que riqueza de temas usufruiríamos, cores, enfeites, motivos! E em nada, em nem um milímetro, eles se afastariam da data comemorada, ao contrário do falso culto prestado a São Nicolau, a este Noel, que se presta apenas como modelo da indústria do consumo, e não à celebração do nascimento do Salvador.
Basta de presepadas! Celebremos os presépios e aqueles humildes pastores e pastoras que decerto vestiram suas melhores roupas ao visitarem a manjedoura, guiados pelo anjo e pela estrela, que trouxeram seus presentes movidos pelo coração, não pela concorrência entre quem dava o melhor ou o maior presente, mas por quem, acredito, dava o mais sincero, o mais necessário: o couro lanoso, para aquecer o Menino, uma peça de carne, para alimentar Sua Família, junto ao trigo que certamente estocaram para aquele inverno. E que lhes eram os bens mais preciosos.
O anjo e seu esplendor, a estrela jamais vista, os pastores e pastoras cobertos de fitas, as ovelhas, as espigas de trigo não são muito mais belos do que Noel, a árvore natalina, os gnomos e duendes, as renas e o visgo?
Deixo aqui esta reflexão, junto com os meus mais sinceros votos de amor cristão, serenidade e esperança de salvação. Amém!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 24 de dezembro de 2009].

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