terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Uma exposição do passado

Há exatos 110 anos – no dia 15 de janeiro de 1900 –, A Mensageira, revista literária dedicada à mulher brasileira, descrevia uma grande exposição em homenagem ao pintor paulista Almeida Júnior, morto no ano anterior. Não se tratava de uma exibição de arte qualquer e sim de uma espécie de cenotáfio provisório dedicado à memória e exaltação do artista. Mas vamos às palavras, na grafia daquele tempo, de Perpétua do Valle – um dos pseudônimos da escritora Presciliana Duarte de Almeida (1867-1944), diretora da revista – que assinava a matéria:

Como que um recolhimento sagrado se apossou de nossa alma ao penetrar os humbraes do edificio em que se acham reunidas quasi todas as obras do grande e laureado artista... As filas verdes de plantas que de lado a lado ensombravam os corredores, as notas dolentes de bellas peças executadas por excellente orchestra e a lembrança do tragico fim que a tão pouco tempo teve Almeida Junior, nos comoviam e nos predispunham talvez para mais do que nunca admirarmos o grande e mallogrado pintor nacional. E foi assim que mais uma vez nos quedamos de pasmo diante da Partida da Monção, esse bellissimo poema historico que nos suggere ao mesmo tempo multiplos sentimentos e commoções diversissimas...
O assoalho nas proximidades deste quadro achava-se atapetado de rosas, margaridas e avencas e defronte á Partida da Monção havia artistico bosque de palmeiras e bambusinhos encimado pelo retrato do grande artista.
No lado inferior do bosque via-se a roda do destino composta de sempre-vivas brancas do Cabo, tendo um dos raios despedaçado; via-se ainda uma columna amparando vaso de variadas flores, formosa palheta e o retrato do pintor, ainda mocinho, emmoldurado de saudades roxas. [...]
”.

O artigo prossegue mencionando e analisando alguns dos 130 quadros expostos, informa a quem os mesmos pertenciam e ainda acrescenta que seria “destinado o producto das entradas e venda dos catálogos a um monumento que perpetue a admiração nacional pelo insigne pintor que com tanto cunho de nacionalidade fazia os seus quadros”.
São informações preciosas quanto a uma exposição de arte daqueles tempos, ainda que, certamente, pouco convencional, dado o seu motivo e seus fins. Afinal, Almeida Júnior morreu no auge de seu prestígio e num momento que São Paulo procurava se impor política e culturalmente no plano nacional. Sua morte não era só a de um grande pintor, mas de um verdadeiro propagandista dos valores paulistas.
O que nos pareceu mais curiosa foi a disposição decorativa, cenográfica, da exposição, com suas “filas verdes de plantas que de lado a lado ensombravam os corredores, as notas dolentes de belas peças executadas por excelente orquestra”, “o assoalho atapetado de rosas, margaridas e avencas”, “o artístico bosque de palmeiras e bambuzinhos”, e os demais motivos florais e morais. Toda uma ambientação que, sem dúvida, dificilmente seria empregada hoje. Mas o foi, há também exatos dez anos, na Mostra do Descobrimento, realizada no prédio da Bienal de São Paulo, pelos 500 anos do Brasil.
Ali também havia uma intenção muito mais celebratória do que didática ou artística na disposição das obras e no entorno que as envolvia. E foram saudados como “inovadores”, “arrojados”, e que tais, os ambientes que simulavam matas e brejos, para a arte “indígena” e dos “viajantes”, e o “chão de flores” da seção dedicada ao barroco, embalados por uma música onipresente com o fim de despertar efeitos emotivos, contemplativos – prática comum, também, aos parques de diversão, às igrejas e às paradas militares, mas, convenhamos, desnecessária numa exposição, cujo objetivo não é entreter o público fazendo com que o acessório (o cenário) sobreponha-se ao principal (as obras de arte). Em todo caso, vê-se que a inovação, em nosso país, ou vem com atraso, ou não passa de cópia de algo do passado que o tempo fez com que a maioria esquecesse. Ou como dizia o poeta russo Maiakovski (1893-1930), num ótimo trocadilho, “não é nova esta novela”...
Voltando àquela mais que centenária exposição de Almeida Júnior, não pude descobrir ainda se o dinheiro arrecadado graças a ela foi suficiente para erigir o monumento que se pretendia. Até onde sei, o único que celebra o pintor é o seu próprio túmulo no cemitério de Piracicaba que, ao que tudo indica, foi pago pela câmara daquela cidade. Mas se os frutos não foram bastantes para tal obra, não é de se admirar. Os brasileiros, em geral, e os paulistas, principalmente, são pródigos em monumentos efêmeros e novidadeiros, e avaros quanto aos definitivos e, de fato, pertinentes, necessários. Mas isto fica para uma próxima ocasião.
Por ora fica aqui o registro de um episódio pouco lembrado, nos cento e dez anos de sua ocorrência. E mais uma lição de como o novo, por aqui, chega sempre com um certo cheiro de bolor.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 16 de janeiro de 2010].

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