Há pouco mais de vinte anos, estava com uns amigos num bar quando entrou um rapaz, conhecido de um deles. Trocaram algumas palavras e o sujeito se foi. O que ficou conosco disse mais tarde que o jovem em questão era modelo. Perguntei: modelo de quê? De coragem, de honestidade, de princípios? Não, modelo fotográfico, respondeu nosso amigo. Para nós, aquilo era algo ainda um tanto raro, um homem, naqueles dias, viver exclusivamente de tal profissão.
Os tempos passaram, e o que enriquecia apenas uma meia dúzia de rostos conhecidos, sendo um mero ganha-pão para algumas centenas de anônimos, tornou-se um mercado milionário, midiático, transnacional.
Dizia-se, há não muito tempo, que um rapaz que beirasse o limiar da inteligência meramente normal, que fosse totalmente ignorante, além de miserável de dar dó, ainda assim poderia ter sonhos quanto ao futuro: bastaria que fosse hábil nalgum esporte. E a história nos demonstra esta assertiva. Mas, reconhecíamos, por mais ínfimas que fossem suas qualidades e condições, algo dependia inteiramente de sua própria habilidade, ou talento, fossem nos pés ou nas mãos. Algo que ele aprendera a desenvolver, ou seja, adquirido. Fruto do seu esforço e prática.
O mesmo, entretanto, não pode ser dito quanto ao que se espera de um modelo fotográfico, independente do sexo a que pertença. Pois, convenhamos, noventa por cento do que é um desses seres, ele o deve à natureza, que lhe dotou de um aspecto agradável, de uma altura apropriada, de uma estrutura física conveniente. Os outros cinco por cento, entram na conta graças ao trabalho de maquiadores que corrigem imperfeições comuns, cabeleireiros que lhes domam as madeixas, estilistas que lhes cobrem a magreza, fotógrafos que lhes descobrem os melhores ângulos, agentes que conseguem fazer com que sejam vistos. E o que se espera dos modelos? Os cinco por cento finais: que andem eretos, que balbuciem alguma coisa na língua pátria e numa outra estrangeira, e que mantenham a forma física.
Ora, exigir que um mamífero bípede ande ereto não é nada tão dificultoso. O australopiteco, um nosso remoto ancestral, já o fazia, há quase quatro milhões de anos (ou entre oito mil e quatro mil anos atrás, segundo os criacionistas e, no lugar do australopiteco, leia-se Adão). Que se manifeste, ainda que de forma não muito brilhante, na sua própria língua e numa outra, já era possível muito antes dos caçadores do Paleolítico (ou os descendentes de Caim e Sete, segundo aquela teoria). E o mesmo pode ser dito quanto à manutenção de uma forma física que fosse conveniente: ágil e forte para os já mencionados caçadores, graciosas e aptas para a fecundação e geração, para as suas consortes trogloditas. Mas nesta última questão, um determinante se impunha, para além dos valores, por assim dizer, estéticos: a saúde do homem e da mulher, para caçar, lutar, conceber e criar a prole.
Estes conceitos iniciais estão presentes durante todo o curso das civilizações, quer ocidentais, quer orientais. Vejam-se os modelos de fertilidade feminina das eras mais recuadas (as imensas Vênus monolíticas, sendo a de Willendorf talvez a mais conhecida), passando por umas tantas figuras homéricas, pelas matronas romanas, pela idéia de saúde que vai da Idade Média até inícios do século XX. Uma certa opulência de carnes, foi sempre o modelo, a constante. Não a magreza, salvo em raríssimos episódios (no ascetismo-idealismo medieval, no Neoclassicismo e no Romantismo), e mesmo quando as mulheres estabeleceram como padrão as finíssimas cinturas estranguladas por espartilhos, as ancas e os seios eram realçados, valorizados em suas pujanças naturais ou até fabricados, por meio de decotes apropriados para tal, enchimentos de roupas, anquinhas. E o mesmo vale para os homens. Devem ser fortes, viris, sanguíneos quais um touro e, como este, podendo até mesmo ser até corpulentos, um pouco gordos (vejam-se as milhares de imagens de Hércules produzidas ao logo dos séculos).
Felizmente não vivemos mais naqueles tempos. Pode-se ser magro e saudável hoje em dia, sem que uma característica exclua a outra. E, sob muitos aspectos, é até desejável tal silhueta. O que não é mais possível é este culto à magreza quase doentia que se exige das modelos fotográficas. Como é que podem considerar belo um feixe de ossos sacolejantes no alto de uma passarela?
E não adiante dizer que as moças que se entregam a estas exigências tem uma clara percepção do que fazem com seus corpos. Pois não têm. A Lei, aliás, sabe disso. Daí serem considerados incapazes os adolescentes e pré-adolescentes: pois eles costumam ir no vai-da-valsa, umas copiando as outras, ou sob a obediência de pais ávidos por fama, beleza e dinheiro que eles próprios nunca tiveram ou fizeram por merecer.
Que um bando de rufiões travestidos de pais e um magote de jovens cuja inteligência ainda não foi completamente formada sucumbam a tais premissas, ainda que seja detestável é, por outro lado, compreensível. O que surpreende é que a tal indústria da moda não só tolere, mas incentive isto.
Pois uma coisa que ninguém ainda explicou é como algumas moças magríssimas podem ser modelo de alguma coisa, qualquer coisa, quando se sabe que a população mundial vem engordando, constantemente. Indústria pressupõe produção em série, para o maior número de pessoas possíveis, não para uma minoria esquelética. E quem se reconhece naqueles feixes de ossos amarrados por panos? E quem, efetivamente, acha aquilo bonito?
Modelos se sucedem à cada temporada. Sua vida útil é curtíssima. E logo são esquecidas. Mas sempre nos lembramos de belas atrizes, por exemplo. Anos e anos depois de suas passagens. E elas nunca têm as mesmas medidas das modelos profissionais. Por quê? Porque beleza é, também, proporção, que se mede em dimensões e volumes. Características que faltam nos tais modelos, compostas de uma sobreposição de retas e planos, sem densidade. Sem massa. Como pode haver beleza nisto?
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 6 de fevereiro de 2010].
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