As nuvens negras que pairam sobre os céus de São Paulo, há vários anos, abandonaram o seu aspecto, por assim dizer, metafórico, para se converterem em algo muito mais palpável e cruel, por via do clima: uma série de chuvas impiedosas que têm destruído cidades, sendo o caso mais grave o de São Luís do Paraitinga, completamente varrida pela enchente do rio que passa por ela.
A destruição, ali, foi quase absoluta. Nada menos de trezentos imóveis foram afetados pelas águas, e cento e oito deles interditados. A Igreja Matriz – sob a invocação de São Luís de Tolosa, padroeiro do município, e a mais alta construção da cidade – desabou sob o impacto da enchente. E o mesmo triste destino sofreu a encantadora capela de Nossa Senhora das Mercês, seguramente um dos mais antigos prédios locais. Não bastasse isto, o cartório foi devastado, destruindo bicentenários registros, apagando a memória dos mortos e dos vivos. E a biblioteca, uma das raras existentes em localidades daquele tamanho (pouco mais de 10 mil habitantes) no Estado de São Paulo. Sem falar na interrupção do abastecimento de água e telefone, das pessoas que tiveram de abandonar suas casas. Por sinal, ali, nem os animais foram poupados: as águas invadiram até o canil da Associação Protetora dos Animais, resultando na morte de oitenta gatos e mais de setenta cães.
Louve-se o heróico papel dos grupos e empresas de canoagem locais, responsáveis pela salvação de muitas vidas. Não fossem eles, as consequências seriam muitíssimo piores: pois apesar de São Luís ser um dos pontos turísticos mais visitados do Estado, célebre pelo seu casario histórico, o corpo de bombeiros local conta com apenas três – isto mesmo, TRÊS – integrantes. Veja-se o cuidado que a administração estadual tem por aquela preciosidade arquitetônica, o respeito que nutre por seus habitantes...
Por sinal, como costumam ser as coisas neste país e, sobretudo, em nosso Estado, o desastre já vinha sendo anunciado. Há dois, anos uma cheia do rio já pusera em alerta os cidadãos. Mas o Palácio dos Bandeirantes, acomodado em sua inércia de mais de uma década de sucessão de compadres, nada fez por São Luís – em nenhuma esfera, frise-se, pois é uma queixa de cada cidadão luisense com quem se encontra.
Estive ali por duas vezes. Passei ótimas temporadas por lá. Tratava-se de uma localidade que tinha tudo para ser – senão uma Ouro Preto paulista – algo não muito distante de uma Tiradentes do Vale do Paraíba, ou uma Paraty de serra acima. Mas as autoridades estaduais pouco se lixavam por São Luís do Paraitinga. Uma prova disto é mais do que evidente. Para que seu conjunto arquitetônico fosse oficialmente tombado pelo IPHAN, seria necessário que a rede elétrica fosse embutida no calçamento, para melhor visão dos prédios e logradouros históricos. Mas a verba veio? Claro que não. O Estado de São Paulo, administrado por pessoas pouco afeitas ao passado que antecede suas próprias origens, tem frequentemente rejeitado iniciativas do gênero.
E uma das provas do que dizemos é facilmente reconhecível pelas palavras do Excelentíssimo Senhor Governador do Estado de São Paulo, o nosso conhecido Chirico. Disse ele, em visita, tardia, ao município, e sem poder culpar São Pedro pela catástrofe, nem pronto para uma autocrítica, mas, sim, rápido para encontrar um bode expiatório: “O pessoal do patrimônio histórico gosta muito de discutir e debater. Desta vez, vamos ter que fazer uma ação mais rápida” e, mais adiante, acrescentou que “Se discutirmos academicamente [quanto à reconstrução] vamos levar anos”.
Quando ouvimos a pressa do Chirico em pôr tudo de pé, para além das justas preocupações patrimoniais expressamente negadas por ele, trememos nas bases. Seriam as obras de reconstrução de São Luís do Paraitinga regidas pela mesma avidez de tempo da Linha Amarela do Metrô? Ou dos viadutos do Rodoanel?
Não se reconstitui a história e a vida das pessoas por uma assinatura palaciana, ainda que do primeiro mandatário do Estado, sobretudo quando o mesmo ignora as noções mais básicas do procedimento de restauração. Pois antes de assinar um simples cheque, que daria conta da obra, há que se saber da eficiência dos trabalhos, das aspirações locais, dos procedimentos técnicos.
Será o Chirico capaz de tais feitos? Restituir São Luís do Paraitinga, dotar a cidade de um sistema contra as enchentes, e devolvê-la ao circuito turístico estadual? Conseguirá ele resgatar o passado, o orgulho, a própria noção de existência, roubada pelas águas, dos luisenses? O povo do Estado de São Paulo aguarda por esta resposta. Mas será que ela virá, num ano de campanha? E, olhem, que nem falei da urucubaca....
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 9 de janeiro de 2010].
Bolinhas feito pérolas
Há uma semana
Nenhum comentário:
Postar um comentário