terça-feira, 16 de fevereiro de 2010

Sobre loucos, mansos ou bravos

O premiê italiano, Silvio Berlusconi, é uma figura e tanto. Parece até tirado das páginas políticas brasileiras. Como muitos de nossos impávidos homens públicos, ele escamoteia a idade, pintando seu cabelo numa cor improvável, que foge à palheta da natureza. Como tantos de nosos compatriotas, procura aprovar leis que lhes sejam direta, e pessoalmente, intere$$antes, e que ao mesmo tempo o isentem de responsabilidades penais. Como outros tantos, detém o controle dos mais variados meios de comunicação: jornais, revistas, emissoras de rádio e televisão, um fênomeno por nós conhecido como neocoronelismo ou coronelismo eletrônico. Não sei como chamam o mesmo procedimento na Itália: condottierismo elettronico? Pode ser. Fica, aqui, a sugestão. Também como uns tantos políticos pátrios, mas em número menor, pelo menos por aqui, ele se envolve em rumorosos casos extra-conjugais, com moças que, no passado, eram chamadas de “profissionais”, “trabalhadoras horizontais”, e termos correlatos. Concordo até que isto seja lá um assunto de foro íntimo, como dizem. Mas não é bonito para um “Pai da Pátria” ser publicamente associado às “operárias do amor”. Faltava-lhe só agora descobrirem-lhe um filho fora do casamento, rejeitado por ele, publicamente, ou envolto em expessas trevas pelos meios de comunicação que lhe são subservientes: ainda que tão concreto quanto os momentos de amor que o produziram. Se tal se confirmar, ele seria a perfeita caricatura do político sul-americano. E brasileiro.
Na semana passada, entretanto, um fator o distinguiu, em certos aspectos, dos homens públicos daqui, do nosso rincão. Pois Berlusconi foi golpeado, em público e em pleno rosto, por um homem do povo. Imaginei que se tratasse de uma solene bofetada, do tipo que se dava no passado a uma pessoa falha do juízo a qual se pretendia que retornasse à razão. Mas não foi o caso. Ao que tudo indica, a agressão não foi causada por um patriota querendo alertar seu dirigente quanto aos descaminhos pelos quais aquele dirigente conduzia sua terra. Não, o tema era mais baixo. Parece que um tresloucado agrediu o premiê italiano com uma réplica, em miniatura, da catedral de Milão. Fiquei aqui imaginando um grupo de louquinhos correndo atrás do Governador Arruda – aquele que seria vice do Chirico – com maquetes da Catedral de Brasília nas mãos... Não, impossível...
Foi então que me lembrei de um dos poucos atentados políticos que o Brasil já conheceu. Um ato efetivamente documentado e cumprido até o fim, diferentemente daqueles movidos contra Prudente de Morais ou Carlos Lacerda, ou, como também circulam por aí, os que hipoteticamente teriam matado o Marechal Castelo Branco, Jucelino Kubitschek e Jango Goulart. Trata-se do assassinato do senador gaúcho José Gomes Pinheiro Machado (1851-1915), graças a uma punhalada de Francisco Manso de Paiva, de quem se disse ser louco, mas não manso, conforme se verificou. Como Pinheiro Machado era considerado a eminência parda do governo do presidente Hermes da Fonseca, e uma nefasta influência na condução da República, o pobre Manso de Paiva, um padeiro desempregado – não, ele não fazia panetones – decidiu dar cabo do caudilho. Alegou-se, à época, que o agressor fora insuflado pela imprensa e pelos opositores do regime, que literalmente pediam a cabeça do caudilho gaúcho. Mas ao fim das investigações – sumárias e pouco conclusivas – anunciou-se que o assassino agira por moto próprio. E Manso de Paiva entrou para a história como o louquinho que matou um figurão. Poucos são aqueles que veem naquele ato tresloucado o princípio do fim do já necrosado Partido Republicano Conservador que, acéfalo com a morte de Pinheiro Machado, mergulhou no ocaso, como era de se esperar: partidos personalistas sempre sucumbem à falta de seus líderes.
É claro que não defendemos, aqui, a agressão a homens públicos, por piores e mais irretratáveis que os sejam. Ainda que o repúdio dos homens de bem àquelas horrendas condutas públicas mereça ser sobejamente anunciado, não defendemos a violência contra os autores daquelas obscenidades. Pelo contrário. Sabemos que a sempre prestimosa Justiça se encarregará deles. E que, um dia, ainda que às véspera do Juízo Final, a opinião pública se manifestará nas urnas, cassando os desejos de tais criaturas, aqui, na Itália e no resto do mundo. Basta, apenas, que esperemos. E esperemos e esperemos...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 19 de dezembro de 2009].

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