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sexta-feira, 30 de abril de 2010

A Ciranda de desgraças a girar

Todos os dias, por volta da uma da tarde, minha mulher e eu tomamos um café expresso numa confeitaria a uma quadra de nossa casa. O lugar é bastante agradável, tanto pela proximidade quanto pelo ambiente – salvo aos fins de semana: como se tornou um lugar meio que da “moda”, como dizem, uma gente estranha, mal-educada, pretensamente rica e claramente falastrona invade o lugar aos sábados e domingos. Nós, é claro, evitamo-los nestes dias.
Muito bem, há cerca de uma quinzena, pouco mais ou pouco menos, entramos ali e vimos um pequeno cartaz convidando os freqüentadores para uma festa, com fins filantrópicos, cujo cardápio seria um “porco no rolete”. Confesso que tenho verdadeira aversão a este tipo de prato, se é que o termo prato cabe a este tipo de coisa. Carneiros, novilhos e até mesmo bois – sim, perpetram isto em Cândido Rondon, Paraná – “no rolete” sugerem-me cerimônias bárbaras, banquetes selvagens, festins diabólicos: a refeição de um Gêngis Cã num dia de mau humor; ou de Átila, o Huno, em festa; ou de Vlad Drácula, o Empalador, num acesso de momentosa criatividade. Chego até mesmo a vislumbrar os preparativos, que , acredito, devem fazer eco à Orgia dos Duendes:

“[...] Lobisome apanhava os gravetos
E a fogueira no chão acendia,
Revirando os compridos espetos,
Para a ceia da grande folia. [...]

[...] Taturana, uma bruxa amarela,
Resmungando com ar carrancudo,
Se ocupava em frigir na panela
Um menino com tripas e tudo [...]”.


Deixando o velho Bernardo Guimarães (1825-1884) de lado, autor dos versos acima, retorno ao assunto para esclarecer o fim benemérito de tal manjar: o dinheiro arrecadado no funesto convescote seria revertido para as vítimas do terremoto do Haiti.
Não há dúvidas que o motivo é elevado, apesar da baixeza da proposta. Porém, ao mesmo tempo, dediquei-me a uma pequena contagem das desgraças mais recentes às para as quais pediram-se doações, para muitos, ou o cumprimento das Obras da Misericórdia, para alguns poucos e bons.
Contando somente a partir do fim do ano passado, assistimos às catástrofes de Angra dos Reis, São Luís do Paraitinga, São Paulo, Haiti, Chile, Niterói, Rio de Janeiro e, mais recentemente, China. Se escapou alguma, depois de tantas, peço desculpas aos leitores. Mas o fato é que, por baixo, tivemos oito hecatombes em meros quatro meses, ou seja, quase duas por mês, na média. Ora, Como disse um amigo meu, “não há bolso nem armário que aguente! Mal despachei uma leva de roupas para Angra, e veio o Haiti. Agora me pedem contribuição para o Rio: será que pensam que sou dono de tecelagem? Mais um pouco e estarei tirando a roupa do corpo para doar! Vai com calma, ô Natureza!”.
Brincadeiras à parte – pois brincadeiras não cabem diante de tais descalabros, e os excelentes exemplos de São Martinho de Tours e São Francisco de Assis devem ser sempre lembrados como lições a serem seguidas para o conforto de quem dele necessita – o fato é que ando meio desconfiado de quem promove certas práticas caritativas com um certo alarde e por meio de expedientes tão suspeitosos. Um untuoso banquete (banquete?) cujos fundos serão revertidos para famélicos, não cheira a certa hipocrisia, quer de quem organiza, quer de quem toma parte? Benemerência, agora, tem de vir acompanhada de publicidade e satisfação (satisfação?) dos sentidos?
De fato, assistimos, nos últimos meses, a uma ciranda de desgraças monumentais poucas vezes vistas – e que não se culpem a rapidez na circulação das informações ou a fome da grande imprensa por tais mazelas. Nem, acredito, são sinais do Juízo Final, como aqueles horrorosos History Channel (que divulga mais boatos que História) e Discovery Channel (cada vez com menos descobertas) parecem alardear. Na minha sincera opinião, os motivos de muitas dessas calamidades são, e para sempre serão, insondáveis. Por outro lado, as conseqüências, evidentemente, poderiam ser minoradas com um mínimo de vontade pública. Mas o que esperar de uma época em que as consciências se apaziguam ao frigir das banhas de um filantrópico porco no rolete, anunciado aos quatro ventos, coberto pela imprensa, com direito a várias fotografias dos beneméritos de pança cheia?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 17 de abril de 2010].

Mais uma vez o desastre

No dia 6 de dezembro de 2008 – vejam lá quanto tempo faz – aqui neste mesmo espaço, comentei uma colossal enchente em Santa Catarina? Acaso alguém ainda se lembra do episódio, depois do que ocorreu em Angra dos Reis, São Luís do Paraitinga, no Haiti e no Chile? Tenho minhas dúvidas...
Pois bem, naquela crônica, cujo título era “Desastre anunciado”, disse, então:

“[...] convenhamos, temporais no Sul e seca no Nordeste ocorrem todo ano e quase que com data marcada no calendário. O problema, como é mais do que sabido, há décadas, e que poucos se lembram, não está nesses incidentes climáticos, mas, sim, na absoluta inépcia ou falta de vontade por parte das autoridades públicas quanto a procurarem diminuir os seus efeitos. E que se furtam das responsabilidades que são só suas. Pois, caso seguíssemos suas lógicas distorcidas, seria o mesmo que culpar um sujeito, que pereceu num naufrágio, por sua própria morte, visto que não sabia nadar. Está certo: ele não sabia nadar. Vá lá, naufrágios são imprevisíveis. Mas se houvesse botes salva-vidas suficientes, coletes, ou bóias, ele se salvaria. Entretanto, não havia. E se culpa o afogado. E o capitão e o dono do navio dão de ombros. Estão vendo como a questão não se sustenta?
Um barraco não é erguido nas margens de um rio — sob o risco de ser levado na primeira cheia, por menor que seja — porque assim o seu “dono” o quis. Ele ali está porque o fiscal não fiscalizou. Porque o vereador fulano fez pressão sobre o funcionário público beltrano para que este fizesse vista grossa frente à coisa: vão alguns votos para um e uns trocados ou uma promoção para outro. E o coitado do posseiro por ali vai ficando...
Uma casa erguida numa encosta que, à primeira chuva, pode desabar, não foi ali construída porque seu dono tem “amor ao perigo” ou “sede de adrenalina”. Se naquele lugar se encontra, foi porque algum empresário inescrupuloso loteou o morro, com a conivência de um prefeito, de técnicos, etc. E repete-se a equação “dinheiro + vantagens = lucros + votos”.
É a especulação imobiliária, açambarcando os melhores terrenos de uma cidade, que empurra as pessoas sem condições para as beiras de rios, áreas de mananciais, encostas, altos de morro e por aí afora. É a especulação imobiliária que corrompe as autoridades públicas a ponto de que estas permitam loteamentos, até de alto padrão, em lugares instáveis: que se lixe a segurança e o ambiente!
Mas culpa, também, e muita, senão a principal, cabe aos nossos representantes políticos e aos empregados deles, pagos, afinal de contas, e no final das contas, lembremos, com o nosso dinheiro. São eles que fingem não ver o que salta aos olhos até mesmo de um cego. Que não escutam os argumentos lógicos que ribombam nos ouvidos inclusive dos surdos. E que respondem com discursos tão vazios e sem sentido que fariam um mudo jamais ter inveja ou desejo do poder da fala, com medo de que pudesse repetir semelhantes disparates [...]”.


Voltemos a esta semana e ao que aconteceu no Rio de Janeiro e em Niterói. Não se tratou, exatamente, do mesmíssimo caso?
São estas constantes repetições de absurdos (isto mesmo, não se trata de um pleonasmo, mas de uma constatação quanto à insultuosa frequência com que tais fatos ocorrem) que acabam por levar à descrença no futuro deste país.
No episódio do Rio, entretanto, há severos agravantes: o eterno problema das favelas que, mesmo urbanizadas, demonstram sua permanente situação de risco. Pois na rua da favela, por onde não passa carro de polícia, também não circula ambulância, caminhão do corpo de bombeiros, guindaste nem escavadeira. Como estamos vendo, nos últimos dias...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 10 de abril de 2010].

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Super acqua flumens...

É bem conhecido o fato de que as grandes civilizações do passado cantavam seus principais rios com sua melhor poesia, quando não os adoravam quais divindades. Basta lembrarmos do que os egípcios escreveram sobre o Nilo. Dos babilônios, sumérios, acádios e tantos outros que habitaram a Mesopotâmia (“a terra situada entre rios”) e o que deixaram sobre o Tigre e o Eufrates. Nas Sagradas Escrituras, cantam-se todos estes rios, e o Jordão, e mais uns tantos córregos, mesquinhos aos olhos dos brasileiros, acostumados que somos a hiperabundância de água que os trópicos nos propiciam. E a distante Índia e a remota China louvaram seus caudalosos Ganges e seu rio Amarelo, mas por serem tão afastados do Ocidente, tais encômios só nos chegaram muito mais tarde e com sabor de exotismo.
Diminuindo a escala, é rara a poesia de uma povo que não trate de um rio, em particular, que não precisa ser, necessariamente, o “grande rio nacional”, digamos, assim, como nos exemplos anteriores. Neste caso, a matéria poética será feita daquilo rio que passa por uma cidade, ou aldeia, muitas vezes nem nomeado. A poesia grega e romana tem mil exemplos, a medieval também os seus tantos, e a renascentista também. Deve-se a um poeta francês do período o primeiro poema ao rio Sena, um provocativo libelo no qual, em pleno século quatorze, já se trata dos perigos da poluição e da morte dos rios, sob o belo título de Complaint de la Seine, algo como “Lamento pelo Sena”. E o que dizer dos “sôbolos rios” camonianos? Com o barroco, o tema é um pouco eclipsado, ainda que o poeta inglês John Donne escreva um magnício soneto tendo o Tâmisa como tema. E no arcadismo, eis que o assunto volta com toda força, basta lembrarmo-nos dos versos do nosso Cláudio Manuel da Costa, cantando o Mondego, o rio das Velhas e o seu “pátrio rio”, o Tripuí, que nasce em Ouro Preto, então Vila Rica.
E os tempos se sucedem, e com eles as escolas literárias e também a percepção da natureza. O Mississippi vira tema, em prosa, de um Mark Twain, de um Hart Crane. Canta-o o poeta americano, naturalizado inglês, T.S. Elliot, não muito depois que Fernando Pessoa cantou o Tejo, que não era mais belo que o rio que passava por sua aldeia, o mesmo Tejo — ou Tajo, como o chamam os espanhóis — que foi também cantado por Garcia Lorca.
No Brasil, o Amazonas é um gigante mudo para a poesia, mal e mal lembrado pela prosa, e mais como obstáculo da civilização do que continuação do que quer que seja que não a selva. O São Francisco até que foi tema de alguma poesia regional, em sua maior parte oral, e quase nada a respeito foi impresso. Alguns rios da fronteira paraguaia, quando da guerra em que devastamos aquele país, também serviram de motivos a uma ou outra poesia, tacanhamente patriótica, chauvinista ao extremo, em que as águas servem de mero cenário para as batalhas.
É fato que Cecília Meireles dedica ao rio das Mortes, da triste guerra dos Embobas, o seu grande talento de sempre. E João Cabral de Melo Neto converteu, num exemplo de grande felicidade poética, o belo Capiberibe num “cão sem plumas”. Como também não podemos desprezar certa poesia popular, regionalista, vez ou outra transcrita em música, esta, por sua vez chamada de caipira, tradicional ou “sertaneja de raiz”, e capaz de belos achados. Basta lembrarmo-nos daquela, célebre, relativa ao rio Piracicaba.
Mas a verdade é que tratamos tão mal nossos rios, que só os vemos com bondade, com prazer, como motivo estético, retrospectivamente. Lançamos em suas águas todo o tipo de impurezas, seja o reles esgoto doméstico, sejam os infames resíduos industriais. Exaurimos seus leitos em busca de areia, ou do que quer que seja, que nos satisfaça o mais rápido possível, instantaneamente. Roubamos suas margens para todo tipo de loteamentos clandestinos, ou estrangulamos seus cursos para a construção de vias expressas que nunca são feitas a contento e que freqüentemente nos levam de parte alguma a lugar nenhum. Quando não matamos seus peixes pelo lixo que nas águas lançamos, eis que nos dedicamos à pesca predatória ou, pior, abominável mesmo, lançamos espécies de peixes estranhas ao habitat, que devastam toda a fauna local, mas que nos permitem “uma pescaria divertida, uma boa briga”, como já ouvi dizerem. E, ainda por cima, depois de todo o desserviço a eles prestado, temos a coragem de queixar do mau cheiro de suas águas, em certos dias quentes.
Mas tudo que teve seu começo tem seu fim. Esperemos. Não de braços cruzados, porque a situação é séria e os desmandos nesse assunto se avolumam.
Voltaremos a este assunto.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 6 de agosto de 2005].

E o vento levou...

Os Estados Unidos da América são, para muita gente, um exemplo de país onde tudo funciona, o Estado é diligente, as leis são cumpridas, o povo é ordeiro e a tecnologia é a mais desenvolvida do mundo. Os atentados terroristas daquele famoso 11 de setembro ofuscaram um pouco o brilho da tão propalada precisão e eficiência da CIA (Agência Central de Informação), mas como mais nada ocorreu em solo norte-americano desde então, a aura de superpotência infalível voltava a brilhar. Bastou todavia um furacão, para, literalmente, botar tudo isto abaixo e mais um pouco. Então, vejamos.
O norte-americano médio é fanático por meteorologia. Há dezenas de programas na televisão que tratam do assunto, os apresentadores, “homens do tempo”, são celebridades nacionais, e há mesmo um canal de teve a cabo dedicado apenas e tão somente a esta questão. A mania é tão grande que o próprio cinema não está imune a ela, e aí estão os arrasa-quarteirões Twister (1996) e O Dia depois de Amanhã (2004), para falarmos só dos grandes. Nunca é demais lembrar que n’O Mágico de Oz, clássico da literatura infantil daquele país e filme de grande sucesso, a pequena Dorothy não é levada a uma terra de fantasia por qualquer recurso mágico, mas por um ciclone...
Se o governo norte-americano gasta fortuna com o serviço de meteorologia, fica a pergunta: como é que não previram o estrago que o furacão poderia causar?
Outro aspecto curioso: vamos admitir que a meteorologia acertou em cheio quanto ao poder de destruição da coisa toda. Então, pensamos logicamente, a reação das autoridades e da população em geral seria a de tomar todas as precauções possíveis que reduzissem as conseqüências. Isto é o que se espera de um país “civilizado, de primeiro mundo”, como gostam de dizer por aí. Mas o que lemos a respeito? Que não há comida nem condições de saúde adequadas na Lousiana. Que os centros de acolhimento aos desabrigados são poucos, estão superlotados, e alguns deles não contam sequer com água, mas com cadáveres dentro e ao redor dos abrigos. E em meio a este caos, o governador daquele estado lança apelos aos quatro ventos, com perdão do trocadilho, pedindo sobretudo dinheiro, é claro. Ora, convenhamos, pode haver coisa mais de “terceiro mundo” do que esta? Um desastre natural, ocorrendo numa área onde eles são comuns e esperados, apanhando de calças-curtas a população e seu governador, que se limita a queixar e pedir recursos? Não é o que assistimos todo ano na Índia, Paquistão e boa parte do nordeste brasileiro, diante de fenômenos bem conhecidos e sempre recorrentes?
Finalmente a questão do cumprimento da lei, quer por parte de seus agentes, quer pela própria população. As notícias mais recentes dão conta de que a ação de saqueadores armados por todo o território de Nova Orleãs, aproveitando-se do saldo de destruição, é tão intensa que a própria Agência Federal de Gestão de Emergências (FEMA, na sigla em inglês, a Defesa Civil nacional, por assim dizer ) suspendeu completamente as operações de resgate e transferência de desabrigados. Tais grupos enfrentam abertamente os contingentes da Guarda Nacional de lá, e de maneira tão assombrosa que a própria polícia tem sido incapaz de sofrear a pilhagem e depredação. O ponto ao qual as coisa chegaram é de tal forma crítico, que levou as próprias vítimas daqueles agressores estão fazendo justiça com as próprias mãos. A tentação é forte para compararmos este quadro com que às vezes ouvimos do que se passa em certas áreas do Rio de Janeiro e Espírito Santo. Todavia, é muito pior: está mais é para Bagdá durante a guerra.
E tudo isto aconteceu no Sul dos Estados Unidos, cenário de histórias fascinantes e do preconceito racial mais brutal e vergonhoso experimentado no continente americano. Talvez se deva a isso o fato de o grosso dos desabrigados mostrados pela televisão ser composto por negros, que decerto viviam mal em casas péssimas. Mas, claro, isto não interessa. As causas do infortúnio nunca têm importância para a mídia e para a política: a fanfarra que se faz depois é que deve ser mostrada.
O fato é que, quem diria, estamos vendo os Estados Unidos experimentando momentos do que é viver no terceiro mundo. Será que olharão com melhores olhos para nós? Duvido. Um vento soprado do Atlântico derrubou Nova Orleãs. Um vento gelado, vindo de Washington, soprará todas as esperanças de entendimento entre Norte e Sul para bem longe.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 2 de setembro de 2005].

A Campanha da Fraternidade de 2007

A Campanha da Fraternidade deste ano surpreendeu a muitos fiéis, como também a muitos que não professam o catolicismo ou deles se afastaram. De fato, à primeira vista, a defesa da Amazônia parece ser um assunto muito mais ecológico do que teológico, e a Igreja, salvo os casos de São Francisco de Assis, Santo Huberto, São Brás e Santo Antão, nunca mostrou uma vocação para a defesa da Natureza, digamos assim. Pois o que se queria salvar era o homem — o resto, estava isento da graça de Deus, visto que não poderia conhecer Sua Palavra: afinal, as árvores não escutam, o jabuti e o urso nada tiveram a ver com o Pecado Original e os povos da floresta, fossem os bárbaros da Europa e Ásia, os negros da África e os índios da América, foram, por muito tempo, suspeitos de não terem a mesma origem sagrada dos civilizados, que se julgavam descendentes de Adão. Os outros, chegou-se a cogitar, ou eram filhos do demônio, ou gerados pelos piores pecadores que a história bíblica pudesse registrar e, dessa maneira, condenados de antemão e com agravantes. Erros graves, é verdade, mas que época não cometeu os seus?
São bem conhecidos vários episódios dos primórdios da Igreja, enquanto religião oficial do Império Romano, relacionados à destruição de bosques consagrados aos deuses pagãos (aqueles sob a invocação de Apolo eram os mais visados), mas também a outras formações florestais, por suspeita de serem ambientes de culto das divindades que deveriam ser proscritas. Com a expansão de sua área de influência, chegando às regiões germânicas e setentrionais, grande número de florestas foi derrubado por conterem, supostamente, em seu interior praticantes de “velhas religiões”. A história de carvalhos e bétulas tidos como sagrados por seus adoradores — por remeterem, de alguma maneira, a uma divindade local ou regional — e que foram derrubados por algum santo ou missionário, são freqüentes nas crônicas monásticas da Alta Idade Média (sécs. V-X).
Da mesma maneira, o interesse pelos povos que viviam nas florestas — muito mais comuns do que supomos, mesmo na Europa de até meados do século XVIII — era tão somente despertado na medida em que eram julgados como praticantes de hábitos condenáveis. “Focos de heresia”, “baluartes da feitiçaria”, “pontos de resistência da superstição”, assim eram chamadas aquelas comunidades que viviam alheias às cidades, no seu eterno cumprir e repetir de velhas práticas. Daí serem alvos de tantas perseguições, serem o principal objeto de suspeitas quando se perseguia a bruxaria e as heresias. O historiador italiano Carlo Ginzburg escreveu farta e esplendidamente sobre o assunto, mas não precisamos ir tão longe: basta pensarmos que, na maioria dos contos de fadas, as bruxas vivem nas florestas...
A partir do século XVI, por meio do Padre Bartolomé de Las Casas (1472-1566), do nosso Beato Padre José de Anchieta (1534- 1597), e de muitos outros pregadores na América, a imagem do índio vai sendo assimilada, compreendida, respeitada, a ponto de, na bula Veritas ipsa (1537), o papa Paulo III reconhecer o estado de liberdade natural dos índios e a sua condição humana, proibindo a sua escravização.O que, todavia, não impediu que muitos religiosos reduzissem os indígenas àquele estado. Não falo dos aldeamentos jesuíticos, que ainda que submetessem seus índios a uma situação quase semelhante à da escravidão — penso que, na verdade, tratava-se de uma adaptação da antiga servidão tal como experimentada pelas abadias e mosteiros medievais — ao menos buscavam trazê-los para a fé católica. Mas, sim, das conhecidas fazendas franciscanas da Bahia, que escravizavam o indígena sem dó nem piedade, ainda que afirmassem não o fazer. Mas quanto à proteção à natureza, como a entendemos hoje, nem uma palavra.
Somente na centúria seguinte, com o nosso Padre Antônio Vieira (1608-1697), o respeito ao indígena cresce em volume e em eficácia. Então veríamos a promulgação da bula Comissum Nobis, de Urbano VIII, de 1639, que estipulou a excomunhão e outras censuras canônicas para os que maltratavam os índios. Mas quanto ao dito meio-ambiente, como se diz, silêncio pétreo.
No século XVIII, alguns missionários jesuítas na Amazônia — todos eles, em grande medida, vozes isoladas em seu tempo — defenderam um certo cuidado com a Natureza, e muitos outros religiosos dedicaram sua vida ao seu estudo. Mas tais iniciativas foram vistas, em parte, como um pouco suspeitas de deísmo, uma voga filosófica de então que enxergava a graça divina para além dos homens, e presente também nas coisas, nas árvores, nos rochedos, nos rios, etc. Por isto a Igreja, mais uma vez, silenciou sobre o assunto. Somente sob o pontificado de João Paulo II o tema voltaria a ser tratado com destaque e compreensão.
Voltando à Campanha da Fraternidade deste ano, e seu tema, é preciso levar em conta que a Igreja Católica do Brasil optou, desde algumas décadas, por tratar de interesses econômicos, sociais e políticos, durante a Quaresma, como uma oposição à postura meramente reflexiva, contemplativa, que muitos fiéis desenvolvem durante o período. Jejum é bom, abstinência, seja do que for, também, e principalmente para a elevação da alma e compreensão das dificuldades sofridas pelo próximo. Mas não basta isto. A militância por um mundo melhor também é possível e, mais do que isto, indispensável. Se as privações da Quaresma nos educam e nos previnem quanto à avareza, fonte de todos os males, segundo muitos teólogos, que abramos nossos olhos aos comportamentos avaros do mundo, que ora campeiam com excepcional rigor na Amazônia. Quer finjam suas pretensões sob a capa de uma “nova fronteira do agro-negócio” — que na maioria das vezes é mero, e escamoteado, sinônimo de grilagem, formação de latifúndio, devastação ambiental, violência contras as populações autóctones e não cumprimento dos mais elementares direitos trabalhistas previstos em lei —, quer, ainda, como “um novo foco de estudos científicos” — abrindo a região à bio-pirataria de ervas, frutos, poções e do próprio sangue de indígenas (estes, utilizados quais cobaias).
É, pois, preciso, dar um basta nisso tudo. Portanto, foi muito feliz a iniciativa da Campanha da Fraternidade deste ano. Porque nos conclama a salvar uma boa parte de nosso território, os recursos naturais ali existentes, o povo que o habita, e a nossa integridade, a nossa honradez. Em suma, a nossa alma.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 7 de abril de 2007].

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Cifras absurdas e números infames

Como é do conhecimento de todos, a história do Brasil se confunde com uma sucessão de ciclos econômicos baseados no extrativismo e na produção agrícola — o que, aliás, é de se esperar de um país nascido de uma colônia. Assim, iniciamos com a extração do pau-brasil, passamos para o cultivo da cana-de-açúcar, extraímos ouro das entranhas da terra, tivemos culturas regionais, e específicas, de gado, tabaco, algodão, café e cacau, além da erva mate e das “drogas do sertão”. Sem falar da borracha. Depois veio um tempo em que se acreditou que o “destino” do país era ser “um celeiro” para o mundo. A partir de então pudemos verificar não mais grandes ciclos, mas, digamos assim, “épocas” de grande plantio ou cultivo de determinados produtos: quer seja, novamente, porém noutras regiões, o algodão, quer seja a laranja, a soja, etc. E agora, eis que o país vai se tornando, outra vez, um imenso canavial. É verdade que exportamos vários produtos manufaturados, entretanto, o equilíbrio de nossa balança comercial se deve, ainda, ao que plantamos, colhemos, coletamos ou abatemos.
Portanto, se somos tão dependentes do que a terra nos dá e se é uma regra — lógica, aliás — da economia, obter o máximo possível do que está disponível, natural seria, portanto, incentivar aquelas iniciativas que se revelaram as mais eficientes na produção. Até aí toda pessoa de bem há de concordar. E, a princípio, até saudar o agro-negócio como o cumprimento destas expectativas. O problema é que as coisas não são tão simples assim. Pois o agro-negócio tem se revelado brutal, excludente e eivado de vícios desde que longe do controle público, como se verifica em muitos rincões do Brasil.
Exagero? Nem um pouco. Basta que cruzemos certas informações.
Há toda hora é comemorada a abertura de uma “nova fronteira econômica”. Comemora-se a expectativa da produção em tais áreas, e a ocupação do território por atividades lucrativas e permanentes — como se vivêssemos ainda o receio de sermos invadidos por nossos vizinhos ou por nações poderosas e predatórias. Entretanto, o quê se vê nestas ditas “novas fronteiras”?
O que se vê é que, em primeiro lugar, vem a grilagem. Em segundo, a expulsão dos parcos moradores da região de suas terra, sejam intrépidos desbravadores, sejam índios, com seu justo e sagrado direito de viver e morrer no chão que foi de seus pais. Em terceiro, o desmatamento desenfreado e a perversão dos recursos hídricos. Em quarto, a sujeição de muitos trabalhadores a condições semelhantes a de escravos. Em quinto, os assassinatos de todos que se opõe a esta condição. Em sexto, os achaques às autoridades responsáveis pela fiscalização de todas as áreas e esferas violadas, graves ameaças ao poder legalmente constituído. Em sétimo, a corrupção de pessoas, meios, interesses e fins, como registram, a todo momento, os jornais.
Para que fiquemos somente no que diz respeito ao desmatamento e aos casos de escravidão, vejamos alguns dados.
Nos últimos quatro meses, a Amazônia perdeu mais de 6 mil quilômetros quadrados de floresta, sendo que nos 12 meses anteriores a julho de 2007, calcula-se a perda de mais de 9.600 quilômetros quadrados — e ainda assim, este é considerado o menor nível de desmatamento desde a década de 1970, período em que teve início a ocupação da região pelo agro-negócio.
No outro prato desta balança da injustiça, estão os números da escravidão. No último ano, foram 5.877 pessoas libertadas pelos fiscais do Ministério do Trabalho e, desde 1995, 27.645 os casos de pessoas recebendo tratamento semelhante àquele impingido aos escravos do passado — do passado? E as áreas com os mais altos índices desta infame exploração da mão-de-obra são os estados do Mato Grosso do Sul, Pará, Maranhão e Tocantins, notórias “fronteiras”, algumas delas nem tão novas, do agro-negócio.
Tais casos ninguém nunca soube, ninguém nunca viu? Alguns senadores não podem dizer isso, já que chegaram até a condenar os trabalhos dos fiscais, que consideram “exagerados”. Francamente...
Em vista do exposto, não resta dúvida de que é necessário questionar uma atividade, um ramo de negócios, que age à sua própria revelia na busca de cifras astronômicas em detrimento de todo um povo, de suas leis, de sua dignidade.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 19 de janeiro de 2008].

Proteção ambiental e Lucro cabem numa mesma equação?

Há muito tempo se critica o insensato turismo de massas de que a cidade de Veneza é vítima todos os anos. Fragílima em sua estrutura, os amantes daquele belo cenário acabam, paradoxalmente, por contribuir na sua degradação e no afundamento da cidade nas águas de sua laguna. E o mesmo pode ser dito, no caso do Brasil, quanto aos carnavais de multidões pelas sinuosas ruas de Ouro Preto e Diamantina, em Minas Gerais, e Olinda, em Pernambuco, que atentam contra o secular patrimônio arquitetônico daquelas cidades. Aliás, neste caso é ainda muito pior. Em Veneza, uma multidão caminha. Nas velhas urbes brasileiras, hordas marcham, pulam, trepidando-as, sacudindo-as. E ano após ano a situação é a mesma. Ainda veremos, anotem, algum antigo casarão ou igreja desabar sobre as cabeças dos foliões, perdendo eles as vidas e, nós, um legado artístico de gerações.
Já no que diz respeito ao turismo ecológico, alguns avanços tem sido feitos na preservação daquilo que é, justamente, o seu atrativo, a sua razão de existir. Assisti, por exemplo, recentemente, a um programa de televisão no qual eram mostradas as medidas adotadas na manutenção de dois frágeis ambientes: o arquipélago de Fernando de Noronha, em Pernambuco, e alguns sítios hídricos de Bonito, Mato Grosso do Sul. Ambos os lugares, como é sabido, são alvo de um turismo intenso, mas de alguns poucos anos para cá, muitos cuidados vêm sido tomados, e das mais diferentes formas. Dentre elas, à primeira vista, muitas parecem arbitrárias, e aparentemente opostas ao interesse dos turistas e dos empresários que deles dependem. É o caso da interdição de certas áreas aos visitantes ou da limitação do número deles a tais locais: neste último caso, é permitido a centenas de pessoas visitá-los diariamente, mas não todas elas ao mesmo tempo. Mas o curioso quanto a estas políticas, indicadas pelo IBAMA, é que elas são rigidamente seguidas por muitos empresários que descobriram que tais práticas não matam suas “galinhas dos ovos de ouro”, antes preservam e estendem suas vidas. Há, claro, aqueles que não dão a mínima para isto, erguendo hotéis e pousadas onde bem lhes dá na veneta, devastando florestas para a construção de campos de golfe, drenando mangues para a construção de piscinas, além de outras aberrações. Mas o Estado tem se mostrado bem vigilante nesta e noutras áreas: veja-se o caso, por exemplo, das duras medidas que o Governo Federal impôs quanto a certos “empreendedores” que devastavam a natureza em algumas “fronteiras agrícolas” — tema, aliás, de uma recentíssima crônica neste espaço.
Assim, se o que vemos, por um lado, é o zelo de muitas autoridades, aliado ao próprio esforço de muitos empresários na preservação ambiental, por outro lado podem ser notadas atitudes completamente “surreais”, para não dizer loucas, não fossem as mesmas revestidas de um potencial imenso de lucros, para uns, e de uma certa “anestesia” das consciências culpadas de outros tantos. Trata-se, no caso, dos novos condomínios de alto luxo de São Paulo e de outras cidades, que alardeiam possuírem, em suas áreas, “bosques”, “remanescentes de matas”, “trechos de florestas nativas”, etc.
Tal fenômeno não é novo no mundo. Em princípios do século XIX já se construíam vivendas nos limites das cidades, em detrimento da flora original, da qual só mantinham pálidos resquícios: isto se deu tanto na Europa e América do Norte quanto no Brasil. A própria idéia da “cidade-jardim” com seus bosques artificiais, gerada na Inglaterra de meados do mesmo século, adotada pelos norte-americanos no fim daquela centúria, e por nós lá pelos anos 1910-1920, como se vê, não vem de hoje. Mas a marcha contra as reservas, e a criação de “florestas de faz-de-conta”, é fenômeno recente. Nos EUA, deu-se a partir dos anos 1950, e prossegue, sem tréguas, até hoje. Já por aqui, tem pouco mais de quarenta anos, radicalizou-se nos anos 1970, dobrou de tamanho nos anos 1980-1990, exacerbou-se na última década, e ninguém sabe até onde pode chegar. De uns dez anos para cá, virou moda, em estados como São Paulo, Minas Gerais e Rio de Janeiro, anunciar condomínios, verticais ou horizontais, que contariam com verdadeiras pequenas disneylândias arbóreas.
É claro que ninguém pode ter nada a dizer contra aqueles que preferem viver “junto à natureza”. Mesmo quando ela é falsificada. A nostalgia de mato, como vivos, é coisa antiga: qualquer jardim é, em essência, uma tentativa de restauração do Jardim do Éden. Mas daí a avançar sobre os espaços naturais, ou fabricar simulacros deles, há uma grande distância. Passa a ser a privatização do espaço público, sem acesso ao público! Finge-se que a natureza é preservada, mas seu contato direto se dá apenas a alguns poucos. Sem falar no custo ambiental que é gerado pelo deslocamento dos habitantes desta “urbanidade difusa” — como já é chamado tal caso — das cidades às suas ilhas de bucolismo: pelo consumo de combustível, emissão de poluentes, urbanização forçada do entorno, gastos públicos na manutenção dos mesmos, e por aí vai.
Para os que tiverem maior interesse pelo tema, recomendo a leitura de um ótimo artigo intitulado Os Rururbanos e a natureza, publicado na edição deste mês da revista Le Monde Diplomatique Brasil — um periódico de leitura indispensável para qualquer um que se julgue pensante. Vale a pena dar uma olhada, também, no artigo Pensar a cidade para que os ricos vivam felizes, da mesma publicação, só que da edição de janeiro de 2007. São bons argumentos para uma resposta à equação que propõe a possível coexistência benéfica — ou seria maléfica? — entre a proteção ambiental e o lucro. È algo, portanto, a se verificar.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 16 de fevereiro de 2008].

A Amazônia, mais uma vez...

Em 1990, se não me falha a memória, participei de um fórum de debates acerca dos destinos da Amazônia, fórum este sediado, muito apropriadamente, em Manaus. Daquele encontro, confesso, nada resultou de objetivo. Alguns participantes chegaram até mesmo a influírem — muito pouco, diga-se — nas discussões e na organização da Eco ‘92, aquele desfile de chefes-de-estado e tropas do nosso Exército — para garantir a segurança dos primeiros — pela maravilhosa e turística cidade do Rio de Janeiro. E a verdade é que aquele globalizado evento, coberto pela mídia mundial, também não deu em nada. Aliás, lembro-me que, à época, pensei: não chegamos a resultado algum em Manaus, mas, pelo menos não tínhamos tanta cobertura da imprensa. Agora, vêm estes malandros de fora, transmitidos por rádio e televisão para o mundo inteiro, e fazem o mesmo que nós — nada — e voltam para casa como se tudo estivesse bem, e dormem o sono dos justos, mesmo com todo o alarido que as suas faltas de vontade, identificadas pelos jornais, foi capaz de produzir. Quisera eu dormir assim...
O fato, no que diz respeito à Amazônia, resumindo, é que tudo permanece como sempre foi. O cenário de devastação ainda é o mesmo — ampliado, convenhamos, mas o mesmo — assim como os discursos. O quê, por sua vez, clama à atenção: os problemas, as análises, os projetos acerca do tema, já estavam propostos desde aquela época. Todavia, eles se repetem, monotonamente, e sem solução, até hoje.
Toda vez em que se falava — então, como ora também se fala — na floresta amazônica, os argumentos eram sempre os mesmos. De um lado, havia aqueles que nada mais enxergavam nela do que uma gigantesca porção de mato improdutivo, pronto para a derrubada, para a limpeza do campo, no qual frutificariam plantações de soja e onde o gado fartaria-se de um novo e imenso pasto. De um outro lado, existiam os que defendiam aquele espaço como se o mesmo fosse uma espécie de “santuário mundial da natureza”: intocável e indevassável, uma espécie de horto ideal, um novo simulacro do Jardim do Éden onde plantas, animais e índios viveriam numa espécie de paz anterior ao Pecado Original.
Já naqueles tempos se temia a infiltração de ONG’s estrangeiras, voltadas à bio-pirataria, por um lado, e, por outro, ao aliciamento de índios com o fim de incitar nos mesmos o desejo de que reivindicassem uma identidade territorial e política — uma nação independente do Brasil, naquelas plagas. Já se falava do avanço dos produtores de soja e criadores de gado, dos garimpeiros, posseiros, além de toda a sorte de mal-feitores, ligados a eles, ou independentes, que derrubavam a floresta, queimavam a vegetação, abatiam animais silvestres, envenenavam rios, assassinavam índios, missionários e lideranças populares locais. Já ouvíamos os muxoxos das Forças Armadas revelando seu terror ante a possibilidade de uma internacionalização da Amazônia, que as fazia preferir os grileiros aos índios, ignorando as sábias idéias, comprovadas, pelo Marechal Rondon, quanto ao caráter íntegro e patriótico — para o bem — de nossos silvícolas.
Portanto, fica a pergunta: daqueles tempos para os atuais, o que mudou neste quadro? Os problemas permanecem os mesmos, somente os seus raios de atuação, maléficos, se expandiram. Igualmente os medos, as dúvidas, como, também, as respostas oficiais: imutáveis, inertes, irrisórias.
O genial Monteiro Lobato, cafeicultor de velha cepa, cunhou, há muito tempo, uma célebre expressão: “Ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil”. Dentre as suas metáforas com temas naturais, esta só não é a melhor porque engendrou uma outra, associando o burocrata ao mata-pau e o bacharel à orquídea: o qual seria tão belo quanto inútil — mas, acima de tudo, um predador e um parasita. Prestadas as vênias ao mestre, e descontando-se a matriz de seus pensamentos — a decadência de suas lavouras de café e a época em que vivia — não estaríamos errados se, junto a ele, fizéssemos um novo coro: “Ou o Brasil acaba com os gafanhotos que assolam a Amazônia, ou os gafanhotos acabam com a Amazônia, e partem ao meio o Brasil”. Pois a fome deles é tanta que nos leva até a pensar, como plausível, numa intervenção externa que defenda aquela área. Entre um “deserto cem por cento brasileiro” e uma “floresta global”, qualquer pessoa de bom senso escolhe pela segunda opção. Afinal, é um assunto que diz respeito a toda humanidade. À humanidade, e não a meia dúzia de tacanhos interesses locais. Não quero dizer que devemos entregar a Amazônia “de mãos beijadas”. Mas será que somos capazes de dar conta dela, e de uma forma que não a comprometa? Em vista dos atores envolvidos, nas escalas municipais, estaduais e federais, será que podemos vislumbrar alguma solução no futuro? Mas não precisamos de uma solução no futuro. Dela necessitamos, sim, agora! E o Estado brasileiro estaria capacitado a solucioná-la?
Vivemos em tempos catastróficos: melhor seria dizer, sobrevivemos. Depois de séculos de latifúndio e monocultura para a exportação, eis que nos reintegramos, mais uma vez, ao velho ciclo. A cana-de-açúcar permanece como o vetor colonial, a ela só agregamos novos resultados — o álcool — e novos parceiros — a soja e a carne. Mas, hoje, como antes, concentrada na mão de uns poucos, bem poucos. Estamos, novamente, à beira de um colapso alimentar, e da conseqüente carestia, que lhe é seguidora natural, como era comum nos tempos da Colônia.
Quando, afinal, se dará a nossa plena independência econômica?Na geração de nossos bisnetos? Duvido. Pois se seguirmos os ditames atuais, pregados de Nova Iorque a Pequim, tenho minhas sinceras dúvidas de que nossos descendentes possam herdar alguma coisa. Qualquer coisa, aliás...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 31 de maio de 2008].