quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

A Amazônia, mais uma vez...

Em 1990, se não me falha a memória, participei de um fórum de debates acerca dos destinos da Amazônia, fórum este sediado, muito apropriadamente, em Manaus. Daquele encontro, confesso, nada resultou de objetivo. Alguns participantes chegaram até mesmo a influírem — muito pouco, diga-se — nas discussões e na organização da Eco ‘92, aquele desfile de chefes-de-estado e tropas do nosso Exército — para garantir a segurança dos primeiros — pela maravilhosa e turística cidade do Rio de Janeiro. E a verdade é que aquele globalizado evento, coberto pela mídia mundial, também não deu em nada. Aliás, lembro-me que, à época, pensei: não chegamos a resultado algum em Manaus, mas, pelo menos não tínhamos tanta cobertura da imprensa. Agora, vêm estes malandros de fora, transmitidos por rádio e televisão para o mundo inteiro, e fazem o mesmo que nós — nada — e voltam para casa como se tudo estivesse bem, e dormem o sono dos justos, mesmo com todo o alarido que as suas faltas de vontade, identificadas pelos jornais, foi capaz de produzir. Quisera eu dormir assim...
O fato, no que diz respeito à Amazônia, resumindo, é que tudo permanece como sempre foi. O cenário de devastação ainda é o mesmo — ampliado, convenhamos, mas o mesmo — assim como os discursos. O quê, por sua vez, clama à atenção: os problemas, as análises, os projetos acerca do tema, já estavam propostos desde aquela época. Todavia, eles se repetem, monotonamente, e sem solução, até hoje.
Toda vez em que se falava — então, como ora também se fala — na floresta amazônica, os argumentos eram sempre os mesmos. De um lado, havia aqueles que nada mais enxergavam nela do que uma gigantesca porção de mato improdutivo, pronto para a derrubada, para a limpeza do campo, no qual frutificariam plantações de soja e onde o gado fartaria-se de um novo e imenso pasto. De um outro lado, existiam os que defendiam aquele espaço como se o mesmo fosse uma espécie de “santuário mundial da natureza”: intocável e indevassável, uma espécie de horto ideal, um novo simulacro do Jardim do Éden onde plantas, animais e índios viveriam numa espécie de paz anterior ao Pecado Original.
Já naqueles tempos se temia a infiltração de ONG’s estrangeiras, voltadas à bio-pirataria, por um lado, e, por outro, ao aliciamento de índios com o fim de incitar nos mesmos o desejo de que reivindicassem uma identidade territorial e política — uma nação independente do Brasil, naquelas plagas. Já se falava do avanço dos produtores de soja e criadores de gado, dos garimpeiros, posseiros, além de toda a sorte de mal-feitores, ligados a eles, ou independentes, que derrubavam a floresta, queimavam a vegetação, abatiam animais silvestres, envenenavam rios, assassinavam índios, missionários e lideranças populares locais. Já ouvíamos os muxoxos das Forças Armadas revelando seu terror ante a possibilidade de uma internacionalização da Amazônia, que as fazia preferir os grileiros aos índios, ignorando as sábias idéias, comprovadas, pelo Marechal Rondon, quanto ao caráter íntegro e patriótico — para o bem — de nossos silvícolas.
Portanto, fica a pergunta: daqueles tempos para os atuais, o que mudou neste quadro? Os problemas permanecem os mesmos, somente os seus raios de atuação, maléficos, se expandiram. Igualmente os medos, as dúvidas, como, também, as respostas oficiais: imutáveis, inertes, irrisórias.
O genial Monteiro Lobato, cafeicultor de velha cepa, cunhou, há muito tempo, uma célebre expressão: “Ou o Brasil acaba com a saúva, ou a saúva acaba com o Brasil”. Dentre as suas metáforas com temas naturais, esta só não é a melhor porque engendrou uma outra, associando o burocrata ao mata-pau e o bacharel à orquídea: o qual seria tão belo quanto inútil — mas, acima de tudo, um predador e um parasita. Prestadas as vênias ao mestre, e descontando-se a matriz de seus pensamentos — a decadência de suas lavouras de café e a época em que vivia — não estaríamos errados se, junto a ele, fizéssemos um novo coro: “Ou o Brasil acaba com os gafanhotos que assolam a Amazônia, ou os gafanhotos acabam com a Amazônia, e partem ao meio o Brasil”. Pois a fome deles é tanta que nos leva até a pensar, como plausível, numa intervenção externa que defenda aquela área. Entre um “deserto cem por cento brasileiro” e uma “floresta global”, qualquer pessoa de bom senso escolhe pela segunda opção. Afinal, é um assunto que diz respeito a toda humanidade. À humanidade, e não a meia dúzia de tacanhos interesses locais. Não quero dizer que devemos entregar a Amazônia “de mãos beijadas”. Mas será que somos capazes de dar conta dela, e de uma forma que não a comprometa? Em vista dos atores envolvidos, nas escalas municipais, estaduais e federais, será que podemos vislumbrar alguma solução no futuro? Mas não precisamos de uma solução no futuro. Dela necessitamos, sim, agora! E o Estado brasileiro estaria capacitado a solucioná-la?
Vivemos em tempos catastróficos: melhor seria dizer, sobrevivemos. Depois de séculos de latifúndio e monocultura para a exportação, eis que nos reintegramos, mais uma vez, ao velho ciclo. A cana-de-açúcar permanece como o vetor colonial, a ela só agregamos novos resultados — o álcool — e novos parceiros — a soja e a carne. Mas, hoje, como antes, concentrada na mão de uns poucos, bem poucos. Estamos, novamente, à beira de um colapso alimentar, e da conseqüente carestia, que lhe é seguidora natural, como era comum nos tempos da Colônia.
Quando, afinal, se dará a nossa plena independência econômica?Na geração de nossos bisnetos? Duvido. Pois se seguirmos os ditames atuais, pregados de Nova Iorque a Pequim, tenho minhas sinceras dúvidas de que nossos descendentes possam herdar alguma coisa. Qualquer coisa, aliás...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 31 de maio de 2008].

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