Acredito que todos os leitores conhecem o termo folhetim. Em todo caso, para os mais jovens, não custa recordar, ou ensinar. Pois bem, o folhetim (do francês feuilleton, diminutivo de feuillet, “a folha”, ou “a página”) nada mais é do que um romance, ou novela, publicado em jornais ou revistas de forma seriada, ou seja, um capítulo em cada novo exemplar. Uma de suas características principais, entretanto, era a participação dos leitores no próprio desenvolvimento da trama. Ora, como assim? Pois bem, por mais que uma forma geral do enredo fosse imaginada pelo autor, pelo simples fato de sua edição ser seriada, a mesma permitia, assim, que o público interviesse com críticas e sugestões nas páginas do mesmo periódico, entre um capítulo e outro. Por conta disso, há quem veja o gênero como “menor” na literatura, já que seus autores eram obrigados a submeterem-se ao gosto do público, em detrimento de um plano total da obra, quer por acatarem em demasia as vontades dos leitores, quer ainda pelo fato de criarem, ao correr e ao sabor da pena, mil complicações, semana à semana, só para prenderem a atenção do geral, para garantirem, com isto, a edição da série, a leitura dos jornais ou revistas nos quais vinham à luz.
Mas há um certo exagero nestas críticas. Grandes escritores publicaram ótimas narrativas graças a este meio. Balzac, Dickens, Alexandre Dumas, Camilo Castelo Branco, José de Alencar, Joaquim Manuel de Macedo, Machado de Assis, Manuel Antônio de Almeida, Coelho Neto e Lima Barreto estão entre os cultivadores do gênero. Mas, verdade seja dita, boa parte deles aderiu a esta empreita movidos mais por necessidades financeiras do que por apreço à fórmula. A imprensa pagava muito bem por suas contribuições, já que existia um público ávido por novas histórias. Todavia, em nada descuidaram quanto aos seus talentos, idéias, proposições estéticas, etc. É fato que existiram verdadeiros profissionais na matéria. Eugène Sue, com os seus Mistérios de Paris e O Judeu Errante, tornou-se fabulosamente rico e uma das principais referências do gênero (a própria palavra mistério, como sinônimo de uma condição social, moral ou histórica pouco conhecida, deve sua consagração a ele, sendo copiada desde a imprensa e literatura até ao cinema). Ponson du Terrail, um autor esquecido, hoje só encontrado nas bibliotecas públicas ou avoengas, foi um dos autores mais lidos de meados do século XIX até mais da metade do século XX. Por outro lado, havia toda uma fábrica, por assim dizer, de folhetins, escritos por autores ora completamente desconhecidos que não primavam pela forma, mas, sim, unicamente pelo escândalo e por agradar ao público. Daí a noção pejorativa que o termo, e o gênero, acabou por receber.
No Brasil, o folhetim já conheceu os seus dias de glória, como as menções anteriores o revelam. Vez ou outra tentam resgatá-lo, pela via impressa, nalguns grandes jornais. Mário Prata é um dos que perseveram nesta tentativa infrutífera. Sim, infrutífera. Pois não se pode concorrer com os folhetins da televisão, com as telenovelas, herdeiras bastardas das novelas de rádio. Com elas, ninguém pode. Que o digam os donos de cinemas, teatros e os empresários de circos. A telenovela, sabe-se desde há muito tempo, é o folhetim de nossos dias. Atestam esta condição seus enredos abordando temas atuais, na maioria das vezes polêmicos, bem como as intervenções do público junto ao desenrolar da trama (por meio do Ibope e quejandos). Existe liberdade de criação? Sim, é claro. Basta que verifiquemos a ênfase de certos autores quanto a abordarem temas que não estão presentes, de forma explícita, em nosso dia-a-dia. Muitos deles justos, diga-se, mas a maioria exagerada, quando não impossível à luz da razão e da realidade.
Querem exemplos? Pensemos na última telenovela global, recém-terminada. Por meio dela vimos uma favela beirando a mais bela utopia jamais sonhada pela humanidade, o apaziguamento das contradições sociais pelo casamento inter-racial, aliás, em profusão, vimos até um homem rico ir para a cadeia, cumprindo sua pena na totalidade, uma improvável união civil entre homossexuais e um impossível, e ridículo, registro de dupla paternidade para uma criança. Não discordo quanto ao fato de que certas questões merecem uma chancela legal, ou uma plena aceitação da sociedade como um todo. Mas daí a proclamar, por exemplo, de forma grosseira e reducionista, o fim do preconceito racial passando pela cama, há uma longa distância: Gilberto Freyre, por mais contemporizador que fosse quanto ao assunto, certamente revirou-se em sua tumba, frente à tal simplificação de um fato tão controverso.
Mas o triunfo do folhetim verificou-se no último capítulo, quando a protagonista “compra” aquele que a traíra e abandonara. Achei o final tão surpreendente, em vista das produções do gênero, que pensei, na mesma hora: aí tem mão de gato. E tinha. Nada mais é do que uma adaptação de Senhora, romance de José de Alencar, publicado, inicialmente, em folhetim. Uma versão para os nossos tempos, mas, ainda assim, uma clara adaptação folhetinesca. Duvidam? Verifiquem. E quase tal e qual.
Concluindo, que fique a telenovela no limbo a que elas são destinadas tão logo terminem. Digo apenas que, dada a permanência da cultura do folhetim, seria oportuno que os currículos escolares contemplassem o gênero com mais atenção. Senhora, Diva, e A Pata da Gazela, só para ficarmos em José de Alencar, são infinitamente mais interessantes, mais bem realizados como obras literárias, e, sobretudo, mais palatáveis, do que o chatíssimo O Guarani, ou aquele patético O Gaúcho, que pula de um morro inexistente em sua região. Voltemos, portanto, aos folhetins. Aproveitemos uma fórmula consagrada e a empreguemos no estudo da literatura. Pode não ser o melhor frente à ampla gama de gêneros, é verdade, mas é uma porta eternamente aberta: cabe a nós, simplesmente, saber como nela adentrar, e que rumo seguir a partir de então.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 7 de junho de 2008].
A vaca estradeira
Há um dia
Nenhum comentário:
Postar um comentário