quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

São Paulo entregue a si mesmo: sonho ou pesadelo?

Nestes tempos em que o separatismo tem ganhado mais adeptos do que nunca, e pelo mundo inteiro, resolvi pesquisar alguma coisa acerca dele. Digo já, de antemão, que acabei me tornando favorável a todos eles. Se um povo, de qualquer região da Terra, decide que não mais quer pertencer a uma matriz a qual julga dominá-lo, é mais do que justo que ele procure sua independência. Se querem exemplos deste direito, eles não faltam. Estados Unidos da América, Brasil, e todas as nações americanas são, de uma certa maneira, fruto do separatismo. A regra vale também para o Oriente Médio, nele incluído o Estado de Israel; para a Ásia, como o provam, dentre outros, Paquistão e Bangladesh, e para a África, literalmente, como um todo. Portanto, que viva a independência da Catalunha, da Irlanda do Norte, do Tibete, da Chechênia, do País Curdo e do País Basco!
E aqui mesmo, neste estado, este tema vira e mexe volta a ser discutido. O desejo de São Paulo por se livrar do Brasil. Mas seria viável? Não falo do ponto de vista legal, pois não há o que não se mude: pela força das armas, só não se revoga a Lei da Gravidade.
Quanto à velha peroração da união histórica e naturalmente indissolúvel do nosso território, dá também o que pensar. Se a mera integralidade de um território é o argumento principal para a identidade de uma nação, que reivindiquemos, então, aquilo que nos foi roubado!Pois esta é a única lógica possível frente a tal argumento. Portanto, que anexemos o Uruguai e que invadamos a Guiana Francesa, conquistada, brevemente, à força das armas brasileiras no início do século XIX. A mesma lógica aplicar-se-ia a Angola e a outras ex-colônias portuguesas na África atlântica, por mais de dois séculos dependentes do comércio brasileiro, praças quase que exclusivas de nossos ancestrais e culturalmente muito mais próxima de nós do que de seus vizinhos. Além disso, a tal união histórica teve seus muitos momentos de quebra: Minas Gerais já se quis independente, assim como Pernambuco; e Bahia e Rio Grande do Sul efetivamente já o foram.
No caso de nosso estado, ele também já o tentou ser, numa época em que, comparado à maioria das unidades da federação, assumia, de fato a liderança econômica, social, política. No tempo em que tínhamos ferrovias, bancos estaduais, escolas e hospitais modelos, públicos, e profissionais bem remunerados nestas áreas. Uma indústria florescente e o principal produto de exportação daquele tempo. Mas, e hoje? Portanto a pergunta realmente é: seria viável?
São Paulo se tornou um canavial rodeando favelas, as quais, por sua vez, estrangulam bairros onde se erguem shoppings, que fogem dos centros da cidades porque seus clientes entregaram-no ao léu, por se acharem superiores a todo resto. Os centros são democráticos, todo o povo para ali converge. Ora, quem acha que ascendeu, quem persegue o status como fim, rejeita a democracia. E por isso vão se trancar em suas fortalezas, seguras, mas de muito mau-gosto. E de suas torres, que não são de marfim (antes o fossem), mas de vidro e pintura “texturizada”, ou de seus condomínios fechados. E de lá dizem acompanhar a realidade nacional, pelo simples folhear de uma Caras, de uma Veja...
Outra questão que se coloca no caso de um São Paulo independente, algumas questões se colocam. Para uma independência do todo, seria necessária, também, a adoção de um falar próprio? E qual seria este? Uma versão dos idiomatismos que grassam no interior – o “r” carregado, e por vezes substituindo o “l” – ou o patois falado na capital, uma mistura do gutural com o anasalado, que faz com que muitas moças da metrópole falem como travestis? Ou seria composto um novo híbrido, um misto do falar da Mooca com o de Pindamonhangaba, quiçá, temperado por um certo “jeitão” de locutor de rodeio? É algo a se perguntar...
São Paulo, é fato, comporta-se muito como o parente rico da anedota: por conta de sua riqueza, ninguém faz nada, já que a mesada, ou a herança, estão garantidas. Mas, então, por que ele não dá oportunidades para que seus dependentes cresçam? Porque ele próprio não produz nada que não dependa da matéria-prima ou da mão-de-obra barata que vem para cá. Ou alguém acredita que só Cotia e o Oeste do estado dão conta de alimentá-lo? Ou que nossos a cada dia mais parrudos habitantes das cidades vão para trabalhar debaixo do sol, nas lavouras? São Paulo independente morre de fome na primeira semana. Nem cana ele vai poder chupar, porque está se encontra toda comprometida com álcool.
Às vezes é mesmo de se pensar se o mais correto, na verdade, não seria, isto sim, o Brasil se livrar de São Paulo, mandando para cá todos os nossos representantes em Brasília, logicamente, que não teriam mais sentido em ali permanecerem. Será que faríamos uma boa troca?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 14 de junho de 2008].

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