Peço a licença do leitor, mas hoje não trataremos da Olimpíada de Atenas. Muita água há de correr ainda debaixo desta ponte entre a antiga Grécia e os dias atuais e, portanto, hoje este espaço tenta reparar uma tradição meio esquecida. Trata-se de fazer uma justa menção a um vulto do passado no dia de seu aniversário de nascimento (ou o mais próximo possível do dia). Pois sabia o leitor que no último dia 11 de agosto celebraram-se exatos 260 anos do nascimento do poeta e inconfidente Tomás Antônio Gonzaga? E alguém, por acaso, leu alguma linha a respeito? Ou se lembra de alguma celebração feita há dez anos? E, convenhamos, 250 ou 260 anos, em se tratando de América, é muita coisa — não me ocorre um poeta de tanto peso quanto ele em todo o continente e em tempo tão recuado. Foi pensando nisso que procurei pesquisar todas as homenagens feitas a ele nos últimos dois séculos. E o resultado foi estarrecedor, como o leitor verá.
A primeira grande homenagem deu-se justamente num 11 de agosto, o de 1827, em que foram criados os dois cursos de Direito no Império do Brasil, o de São Paulo e o de Olinda, data escolhida em razão do aniversário do poeta e por ter ele idealizado a primeira faculdade no Brasil. E qual a retribuição dos estudantes de Direito? No dia 11 de agosto celebram Gonzaga? Que nada, dão calotes na praça!
A segunda foi grande e auspiciosa: Gonzaga, ou a Revolução de Minas, peça do poeta Castro Alves, estreou em 1867 com muito sucesso, sendo a consagração do jovem poeta baiano. Grande mesmo, apesar de alguns deslizes ou de certo excesso de imaginação do autor de Espumas Flutuantes: na cena final um visionário Tomás Antônio Gonzaga profetiza o aparecimento de Napoleão Bonaparte no cenário mundial, ao som dos primeiros acordes do Hino Nacional, que só seria composto trinta anos depois da trama encenada no palco...
A terceira ocorreu em 1897, quando o nome de Gonzaga foi escolhido como patrono da cadeira número 37 da Academia Brasileira de Letras — bem atrás de nomes como Adelino Fontoura (Adelino quem?), cadeira número1, Artur de Oliveira (Artur de quê?), na cadeira número 3; vá lá que seus contemporâneos Basílio da Gama e Cláudio Manuel da Costa estejam entre os primeiros (cadeiras número 4 e número 8, respectivamente), mas por que Gonzaga está tão longe? Por que não a de número nove, ou doze, por exemplo?
A quarta veio a ser — alguns dizem que precisamente, outros, indiretamente — na escolha do nome do centro acadêmico da Faculdade de Direito de S. Paulo, e deu-se em 1903. Precisamente, querem alguns, por ser a escolha do nome do centro acadêmico uma homenagem ao natalício do poeta. Indiretamente, pretendem outros, por que então já quase ninguém mais se lembrava do inconfidente: entrava o onze de agosto mais como aniversário da criação do curso que homenagem ao antigo vate.
Já em 1909, em Juiz de Fora, foi nomeado patrono da cadeira número 27 (atual número 34) da Academia Mineira de Letras. Esta é realmente de espantar! Por mais que Minas Gerais seja pródiga em literatos, colocar 26 nomes antes de Gonzaga é um prodígio! Meterem-lhe ainda mais sete no meio, então...
No ano do bicentenário de seu nascimento, 1944, finalmente, uma grande homenagem. Inaugura-se o Museu da Inconfidência, em Ouro Preto. Vasculharam-se também alguns cemitérios da África e do Brasil e com os restos dos inconfidentes que acharam, o de Gonzaga inclusive, naquele belíssimo monumento criaram o Panteão da Inconfidência, um espaço, no mínimo, comovente. Mas uma ironia paira por sobre esta homenagem: há quem diga que os ossos não são do poeta, mas de um seu neto africano de mesmo nome.
Quatro anos depois, outra celebração, de cunho mais popular: Carmen Santos, portuguesa de nascimento e grande atriz brasileira, dirige o filme Inconfidência Mineira, que conseguiu ser um raro caso de fracasso de público e de crítica no Brasil. Um filme que levou onze anos para ser terminado, que ficou desaparecido por algumas décadas e que até hoje pouca gente viu ou se lembra. Nele, ao que consta, os protagonistas seriam os personagens de Tomás Antônio Gonzaga, Dirceu, e de sua noiva e musa Marília, Maria Dorotéia de Seixas. Que o poeta não se deu bem no cinema, prova-o o fato de que seu vulto só retornou à tela em dois filmes, Os Inconfidentes, de Joaquim Pedro de Andrade, de 1972, e Tiradentes, de 1998, dirigido por Oswaldo Caldeira, impiedosamente malhados pela crítica e, quanto ao último, até mesmo por historiadores.
E entre estas datas, que homenagens recebeu o poeta?
Em 1953, talvez a maior delas. São os belos versos dedicados a ele por Cecília Meireles no seu Romanceiro da Inconfidência. Incontestavelmente a maior homenagem e sem um senão a ela relacionada. Mas em 1978, virou nome de rua no Jardim Tango (bairro nada conhecido), em São Paulo. E em 1994, os Correios lançaram um selo comemorativo aos 250 anos de nascimento do poeta. Francamente!
E hoje, quem se lembra? Quem lhe mostra gratidão? Matou-se o dia de Gonzaga. Que viva o Dia do Pendura! Isto lá é homenagem que se preste? Triste, triste a sina de Gonzaga...
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em data que não me recordo, mas por volta do 11 agosto de 2004].
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