sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

El-Rey y El Presidente.

Ainda que eu não seja um grande entusiasta de movimentos como aqueles reunidos no Fórum Social Mundial, confesso que concordo com muitas das idéias ali propostas, e se não tanto em sua essência, ao menos porque, de fato, são propostas novas — outras nem tanto, mas penso que mereceriam uma segunda oportunidade de serem postas em ação. Afinal, todos sabemos, basta desta repetição de práticas velhas, deste eterno retorno do óbvio, destas políticas à base do “se não tem tu, vai tu mesmo”, e por aí afora: é melhor quem não ter cão, caçar com gato, do que, eternamente, empurrar os problemas com a barriga, de deixar estar para ver como é que fica.
De tal maneira, oscilando entre algumas boas idéias, novas ou velhas, e ao mesmo tempo desconfiando um bocado de quem as propunha, não nego que tenha nutrido certas simpatias pelos presidentes Hugo Chávez e Evo Morales. Depois que o nosso Exmo. Sr. Presidente da República se tornou um social-democrata — no sentido mais próximo desta expressão, ou seja, longe da maneira como uma certa agremiação claramente liberal a interpreta — ouvir, de fato, propostas, idéias, planos, vindos de nossa tão combalida América Latina, sugeriu-me, se não uma “nova era”, ao menos alguma mudança. E meu raciocínio seguiu a seguinte alegoria. Vivemos numa casa velha, fechada há muito tempo, cuja fachada foi coberta de imensos anúncios publicitários, mas cujo interior continuou se degradando, em seu abafamento, e cujas estruturas, descuidadas ao longo dos anos, mal e mal sustinham as grandes placas da publicidade. E eis que apareceram personagens que abrem as janelas da velha casa e enchem-na de um novo e fresco sopro de vida. Talvez, é possível, não uma brisa suave, como seria o desejo de muitos, mas dado o estado das coisas, é possível acreditar que somente uma ventania varreria os velhos vícios, os vazios repletos de antiqualhas. Personagens que, ao mesmo tempo, sugeriam reformar as estruturas da velha casa. Mas que, no correr dos dias, no calor dos discursos, traem sua idéias iniciais. Se as estruturas da casa necessitavam de pregos, metem, em seu lugar, cimento. As amplas e venerandas janelas são substituídas por compactos e novos modelos. Mas as placas publicitárias, toldando a fachada, ali continuam: mudaram apenas os seus dizeres.
Não quero dizer com isto que Chávez seja o Anticristo e Evo Morales seu cavalo— conquanto a submissão do segundo, ao primeiro, até sustentasse tal teoria — mas o fato é que, nem um, nem outro, são tão terríveis quanto parecem. Ambos conseguiram importantes conquistas sociais em seus países. O problema é que a dupla parece tocar um samba de uma nota só. Esgotadas suas idéias, investem seus poderes e oratórias contra os inimigos de sempre, ou criam novos, para suprirem o restrito horizonte de seus programas de governo. Em no caso do chefe-de-estado venezuelano, a coisa parece beirar o desvario. Veja-se a sua proposta, típica de um caudilho, de um ditador dos arrabaldes, que visa permitir sua perpétua reeleição. Sem falar na sua “Revolução Bolivariana”, uma espécie de “imperialismo dos miseráveis”.
Deixando as simpatias e críticas pontuais de lado, e voltando ao campo das idéias, acredito que a resposta do Rei da Espanha a Chávez foi um pito que o presidente venezuelano mereceu. Chamar o ex-primeiro-ministro espanhol, José Maria Aznar de fascista, é uma besteira sem tamanho. Por isso, quando D. João Carlos I (“Juan Carlos” é para a revista Caras e para aqueles que desconhecem o funcionamento das línguas, como também dos cerimoniais régios), pois bem, quando o Rei da Espanha mandou que Chávez se calasse, tal atitude foi uma justa reprimenda a um claro desconhecimento da história e a um típico discurso boçal, esquerdista raso, e patrioteiro do tipo que só nossos locutores de futebol e “líderes” estudantis seriam capazes.
E por quê? Porque, em primeiro lugar, Aznar, que cometeu muitas asneiras — com o perdão do trocadilho —, dentre elas um alinhamento excessivo à política norte-americana durante a invasão do Iraque, o qual lhe custou, em retaliação, um atentado terrorista, bem como a eleição de seus opositores — , porque Aznar, dizíamos, não é um fascista, nem, tampouco, seu partido. Fascistas são contra os liberais (tudo deve pertencer ao Estado, ou quase), e Aznar é um liberal típico: veja-se o seu triunfo em facilitar o desempenho de tantas empresas particulares, como o Santander, a Telefónica, etc. Além do mais, os espanhóis e, dentre eles, S.M. João Carlos I, sabem muito bem o que é o fascismo, já que conviveram com ele durante décadas, coisa que o Sr. Chávez só sabe de ouvir falar. O Falangismo, versão espanhola do fascismo, que vigorou, mais ou menos, de 1939 a 1975, e que jogou o país num atraso quase que secular — ajudado que foi, para a sua manutenção no poder, por uma associação religiosa a qual, dizem, um ex-governador do Estado de São Paulo pertence — é ainda uma ferida exposta da sociedade espanhola, a qual ninguém, que seja honrado, quer voltar.Nostálgicos, sempre os há. Mas a mobilização política deles é equivalente aos seus valores: ou seja, mínimos e derrisórios.
E ainda que o partido de Aznar tenha em seus quadros muitos ex-fascistas, nada comprova que os mesmos sigam a mesma cartilha de outrora: a acusação de Chávez quanto a Aznar, corresponderia, em nosso país, em enxergar José Serra de Chirico e José Dirceu como meros perpetuadores de discursos juvenis, da “baderneira” União Nacional dos Estudantes (UNE); Lula, como mero papagaio do movimento sindical; Alberto Goldman, vice-governador do Estado de São Paulo, como um seguidor do ditador Stálin, e de carteirinha; e Fernando Gabeira, como um seqüestrador, potencial, de norte-americanos.
Foi, portanto, muito oportuno, o “cala-boca” Del-Rei d’Espanha — cuja coragem moral e pessoal, sobejamente conhecidas, raras vezes podem ser vistas em governantes republicanos. Em suma, que cada um fale do que saiba. Do contrário, que se cale. Principalmente quando são graves as circunstâncias.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 17 de novembro de 2007].

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