É bem conhecido o fato de que as grandes civilizações do passado cantavam seus principais rios com sua melhor poesia, quando não os adoravam quais divindades. Basta lembrarmos do que os egípcios escreveram sobre o Nilo. Dos babilônios, sumérios, acádios e tantos outros que habitaram a Mesopotâmia (“a terra situada entre rios”) e o que deixaram sobre o Tigre e o Eufrates. Nas Sagradas Escrituras, cantam-se todos estes rios, e o Jordão, e mais uns tantos córregos, mesquinhos aos olhos dos brasileiros, acostumados que somos a hiperabundância de água que os trópicos nos propiciam. E a distante Índia e a remota China louvaram seus caudalosos Ganges e seu rio Amarelo, mas por serem tão afastados do Ocidente, tais encômios só nos chegaram muito mais tarde e com sabor de exotismo.
Diminuindo a escala, é rara a poesia de uma povo que não trate de um rio, em particular, que não precisa ser, necessariamente, o “grande rio nacional”, digamos, assim, como nos exemplos anteriores. Neste caso, a matéria poética será feita daquilo rio que passa por uma cidade, ou aldeia, muitas vezes nem nomeado. A poesia grega e romana tem mil exemplos, a medieval também os seus tantos, e a renascentista também. Deve-se a um poeta francês do período o primeiro poema ao rio Sena, um provocativo libelo no qual, em pleno século quatorze, já se trata dos perigos da poluição e da morte dos rios, sob o belo título de Complaint de la Seine, algo como “Lamento pelo Sena”. E o que dizer dos “sôbolos rios” camonianos? Com o barroco, o tema é um pouco eclipsado, ainda que o poeta inglês John Donne escreva um magnício soneto tendo o Tâmisa como tema. E no arcadismo, eis que o assunto volta com toda força, basta lembrarmo-nos dos versos do nosso Cláudio Manuel da Costa, cantando o Mondego, o rio das Velhas e o seu “pátrio rio”, o Tripuí, que nasce em Ouro Preto, então Vila Rica.
E os tempos se sucedem, e com eles as escolas literárias e também a percepção da natureza. O Mississippi vira tema, em prosa, de um Mark Twain, de um Hart Crane. Canta-o o poeta americano, naturalizado inglês, T.S. Elliot, não muito depois que Fernando Pessoa cantou o Tejo, que não era mais belo que o rio que passava por sua aldeia, o mesmo Tejo — ou Tajo, como o chamam os espanhóis — que foi também cantado por Garcia Lorca.
No Brasil, o Amazonas é um gigante mudo para a poesia, mal e mal lembrado pela prosa, e mais como obstáculo da civilização do que continuação do que quer que seja que não a selva. O São Francisco até que foi tema de alguma poesia regional, em sua maior parte oral, e quase nada a respeito foi impresso. Alguns rios da fronteira paraguaia, quando da guerra em que devastamos aquele país, também serviram de motivos a uma ou outra poesia, tacanhamente patriótica, chauvinista ao extremo, em que as águas servem de mero cenário para as batalhas.
É fato que Cecília Meireles dedica ao rio das Mortes, da triste guerra dos Embobas, o seu grande talento de sempre. E João Cabral de Melo Neto converteu, num exemplo de grande felicidade poética, o belo Capiberibe num “cão sem plumas”. Como também não podemos desprezar certa poesia popular, regionalista, vez ou outra transcrita em música, esta, por sua vez chamada de caipira, tradicional ou “sertaneja de raiz”, e capaz de belos achados. Basta lembrarmo-nos daquela, célebre, relativa ao rio Piracicaba.
Mas a verdade é que tratamos tão mal nossos rios, que só os vemos com bondade, com prazer, como motivo estético, retrospectivamente. Lançamos em suas águas todo o tipo de impurezas, seja o reles esgoto doméstico, sejam os infames resíduos industriais. Exaurimos seus leitos em busca de areia, ou do que quer que seja, que nos satisfaça o mais rápido possível, instantaneamente. Roubamos suas margens para todo tipo de loteamentos clandestinos, ou estrangulamos seus cursos para a construção de vias expressas que nunca são feitas a contento e que freqüentemente nos levam de parte alguma a lugar nenhum. Quando não matamos seus peixes pelo lixo que nas águas lançamos, eis que nos dedicamos à pesca predatória ou, pior, abominável mesmo, lançamos espécies de peixes estranhas ao habitat, que devastam toda a fauna local, mas que nos permitem “uma pescaria divertida, uma boa briga”, como já ouvi dizerem. E, ainda por cima, depois de todo o desserviço a eles prestado, temos a coragem de queixar do mau cheiro de suas águas, em certos dias quentes.
Mas tudo que teve seu começo tem seu fim. Esperemos. Não de braços cruzados, porque a situação é séria e os desmandos nesse assunto se avolumam.
Voltaremos a este assunto.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 6 de agosto de 2005].
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