sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

As Telenovelas e seu olhar míope sobre a realidade

Por motivos de trabalho — e de gosto pessoal, também — não tenho nem hábito, nem tempo, de assistir às telenovelas, estes híbridos de teatro popular e cinema realista que ocupam as emissoras de televisão no horário entre as seis da tarde e quase dez da noite. Confesso, entretanto, que já assisti a muitas delas e realmente gostei de algumas. Faço parte daquela geração intermediária de espectadores que viveram no período compreendido entre os primeiros tempos da televisão — quando ainda se acreditava em seu poder educacional — e àquele mais recente, em que o citado aparelho, com sua programação derrisória, se transformou em verdadeira “babá eletrônica”. De modo que posso me sentir um privilegiado, de uma certa maneira, pois não só pude assistir ao canto do cisne de uma época de experiências fundadoras daquele meio de comunicação, como também já me encontrava bastante crescido quando a televisão se transformou numa mera máquina de fazer dinheiro para alguns poucos — e, nem digo de fazer doidos, como então se acreditava, mas pelo menos de fazer espectadores nada críticos — como se verificou desde então.
Sem querer desfiar, aqui, uma relação dos programas mais conhecidos dos anos ‘70 e ‘80 do último século, numa espécie de memorialismo precoce em que tem incorrido boa parte de minha geração — e, muitas vezes, sem critério algum que não o de uma nostalgia pouco crítica, mera saudade por saudade — há que se reconhecer que boas coisas foram realizadas no gênero. Não falo de desenhos animados, que por piores ou melhores que fossem, não tratavam nem de longe da realidade ou de temáticas brasileiras, justamente porque nunca houve uma série de desenhos nacionais de longa duração ou permanência. Mas, por outro lado, quem não se lembra do “Sítio do Pica-pau amarelo”, apresentado pela Rede Globo de Televisão a partir de meados da década de ’70? Ou da “TV Globinho”, apresentada por Paula Saldanha, mesclando desenhos animados, informações relativas ao ambiente e à necessidade de preservá-lo e assuntos puramente infantis, como fabricação de brinquedos caseiros e mesmo industriais? Quando se compara este quadro de outrora ao que o sucedeu, com suas Xuxas, Angélicas e quejandas, sentimo-nos como os romanos que sobreviveram às invasões bárbaras: os cidadãos permaneceram vivos, mas haveria ainda uma civilização que os acolhesse?
Até as novelas de temática dita “adulta” — e que temática, convenhamos, não é adulta, ao fim e ao cabo? Que fábula infantil não está crivada das mais maduras implicações? — pois até mesmo elas eram apresentadas de tal maneira naturais, no humor e no seu paralelo com a vida quotidiana, que não havia choque, estranhamento, “apelação”. Como bem o disse um amigo, recentemente, “naqueles dias havia o sexo, como sempre existiu desde o princípio dos tempos: hoje o que há é safadeza, grosserias, vulgaridades e violências que tentam nos impor como norma e modelo”.
Aliás, violência é o que mais vemos, injustificada e, o que é pior, alçada a uma verdadeira estética. Certas telenovelas parecem competir entre elas em busca da cena apresentada como a mais crível no que se refere a um estupro, à tortura, espancamentos, agressões várias, etc. Como se buscassem um grau de excelência não na complexidade de suas tramas, na qualidade de seus diálogos e na beleza das imagens, mas sim na mais completa verossimilhança na apresentação de uma surra e dos hematomas por ela gerados.
A origem deste desvio na percepção dos produtores de entretenimentos para televisão deve residir na pretensa admissão de que vivemos numa época em que o comportamento violento tornou-se dominante e, o que é pior, irreversível, e presente em absolutamente todos os lares, negócios, empregos e relações pessoais. Assim, os autores de telenovelas, que se julgam os sumos cronistas da sociedade brasileira — e que, todavia, não distinguem muito bem o que é realidade, o que é ficção e o quanto arbitrariamente misturam uma e outra em suas obras, por razões várias — acabam impingindo a toda uma nação suas abordagens limitadas de uma realidade brasileira que é muito mais facetada do que eles imaginam.
Mas o que esperamos deles, afinal? A jornada de trabalho que lhes é imposta sacrifica um olhar mais longo por cima dos ombros e em torno da realidade. Ao mesmo tempo, vão perdendo o foco na observação dos costumes, porque sob a determinação de enxergarem o mundo por um determinado e rígido ponto de vista, que satisfaça os olhos todos poderosos do Ibope, e das expectativas de merchandising dele decorrentes, suas visões se obliteram: tornam-se “míopes”, por obediência, ocasião ou já porque perderam a capacidade de ver com clareza.
E será justo, ou ponderado, serem esses senhores e senhoras aqueles que nos dizem como devemos enxergar os fatos, o mundo?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 11 de junho de 2005].

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