sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Imagens imperfeitas e práticas ainda piores

A grande imprensa — compreenda-se por tal a televisão, os “jornalões”, e certas revistas — tem hábitos muito curiosos. Corporativa, e contando com um ambiente excessivamente hierarquizado em suas redações, é comum verificar em suas publicações certas gírias, certas expressões que, para o comum dos mortais, muitas vezes se tornam de difícil compreensão. Todavia, como elas foram usadas num dado momento por algum medalhão da casa, todos os seus subalternos, ou os que têm menos tempo ali, sentem-se no dever de repeti-las, quando não, servilmente, copiá-las. E assim, por toda a parte, vemos a ingrata locução, saltando de galho em galho mais que macaco louco. Os exemplos de tais ocorrências são inúmeros. Quando Itamar Franco foi Presidente da República, alguém disse que seu humor variava como o mercúrio dos termômetros: graças a isto lia-se em toda parte que seu temperamento era “mercurial”, que o Presidente era “mercurial”, e por aí vai. Durante a fracassada campanha à Presidência do ex-governador Alckmin, que só falava em “choque de gestão” para cá e para lá”, a grande imprensa, que em 99% dos casos aderiu às suas derrotadas pretensões, também não pedia outra coisa que não o tal “choque de gestão” — o qual, até hoje, não sei de ninguém que o tenha visto: por outro lado, vi muita gente de brio que ficou chocada com aquela gestão. Para não falar em palavras como “ícone”, “emblemático”, “conceitual”, que freqüentavam do primeiro até o último caderno, da política ao esporte, com a mesma fácil mobilidade e falta de sentido em todos eles.
Nos últimos dias, a expressão predileta de pelo menos um grande jornal é “subir no telhado”. Acredito que ela signifique que algo está prestes a malograr. Imagino que esteja associada àquela antiga piada de dois irmãos portugueses que se separaram, sendo um dono de um gato — e muito afeiçoado a ele —, o qual, todavia, teve de deixar ao cuidados do mano que em casa ficou. E eis que um dia, o que permanecera em Portugal envia ao outro um brevíssimo telegrama: “Teu gato morreu”. O que emigrou, magoado, escreveu-lhe, reclamando que um tal tipo de notícia não se dá de maneira tão brusca. Que, num caso daqueles, o melhor seria enviar uma carta dizendo que seu gato subira no telhado. Passado algum tempo, outra contando que o felino descera até o beiral. Depois, numa outra, que o bichano caíra do telhado. E, finalmente, uma na qual daria conta da morte do animal. O irmão escreveu-lhe de volta, alegando ter aprendido a lição. Mas, passado alguns meses, eis que o que lá ficara escreve ao irmão: “Nossa mãe subiu no telhado...”.
Apesar da injustiça de considerar nossos confrades lusitanos como burros, a piada é boa. Só que velha. Será que todo mundo se lembra dela como a possível “chave do enigma” que é “subir no telhado”? É também curioso que, na maioria das vezes, a expressão seja aplicada a alguma política do Governo Federal. Seria, talvez, pelo fato de que ela não poderia ser aplicada à oposição tucana, visto a maneira com que está impregnada no público a idéia de que os tucanos vivem em “cima do muro” — quando não estão alçando vôo para poleiros mais altos? Pode ser. Sair de “cima do muro” e “subir no telhado” poderia ser compreendido como um posicionamento efetivo, declarado. O que jamais aconteceu — salvo quanto às privatizações: veja-se a proximidade que os principais governadores da legenda, que se diz de oposição, vêm buscando, atualmente, com o Governo Federal. E não venham me dizer que é para o bem do país...
Outra mania infeliz de tempos recentes era a de chamar de “Cassandras” os críticos do governo FHC que enxergavam futuros sombrios para o país, e sempre erroneamente. Ora, Cassandra, personagem da mitologia grega, nunca errava em suas previsões. O problema era dos outros, que não acreditavam nela. E, no entanto, elas se cumpriram: a destruição do reino de seu pai, a Tróia de Príamo, foi só uma delas. Mas os “expertos” senhores da grande imprensa nem para isto atentaram, e repetiram à exaustão o erro — que, aliás, se não me falha a memória, foi cunhado, desta maneira equivocada, pelo doutíssimo ex-presidente, o próprio alvo das críticas. Sugestivo, não?
Os tempos atuais bem que têm suas “Cassandras”, não no sentido estrito do termo, já que as de hoje não fazem previsões inspiradas pelo além, nem da forma, deturpada, que recentemente lhes atribuíram, que nega a veracidade de suas “visões”. Não são profetas, oráculos, pitonisas, sibilas, videntes ou adivinhos, e sim pessoas cujas análises sóbrias, infelizmente, não são levadas a sério. Gente que baseia suas suposições em fatos conhecidos, que faz sólidos prognósticos diante do real, ainda que em gestação — mesmo que “pequenos” para os míopes de sempre e para os que não querem ver.
Estes “suspeitos por antecipação” — dupla antecipação, aliás, por enxergarem um pouco mais à frente e por serem criticados de antemão, já que suas análises não costuma ser do agrado dos poderosos da vez — contam-se entre os que, recentemente, alertaram para as mudanças no clima, para o risco de “apagão” no Brasil, para o caos que se criava na Segurança Pública no país e no sistema carcerário de São Paulo. Somam-se a eles os que, ainda outro dia, levantaram a possibilidade real de um grave acidente nas obras do Metrô paulistano, e que foram calados, ou sequer levados em conta. Veremos, em breve, quais serão as novas “previsões”, que, a todo custo, certos interesses procurarão desacreditar. De minha parte, que não sou guru, médium ou coisa do gênero, mas que procuro me informar — como todo cidadão de bem deve fazer —, desde já, arrisco uma: a encampação pelo Estado de São Paulo do Porto de Santos, da Ceagesp e do Campo de Marte, que serão tachados de “deficitários” e, por isso, serão “fortalecidos” com dinheiro público, para, finalmente, embora planejado desde o início, serem privatizados. Pois conhecendo a sanha por privatizações do atual Governador José Serra de Chirico, e de seu grupo, é de se esperar outra coisa? Oxalá tal não se cumpra. Mas que ninguém diga que não foi avisado...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 10 de março de 2007].

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