Depois do atentado terrorista em Nova Iorque no dia 11 de setembro de 2001, quando a poeira começou a baixar e já parecia inequívoca a participação do malfadado grupo islâmico radical Al Qaeda, esboçou-se uma curiosa teoria quanto à escolha da data em que a ação foi encetada. “Por que aquilo ocorreu no dia 11 de setembro e não no dia 10 ou 12, ou em qualquer outro?”, foi uma pergunta que instigou muitos especialistas pelo mundo inteiro. Outros é claro, nem pensaram no assunto por um bom motivo: por mais planejada que seja qualquer ação, existe sempre o perigo de que não dê certo em razão da vigilância, do cerco ao seu redor. Assim, num gesto desesperado, para não perder meses de planejamento é muito comum que um grupo extremista lance o seu ataque “de véspera”, digamos assim. A história, aliás, é pródiga em exemplos deste tipo.
Mas naquela ocasião, julgando que o dia específico de 11 de setembro sinalizasse alguma efeméride especial, quem sabe o aniversário sangrento de algum episódio que a Al Qaeda procurasse vingar, eis que se lançou a hipótese de que o atentado vindicava a deposição do presidente chileno Salvador Allende. Sim, daquele bravo socialista covardemente apeado do poder e da vida no dia 11 de setembro de 1976 graças ao direto empenho norte-americano. Daquela forma, celebrando a brutal intervenção estadunidense num país soberano, a Al Qaeda identificar-se-ia com o sofrimento dos explorados do mundo todo e poria o Império de joelhos.
Confesso que desde o primeiro momento duvidei desta interpretação. Sectário como o grupo islâmico deu provas de ser, voltado integralmente aos interesses nem tanto de sua religião, mas da vertente mais violenta da mesma, alegando-se um defensor do mundo islâmico somente quando lhe convinha e de uma forma tão vaga, tão ampla, que qualquer um de nós não deixaria de concordar com certas alegações, não me pareceu em nem um momento que fossem capazes deste, digamos, altruísmo às avessas.
A verdade, todavia, é que a lógica e o bom senso nos pregam peças às vezes. Sobretudo quando procuramos entender a lógica do louco, não um louco varrido ou doido de pedra, mas um louco furioso, homicida. Que possuem também o seu arremedo de lógica, muito mais inflexível, e com métodos muito mais precisos que as pessoas de bem. A prova maior seria a escolha de um outro dia 11 para mais uma série de cruéis atentados, com exatos seis meses de diferença do aniversário do atentado de Nova Iorque.
Assim, pus-me à cata de fatos relacionados à data específica do 11 de março e de uma possível ligação entre ela, o Ocidente (cuja liderança, hoje, é encarnada pelos Estados Unidos da América) e o mundo islâmico. E há curiosas correspondências. No dia 11 de março de 1845, os Estados Unidos anexam o Texas, roubando uma parte considerável do México. No mesmo dia, em 1917, durante a Primeira Guerra Mundial, os ingleses tomam Bagdá das mãos do Império Otomano (islâmico, para quem não se lembra). Já na mesma data, mas em 1938, a Alemanha invade a Áustria, como aperitivo antes da Segunda Guerra Mundial. Idem, mas em 1997, membros do ETA assassinam o psicólogo da penitenciária de Martutene, na Espanha. E, por fim, no dia 11 de março de 2001, o Papa João Paulo II Beatifica 233 mártires da guerra civil espanhola.
Não vejo correlações entre o atentado na Espanha e a anexação austríaca pela Alemanha que não uma infeliz coincidência. Nem creio que o horrendo ato tenha sido obra do ETA “marcando presença”, comemorando um assassinato antigo com tanto derramamento de sangue e tanta eficácia. Como uma vingança da tomada de Bagdá? Então por que não perpetrar o atentado em Londres? Além disso, ao lado dos ingleses, naquele episódio, estavam muitas tribos árabes, muçulmanas, que lutavam contra um império decadente até do ponto de vista religioso. Da mesma maneira, parece-me um pouco implausível que a coincidência de datas se relacione à beatificação dos 233 mártires espanhóis. Esta na minha opinião, seria a hipótese com mais terríveis conseqüências, urdida pelas mais nefastas intenções. Pois o que pretenderia o grupo com isto? Com uma resposta desaforada ao Papa que na ocasião disse, citando Tertuliano, “que o sangue dos mártires é semente de novos cristãos”, já estariam declarando uma guerra santa contra toda a Cristandade? O que pretenderiam? Uma eclosão de novos cruzados contra o Islã?
Sou da opinião que tudo não passou de uma afronta, retrospectiva, à anexação do Texas pelos Estados Unidos da América. Pois a Al Qaeda parece nutrir muito mais ódio àquele país do que amor aos seus confrades ou a antigas causas perdidas de outros povos. E, acima de tudo, um particular e pessoal ódio ao texano George W. Bush. Que ofensa maior que, em pleno ano eleitoral, criticar o expansionismo americano quanto ao quintal mais querido de seu Presidente? Mas então, por que a Espanha como cenário? Como é sabido, a Espanha foi aliada de primeira hora na “guerra contra o terror”, foi também um grande Império e, certamente, em Madri a vigilância seria menor do que em Londres, Washington, etc.
O episódio evidentemente foi de uma crueldade e covardia sem limites. Mais triste ainda pelo fato de tantos inocentes pagarem com a vida. Muitos dos quais, aliás, provavelmente estiveram naquela grande manifestação contra a invasão do Iraque, semanas antes da mesma. Pagou o povo pelo que fizeram seus governantes. Mas igualmente quanto a isso, a história é pródiga em exemplos.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em data que não me recordo, mas anterior a agosto de 2004].
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