A idéia de que nosso mundo encontra-se imergido numa espécie de loucura coletiva vem de muito tempo. Platão — o grande filósofo grego da Antiguidade, cujos escritos tornaram-se a base de quase todo o pensamento ocidental — já diagnosticara este fato quando tratou da morte de Sócrates, seu mestre. Para quem não se lembra, Sócrates foi condenado à pena capital por “corromper a juventude” por meio de suas idéias, apresentadas em sua escola. “Corrupção” aquela que nada mais era do que o fundamento, e a fundação, da própria filosofia, do pensamento sistematizado, em suma, do mundo do conhecimento.
Durante o Império Romano — que vai da ascensão da República de Roma, passa pelo Império propriamente dito, e sucumbe, em parte, pelas invasões bárbaras —, que foi um longo período relativamente pobre de filósofos, mas rico em poetas e oradores, a razão era o discurso oficial: aqueles que identificaram a insanidade como pano de fundo cumpriram amargos exílios, dos quais se livraram apenas com a morte. Pensemos nos poetas Virgílio e Ovídio, as principais referências literárias durante séculos no mundo culto europeu, e que por suas críticas, muitas vezes veladas, foram condenados ao banimento.
Durante a Idade Média, a noção de um mundo enlouquecido perdeu, em grande parte, o seu poder e influência. A Igreja, hábil estrategista, soube como canalizar o potencial de loucura do mundo de uma maneira que o mesmo só se realizasse durante alguns dias por ano. E, assim, ela criou o Carnaval. Que o resto do mundo sucumbisse às superstições, manias, loucuras várias, para além daqueles dias, tal não importava. A ordem, emanada de Deus, sempre prevaleceria. A loucura era temporária, a razão divina era eterna.
Durante o Renascimento, a idéia de um mundo desvairado, diante do qual apenas algumas pessoas conservavam a razão, foi a tônica do momento. Esta é a origem de todas aquelas obras filosóficas, morais, situadas em locais exóticos e imaginários, nos quais as práticas políticas e sociais eram justas e opostas as até então empregadas na Europa e Ásia. Não por acaso, Thomas Moore (1478-1535), canonizado em 1935 como São Tomás Morus, escreveu aquele seu grande clássico, A Utopia (1515), que iniciou não só todo uma vertente literária como também uma forma de ver o mundo que até hoje norteia muitos de nossos pensamentos. E François Rabelais fez também sua parte, ensinando-nos a rir dos excessos e certezas nas páginas de seus livros. Como também o fez Cervantes.
Nos séculos seguintes, o que era uma suposição confirmou-se como regra. E nem mesmo o racionalismo do século XVII e o Iluminismo do século XVIII puderam rejeitar o forte componente de insanidade que permeia a relação entre as pessoas, as relações dos governos com elas e deles com seus pares. Mas foi durante o Romantismo, lá nos princípios do século XIX, que a certeza de que a realidade do mundo era uma, e o comportamento das pessoas, outra, finalmente se instalou. E quase toda a literatura daquele século não fez mais do que revelar esse desencontro.
O século XX, culminância de todo um processo, coleciona um rol incomparável de inacreditáveis desacertos entre o que se dizia e o que se fazia. Entre o que era considerado “certo”, e o que era feito em seu nome. Lembremos das duas grandes guerras mundiais, do “socialismo real”, da Guerra Fria, das ditaduras instaladas em todos os quadrantes da terra, da contracultura e da Revolução Cultural, do nazismo e de tantos outros “ismos” horrorosos.
E chegamos ao século XXI, com os senhores Bush e Osama, com o aquecimento global, com uma grande imprensa que se confunde cada vez mais com a propaganda e o marketing, com filmes, livros, peças teatrais, pinturas, esculturas, “instalações” que parecem retratar tudo, menos o que vemos ao nosso redor. Com o Rio de Janeiro, cidade em pedaços, que se propõe a abrigar um evento (o Pan) cuja utilidade é mais do que questionável, com a São Paulo medonha que temos ante nossos olhos, com as relações esgarçadas entre público e privado, a que assistimos no Congresso Nacional, com a ausência de valores mínimos da, outrora, “revolucionária e renovadora juventude”, “o futuro da nação”, que espancou uma trabalhadora porque a tomaram por uma prostituta, o que, acreditam, justificaria tal ato infame...
Que mundo imundo! Que mundo vil! Que mundo insano. É difícil não pensar que tudo que vemos ao nosso lado não passe de uma desvario, ao qual assistimos sem compreender a extensão exata de suas conseqüências, conquanto, presumimos, sejam elas as piores.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 7 de julho de 2007].
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