Joel Silveira (1918-2007), um dos últimos grandes jornalistas que nosso país conheceu, além de bom escritor e memorialista de mérito, deixou este nosso mundinho miserável na última quarta-feira. Acredito que, sob vários aspectos, tenha sido muito bom para ele, já que o Brasil e o resto da Terra não nos inspiram confiança, nem alimentam muitas esperanças. Mas nós, que aqui ficamos, perdemos muito com sua partida, com a interrupção de suas idéias lúcidas, e comentários controversos, mas ótimos, todos eles.
Tive o privilégio de conhecê-lo, e estimá-lo, não só por seus talentos literários, mas também pessoais. Pois era um dos melhores contadores de história que conheci, espirituoso até mais não poder, e dotado daquela educação, graça e afabilidade, combinadas com uma agudez de pensamento e afiado senso de humor que eram comuns em certos grandes senhores do Norte, dos quais era herdeiro, não no campo material, mas espiritual. Pois ao mesmo tempo, era, e sempre o foi, um homem que, hoje diríamos, altamente “conectado” com sua época: um jornalista-repórter com a língua afiada de quem morou na São Paulo e no Rio dos bons tempos, e um fidalgo nordestino, do feitio daqueles decantados por Gilberto Freyre.
Conheci-o através de meu pai, de quem foi grande amigo — aliás, um dos últimos que lhe sobreviveram. Lembro-me muito de certas brincadeiras que faziam entre eles. Papai, durante muito tempo, “provocou” o sergipano Joel Silveira perguntando a ele onde, afinal, ficava o estado de Sergipe, que, de tão pequeno, mal aparecia no mapa. E Joel sempre redargüia que, um dia, meu pai iria morar em Sergipe. Foi um chiste que se estendeu por décadas, mas que finalmente se cumpriu, de uma certa maneira. Não nos mudamos para aquele estado, mas, por outro lado, vivemos por longos anos na rua Sergipe, em Higienópolis, S. Paulo.
Outra coisa de que me lembro, com imenso prazer, era de seu confortável apartamento no Rio de Janeiro, repleto de tesouros, de relíquias, por assim dizer. Lá estava sua imensa discoteca beethoviana, a maior que já vi — e duvido que haja outra igual. Lá estavam ótimos livros, pinturas, gravuras e aquarelas de grandes artistas que foram seus amigos. Havia também, num canto da casa, uma bela escultura — na verdade, o molde de uma parte de uma grande estátua que se encontra em São Paulo. Lembro-me que, numa visita, Joel perguntou-me, depois de me informar a natureza da peça, à qual monumento ela “pertencia” — pois meu pai sempre confiou em minha memória e percepção dos espaços públicos, qualidades de que se orgulhava (aprendi com ele) e que narrava aos seus amigos. Então, diante da peça, pensei, ponderei, e, por fim, eu disse: “acho que é a mão da estátua do José Bonifácio, no Largo do Patriarca”. Joel, contente com o acerto de minha resposta, riu-se todo, e disse ao meu pai: “este menino têm que estudar História, e História da Arte: já está pronto para isto”. E conquanto não o tenha feito logo em seguida, o venho fazendo, e agradeço a ele por este ótimo e, mais uma vez, preciso, vaticínio.
Mas o que mais chamava minha atenção em sua casa, quando menino, era um armário envidraçado, qual uma cristaleira, que se encontrava no fim de um corredor, longe das vistas dos visitantes apressados. Pois ali estavam expostas as várias condecorações que ele conquistara como correspondente na Segunda Guerra Mundial, das quais se orgulhava, mas como pessoa educada que era, não ostentava aos olhos de todos. E que medalhas! Algumas das mais altas que existem no Brasil, na França e na Itália, do pós-guerra, de fazer inveja, seguramente, a mais de dois terços das Forças Armadas do Brasil, de ontem e, sobretudo, de hoje, condecoradas não por enfrentar o fogo inimigo, mas, sim, pelo seu “bom comportamento”.
Joel Silveira enfrentou a guerra na Itália e acompanhou os passos gloriosos da FEB. Expôs, com precisão, os ridículos da alta burguesia paulistana dos anos 1950-60. Além de revelar inúmeras falcatruas, provas de incompetência e comportamentos deploráveis de nossa sociedade e dos representantes políticos por ela eleitos. Que falta ele fará agora, já que não poderá reduzir esta casta do “Cansei” ao seu devido lugar. Ou descer a lenha no governo, seja ele qual for!
Vai, Joel, vai com Deus, porque você merece. Afinal, os justos são chamados antes dos pecadores, pois que, para estes, embalados pelos falsos profetas, só resta a terra arrasada. Vai com Deus, bravo herói. Vai com Deus, amigo!
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 18 de agosto de 2007].
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