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quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Maravilhas da fauna brasileira

Pouca gente ainda se lembra, mas apareceu, certa vez, um jacaré no muito mais do que fedido Rio Tietê, em plena capital. Retirado dali, tornou àquele seu habitat improvisado, e, por conta de sua volta, ganhou o apelido de Teimoso. Não tenho idéia do que aconteceu com ele. Talvez tenha morrido intoxicado pelo mau-cheiro. O que prova que, se os paulistanos não têm o insensível coração de jacaré, jacarés, por sua vez, tem pulmões e narinas muito mais sensíveis do que os dos paulistanos. Faz sentido. Ajuda a compreender a podridão da política paulistana: estão acostumados com os maus eflúvios. Mais um pouco e eles dirão que, na verdade, tudo não passa de um raro perfume...
Na mesma cidade, às margens do igualmente fétido Rio Pinheiros, avista-se, com freqüência, uma família de capivaras. Tentaram expulsá-las – seria mais uma das célebres e truculentas reintegrações de posse, movidas pela prefeitura? Não. Ambientalistas e bombeiros se uniram para tirarem-na dali. Mas o que aconteceu foi que ambos levaram um baile dos bichinhos, que permanecem por lá. Esta talvez seja a primeira vitória dos sem-teto – literalmente – em São Paulo em muitos anos. Pode-se especular que não deixaram tal posto em razão da valorização do entorno: nas margens olorosas do Pinheiros, além do buraco do Serra, encontram-se prédios de altíssimo padrão, o mais sofisticado hotel da cidade e a caríssima Daslu. O lixo por eles lançados deve ser altamente nutritivo, daí a permanência dos animais: das capivaras, quero dizer. O que, por sua vez, demonstra que os novos plutocratas paulistanos e as capivaras têm muito em comum, principalmente na tolerância ao fedor. Depois, verdade seja dita, não há perigo em tal convivência: carrapato algum é capaz de galgar as alturas de um arranha-céu. Talvez só pelo elevador.
Em Campinas, certa vez, deparei-me com um animal silvestre bastante tímido. Calma, não é o que estão pensando. Não sejam maldosos. Como diria um desbocado amigo meu, o animal em que pensaram não tem mais nada de tímido, urbanizou-se completamente e é encontrado a toda hora, sobretudo por lá, acrescentaria ele. Pura maldade e preconceito! Voltando à história, tratava-se, no caso, de uma lontra que atravessava uma avenida de alta velocidade, que leva ao Shopping Iguatemi. Não sei se ela se dirigia a ele, mas, desde então, tenho olhado cada vez com maior suspeita estes locais. Freqüentar shopping center seria um hábito de lontras? Vou verificar, mas só o posso in loco. E se descobrir que é? E se me transformar numa lontra? Acho que adiarei tal pesquisa por um certo tempo, até resolver esta grave questão filosófica e metodológica...
Noutra ocasião, durante uma rápida visita a Manaus, deparei-me com um tamanduá-bandeira, imenso, em plena Vila Olímpica, correndo em minha direção. Será que sua intenção era ir para o abraço? Não esperei para tirar a dúvida. Dispenso confraternizações esportivas. Ainda mais, abraço de tamanduá.
Outro fato curioso: já notaram como sempre se vê urubus pousados no alto dos prédios das reitorias universitárias? Bem ali, pouco acima dos gabinetes magníficos? De minha parte, pude vê-los em São Paulo, Campinas, Piracicaba, Belo Horizonte, Ouro Preto, Rio de Janeiro e Londrina. Tanto em universidades públicas quanto em particulares. Ouvi dizer que andaram espantando algumas daquelas aves em Brasília e no ABC paulista. Mas, tenho certeza, elas voltarão, e, se não as mesmas, alguma outra da mesma espécie. Ao que parece, é uma lei natural: urubus parecem adorar as posições elevadas.
Já em Mariana, Minas Gerais, soube que, em praça pública, um anum branco bicou, até a morte, outro de sua espécie: ambos disputavam o mesmo galho, para nele se cevarem ou para acomodarem, cada um, sua própria ninhada. Sei que este fenômeno é bastante comum, pelo país afora, mas em plena cidade, em meio à agitação urbana?
Em Brasília, sempre me surpreendeu a intensidade da vida animal, sem brincadeira. Raposas, gambás, gaviões das mais variadas espécies e outras aves de rapina, tucanos, inclusive. Alto lá, diria alguém, tucanos não são rapineiros. De fato. Anda que Piso e Marcgraf, dois naturalistas alemães que visitaram o Brasil no século XVII, julgassem os tucanos, por seu bico, uma ave de rapina. Hoje, é sabido que não se trata disso. Suas cabeças são, proporcionalmente, demasiado pequenas em relação às dos gaviões. Suas asas não lhes permitem alçar longos e altos vôos. Padecem de um campo visual de pouco alcance. Portanto, não passam de aves saltitantes: pulando de galho em galho, sempre em busca do mais elevado, nos quais encontram os melhores frutos. Por outro lado, sabe-se que, muitas vezes, baixam ao solo, alimentando-se de pequenos animais, ovos de outros pássaros e insetos: ninharias, como se vê. E seu bico altivo, ainda que impressionante, é, todavia, oco: só para impressionar. Mas voltando ao tema e ao cenário, já vi cobras – é sério, numa boca-de-lobo, em plena Asa Sul – e outros animais peçonhentos, de dia e de noite. Tudo isto em Brasília. Mas acho que todos sabem disso, não é?
Sem falar nas aves trepadeiras que, toda estação, ressurgem, ninguém sabe de onde, assolando toda a produção do país, com voracidade, com uma fome infernal, destruindo plantações, jardins públicos, sujando casas, monumentos, escolas e hospitais, numa ânsia por estabelecerem, também, em ótimas posições.
Em suma, salta aos olhos de todos a ação destes formidáveis exemplares de nossa fauna tão nacional. Como, também, suas práticas exóticas, cruéis, estranhas e insalubres para a existência das demais espécies. Em prol da sobrevivência, deixam os seus cenários naturais. Mas são capazes, ainda, de imporem a sua lei: a Lei das Selvas, segundo a qual quem quiser viver, que se submeta a eles: se não, será devorado. Ou, então, coberto de imundícies por eles mesmos produzidas. Portanto, cabe vigilância, por parte das autoridades públicas, nas mais diversas instâncias, e por parte do povo. Afinal, trata-se de uma questão de segurança, saúde e educação para as próximas gerações, e para a sociedade, em geral. Animais exóticos, selvagens, não podem conviver com o público. É contra a sua natureza. Deixemos as cidades aos seus habitantes, e não às feras.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 30 de agosto de 2008].

Outros bichos

Não faz muito tempo tratei, neste espaço, da invasão de certos animais selvagens, ou quase, no meio urbano. Hoje gostaria de comentar algumas coisas que ouvi, recentemente, quanto aos animais ditos domésticos.
Declaro, de antemão, que nunca fui um aficcionado por animais de estimação. Gosto deles, preocupo-me com o bem-estar deles, mas faço minhas as palavras de uma jornalista americana, que dizia que seu animal predileto era o bife. Não só o bife, acrescentaria, mas, também, o pernil de carneiro, o camarão empanado, os mariscos ao vinagrete e a costela – assada – de boi. Exagero, é claro. No fundo sou um vegetariano em potencial. Sei dos horrores que os bichos passam até chegarem às nossas mesas. Mas enquanto eu usar sapatos, cintos e carteiras de couro, dormir em travesseiros de penas ou plumas, acho que não há nada demais quanto a comer outros pedaços dos bichinhos. Aliás, seria até um ato hipócrita usar certas partes dos mesmos e rejeitar as outras, como fazem tantos “defensores dos animais”, que enjeitam uma costelinha, mas não se negam a espalhar pelo corpo todo tipo de “produtos de beleza”, ou perfumes, obtidos à custa de toda sorte de bichos. Tenho até certas simpatias pelos veganos (vegetarianos radicais) que põem em prática o modelo de coerência que acima sustento. Há alguns que até morrem por ele: mesmo doentes, permanecem se tratando com mesinhas, chás, fitoterápicos e que tais – quem não tem cão caça com gato. Mas a maioria, na hora em que a vaca vai para o brejo, não quer nem saber se seus remédios foram testados em chimpanzés, porcos ou porquinhos-da-índia. Prevalece o Homem. Se, como dizem os clássicos, “o homem é o lobo do homem” (homo hominis lupus), na hora da onça beber água, que se lasquem seus confrades de quatro patas...
Voltando à vaca fria, ou seja, aos amimais de estimação, nosso tema primeiro, ouvi, nestes meses de campanha política, as propostas mais curiosas (algumas, aparentemente impossíveis, outras, totalmente) de toda a sorte de candidatos, sobretudo a vereador, em pelo menos três estados. Vários pregavam a castração sistemática de todos os cachorros e gatos vadios. Como seriam identificados os animais de rua frente aos que, com donos, casa, domicílio próprio e que saíram apenas para “dar uma voltinha”, foi uma questão que ficou em aberto. Tal medida, apesar de complexa, tem minha simpatia, por motivos que, em breve, exporei. Outros, extrapolando seus poderes, pregavam o fim da criação indiscriminada, para a venda ou “doação” de cães e gatos. Assim, os mesmos só poderiam ser criados por estabelecimentos credenciados para tal (como se faz com os criadores de espécies da natureza, como tucanos, certos passarinhos, etc): apenas estes poderiam vendê-los e os bichos já viriam castrados. A idéia, apesar de parecer um tanto drástica e de estar além da esfera dos vereadores, no fundo seria boa. Quem já viu aqueles tristes animais em gaiolas de petshops, feiras, mercados e postos de gasolina, morrendo de sede, solidão e calor, quem já viu aquelas tristes cadelas perseguidas por matilhas em plena rua, ou dando cria em praça pública, quem já viu tantas ninhadas de gatos lançadas nas águas de um rio ou pisoteadas por crianças não hão de discordar de tais medidas. Seria um basta contra aqueles que querem cruzar o cachorro da vizinha com a cadela da vizinha – para ver no que é que dá – sem pensarem no transtorno de que as fêmeas e sua cria padecerão. Como, também, um fim àquela mania besta de dar um filhote a uma criança, que vai se divertir um pouco com ele, enquanto este não cresce, e que, mais tarde, enjoada do “brinquedo” barato, trata-o como uma velharia: isto quando os “diligentes pais” não acabam por soltar os mimos de outrora no meio do mato.
Conheço muita gente direita que defende tais idéias polêmicas, e que, na minha opinião, são muito razoáveis. Mas, é claro, os que possuem cães ferozes são contrários a isto. Estes donos de feras acreditam que a castração tornaria seus “guardiões” mais dóceis. Pois que eles se tornem! A proteção do patrimônio nunca pode estar acima da proteção do indivíduo, qualquer indivíduo. Os pais e mães de tantas crianças mortas e mutiladas por pitbulls e congêneres que o digam. E façamos coro a elas!
Porém, antes que me acusem de ser um Herodes dos gatos de rua, cães vadios ou de raças bestiais, penso que a colocação é cabível e acertada. Pensem bem. Quem já não está farto de ver animais atropelados, mutilados, sacrificados inutilmente, ou sacrificando outras pessoas sem motivo algum? E tudo por um mero capricho de alguns? Ora, se há tanta ênfase no planejamento familiar do bicho-homem (racional e senhor de seus direitos) por que o mesmo não pode haver para o bicho-bicho?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 11 de outubro de 2008].