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quinta-feira, 24 de novembro de 2011

As Crônicas Baianas: Parte III – As Ruínas, em ponto menor

O francês Constantin François Chassebœuf de La Giraudais (1757-1820), conde de Volney (nome pelo qual se tornou mais conhecido e que é a origem, ainda que em geral desconhecida, de todo indivíduo que se chame Volney, desde então), além de filósofo e político (uma contradição em nossos dias!), foi um orientalista e historiador de renome. Seu livro mais influente é, sem dúvida, As Ruínas, ou meditações sobre as revoluções dos impérios, publicado em 1791, depois de uma visita à antiga cidade romana de Palmira, localizada no território da atual Síria. Ali, pôde aquele autor observar as ruinosas condições de uma cidade outrora grande e influente, um verdadeiro símbolo do Império Romano em sua máxima extensão. E refletindo sobre Palmira, concluiu que os impérios, apesar de seus colossos que parecem lhes prometer uma vida eterna, acabam por perecer, vítimas que são de uma lei natural. Esta contemplação das ruínas e dos tempos passados, a partir da qual se pode tirar uma lição, é um tema quase tão velho quanto o mundo. Mas no agonizante Antigo Regime, no século XVIII, ele eclode em sua plenitude. Basta lembrarmos das estampas de Giovanni Battista Piranesi (1720-1778), das pinturas de Hubert Robert (1733-1808) e no rigor arqueológico dos prédios de John Soane (1753-1837), cuja planta (num “corte transversal”, se assim podemos nos referir àquela imagem) de sua mais importante obra, o Banco de Londres, foi desenhada como se aquele novíssimo prédio estivesse já em ruínas. Em suma, todos se davam conta de que um velho mundo estava em colapso.
O âmbito atingido por Volney naquele seu livro foi considerável – encontrei em Ouro Preto uma edição francesa de 1822, mesmo ano em que era traduzido em Portugal por Pedro Cyriaco da Silva, versão esta publicada até 1911, no Rio de Janeiro, pela Livraria Garnier, como atesta o exemplar que possuo. Tem-se também, como quase definitivamente acertado, que ele seria um precursor do Romantismo – e as imagens dos poemas homônimos Ozymandias (1818), tanto o de Percy Bysshe Shelley (1792-1822), quanto o de Horace Smith (1779-1849), na minha opinião, são provas disto. E há até quem diga que suas ideias chegaram aos conjurados baianos de 1798.
Uma prova eloquente do efeito simbólico das ruínas, porém atualizado, pode ser observada em Salvador, no monumento erigido ao príncipe herdeiro de um potentado baiano de notoriedade nacional falecido há poucos anos. Naquela cidade, próxima ao aeroporto, está uma estátua do (não tão) jovem sucessor do defunto dignitário, sobre o seu pedestal, em meio a uma praça cuidadosamente ajardinada. Diante de sua figura de bronze, encontra-se uma suntuosa fonte, que noutros tempos lançava jatos d’água coloridas artificialmente pela luz de holofotes, e jatos dançantes, em determinados horários, espetáculo este embalado pelos acordes musicais do Hino Nacional Brasileiro e do Hino da Bahia. Porém, desde que a morte depôs aquele neocoronel, tais mimos, com ares de praça do interior ou de número do Circo Orlando Orfei, já não mais são celebrados. Os canteiros ainda são muito bem cuidados e uma coroa de flores é depositada diariamente aos pés do enaltecido. Mas há pelo menos um guarda, dia e noite, zelando pelo conjunto da estátua, coroa de flores e fonte aos seus pés, num claríssimo sinal de que tal monumento conta com detratores. E todo esse zelo enfrenta severas críticas locais. Em suma: se tudo aquilo fosse uma unamidade, não era necessário um guarda para cuidar da traquitana. É, pois, uma ruína já: quanto aos fins e quanto ao uso.
Outros exemplos não faltam, pois as ruínas, físicas e morais, se suscedem e se amontoam por toda Salvador. Na Igreja de Nossa Senhora da Conceição da Praia, por exemplo, anda-se na ponta dos pés, reprimem-se os espirros, evitam-se os gestos expansivos, tal o medo de que tudo desmorone. E o que dizer, então, da veneranda igreja da Celestial Ordem da Santíssima Trindade, próxima ao porto, diante da qual estarrecemos de medo: um simples olhar mais aplicado pareceu-nos motivo bastante para causar o seu colapso. Quem observa a favela Ocupação das Malvinas, que data daquela guerra entre Argentina e Reino Unido (e desta já lá se vão trinta anos), é incapaz de acreditar que tudo aquilo não caia, não desbarranque morro abaixo, com o simples soar de um bater de palmas. Sem falar na situação e no indizível nome de outra favela: Planeta dos Macacos, uma manifestação de racismo tão ignóbil que, até onde me conheço por gente, nunca vi igual. E tudo isto na “Capital da Alegria”. Penso que é mais “Capital da Tristeza”, isto sim!
A tristeza de Salvador, e da Bahia, faz lembrar a do planeta Marte, tal como idealizado pelo escritor norte-americano Ray Bradbury (1920) em seu livro Crônicas Marcianas (EUA, 1950) – obra que é uma vaga referência para esta série de escritos. Tal melancolia, por assim dizer, provém justamente do acúmulo de magníficas ruínas, quer as soteropolitanas da realidade, quer as marcianas da ficção, cujas funções originais vão sendo esquecidas ao longo do tempo, convertendo-se, muitas delas, num sutil registro de algo um tanto vago que pertenceu a um passado já dado como morto. Os fastos de um povo cujos descendentes tornaram-se invíveis: porque muitos deles, bem como sua cultura, pereceram, e porque outros tantos, os conquistadores, não querem vê-los, preferindo ignorar a situação em que vivem. Por outro lado, o novo, sem história nem tradição, que não comove nem envolve, qual as barracas do meio-oeste americano plantadas em Marte, da já citada obra, erguem-se, enraizam-se, espraiam-se por Salvador. Um exemplo? Durante minha estada ali, precisei cortar o cabelo. Pensei, imediatamente, num velho salão de barbeiro, onde escutaria os boatos de uma cidade inteira. Qual o quê! Não houve voz que praticamente não me obrigasse a fazê-lo num shopping center. Neste local, aliás, um funcionário jurou de pés juntos que eu encontraria o melhor acarajé – da Bahia, é claro – ali mesmo! O que não desminto, mas aqui entraríamos já num assunto que dá muito pano para pouca manga de camisa...
Retornando a Volney, por mais aparentemente negativista que fosse sua visão do mundo e das civilizações que o engendraram, foi ele capaz de uma interessante síntese do que poderia trazer paz à Terra, e possivelmente evitar a queda dos futuros impérios. Tratava-se da tolerância religiosa, o quê, noutros termos, poderia ser lido de uma única e singular maneira: a não condenação, por parte de um credo, de outras experiências religiosas. Mas, neste ponto, parece que os baianos seguiram a lição do francês. Ou, pelo menos, a melhor parte dela, como veremos, noutra ocasião. E vivas ao Bom Jesus, a São João Batista, a Apolo e Dioniso, e aos Orixás, com seu magnífico cortejo!

P.S. (Este completamente fora do assunto ora tratado): Na próxima semana, entre os dias 23 e 25/11, ocorre, no saguão do prédio das Faculdades de História e Geografia, da USP, na Cidade Universitária (Butantã, São Paulo), mais uma edição da Festa do Livro. Dezenas de grandes e pequenas editoras oferecem livros de seus catálogos com preços a partir de 50% (o mínimo para participarem) de desconto. Trata-se de uma ótima ocasião para quem gosta de ler — e se queixa que os livros são caros — de renovar suas leituras, formar seus acervos. É a demolição do álibi de muitos que não leem por preguiça, mas que, publicamente, culpam os altos custos dos livros por sua inércia enquanto não-leitores.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 19 de novembro de 2011].

P.P.S. A feira foi cancelada entre a publicação do texto acima e esta aqui no blog. Ela ocorrerá agora no prédio da Poli entre os dias 14 a 16 de dezembro. O puxão de orelhas original permanece inalterado.

As Crônicas Baianas – Parte I : Algo mais e menos do que uma árvore

O baiano, quando não fala demais – e como fala, meu Deus, suas palavras jorrando qual de uma fonte – é um poço de brevidade, ou melhor, quase uma furna, de onde mal se extrai alguns monossílabos. Sob alguns aspectos, prefiro estes aos primeiros, pois nos dão tempo de ouvir, refletir e perguntar quanto àquilo que nos interessa. Algo que os outros não nos permitem. E tal é o falatório que, muitas vezes, acabamos por nos esquecer de onde estamos vindo e para aonde prosseguimos.
Mas uma coisa que aprendi por meio deles é que o baiano é um ser quase mítico, beirando a abstração. Esqueçam a área do Estado, de 567.295,669 km², e a população de 14.016.906 habitantes. Os que parecem contar, realmente, sãos os 706,799 km² de Salvador e os seus 2.676.606 habitantes, isto se não existirem divisões ainda mais internas e mais exclusivistas, pois é evidente que o soteropolitano considera-se apenas ele próprio, e tão somente ele, como baiano. Todos os vizinhos da Grande Salvador, ou os fronteiros de Itaparica, e, claro, todo o resto do Estado, tudo isto não é bem Bahia. É quase um outro país. E pertencentes a outro país somos nós para eles. Pois, de fato, visitando a cidade, tem-se a impressão de se pisar uma terra estrangeira, um pouco parecida com a nossa, mas estranha. Talvez os bonairenses, ao visitarem Montevidéu, ou os montevideanos, de passagem por Buenos Aires, sintam a mesma coisa, o que seria mais compreensível.
Grosso modo, imagina-se Salvador como uma espécie de Havana, um cenário com ricos e antigos prédios em completa decrepitude, habitado por uma população majoritariamente negra, que alterna picos de imensa alegria com fossas de sinistro silêncio. Sim, isto existe ali. Mas há toda uma face à la Miami Beach na cidade. Bairros que lembram o Rio de Janeiro (um pouco de Santa Teresa, Botafogo e Gambôa), Belo Horizonte (Savassi e Funcionários), misturado ao centro e à Ponta da Praia de Santos. E mesmo São Paulo. Um trecho da Avenida Sete de Setembro, por exemplo, conhecido como Corredor da Vitória, lembra muito, curiosa e coincidentemente, a rua Bahia, em São Paulo, de uns vinte anos atrás. Em ambos os lugares, as mesmas árvores altas, cujas copas se encontram no alto, criando um verde dossel sobre as ruas, e casas elegantes dos anos 1910, 1920 cedendo espaço para caros prédios de apartamentos. E o próprio Pelourinho tem o seu quê de Ouro Preto, das cariocas Praça Quinze e Rua do Ouvidor, de Olinda, Recife e São João del Rey, estes fragmentos coloniais em pleno século XXI. Todavia muitíssimo mais imponente quanto a certas construções. Entretanto, vire-se na rua errada, saia-se um pouco dos lugares turísticos ou daqueles onde vivem os mais abastados. Nestes locais, somem São Paulo, Miami e Rio de Janeiro. Parecemos mergulhar não em Cuba, mas, sim, no Haiti, depois do terremoto.
A ruína, a decrepitude, a miséria e a sujeira dos prédios e das pessoas é algo que beira o inenarrável. Lembra um pouco a Mogadíscio, da Somália, tal qual mostrada no filme “Falcão Negro em perigo” (Black Hawk down, EUA, 2001). Mas que não se culpe somente a pobreza ou o descaso das autoridades por isso. Sentimos como se algo que beira o perverso pairasse ali, numa quase relação sinestésica horripilante. Para além da simples metáfora ou alegoria, o físico parece se confundir com o metafísico, manifestando-se em nossos sentidos a ponto de julgarmos escutar o que deveria ser visto, tatear algo que só existe enquanto som, ver um aroma, sentir o cheiro de um valor moral ou da ausência dele. O grande escritor inglês G.K. Chesterton (1874-1936), em sua curiosíssima novela O Homem que era quinta-feira (1908), logo no início do capítulo VI, trata de uma situação limite, fronteiriça entre algo que se conhece muito bem e algo que extrapola tal consciência, que muitas vezes se apresenta na vida de alguém e que é de quase indecifrável solução. A passagem, aliás, não é de pronta compreensão e merece mais do que uma releitura. Dizia ele que, diante de tais casos, apenas se poderia fantasiar, “como em alguma fábula da antiguidade, que, se um homem caminhasse para o extremo leste, rumo ao fim do mundo, encontraria alguma coisa – uma árvore, digamos – que era ao mesmo tempo mais ou menos que uma árvore: uma árvore possuída por um espírito; e que, se seguisse pelo oeste rumo ao fim do mundo, encontraria algo também que não era inteiramente ela própria – uma torre, talvez, cuja própria forma fosse perversa”.
Tais coisas, condições ou situações, “violentas e inexplicáveis”, tornam-se claras em Salvador. E a cidade, bela e bruta que é, concentra mais contradições do que se imagina. Trataremos de algumas delas nas próximas semanas, salvo por algum episódio fortuito que requeira uma maior atenção. Em todo caso, quero deixar bem claro um ponto: Salvador é detestável e apaixonante, ao mesmo tempo. Na mesma medida em que é incontornável e imprescindível. Podemos passar toda a nossa vida sem conhecer Brasília. O mesmo não se aplica, pelo contrário, a Salvador. À Bahia, enfim, como querem eles. Àquela terra que é, ao mesmo tempo, mais e menos do que uma cidade: em suma, alguma coisa dificilmente decifrável.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 5 de novembro de 2011].

segunda-feira, 18 de julho de 2011

Que bons tempos eram aqueles em que o trem era sinônimo de progresso!

Curiosa a história da estação de metrô em Higienópolis...
Morei, dos meus três aos vinte e dois anos, exatamente na mesma rua onde se planejava abrir a referida estação, hoje, ao que parece, baldada. Mais ainda, na mesmíssima quadra, da rua Sergipe, entre a Itacolomi e a avenida Angélica, o local escolhido para a obra embargada, e por onde passei quase todos os dias de minha vida durante dezenove anos. E, naquele tempo, se houvesse planos de uma estação de metrô justamente naquela esquina, a ideia seria entusiasticamente saudada pela maioria dos habitantes do bairro, e por quem nele trabalha. Bons tempos aqueles...
Higienópolis, durante décadas, foi um bairro bastante cosmopolita, um pedacinho de Europa, quase. Nele viveram, outrora, muitos barões do café, riquíssimos; seus filhos, cuja afetação e seu pressuposto aplomb aumentavam na razão inversa de seus capitais minguantes; e seus netos, muito educados, cultos e viajados, mas já quase sem recursos. Já por volta dos anos 1930-1940, aumenta a proporção de habitantes ligados às profissões liberais, ao serviço público, e também executivos das grandes empresas que então se constituíam. Porém o aspecto mais relevante daqueles anos foi a chegada de muitos judeus e outros perseguidos pelo nazismo que ali se estabeleceram. E não eram fazendeiros do sul da Rússia e Ucrânia, ou pequenos comerciantes dos inúmeros guetos europeus. Eram médicos, políticos – naquela época, tal palavra denotava ainda certo respeito –, advogados, artistas dos mais variados meios, professores universitários: em suma, todo um rol de gente muito intelectualizada e urbana, acostumada aos transportes públicos, a valorizar o espaço coletivo, ao viver em sociedade. Entre os anos 1950-1960, e mesmo 1970, um expressivo número de intelectuais de centro, centro-esquerda e esquerda, com bons empregos nas universidades públicas, somou-se aos locais. Ali vivia, então, por exemplo, um sujeito à época muito afável, que andava nas ruas como qualquer mortal e que, longe de pedir que esquecessem o que ele havia escrito, queria, pelo contrário, que se lembrassem de suas ideias. Seu nome então era Fernando Henrique (hoje, mais que um homem, é uma sigla: que tempos vivemos...). E este perfil social do bairro se estabeleceu por muitos anos, como pude ainda verificar naqueles dezenove de vivência por lá.
É claro que havia gente de direita em Higienópolis. Aliás, de ultra-direita. No bairro localizava-se a sede da hoje moribunda TFP (Sociedade Brasileira de defesa da Tradição, da Família e Propriedade), cujo líder e fundador, Plínio Correia de Oliveira, figura simpaticíssima no trato, aliás (mas esquisito na aparência), caminhava pelas ruas como qualquer cidadão, até que a idade o impediu e, só então, valeu-se de automóvel: um Opala que, àquela altura, já era velho. E utilizava todos os serviços do bairro como os demais moradores: cortávamos o cabelo, inclusive, no mesmo barbeiro, sempre em cadeiras contíguas. Havia também alguns banqueiros – que tinham amigos na esquerda da época, mas de que lado do espectro político estavam poucos sabiam, ou queriam saber, ainda, que certamente, soubéssemos, mas parecia-nos melhor não pensar nisto. Um deles, inclusive, foi Olavo Setúbal, que morava num sobrado extremamente discreto (para não dizer feio) em frente ao meu prédio. É verdade que ele não era ainda, então, o “teramilionário” dos seus últimos dias de vida. Na época, talvez só fosse “megamilionário”, ainda que não aparentasse nem um pouco (a gente bem-nascida daqueles tempos tinha horror à ostentação). E, nomeado prefeito, lembro-me dele apanhando o ônibus Circular Avenida, da CMTC, para verificar, in loco, “ao vivo”, as condições do trânsito, a qualidade e pontualidade do transporte público. Quando lembramos que o Chirico (que nunca foi morador do bairro em questão, frise-se), eleito prefeito só circulava pela cidade de helicóptero, notamos o quanto decaiu a qualidade dos homens públicos nacionais. Mas isto é outra história.
Pois bem, como mostrei, Higienópolis foi um lugar onde muita gente culta e bem-educada, urbanizada e cosmopolita viveu, respeitando os interesses e bens públicos dos quais todos eram contribuintes, usufruidores e defensores. Parece, no entanto, que isto acabou. Não creio que tal repúdio a uma estação de metrô no bairro (e lembremos que, em Londres e Paris, os imóveis mais valorizados são os que têm por perto uma estação de trem subterrâneo, e que as mesmas não estão ausentes dos pontos mais elegantes de Manhattam) deva-se somente à gente nova que para ali tem mudado nos últimos anos. Tremo ante a ideia de que amigos que há tempos não vejo e antigos vizinhos ou colegas de escola, pessoas muito decentes, agora pensem assim.
É triste pensar que um bairro que outrora se pautou pelos valores do que noutras épocas se chamou de uma sociedade humanística, agora se paute pelo que há alguns tempos é conhecido como sociedade automobilística, formada por essa gente que trafega em mini-blindados altamente consumidores de combustível fóssil, que trata o pedestre como um lixo, o ônibus como um estorvo, e o metrô, como uma mera abstração, preconceituosa, visto que não o conhece. É triste, muito triste, ver o cidadão de bem ser substituído pelo parvenu prepotente. Mas explica muita coisa a respeito da cidade. E do Estado onde ela se encontra.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 21 de maio de 2011].

quinta-feira, 24 de fevereiro de 2011

As Chuvas, outra vez

Numa crônica (De volta à colônia, de 5/5/2007) publicada neste mesmo espaço, referi-me, em linhas gerais, à perpétua repetição de certos eventos dignos de comentários que, dada a sua regularidade, dir-se-ia serem mesmo sazonais. Ou seja, o que pensei na hora, mas que então não pus em letra de forma, como se diz, foi que parecia haver, de fato, uma espécie de estação do ano para que ocorressem tais episódios; ou, ainda, que mesmo que livres de uma tal regra, visto que todos os anos ocorria algo do gênero, tratar de tais temas era tão obrigatório, e esperado, quanto escrever a crônica do Natal, do Fim do Ano, etc.
Lembro-me que, no texto em questão, disse o seguinte:

“Acredito mesmo que, num prazo muito curto, ainda veremos as notícias de homicídios ocorridos no Brasil ao lado daquelas que tratam de atentados no Iraque, de descarrilamentos de trens no Paquistão, de vítimas de terremotos na Turquia ou de erupções vulcânicas na Guatemala. Ou seja, fenômenos tão comuns — senão sazonais — e tão previsíveis nos países do Terceiro Mundo que não são mais, sequer, notícias, mas, sim, mera estatística para os países centrais”.



O mesmo, aliás, vale dizer, como o disse (Um novo pistoleiro americano, 21/4/2007), quanto à ação de atiradores malucos nos Estados Unidos, que, por sinal, bem recentemente teve uma reprise:

“[...]a verdade é que “massacres” perpetrados por atiradores solitários nos Estados Unidos são, no fundo, tão comuns quanto morticínios no Oriente Médio, tiroteios no Rio de Janeiro, etc”..


Já no ano seguinte (Desastre anunciado, 6/12/2008), tratei das enchentes que assolaram algumas cidades de Santa Catarina e Espírito Santo em virtude não só das condições climáticas, como, e principalmente, da incúria das autoridades públicas:

“[...] convenhamos, temporais no Sul e seca no Nordeste ocorrem todo ano e quase que com data marcada no calendário. O problema, como é mais do que sabido, há décadas, e que poucos se lembram, não está nesses incidentes climáticos, mas, sim, na absoluta inépcia ou falta de vontade por parte das autoridades públicas quanto a procurarem diminuir os seus efeitos. [...]Uma casa erguida numa encosta que, à primeira chuva, pode desabar, não foi ali construída porque seu dono tem “amor ao perigo” ou “sede de adrenalina”. Se naquele lugar se encontra, foi porque algum empresário inescrupuloso loteou o morro, com a conivência de um prefeito, de técnicos, etc. E repete-se a equação “dinheiro + vantagens = lucros + votos”.


E há quase um ano (Mais uma vez o desastre, 20/4/2010), foi a vez de comentar o que ocorreu em Angra dos Reis e São Luís do Paraitinga, e no Rio de Janeiro e em Niterói, quando disse:

“ [...] São estas constantes repetições de absurdos (isto mesmo, não se trata de um pleonasmo, mas de uma constatação quanto à insultuosa frequência com que tais fatos ocorrem) que acabam por levar à descrença no futuro deste país”.


Agora vejamos estes horrendos episódios ocorridos na região serrana do Rio de Janeiro.
É um fato que a quantidade de água que caiu dos céus foi bastante grande. E que, no caso de Teresópolis, a cidade mais atingida, sua topografia (o município é um funil entre altas montanhas) colaborou na produção daquele quase dilúvio – horripilante e tristíssimo, aliás, ao qual pudemos assistir no conforto de nossos lares secos e distantes do ocorrido, com direito a comovedores depoimentos de intrépidos repórteres relatando suas pontuais intervenções no resgate das vítimas (mais uma prova de que certa parte da imprensa converteu a notícia em espetáculo e produto, e para valorizá-lo, faz-se propaganda de quem o produz). Mas voltando ao caso, mesmo em Teresópolis, e também em virtude do tal aspecto que é próprio à cidade, mas sobretudo nas cidades vizinhas, o que mais uma vez se verificou é que muitas vidas e casas teriam sido poupadas se as autoridades públicas atuassem com o zelo necessário, impedindo a construção de imóveis em áreas de risco, sejam elas encostas de morros, sejam elas várzeas inundáveis. Em suma, os problemas estão lá, de antevéspera. Bastou uma chuva, anunciada, para revelá-lo da maneira mais grave.
As autoridades federais já prometeram mundos e fundos para tentar socorrer as vítimas. O que está correto. Mas discordo quando dizem que tais catástrofes devem ser sanadas pela União, estados e municípios em conjunto. Pois não é justo que incompetências estaduais e municipais onerem a Nação como um todo. Os contribuintes do Oiapoque ao Chuí não deveriam ter que pagar a fatura da falta de planejamento urbano, e fiscalização, de qualquer prefeito, ou governador, esteja ele onde estiver. Somos, e deveremos ser, sempre, solidários no desastre, mas não temos de ser eternos financiadores de suas políticas equivocadas. Ou ineptas. Acho que já passou da hora de darmos um basta a este quadro vergonhoso.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 15 de janeiro de 2011].

terça-feira, 30 de março de 2010

Toda ponte paira sobre o vazio

Em crônica intitulada “Um novo cartão-postal paulistano”, de 15 de dezembro de 2007, tratei, neste espaço, de uma certa ponte estaiada que se ergueu sobre o rio Pinheiros – aquele que separa o Palácio dos Bandeirantes da verdadeira São Paulo.
À época comentei a falta de necessidade de um tal projeto e método construtivo, e mencionei outras pontes muito maiores às quais tentaram comparar aquela pretensiosa pinguela pênsil sobre o rio. Dentre elas, citei a Ponte do Brooklyn, de Nova Iorque, e a Golden Gate, de São Francisco, Califórnia. E meio que conclui dizendo:

É de se imaginar se a idéia não passa de mais uma macaquice, imitação na aparência, mas não na essência, de “modernidades” alheias. É possível mesmo especular se quem a planejou, quem a aceitou, e quem a elogia, não seriam alguns tantos brocoiós nostálgicos de algum sonho não realizado, de “vistas” norte-americanas em nossas paisagens metropolitanas. Gente que suspira à visão do prédio do Banespa porque este lembra o Empire State Building. Que enxerga na Avenida Paulista, a nossa versão da Quinta Avenida nova-iorquina, e no Parque do Ibirapuera, o nosso Central Park. Francamente!”.

Pois é, a macaquice campeia. Agora se quer construir um arremedo nanico de uma Golden Gate ligando Santos ao Guarujá. E, por conta disto, até o nosso Excelentíssimo Senhor Governador do Estado de São Paulo, o sempre solícito e disponível Chirico, desceu a serra para inaugurar...uma maquete!
Os defensores do projeto alegam que aquele monstrengo – a ponte, não o Excelentíssimo Senhor Governador – é uma demanda das duas cidades, visto que as ligaria mais rapidamente. Ora, quem as conhece sabe que já existe serviços de balsas e barcas cumprindo tal fim, e para quem quer ir de automóvel, uma ponte que as une mais para o interior, aliviando o fluxo dos centros daquelas cidades. Com o novo projeto, pretende-se justamente intensificar o tráfego nos centros dos dois municípios, uma idéia condenada por dez entre dez urbanistas de qualquer parte do mundo. E por quem pensa um pouco que seja e conhece Santos e Guarujá. Pois imaginemos os fins-de-semana prolongados e as temporadas, quando milhares de automóveis despencam serra abaixo rumo ao local. Pensemos como ficariam aquelas cidades frente a uma nova e intensa circulação de automóveis, acima dos números absurdos ao quais já se sujeitam. Um caos, um verdadeiro caos. Ou melhor, dois: um para cada uma.
E não falamos ainda do impacto paisagístico. Pois, convenhamos, Santos está longe de ter um dos melhores cenários em seu entorno. Salvam-lhe da completa feiúra o mar – este ninguém consegue impedir de ser o que é – e o estuário com a Serra do Mar ao fundo. Pois é justamente neste último que querem meter o raio da ponte, arruinando de vez aquela bela vista.
E tudo isto para quê? Para brincarmos que somos norte-americanos, copiando-lhes os prédios, as pontes, imitando-lhes o número de automóveis e o consumo desenfreado, fingindo que somos o que não somos, ou o que meia dúzia de brocoiós gostaríamos que fôssemos.
Em suma, tudo que disse da outra ponte, reitero e acrescento para a nova, que sequer saiu do papel e será completada e paga não pelo Chirico, o Breve, mas por quem quer que lhe herde a cadeira. E tomara que ela não vingue, que não passe da reles maquete que é. Basta de macaquices caras e de construir pontes sobre um vazio de idéias.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 13 de março de 2010].

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Maritacas na gaiola

Muitos arquitetos e urbanistas concordam que a praça, a boa e velha praça com árvores, coreto, igreja ou prédios públicos de importância, cedeu seu lugar de convívio social, a partir de meados do século XX (no caso dos EUA), aos shopping centers. Nosso país — sempre em atraso em relação aos grandes centros de decisão e, nesse caso, felizmente — só passou por este fenômeno a partir da década de 70 do mesmo século. Nos anos 80, explodiram os shoppings por toda parte, qual cogumelos depois da chuva. Mas foi na década de 90 que se tornaram, efetivamente, o lugar de convívio, por excelência, de milhões de pessoas no Brasil. Sabem disso não só o público que os freqüenta, como também os donos de lojas, cinemas, bares e restaurantes do lado de fora das paredes dos shoppings, acossados pela perda de consumidores que a todo custo evitam o caos que se instalou nas ruas de nosso país.
Se esta modalidade de espaço particular, privado, acabou por tomar ares de espaço público, e se, de fato, para inúmeras pessoas ele se tornou imprescindível, sua receita de local único de convívio, todavia, passou a sofrer graves abalos com a ampliação de acesso à Internet. Sim, é um fato que as pessoas freqüentam tanto quanto antes, se não mais ainda, os shopping centers. Vão ao cinema, comem bebem, olham muito, mais do que compram — dados os tempos bicudos dos quais parecemos ser eternamente vítimas — e andam, andam, andam... Mas não conversam. Não se fazem novos conhecimentos ou relações. Não se trocam impressões. Porque o lugar praticamente não permite, não há ambiente para isto. Quem vai se lembrar do último filme que assistiu, música que particularmente lhe tocou ou assunto interessante que gostaria de discutir, em meio à feérica e frenética sucessão de anúncios, cartazes, luminosos, vitrines de bolsas, sapatos, vestidos, camisas, etc? Impossível.
Assim, o que aconteceu, foi que toda uma geração que teve por babá a televisão, por parquinho infantil o playground do prédio, por praça da matriz os shoppings centers, geração que aprendeu que era “sensível” — as que a precederam eram o quê? inanimadas? — e que queria “expressar suas idéias”, sem todavia consegui-las naqueles espaços impessoais, eis que lançou-se ao bate-papo via internet. E como se bate-papo! E quão rasas são as idéias!
É um fato de todas as maneiras inegável que a Internet representou uma revolução nos meios de comunicação. Por outro lado, a quantidade de bobagens que circulam pela rede também é inacreditável, como é sabido. Mas o pior é justamente quando este lixo chega até nossas caixas de mensagens. Não falo das piadas, mais ou menos — geralmente menos — engraçadas, que nos enviam. Há todo um entulho que, francamente, não sei como pode existir público para tal.
Como é possível que gente que se diz séria, que presume ter idéias, as quais pretende exprimir em público, ocupe seu tempo a pesquisar imagens bizarras de acidentes vários e enviá-las aos amigos? Ou teorias conspiratórias, montagens fotográficas que são verdadeiras aberrações, senão de técnica, pelo menos de tema? Como é possível que se gaste uma inteligência — rala, talvez, mas bastante artificiosa — formulando frases banais, pieguices no campo da auto-ajuda, versos mancos, mutilados mesmo, e atribuir tal chusma de sandices a algum autor conhecido? O quê uma pessoa ganha em fazer seus pensamentos — ou melhor os balbucios de uma cabeça minimamente organizada, pouco superior a dos chimpanzés — passarem como se de autoria de algum grande nome? Nada, ora. O frasista desconhecido continuará anônimo e só lançará a uma boa reputação meia dúzia de patetadas que alguma especialista ou admirador logo irá desmascarar. Mesmo assim, como há bobagens circulando por aí como se fossem de pena de um Fernando Pessoa, de um Jorge Luís Borges...
E o que dizer, então, desta nova praga chamada Orkut? Que mixórdia! O footing dos acanhados. Os classificados pessoais dos imodestos inseguros. O pregão de inibidos exagerados. Mero congraçamento de tímidos metidos a gabolas cujas personalidades viriam a pique se expostas à luz franca das relações diretas, pessoais, olhos nos olhos.
O que é de lastimar é que tanto engenho, tanto esforço tecnológico seja empregado por um bando que mais faz pensar em maritacas do que em qualquer outro tipo de criatura. Pois maritacas não cantam, não reproduzem voz humana, só emitem um barulho sem sentido e desencontrado. Na natureza, pode ser até bonito. Elas voam, passam, vão embora. Numa gaiola — porque a Internet, para muitos, não passa de uma gaiola da qual não enxergam as grades — só o que fazem é palrar, gritar, sem motivo, para sempre e sem razão.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 5 de março de 2005].

Uma questão atual

Quando assisti pela primeira vez ao filme “Tiros em Columbine” (Bowling for Columbine, EUA, 2002), do cineasta Michael Moore, um documentário que trata da obsessão norte-americana pelas armas de fogo, confesso que minha atenção voltou-se somente ao tema principal, e vários outros assuntos de permeio escaparam-me. Recentemente, assistindo a uma reprise, dei-me conta de um curiosa relação que e o diretor faz entre dois aspectos da sociedade americana aparentemente desligados um do outro. Em dado momento — para ser mais preciso, na parte do desenho animado dentro do filme —, o narrador menciona que juntamente com a expansão dos direitos civis aos negros americanos (ou afro-descendentes, como preferem ser chamados por lá), houve também a mudança de inúmeras famílias de classe média branca dos bairros onde tradicionalmente viviam, nas cidades, rumo aos subúrbios e aos condomínios mais ou menos fechados.
Ou seja, enquanto os negros americanos conquistavam direitos — que, entre nós, brasileiros, sempre foram muito mais do que evidentes — como poderem viajar nos bancos da frente dos ônibus, poderem usar sanitários e bebedouros públicos que não os explicitamente dedicados à sua cor, e por ela não serem discriminados na tentativa à admissão num emprego ou numa escola, em suma, passavam a efetivamente interagir no meio urbano, a classe média branca fugia daquele mesmo meio urbano, reinventando-o em moldes conservadores na orla das grandes cidades.
Essa migração preconceituosa ocorreu nos Estados Unidos a partir da década de 1950. O Brasil — que a partir daquela época passou a copiar tudo o que a sociedade norte-americana tinha de pior, só que com atraso, e alterando completamente a lógica original das coisas, mas não para melhor — deus à luz suas primeiras experiências em matéria de condomínios fechados no início da década de 1970. Alphaville, em São Paulo, foi o primeiro exemplar e o modelo consagrado do gênero, para todos que o seguiram pelo Brasil, e data de 1974. Diz-se que seu nome, ou assim pretendiam os empreendedores do condomínio, seria uma “contraposição” ao tipo de sociedade “ideal” criada como cenário, e personagem do filme Alphaville (França, 1965), do cineasta Jean-Luc Godard.
Pusemos em aspas os termos contraposição e ideal por dois motivos. Em primeiro lugar, consideramos a citação do nome de uma infelicidade atroz, por que a cidade do filme nada tinha de ideal, o que já justificam as aspas da segunda palavra. Porque a Alphaville do cineasta franco-suíço é uma comunidade dominada por um computador, o Alpha-60, que controla todos os acontecimentos e toda liberdade de expressão de seus habitantes, vigiando a todos o tempo todo, mas não impedindo que vários horrores acontecessem.
Assim, é curioso notar que antes mesmo que se falasse em violência urbana, ou melhor, antes de que esta fizesse parte de nosso quotidiano, a classe média paulistana, certamente mais levada pelo espírito de cópia, de macaquice, do que vitimada por um medo real, pela violência também real, já procurava abandonar o ambiente urbano, trocando-o por um mundo quase de faz-de-conta.
Não temos nada contra os condomínios propriamente ditos. Compreendemos, aliás, que no contexto de crimes que envolve este país há tanto, onde a segurança individual é praticamente nula, as pessoas deixem as cidades por lugares mais seguros. Mas a proliferação de tais lugares de moradia acabam por se tornarem prejudiciais à sociedade como um todo. Pois além de avançarem, freqüentemente, sobre áreas de mananciais, reservas naturais, florestais, etc., acabam também por gerarem demandas sociais novas, pois toda uma infra-estrutura urbana tem de ser criada para levar recursos básicos até áreas muitas vezes distantes dos centros tradicionais. Nesse processo, perdem as cidades, vítimas do natural descaso de uma população que cada vez mais delas se afasta, freqüenta, olha por ela. E , o que é pior, esgarça violentamente o tecido da sociedade, a noção de igualdade entre os homens, de fraternidade entre cidadãos, na medida em que acabam por criar duas naturezas de seres: os que vivem dentro dos muros e os que vivem fora. Uns achando-se quase que pertencentes a uma linhagem real ou divina, olhando para fora com olhos aterrorizados e preconceituosos. Outros espichando o olhar por cima do muro, vislumbrando, distorcidamente, o que lá se passa como algo invejável, ou algo que deva ser destruído. É uma questão sobre a qual vale a pena refletir.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 17 de agosto de 2005].

Uma idéia do Chirico. Ou de jerico?

A grandeza da cidade de São Paulo fala por si só. Não bastasse suas próprias dimensões físicas e populacionais (11.434.252 habitantes disputando uma área de 1.523 km²), ela é a cidade mais rica da América do Sul e, sabemos todos, sua influência econômica determina os rumos do Brasil. Como centro de serviços e entretenimento, só é comparável a cidades como Paris ou Nova Iorque. E, dizem, quanto à oferta gastronômica, bate sua rival norte-americana. Como polo cultural, então nem se fala. Não bastasse a imensa gama de museus, galerias, bibliotecas, institutos culturais, etc., está aí a Universidade de São Paulo, ainda a melhor universidade do país e ponto final. Está a Unifesp, antiga Escola Paulista de Medicina, e o “Paulista” aqui, em princípio só uma referência geográfica, tornou-se todo um modo de pensar e de fazer a Medicina, uma “Escola Paulista” na completa acepção do termo. Como grandes universidades particulares também, que investem mais em pesquisas do que em contadores para aferir o lucro mensal, como é prática disseminada em muitas partes de nosso país. E, ainda assim, com todo este arcabouço cultural, com largas parcelas da população não só alfabetizadas como detentoras de títulos universitários, eis que a cidade de São Paulo freqüentemente padece dos mais estúpidos desvarios imaginados por seus próprios administradores.
Não faremos um longa viagem no tempo, mas cabe recordar certas burrices idealizadas por alguns prefeitos de São Paulo. Pensemos em Paulo Maluf e em sua ênfase no transporte particular, que inundou a cidade de automóveis e de congestionamentos, além de depreciar toda uma região metropolitana com seu horrendo “Minhocão”. Não me ocorrem à lembrança eventuais maluquices de Olavo Setúbal, e quanto à passagem de Reynaldo de Barros, então, não foi das piores, pelo que me recordo. Mas lembremos de Mário Covas e seus corredores de ônibus criados às pressas e que, continuados por Jânio Quadros, porém seguindo os planos originais de seu antecessor, ganharam o curioso, para não dizer trágico, apelido de “atropelódromos”. Das invencionices de Jânio, então, nem falaremos: mereceriam o espaço de toda uma crônica. Depois veio Erundina, que fez mais bem do que mal — naqueles intervalos em que seu partido de então, o PT, permitia a ela fazer alguma coisa e não sabotava cada ato seu. Ainda assim, a transferência da prefeitura para o Palácio das Indústrias e a tentativa de tombamento da mansão Matarazzo para ser convertida num futuro “Museu do Trabalhador” são idéias, no mínimo, questionáveis. Quanto às estapafúrdias idéias de Maluf e Pitta, cujos interesses tornaram-se bem claros, é assunto que cabe à polícia e à Justiça. Marta Suplicy teve algumas boas idéias, veja-se o CEU. E outras bem ruins, também. Infelizmente, estas granjearam maior espaço na mídia.
Pois eis que, agora, veio Serra com sua contribuição pessoal ao anedotário, infeliz, das más idéias dos prefeitos de São Paulo: permitir propaganda em uniformes escolares dos alunos da rede pública. Propaganda dupla, aliás. Porque, em primeiro lugar, as cores empregadas nas roupas dos meninos e meninas serão as mesmas que identificam o PSDB do Oiapoque ao Chuí, o azul e o amarelo — só isso, para um Judiciário atento, já seria motivo para um tremendo processo. Mas, e que é grave também, será permitida a publicidade de empresas, das mais variadas naturezas, impressas ou bordadas nos uniformes estudantis, ou seja, vão transformar as crianças das escolas municipais paulistanas em mostruários de produtos, pequenos homens-sanduíches anunciando, quem sabe, de cremes para rugas a óleo diesel, de financeira caça-níquel a monopólios de cimento, e sabe-se lá o que mais.
Mas por que tal absurdo é considerado possível? Porque os uniformes são para filhos de pobres. Queria ver um colégio particular inventar a mesma coisa! Os pais honestos fariam a maior gritaria, e os desonestos cobrariam “cachê”: ou seja, tudo se inviabilizaria em dois tempos.
Por isso, fico pensando no Sr. Francisco Serra — pai do atual prefeito — , imigrante calabrês, dono de uma barraca de frutas no Mercado da Cantareira, e em sua mulher, Dona Serafina Chirico, filha de imigrantes conterrâneos do marido. Imagino o que ele diria se seu filho, José Serra Chirico, fosse obrigado a usar um uniforme, em sua escolinha da Moóca, em que estampasse, junto ao peito, a propaganda da barraca de frutas de um seu rival? E se, no bolso traseiro da calça, trouxesse o anúncio de um fabricante de fumos? Esses são os lugares para a propaganda previstos pelo projeto atual (quanto aos anunciantes, no caso, são fruto de uma liberdade poética a respeito dos possíveis patrocinadores daqueles tempos). Será que os humildes pais dele aceitariam tal coisa, ou irromperiam numa sonoro e pesado palavrão calabrês?
Quem diria que o excelso alcaide paulistano tivesse tal idéia, justo ele que a todo momento proclama ao universo todo e até mais além sua incontestável competência e sublimes conhecimentos, certamente únicos no território nacional, senão perante toda a humanidade... Pois é. Parece que o José Serra Chirico teve, isto sim, uma idéia de jerico.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 17 de setembro de 2005].

Quando a leveza parece densa, e a solidez, leviana

A escritora italiana Maria Savi Lopez (1846-1940), criou um bela fábula em seu livro Leggende del Mare (Turim, Loescher, 1894), a qual, no entanto, parece ter sido escrita para os tempos atuais — aliás, como toda boa fábula. Segundo ela, teria existido em Alexandria, Egito, uma espécie de parque de esculturas, monumentais e horrendas, na orla do mar, e que há muito caiu em ruínas. Sua origem se deveu aos seguintes fatos. Quando Alexandre, o Grande, construía a cidade, um grupo de monstros marinhos saía das águas todas as noites e destruía as obras ali realizadas durante o dia. O rei, então, estabeleceu o seguinte plano: ordenou a construção de uma gaiola de vidro, mandou que colocassem um artista dentro dela, e que esta fosse submergida no mar: dali, o homem poderia observar os monstros e desenhá-los. Trazido o artista de volta, Alexandre mandou que se erguessem estátuas daquelas medonhas criaturas, tomando por base os desenhos tomados do natural, e que as mesmas fossem colocadas na praia. Quando os monstros saíram do mar e viram suas exatas cópias, fugiram aterrorizados. E nunca mais voltaram. Acredito que, em boa parte é esta mesma sensação que muita gente tem quando entra em São Paulo, pela Marginal do Tietê.
Falar da feiúra da capital paulistana já se tornou, praticamente, um lugar-comum. Há poucas semanas, inclusive, o jornal Folha de S. Paulo consultou dezessete arquitetos paulistanos, o que resultou numa lista dos prédios mais feios da cidade. Não houve propriamente uma unanimidade quanto ao vencedor (o “campeoníssimo”, que abriga a Sede Mundial da Igreja Pentecostal Deus É Amor, no Glicério, recebeu três votos, e os demais, no máximo dois), mas, dentre eles, contavam-se não só os “suspeitos de sempre”, como também novíssimas feiúras. E também, na minha opinião, alguns que foram injustamente avaliados. De modo que lá estavam, pela “velha guarda do horror”, o eterno alvo de críticas, o Edifício São Vito, o famoso treme-treme em frente ao Mercado da Cantareira; o Memorial da América Latina, feio, inútil, e quente como um deserto; o Palácio dos Bandeirantes, que recende à arquitetura fascista em cada centímetro de fachada e, que, como resumia magistralmente uma amiga minha, “mais parece um caixote com uma coroa carnavalesca em cima dele”; e o Edifício Martinelli, que, na minha opinião, não deveria ser arrolado entre os mais feios, nem entre os mais “equivocados”: na época em que foi erguido, influências neoclássicas, como as que ele apresenta, ainda estavam na ordem do dia. Da mesma maneira, discordo da inclusão do Edifício Dacon, ali na esquina da Faria Lima com a 9 de Julho. Ele podia ser mais “encorpado”, possuir um térreo mais alto, e, afinal, parece mesmo um grande prédio, só que em escala menor do que a necessária para aquilo que ele se propõe a ser. Mas ele sempre fez uma bela figura no horizonte daqueles lados da cidade.
Quanto à “jovem guarda da feiúra”, dela fazem parte os dois vice-campeões (dois votos cada). Foram eles o Edifício Villa Europa — um monstrengo que se avista da Marginal Pinheiros, famoso tanto por exceder o limite de altura permitido, quanto por seu neoclassicismo de butique, e cujas formas, à distância, lembram um grande pente banguela —; e o prédio da Daslu, que, indiscutivelmente, é um dos prédios mais feios que há em São Paulo, quer do ponto de vista estético, quer, principalmente, do ponto de vista ético, moral, político, econômico, fiscal, etc. Logo abaixo deles, seguem-se a Plaza Iguatemi e o Edifício Renata. Quanto a este último, não há muito o que falar. É feio, convencional, metido à besta, mas há outros piores na cidade. Quando ao primeiro, sempre horrorizou-me que fosse sequer concebido. Pois nunca me esqueço de quando aquele que foi o pioneiro dos shoppings centers de São Paulo, leve, arejado, e quase “democrático”, converteu-se numa espécie de catedral do consumo. Sempre pareceu-me um prenúncio de um futuro muito pior por vir. E que veio: está aí a Daslu, a Sé de uma nova e exótica religião revelada outrora pela Plaza Iguatemi.
Mas nem só de prédios trataram os arquitetos consultados pela Folha de S. Paulo. Criticaram, muito apropriadamente, aquele horror que é o Minhocão e a ausência de qualquer “personalidade” nas pontes e viadutos da cidade. E, convenhamos, com exceção da Ponte das Bandeiras, dos viadutos do Chá e Santa Efigênia, o que resta em São Paulo que seja digno de nota, no gênero?
É claro que a degradação dos espaços públicos produz um efeito muito mais nefasto na cidade do que uma meia dúzia de prédios “feios”. As praças abandonadas, as construções pichadas e decadentes, a própria sinalização desordenada da cidade, as marginais degradadas e as favelas superam em feiúra qualquer das obras acima relacionadas. Mas essas, convenhamos, são resultado do descaso do poder público e da marginalização da população decorrente deste mesmo descaso. E quanto ao resto, que se dá por obra de uma iniciativa privada bruta e insensível? Não tem ela uma parcela de culpa muito maior?
Os efeitos do brutalismo, por assim dizer, na arquitetura paulistana, deitam suas influências em outros campos até então pouco sondados. E, a partir daqui, retornamos ao início desta crônica, à fábula do parque monstruoso em ruínas de Alexandria. Pois que outra sensação um visitante tem que não a de horror quando entra em São Paulo pela Marginal Tietê e se depara com aquela sucessão de terrenos baldios e galpões improvisados que guardam toda a sorte de restos dos desfiles carnavalescos do passado recente e distante? O que pensar daqueles esqueletos disformes, daquelas ruínas sem glória ou história?
Assistindo, pela televisão, os desfiles das Escolas de Samba de São Paulo e do Rio de Janeiro, somos lembrados, a todo momento, de um truísmo corrente que diz que ambos os eventos não podem ser comparados, visto que as agremiações cariocas estariam acima de qualquer comparação. Seriam hors-concours — ou seja, tão excelentes por suas qualidades que a simples emulação com algo vagamente parecido mostrar-se-ia impossível por natureza. Este é um fato que se demonstra com tranqüilidade diante do que foi dito e do que diremos.
Os carros alegóricos do carnaval carioca são, sem sombra de dúvida, monumentais. Já os de São Paulo, são, por assim dizer, “monumentosos”. Se um se dá ao direito de representar obras do Aleijadinho, de erguer uma réplica da igreja de Nossa Senhora de Paris (Notre Dame) e do Coliseu romano, com uma leveza exemplar, autenticamente belos na sua inequívoca aparência efêmera, passageira, os de cá parecem afundar em seu peso, atravancar o Sambódromo, buscar uma permanência no tempo que, para tal tipo de obra, torna-se exorbitante. Desmedida. Presunçosa. Como a arquitetura da capital dos paulistas. Tudo muito grande, tudo muito robusto, muito caro... e muito sem graça. E com pretensões à eternidade. Veja-se a longeva sobrevida que o que restou dos carros alegóricos têm nos galpões e terrenos improvisados. Veja-se o seu excessivo volume, sua ausência de graça, sua longa decomposição sem ao menos a aura de um certo fascínio de outrora.
É de se pensar se o mal-estar que sentimos à vista destes restos de festas passadas se deve à natural feiúra resultante de seu abandono. Creio, entretanto, que o sentimento se deve á sua própria composição. Não seríamos, todos nós, paulistanos e paulistas, pouco diferentes dos monstros da fábula? Será que aquilo que nos horroriza de tal maneira, assim o age menos por sua aparência, e mais por ser um retrato, se não de nós mesmos, daquilo que permitimos que fosse feito em São Paulo?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 24 de fevereiro de 2007].

Um automóvel incomoda muita gente...

A maioria dos leitores não imagina a quantidade de vezes em que, conquanto já termos uma crônica pronta, eis que surge um novo assunto, um novo tema, urgente e incontornável, que subverte nossos planos e lega à gaveta — ou melhor, a um arquivo de computador — nossa idéia inicial. Na semana passada, por exemplo, pretendíamos dar seguimento a uma análise esboçada anteriormente, a qual carecia de uma conclusão. Mas como silenciar diante de algo tão premente quanto o mais novo massacre norte-americano, ocorrido, ao menos naquela ocasião? Pois agir de outra maneira seria impossível, inviável e injusto para com os leitores. A crônica permite, é claro, a digressão sobre as mais variadas questões, mas é, antes de tudo, um testemunho, uma seqüência de notas quanto ao tempo em que vivemos. E não pode, nem deve, se afastar muito disso. Em suma, há prioridades no gênero, e as principais delas são, justamente, a relevância de certos fatos e a pontualidade dos mesmos. Em vista do exposto, os leitores compreenderão porque deixamos certas “séries” de crônicas aparentemente sem conclusão. Pois, parafraseando Camões, “Cesse tudo que a musa antiga canta/ Que outro valor mais alto se alevanta”.
O que nesta semana despertou uma viva atenção foi uma ótima reportagem publicada na revista Carta Capital — que é, sem sombra de dúvida, a melhor revista semanal do país em muitas décadas — tratando da relação que o mundo tem com o automóvel “nosso de cada dia”. É claro que muitos outros assuntos de relevância nacional também despertaram a revolta e a preocupação de muita gente. Como esquecer da revelação quanto às relações promíscuas mantidas por alguns “pais” do Plano Real com o mercado financeiro? Da prisão de desembargadores e outros homens públicos juntamente com notórios criminosos? Da comparação entre os minguados investimentos na Educação nacional e os inflados gastos com a propaganda do Governo Federal, dentre outras mazelas.? É verdade, há também o “apagão aéreo” que parece não ter fim. Mas até que ponto tal assunto não é uma mera medida diversionista para afastar nossas atenções e assuntos mais complexos, como os mencionados acima e que, ao que tudo indica, serão esquecidos brevemente?
Voltando ao tema principal, pensemos no automóvel, tema da matéria assinalada. Ainda que ele seja um meio lícito, prático e confortável de levar uma, ou mais pessoas, da maneira mais rápida, barata e aparentemente confortável, de um ponto a outro, resumir-se-ia ele a este aspecto tão prosaico? Sabemos que não. Pois ele é muito mais do que isto, e, sob muitos aspectos, pelas piores razões. Ele é tabu, totem e fetiche, como concordam os teólogos, psiquiatras, psicólogos, antropólogos, filósofos, historiadores — e até os publicitários, ainda que não confessem publicamente. Mais do que uma máquina, mais do que um meio de locomoção, ele vem se tornando um objeto de culto. E de flagrante exclusão social, principalmente nos países subdesenvolvidos, como o nosso.
Não pretendemos, aqui, propor qualquer desvario: a extinção dos automóveis é mais que absurda, é idiota. Embora os mesmos sejam um dos principais motivos para o aquecimento global e para os eternos conflitos que abalam o Oriente Médio e, por extensão, o mundo, sua utilidade é inquestionável. O que propomos, todavia, é a seguinte reflexão: até que ponto ele é insubstituível e, mais além, até que ponto não somos dominados por esta mera carcaça de ferro e borracha, alçada à condição de um deus?
Se admitimos como exemplares certas nações européias cuja noção de justiça social se sobrepõe ante as demais, e que abrem mão do transporte particular — automóveis — em prol do público, por que não nos inspirarmos neste exemplo? Vamos eternamente copiar o modelo americano? Mas como, se o comportamento de nossos proprietários de automóveis se assemelha aos daqueles das mais atrasadas nações africanas, dos mais exóticos países asiáticos, que julgam que a posse dos mesmos a eles conferem privilégios especiais?
Cidadania, civilização, é tomar o ônibus, o trem, o metrô. É olhar seu companheiro no transporte público como um igual, e não rosnar o motor diante de alguém que passa pela faixa de pedestres. Afinal, o conceito de República, que, em princípio, nos governa, pressupõe o mérito, a capacidade, o talento, como a únicas distinções possíveis entre uns e outros cidadãos e, ainda assim, relativas, porque todos somos iguais: o dono de um fusquinha tem os mesmos direitos sobre a rua que o dono de uma Ferrari, e ambos devem respeitar, sobretudo, o direito do pedestre. Negar isto, é querer retornar ao pior do Absolutismo, é pretender revogar os direitos mais essenciais, é intentar constituir a casta dos “motorizados”, com amplos poderes, de morte, inclusive, àqueles que não o são.
À guisa de conclusão, quero deixar bem claro alguns pontos. Tenho automóvel e dirijo. Nunca fui multado, nunca bati nem risquei automóvel algum, nem sequer o meu. Respeito a legislação de trânsito como respeito à todas as demais, com rigor e constância, porque não existe civilização que viva ao arrepio da lei, nem pode chamar-se de cidadão quem a infrinja: não sou, nem nunca fui, portanto, contraventor, criminoso, bárbaro ou selvagem, e, de tal modo, isento às leis. E troco “os confortos” de meu automóvel pelo transporte público sempre que tal possibilidade se me apresenta. Que são precários, é verdade, que nos desrespeitam e que poluem quase tanto quanto nossos automóveis, idem, mas que ainda são um dos poucos espaços de convivência pública neste país e de exercício da cidadania: só quem não os conhece pode ignorar este aspecto verdadeiramente igualitário, quanto ao pior e quanto ao melhor, que ele pode proporcionar.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 28 de abril de 2007].

Forma e conteúdo

Assisti, de Maringá, onde participava de um simpósio, à chegada do Papa Bento XVI a São Paulo. Durante a transmissão televisa do episódio – extremamente aborrecida, aliás, repleta de toda uma série de comentários e pormenores irrelevantes, pois, afinal, o que importa é o que o Sumo Pontífice diz, e não coisas como o instante em que ele saiu do avião, o momento em que desceu a escada de desembarque e outras do gênero – eis que um amigo perguntou-me porque Sua Santidade iniciou sua visita ao Brasil pela capital paulista e, não, por Brasília. Minha primeira vontade foi dizer que o líder dos católicos é de tal maneira independente que principia sua visita a um país por onde ele bem entende. Mas, como Bento XVI é também um chefe de Estado, admito como presumível a pergunta: por que não, em primeiro lugar, Brasília? É verdade que o presidente norte-americano, que cá recentemente esteve não cumpriu, digamos, tal “protocolo”, só que a arrogância e a presunção dos líderes daquele país são bem conhecidas... Portanto, o que podemos concluir é que o Papa decidiu-se por São Paulo como a primeira parada por outros e mais claros motivos: a cidade é antiga, foi fundada por religiosos e concentra uma proporção de fiéis sem par na América Latina, ou seja, por razões que vem ao encontro de sua visão política e teológica.
Mas a pergunta – por que não Brasília? – continuou a ocupar meus pensamentos, ainda que por outras questões. E a principal delas é que não consigo enxergar qualquer relação entre a capital federal e a religião. Não quero dizer com isso que vejo aquela cidade apenas e tão somente como a sede do governo e ponto final. Há todo um caráter simbólico nela impregnado, para o melhor e para o pior. E as referências religiosas ali são muitas e marcantes. Pensemos na Catedral de Brasília, uma construção verdadeiramente impressionante e inserida no coração da cidade. Pensemos na profecia de D. Bosco, segundo a qual o planalto central brasileiro seria o berço de uma nova civilização. Pensemos ainda na quantidade de mosteiros, conventos, seminários e até mesmo seitas exóticas que por lá abundam. E não podemos nos esquecer que se a planta do plano piloto lembra, para muita gente, um avião, para muitos ela e um xis e, por extensão, uma cruz.
O curioso é que, mesmo diante de tantos motivos, a associação entre Brasília e a religião, para mim, e para muita gente, é extremamente complicada de ser feita, se não impossível. Porque por mais monumental que seja sua Catedral, por exemplo, ela não possui nada de familiar, ela não se parece com nada daquilo em que costumamos pensar quando ouvimos a palavra “catedral”. Mas é verdade, também, que a própria Brasília não se parece com cidade nenhuma conhecida no mundo.
Daí é de se pensar se as religiões, ou melhor, as nossas relações com elas, não dependem muito mais de outros símbolos, que não os necessariamente místicos, do que supomos ou gostaríamos de acreditar. Em suma, temos de fato idéias pré-concebidas, por exemplo, do que seja uma igreja: o aspecto que deve ter o prédio, sua decoração, etc., que pode variar bastante, é verdade, mas que, em geral, permanecem ligados a alguns poucos conceitos que nos sejam familiares. Ou seja, não basta construir um prédio com aspecto de, digamos, supermercado, espetar no alto dele uma cruz e chamá-lo de “igreja”: dificilmente o veremos como tal. A familiaridade com certas formas, portanto, pode influir drasticamente até mesmo em instâncias que julgamos superiores: forma e conteúdo dependem, sim, e muito, um do outro.
Creio que o fato de estar em Maringá, quando cheguei a esta conclusão, tenha exercido certa influência. Pois a cidade é muito bonita e, ao mesmo tempo, muito estranha. É um exemplo quanto à arborização, quanto ao planejamento urbano, quanto à valorização do espaço público, etc. Mas, ao mesmo tempo, é uma cidade que parece ter prescindido completamente de seu passado. É verdade que ela é novíssima – 60 anos completados dia 10 de maio – mas mesmo este pouco parece que lhe foi subtraído. E o resultado é muito confuso. Andamos por uma rua, por exemplo, e topamos com uma bela fileira de árvores de cinqüenta anos de idade. Assim, era de se esperar que as construções próximas a ela datassem da mesma época, pouco mais ou pouco menos. Mas não. Tudo é novo. Tudo é novíssimo em toda a cidade. Logo, nada é familiar. Trata-se de uma cidade grande que na verdade se parece mesmo é com um imenso bairro. E a todo momento me via procurando o seu centro histórico sem encontrá-lo.
Concluindo, assim como não vejo ligação entre Brasília e religião, acho que falta o sentido de cidade em Maringá. Pois, em ambos os casos, suas formas não comungam com o sentido, com o conteúdo que pretendem ter.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 12 de maio de 2007].

As Novas Sete Maravilhas...

Tratamos, na semana passada, daquelas listas e votações inúteis — salvo para uma minoria — feitas sob medida para um público pouco exigente que imagina que, com seu voto, participará de alguma coisa grande, de algo importante, que sua opinião é a coisa maior que existe — quando, na verdade, não é: se o fosse, os nomes para as listas surgiriam de forma espontânea, e não provocada pelo marketing, revistas, sites, etc. E a mais nova bobagem do gênero é esta eleição das Sete Maravilhas do Mundo Moderno. Substituindo as sete maravilhas da Antigüidade (as Pirâmides de Gizé, os Jardins Suspensos da Babilônia, o templo de Ártemis, em Éfeso, o Mausoléu de Halicarnasso, o Colosso de Rodes, a estátua de Zeus, em Olímpia, e o Farol de Alexandria), querem exaltar outras sete, de uma lista de vinte e uma. São elas: a Acrópole de Atenas, na Grécia; o misto de cidade e palácio do Alhambra, em Granada, Espanha; a cidade-templo de Angkor Vat, no Camboja; a basílica de Santa Sofia, em Istambul, Turquia; o castelo de Neuschwanstein, em Füssen, Alemanha; as ruínas de Chichén Itzá, no México; o Coliseu de Roma, Itália; o Cristo Redentor, do Rio de Janeiro; a Estátua da Liberdade, em Nova Iorque, Estados Unidos; as estátuas da Ilha de Páscoa, no Chile; a Grande Muralha da China; o Kremlin de Moscou, Rússia; as ruínas de Machu Picchu, no Peru; o teatro de ópera de Sydney, na Austrália; as ruínas de Petra, na Jordânia; as Pirâmides de Gizé, no Egito; o círculo de pedras de Stonehenge, na Inglaterra, o palácio-túmulo do Taj Mahal, em Agra, Índia; o templo Kiyomizu-dera, em Quioto, Japão; a cidade de Tombuctu, no Mali; e a Torre Eiffel em Paris, França.
Os motivos alegados para tal empreita são os mais variados e, todavia, pouco convincentes. Vá lá que os organizadores afirmem que o dinheiro arrecadado pela campanha seja revertido para sítios arquitetônicos ameaçados pela degradação do tempo, pelo descaso das autoridades ou pelo vandalismo. Mas quais seriam eles? Até agora, não ouvi uma só palavra. A coisa toda parece, mesmo, um grande golpe de propaganda, cuja finalidade é valorizar certos destinos turísticos, e render alguns cobres aos organizadores. É uma coisa a se pensar, aliás, como a Unesco — aquele braço da ONU que trata do patrimônio histórico e cultural — foi seduzida pelo projeto...
A própria concepção que o norteia, diga-se, é muito boba. Tal tipo de lista tinha sentido na Antigüidade, quando o conhecimento era, muitas vezes, submetido a rígidos esquemas de memorização, que incentivavam a reunião de informações em grupos fechados e excludentes, enfeixados por números “mágicos” — as três graças, os quatro elementos e os quatro temperamentos, as sete artes, as nove musas, os doze signos do zodíaco e por aí afora, tudo forçado a se relacionar entre si e explicar um ao outro. Que se fizesse tal coisa nos tempos de Antípatro de Sídon e Fílon de Bizâncio, autores das primeiras listas, compreende-se. Que se repita o mesmo procedimento, hoje, quando nada parece se relacionar com nada — porque, desde o Iluminismo do século XVIII, ninguém mais necessita de uma síntese suprema, completa, sobre tudo e todos —, creio que não passa de pura tolice. Ou má-fé dessa gente de propaganda, que cria necessidades que não existem, e tenta passar por reportagem o que é simples anúncio.
Quanto à sucessão de equívocos nesta história toda, ela é impressionante. Os leitores duvidam? Pois vejamos. A locução Sete Maravilhas do Mundo Moderno pressupõe, na opinião de qualquer pessoa mais atenta, que se refere a novas maravilhas a serem louvadas. Ou seja, monumentos erigidos posteriormente àqueles da Antigüidade clássica, posteriores aos que faziam parte das primeiras “listas”. Então, pergunta-se, por que incluir entre os “novos” as pirâmides de Gizé, que, aliás, já faziam parte das “velhas” maravilhas? Por que o círculo de Stonehenge, na Inglaterra, tão antigo, se não mais, que as próprias pirâmides? E a acrópole de Atenas? Que é belíssima, não resta dúvida. Mas ela já existia quando da primeira seleção e, curiosamente, não foi inclusa nela. É mais velha que o Mausoléu de Halicarnasso, que o Colosso de Rodes e o farol de Alexandria, tão antiga quanto a estátua de Zeus, em Olímpia, e só um pouco mais nova que o templo de Ártemis, em Éfeso; em suma, contemporânea de cinco das sete maravilhas “antigas”.
Poderíamos gastar muita tinta sobre outras impropriedades quanto à escolha, discutindo as razões que levaram à inclusão deste ou daquele monumento e à exclusão de outros. Pensei mesmo em fazer minha lista pessoal das novas maravilhas, que incluiria construções que admiro e que não foram contempladas (como o santuário de Bom Jesus do Monte, em Braga, Portugal), ao lado de algumas retificações (o Fórum romano como um todo, e não só o Coliseu) e até outras de que particularmente não gosto, mas que são muito mais grandiosas do que algumas das relacionadas (o Plano-piloto de Brasília, o estádio do Maracanã, a hidrelétrica de Itaipu — com a vantagem, ainda, de serem brasileiras).
A questão, no fundo, é que tudo isto não passa de uma grande bobagem. E, o que é pior, nem um certo cuidado com as referências históricas está sendo tomado. Veja-se o caso do Cristo Redentor, o “representante brasileiro”. Inúmeros sites, inclusive um da Câmara dos Deputados, dão como autores do monumento o brasileiro Heitor da Silva Costa (1873-1945) e o escultor francês Paul Landowski (1875-1961), omitindo quem verdadeiramente desenhou o projeto da estátua, o artista brasileiro Carlos Oswald (1882-1971), um dos maiores nomes da gravura nacional. Este é nosso candidato, esses são seus cabos-eleitorais, e a quanto à qualidade da disputa... não digo mais nada...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 16 de junho de 2007].

A Nova face de São Paulo

Numa viagem recente a São Paulo, passei de carro por uma das regiões mais degradas da cidade. Sei que parece exagero dizer “viagem a São Paulo” quando, hoje, a capital está logo ali. É por força do hábito. Como, também, chamar algum sítio da metrópole paulistana de um dos lugares “mais degradados”. Pois, na verdade, toda ela inspira urgentes cuidados em razão do hábito, desta vez, verdadeiramente pernicioso, de adiarem-se os consertos em prol de novas e discutíveis obras. Aquele festival, bem conhecido, de rasgar avenidas caras e imensas enquanto as ruas que a elas dão acesso colecionam buracos, calçadas arrasadas, etc. E em sistema de rodízio: ora atua-se num bairro para agradar o vereador tal, ora noutro, para a felicidade das empreiteiras e dos especuladores, e por aí vai, sempre desnudando um santo para vestir outro e resultando em dois pobre coitados seminus e mal-ajambrados.
Veja-se o triste caso da Avenida Paulista, por exemplo. Há não muito tempo, ela era considerada um dos principais cartões-postais, senão o cartão-postal, da cidade. Hoje, há trechos irreconhecíveis. As calçadas parecem se desfazer ante aos nossos olhos, com poças d’água — fétida e preta — formadas por chuvas das quais ninguém mais se lembra. E ainda assim, encontram-se elas tomadas por camelôs vendendo os produtos mais ordinários. Não, mais que isto, reles, porque até neste tipo de comércio há uma hierarquia, cujo topo é ocupado pelos vendedores de artigos eletrônicos e roupas e acessórios pirateados de grifes, e que tem na base aqueles que vendem incenso, CDs e DVDs piratas, horrendas flores artificiais: são estes últimos os que ocuparam a avenida. Não bastasse isto, surgiram, nos últimos tempos, vários chineses preparando e vendendo comida em barracas cuja ausência de higiene é flagrante. E, para arrematar este quadro infeliz, instalaram-se algumas lojas, em certos trechos, cuja qualidade dos artigos, aspecto do estabelecimento, etc., mais parecem pertencer à Avenida São João: a qual hoje é símbolo de degradação e que outrora foi cartão-postal da cidade. Curioso, não? E o quê está em vias de ser eleito o novo cartão-postal da cidade? A fria e nova-rica Avenida Engenheiro Luís Carlos Berrini, monumento ao concreto, ao aço e às janelas espelhadas, com favelas nos seus calcanhares e um bafio pestilento, eterno, vindo do Rio Pinheiros e dum córrego fronteiriço. Formidável...
A lista de abusos e absurdos ocorridos em São Paulo é imensa, e se me dedicasse a eles não escreveria outra coisa neste espaço certamente por um período menor do que um ano. Assim, vamos ao pouco que se tem feito de bom pela cidade. É incrível, mas isto existe. E deve-se em grande parte a um político pelo qual não tenho a menor simpatia, bem como ao partido a que pertence. O que só vem a provar a minha isenção quanto ao assunto. Trata-se, pois, do prefeito paulistano, o Sr. Gilberto Kassab, e à sua ótima idéia, e pulso, em implantar o projeto “Cidade Limpa”.
Acredito que todos se recordam do episódio ocorrido há alguns meses, num posto de saúde, envolvendo o prefeito em questão e um homem, fabricante de faixas e cartazes, que se sentiu prejudicado pela nova lei. Naquela ocasião, a prepotência e arrogância do alcaide paulistano incomodaram até seus aliados, arranhando, incontestavelmente, sua reputação. A marca ficou, mas os resultados daquele projeto agora já são visíveis, e evidentes são os ganhos que a cidade teve graças a ele.
Em primeiro lugar, São Paulo parece mais leve, mais limpa, mais clara. Cidade desprovida de encantos naturais, devendo sua “beleza” às obras arquitetônicas, eis que estas agora se revelam, com a retirada daqueles colossais cartazes, dos gigantescos outdoors, das onipresentes faixas, dos anúncios imensos recobrindo as fachadas. E graças a esta nova nudez do corpo da cidade, revelando suas belas curvas, como também suas cicatrizes, podemos ver o que se deve corrigir, o que se deve preservar. Consegui ver, pela primeira vez, que, por detrás de gigantescos anúncios, encontravam-se construções que, se situadas em cidades menores, já se encontrariam preservadas, exaltadas, tombadas, tornadas museus municipais, casas de cultura... Passei por grupos de casas e prédios, retirado do manto de cartazes que o cobriam, que mereciam ser incluídos no roteiro turístico da cidade, dada a diversidade de estilos históricos neles encarnados. Tomando só um exemplo: vi conjuntos de construções art-déco — aquele estilo arquitetônico de meados dos anos 1920-30, moderno, geométrico — dos melhores que existem. Muitos basbaques louvam o Art-Deco District, de Miami Beach, Flórida, EUA, localizado na Ocean Drive. Comparar o que vi em São Paulo, com o que se encontra naquela cidade americana, seria o mesmo que comparar uma daquelas praias de águas cristalinas do nosso Nordeste à praia de Peruíbe em dia de chuva...
Que a iniciativa do prefeito Kassab conquiste adeptos em todo o território nacional. Livremos nossos prédios daquelas horrendas máscaras. Só assim poderemos reconhecer o belo, e atacar, efetivamente, o feio.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 30 de junho de 2007].

Modernizar a marretadas

O grande escritor paulista Monteiro Lobato cunhou, em fins do século XIX, a expressão “cidades mortas” para uma série de localidades vizinhas à sua Taubaté, que viviam da cultura do café havia quase uma centena de anos, e pelo fato do solo se esgotar, enfrentaram uma profunda, uma absoluta decadência. Em Minas Gerais, cidades como Ouro Preto, Tiradentes e Diamantina, mereceriam, durante muito tempo, a mesma designação: sem ouro nem diamantes, foi a pobreza que conservou seus aspectos tão característicos, que inibiu transformações radicais em sua paisagem urbana. O mesmo pode ser dito de Paraty e de Vassouras, no Rio de Janeiro; de Goiás, ou “Goiás velho”, como chamam os turistas, para horror de seus moradores; de boa parte de Olinda, em Pernambuco; de São Cristóvão, em Sergipe; de Alcântara, no Maranhão; de Penedo e Marechal Deodoro, em Alagoas; e de muitos outros lugares. Cidades vítimas da estagnação econômica e que se conservaram quase tal como eram, porque não puderam crescer.
Algumas delas, todavia, descobriram novas vocações, sequer sonhadas em anos remotos, naqueles dias em que foram dadas como “mortas”. O Vale do Paraíba é um pólo tecnológico e industrial de destaque; Olinda, ainda que incorporada ao “Grande Recife”, é um importante núcleo prestador de serviços; Ouro Preto e Diamantina abrigam grandes mineradoras; Alcântara abriga uma base de lançamento de foguetes espaciais. Todavia, uma, às vezes duas, semelhanças, todas estas cidades compartilham: muitas comportam célebres centros universitários: mas todas, absolutamente todas, inscrevem-se entre os principais destinos turísticos do país. E por quê? Porque conservaram muito, mas muito mesmo, de sua arquitetura.
O turismo, sob muitos aspectos, é uma indústria, como as tradicionais. Emprega muita gente, direta e indiretamente, cria uma malha de relações econômicas que envolve outras tantas, instiga a produção de bens de consumo que a ele se vinculam, ao mesmo tempo em que oferece um produto, que se não é único, tem o seu diferencial, a sua especificidade. Mas para que uma cidade seja um destino turístico, e, portanto, faça receita, promova empregos, faça o dinheiro circular, ela, necessariamente, deve ter alguma coisa para mostrar. E, portanto, é preciso preservar. Ou criar um novo que seja radicalmente diferente, não um pastiche. Como isto é difícil, preservar é sempre a melhor opção. No mínimo, porque “já está lá”. Pois é sobejamente conhecido que onde a indústria, o comércio, a lavoura, ou todos eles, entram em decadência, muito do que era considerado “velho”, “ultrapassado”, por um lado, ou “mato à toa”, “morro imprestável”, “rio fedido”, por outro, revelaram-se, em muitos casos, a salvação econômica de várias cidades.
É por isso que assistimos, com tristeza, o que está sendo feito em duas cidades nossas vizinhas: Araras e Pirassununga, ambas de longa história e história de proeminência na região, e que contam com alguns belos prédios que poderíamos mesmo chamar de monumentos. Mas não falo deles, que lá permanecem e permanecerão. Falo de todo um conjunto arquitetônico construído entre meados do século XIX e a primeira metade do XX, composto de casas mais ou menos suntuosos — isto não importa — e que revelam muito do modo de vida de todo aquele período. Além de serem belas, evidentemente. Vê-se com freqüência, nos últimos anos, muitas delas serem impiedosamente postas abaixo, ou, o quê dá quase no mesmo, reformadas de uma tal maneira que perdem todas as suas características. Algumas conservam uma coluna aqui, uma porta acolá, mas os janelões são substituídas por janelas de ferro, as varandas são fechadas, os jardins são arrasados para a construção de estacionamentos. Tudo muito triste. È verdade que não possuem a “solenidade” de um casarão do século XVII ou XVIII, como os de Salvador, por exemplo. Mas tão somente porque são ainda “jovens”. Vamos deixar com que elas envelheçam, com seus leões nos portões e suas mangueiras nos quintais.
Modernizar a golpes de marreta teve lá seu sentido nos tempos do Barão Haussmann, que remodelou Paris lá pelos anos 1860. E até para o Rio de Janeiro do começo do século, com o prefeito Pereira Passos e o seu “bota abaixo”. Mas, de lá para cá, a consciência mudou. Pena que as práticas não. Precisamos abrir os olhos. Salvar o que ainda se tem, já que ninguém sabe o que o amanhã nos revela. E lembrar que, afinal, quem não tem passado, dificilmente terá futuro.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 1º de setembro de 2007].

Para além da Portelinha...

No final da semana passada, os grandes jornais paulistas noticiaram com estardalhaço que muitas cidades do litoral de São Paulo e estâncias climáticas do interior do Estado vêem, com temor, o crescimento de favelas em suas periferias. As matérias, que tratavam do tema como se ele fosse uma grande surpresa, tal como escritas, pareciam dizer algo assim: “Vejam só como, até aqui, em meio ao luxo, existem favelados”. Todavia, se espanto há, ele vem, na verdade, não da constatação de um fato conhecido por todos, e sim de que existem pessoas que ainda crêem que uma cidade, qualquer cidade, esteja livre desse fenômeno. Tal “dúvida” é um absurdo. Pois se automóveis, casas e mesmo bairros podem até ser “blindados”, parcialmente afastados da realidade e dos problemas locais, as cidades, por sua vez, jamais o serão. Afinal, não existe cidade sem permeabilidade, sem contato entre todos e cada um: são microcosmos, não shopping centers.
E a favela? Como entra neste esquema? A primeira coisa a se perguntar é a seguinte: afinal de contas, a favela é resultado apenas da pobreza? Não seria ela, de fato, resultado da ausência do poder público combinada com a concentração de riqueza? Pensemos com calma. E levantemos ainda uma outra questão: o que é uma favela? Para sua resposta, o conhecimento de nossa história ajuda bastante, sobretudo se pegarmos o exemplo clássico, “modelar”, que são as favelas do Rio de Janeiro.
A ocupação de muitos morros, mangues e brejos, da capital fluminense por moradias precárias é um fato que ocorria já nos tempos da Colônia, quando aquelas regiões remotas e de difícil acesso permitiam a vida em liberdade de muitos escravos que fugiram de seus amos — a nossa cidade de Santos também passou por isto. Estes verdadeiros quilombos encravados na cidade — ora combatidos, ora deixados de lado — existiram até fins do Império. Esta, por assim dizer, seria a “pré-história” das favelas.
Com a Guerra do Paraguai (1864-1870), àquelas populações se somaram muitos ex-combatentes, trazidos a então capital imperial e que não puderam, ou não quiseram, retornar às suas províncias. Já com a República, o mesmo se deu com os soldados desmobilizados da Guerra de Canudos (1893-1897), estabelecidos naquele que era até então chamado de morro da Providência. Por seus barracos lembrarem as condições do acampamento em que viveram, no morro da Favela, próximo ao famoso arraial de Canudos, a comunidade ganhou tal apelido e, a partir, daí, passou a ser aplicado a todas as outras semelhantes. O morro baiano tinha tal nome em razão da abundância de uns arbustos que existiam ali, cujos frutos eram pequenas favas e, portanto, favelas. O que se nota, em ambos os casos, de semelhanças tão claras, e que são produtos, por um lado, da omissão do poder público (em não recambiar as tropas desmobilizadas ao seus locais de origem e em permitir aquela ocupação desordenada) e, por outro, da concentração econômica do período praticamente numa única cidade (quem voltaria para suas cidades miseráveis, sem empregos ou atrativos, depois de conhecer um lugar de abundância e possibilidades?).
De 1904 a 1922, o Rio de Janeiro decide “modernizar-se”, destruindo tudo, ou quase, que lembrasse os tempos da Colônia e do Império, rasgando novas avenidas, construindo luxuosos prédios públicos, arrasando milhares de moradias populares, sem indenizar os proprietários nem dar um destino aos “despejados”. Resultado: mais gente sem teto nos morros, acompanhados dos migrantes que vieram para trabalhar nas obras.
A partir de então o mesmo ocorreria noutros lugares. Com a industrialização, com o surgimento de uma classe-média urbana, a qual instigará o crescimento do mercado imobiliário, mais e mais pessoas deixam miseráveis e enfadonhos locais de origem em busca de novas oportunidades. O que, em grande medida, acontece até hoje. Se a renda se concentra em determinados lugares, é para lá que as pessoas vão, pois não há sentido em permanecer onde não há alternativas. Fato muito bem compreendido no passado, daí as migrações de milênios atrás, daí os impérios e as invasões bárbaras, a expansão européia da qual nosso país é o resultado — como muitos outros —, daí as levas de imigrantes que aportaram na América nos séculos XIX e XX, bem como os nossos emigrantes de hoje, nos Estados Unidos da América e na Europa.
O favelado, portanto, não tem culpa de onde vive. Instala-se ali porque o Estado e a sociedade não lhe deram lugar melhor, ou porque estes não quiseram, ou porque tenham interesse nisto — por motivos que vão desde o simples descaso do Poder Público à criação de “currais eleitorais”, da especulação imobiliária à falta de pressão dos “bem-pensantes” quanto a uma política de habitação popular, em suma, por toda uma série de causas que incluem, até mesmo, o preconceito. Sim, preconceito: avenidas e viadutos são os sonhos dos “nativos”, casas populares para os que vêm de outras partes, “é dinheiro jogado fora, para uma gentinha que nem dá valor, que só sabe pedir”. Quem nunca ouviu algo assim?
Seria bom que o Estado e boa parte da sociedade — que lucram com a abundância de mão-de-obra barata que os favelados têm para oferecer — ao invés de se queixarem deles, fizessem novas propostas, assumissem o ônus social do bônus econômico que recebem. Mas será que isto é possível, num país onde os cidadãos negros morrem mais como vítimas da violência do que de doenças, estas, “privilégio” dos brancos? Vivemos numa terra onde uma menina de quinze anos foi encerrada numa cela, com vinte homens, durante quase um mês, sofrendo toda sorte de abusos — a idade é só um agravante, fosse ela a mais decadente e devassa das mulheres, não mereceria o mesmo destino, conforme reza a lei e a consciência dos homens honrados. Vivemos numa pátria onde a Justiça soltou um homem que fez de refém uma sua ex-namorada, e que permitiu que ele refizesse o feito, desta vez causando, por fim, a morte de ambos. O quê esperar de um “torrão natal” assim e da gente que nele habita?
Não há como causar assombro, portanto, o surgimento de favelas no litoral “caro” e no interior “exclusivo”. Afinal, onde poderão morar os servidores das vivendas dos ricos? A Portelinha, não esqueçamos, é mera ficção. A realidade das favelas é, de fato, a realidade de cada dia. Gostemos dela ou não.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 24 de novembro de 2007].

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Uma proposta modesta

Passando, recentemente, por Sorocaba, notei alguns aspectos curiosos ali revelados no que diz respeito ao paisagismo e ao respeito à natureza. Para quem não conhece a cidade, digo que ela é atravessada por um rio – o Sorocaba – que não é muito largo, mas é bem caudaloso. Uma de suas margens encontra-se plenamente urbanizada, com uma ciclovia, uma avenida e construções sem grande interesse. A outra teve sua flora nativa preservada e, por conta disso, muitos animais são para ali atraídos. E não só garças – que estas vivem até mesmo no esgoto. Avistei também mergulhões e, mais raros, paturis e jabutis. Tudo isto em pleno centro da cidade. E o mais interessante: vêem-se, às suas margens, inúmeros pescadores, dedicando-se a uma boa forma de lazer e, repito, isto em pleno centro da cidade. Além do mais, pelo que tudo indica, a pesca deve ser boa naquele rio, tal a quantidade dos amantes do esporte ali encontrada.
Em Londrina, graças ao complexo de lagos do Igapó, cujas margens têm boa parte da vegetação preservada, bem como, percebe-se, um belo paisagismo em seu entorno, observa-se algo parecido. Se, por um lado, a fauna não é tão rica quanto à de Sorocaba, ela está longe de ser medíocre. Se a arborização, em certos trechos, parece mais planejada do que conservada, a mesma é, ainda assim, abundante e agradável à vista. Da mesma maneira, percebe-se um certo empenho por parte da prefeitura – ou melhor, de muitas administrações, ao longo do tempo – em não permitir a instalação, nas suas margens, de fábricas, depósitos, comércio de atacado e demais atividades notórias por sua feia arquitetura. Em suma, criou-se um ambiente belo aos olhos, sombreado, saudável, que atrai pescadores, casais enamorados, praticantes de caminhadas e outras atividades esportivas.
Americana, por outro lado, tem as condições ideais de criar algo do gênero, mas não cria. Cortada pelo rio Quilombo, bem sombreado, diga-se, poderia em suas margens criar um belo parque, um complexo de lazer, mas insiste em manter aquele curso d’água como uma fossa a céu aberto, fedorenta, imunda, em cujas margens só encontram guarida gente marginalizada e capivaras infestadas de carrapatos. E em pleno coração da cidade.
Ouro Preto tem o córrego dos Contos. Estreito, tranqüilo, com trechos esquecidos no meio de um mato que ali se encontra somente porque o terreno era íngreme demais para a construção do que quer que fosse. Quando seu entorno mostra-se mais plano, é cercado, de ambos os lados, por construções. Entrou para a história pelo ouro encontrado em suas margens. No início do século XIX, foi planejado, sem todavia sair do papel, o primeiro Horto Botânico do Estado do Brasil, que ali seria estabelecido – antes mesmo do Jardim Botânico do Rio de Janeiro – este é de 1808, o ouropretano, de 1801. E, mais tarde, tiveram aquelas margens certo renome porque ali se plantou chá, em larga escala. Até que ele se tornou num simples esgoto ao ar livre, e pior, o esgoto não só de muitas moradias, como também da Santa Casa de Misericórdia. Ou seja, mais um foco de doenças do que um riacho. Mas até mesmo em Ouro Preto, onde para se mudar alguma coisa são necessárias décadas, quando não séculos, inverteu-se a situação, salvando-se o córrego dos Contos. Hoje, suas margens tornaram-se um parque, com alamedas, quadras de esporte, quiosques, bancos, iluminação. O esgoto foi, em sua maioria, banido. Tornou-se, enfim, um lugar aprazível para moradores e turistas.
Quero dizer, com tudo isto, que é uma vergonha o que muitas cidades fizeram, e ainda fazem, com o seu patrimônio ambiental. Não sou nenhum ecologista radical, pelo contrário, mas convenhamos, um ambiente limpo, saudável e bonito não é somente bom para a Natureza: é bom para os cidadãos, para o turismo, para o comércio, para os esportes, para a auto-estima da cidade. Um amigo de Presidente Prudente contou do que aconteceu por lá depois que se limpou um rio que cruza a cidade e se urbanizaram suas margens. O local virou um ponto de atração para gente de toda parte, de lazer para seus moradores, e de orgulho para seus habitantes. Disse-me ele que atualmente, quando chega alguém de fora, o primeiro local apresentado, com satisfação, pelos moradores, é justamente as margens daquele rio, arborizadas, onde se abriga o Parque do Trabalhador, há praças, aparelhos de ginástica, pistas de corrida, brinquedos infantis e águas limpas. É, portanto, uma vergonha que cidades grandes como São Paulo, Campinas, Belo Horizonte, para ficar entre algumas que conheço bem, não façam a mesma coisa. Uma vergonha não ouvir as mudanças ocorridas em tantas cidades médias e pequenas. Como também é vergonhoso que tantas, dentre estas, não sigam os modelos apresentados por suas irmãs.
No caso de Leme, acho que algo de bom poderia ser feito neste sentido. Não falo do Serelepe, paralelo à Avenida Carlo Bonfanti. Creio que o melhor que se possa fazer por ele é canalizá-lo, limpá-lo (para que não vire um imenso criadouro de ratos e outras pragas) e, sobre ele, alargar-se a avenida, dotá-la de um canteiro central arborizado. Já no que diz respeito ao córrego Constantino, algo mais pode ser feito. Por que não, depois de impedir a emissão de poluentes em suas águas, encher suas margens de árvores – irrigadas, não deixadas ao deus-dará, valendo-se dos recursos despendidos para aquela bizarra decoração natalina de outros tempos? Por que não construir espaços de lazer, belos, agradáveis, um motivo de orgulho para toda a cidade e região? É uma proposta modesta. Mas, acredito, muito boa. Algo a se pensar. Não acham?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 18 de outubro de 2008].