Passando, recentemente, por Sorocaba, notei alguns aspectos curiosos ali revelados no que diz respeito ao paisagismo e ao respeito à natureza. Para quem não conhece a cidade, digo que ela é atravessada por um rio – o Sorocaba – que não é muito largo, mas é bem caudaloso. Uma de suas margens encontra-se plenamente urbanizada, com uma ciclovia, uma avenida e construções sem grande interesse. A outra teve sua flora nativa preservada e, por conta disso, muitos animais são para ali atraídos. E não só garças – que estas vivem até mesmo no esgoto. Avistei também mergulhões e, mais raros, paturis e jabutis. Tudo isto em pleno centro da cidade. E o mais interessante: vêem-se, às suas margens, inúmeros pescadores, dedicando-se a uma boa forma de lazer e, repito, isto em pleno centro da cidade. Além do mais, pelo que tudo indica, a pesca deve ser boa naquele rio, tal a quantidade dos amantes do esporte ali encontrada.
Em Londrina, graças ao complexo de lagos do Igapó, cujas margens têm boa parte da vegetação preservada, bem como, percebe-se, um belo paisagismo em seu entorno, observa-se algo parecido. Se, por um lado, a fauna não é tão rica quanto à de Sorocaba, ela está longe de ser medíocre. Se a arborização, em certos trechos, parece mais planejada do que conservada, a mesma é, ainda assim, abundante e agradável à vista. Da mesma maneira, percebe-se um certo empenho por parte da prefeitura – ou melhor, de muitas administrações, ao longo do tempo – em não permitir a instalação, nas suas margens, de fábricas, depósitos, comércio de atacado e demais atividades notórias por sua feia arquitetura. Em suma, criou-se um ambiente belo aos olhos, sombreado, saudável, que atrai pescadores, casais enamorados, praticantes de caminhadas e outras atividades esportivas.
Americana, por outro lado, tem as condições ideais de criar algo do gênero, mas não cria. Cortada pelo rio Quilombo, bem sombreado, diga-se, poderia em suas margens criar um belo parque, um complexo de lazer, mas insiste em manter aquele curso d’água como uma fossa a céu aberto, fedorenta, imunda, em cujas margens só encontram guarida gente marginalizada e capivaras infestadas de carrapatos. E em pleno coração da cidade.
Ouro Preto tem o córrego dos Contos. Estreito, tranqüilo, com trechos esquecidos no meio de um mato que ali se encontra somente porque o terreno era íngreme demais para a construção do que quer que fosse. Quando seu entorno mostra-se mais plano, é cercado, de ambos os lados, por construções. Entrou para a história pelo ouro encontrado em suas margens. No início do século XIX, foi planejado, sem todavia sair do papel, o primeiro Horto Botânico do Estado do Brasil, que ali seria estabelecido – antes mesmo do Jardim Botânico do Rio de Janeiro – este é de 1808, o ouropretano, de 1801. E, mais tarde, tiveram aquelas margens certo renome porque ali se plantou chá, em larga escala. Até que ele se tornou num simples esgoto ao ar livre, e pior, o esgoto não só de muitas moradias, como também da Santa Casa de Misericórdia. Ou seja, mais um foco de doenças do que um riacho. Mas até mesmo em Ouro Preto, onde para se mudar alguma coisa são necessárias décadas, quando não séculos, inverteu-se a situação, salvando-se o córrego dos Contos. Hoje, suas margens tornaram-se um parque, com alamedas, quadras de esporte, quiosques, bancos, iluminação. O esgoto foi, em sua maioria, banido. Tornou-se, enfim, um lugar aprazível para moradores e turistas.
Quero dizer, com tudo isto, que é uma vergonha o que muitas cidades fizeram, e ainda fazem, com o seu patrimônio ambiental. Não sou nenhum ecologista radical, pelo contrário, mas convenhamos, um ambiente limpo, saudável e bonito não é somente bom para a Natureza: é bom para os cidadãos, para o turismo, para o comércio, para os esportes, para a auto-estima da cidade. Um amigo de Presidente Prudente contou do que aconteceu por lá depois que se limpou um rio que cruza a cidade e se urbanizaram suas margens. O local virou um ponto de atração para gente de toda parte, de lazer para seus moradores, e de orgulho para seus habitantes. Disse-me ele que atualmente, quando chega alguém de fora, o primeiro local apresentado, com satisfação, pelos moradores, é justamente as margens daquele rio, arborizadas, onde se abriga o Parque do Trabalhador, há praças, aparelhos de ginástica, pistas de corrida, brinquedos infantis e águas limpas. É, portanto, uma vergonha que cidades grandes como São Paulo, Campinas, Belo Horizonte, para ficar entre algumas que conheço bem, não façam a mesma coisa. Uma vergonha não ouvir as mudanças ocorridas em tantas cidades médias e pequenas. Como também é vergonhoso que tantas, dentre estas, não sigam os modelos apresentados por suas irmãs.
No caso de Leme, acho que algo de bom poderia ser feito neste sentido. Não falo do Serelepe, paralelo à Avenida Carlo Bonfanti. Creio que o melhor que se possa fazer por ele é canalizá-lo, limpá-lo (para que não vire um imenso criadouro de ratos e outras pragas) e, sobre ele, alargar-se a avenida, dotá-la de um canteiro central arborizado. Já no que diz respeito ao córrego Constantino, algo mais pode ser feito. Por que não, depois de impedir a emissão de poluentes em suas águas, encher suas margens de árvores – irrigadas, não deixadas ao deus-dará, valendo-se dos recursos despendidos para aquela bizarra decoração natalina de outros tempos? Por que não construir espaços de lazer, belos, agradáveis, um motivo de orgulho para toda a cidade e região? É uma proposta modesta. Mas, acredito, muito boa. Algo a se pensar. Não acham?
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 18 de outubro de 2008].
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