Comecemos pela segunda resposta. Prestes lutava pela instalação do comunismo por todo o nosso planeta. Sabendo, como sabemos, que seu modelo foi, durante muito tempo, o ditador soviético Josef Stalin (1878 – 1953), e lembrando dos horrores que ele praticou em seu país e naqueles que estavam sob sua influência, não vejo que “mundo melhor” poderia ser o almejado pelo brasileiro em questão... Quanto ao Tiradentes, seu âmbito era bem menor. Queria a independência das capitanias de Minas Gerais e Rio de Janeiro, tão somente, o perdão de suas dívidas e a dos seus amigos, uma universidade em São João del-Rei e nada mais. Não disse uma palavra quanto a uma futura abolição dos escravos. Já no caso de Jesus Cristo, e que fique bem claro, Ele não sonhava e, sim, anunciava um reino de Justiça, mas que não era deste mundo (Jo 18:36). Em suma, como vêem, por esta linha de pensamento, não existe qualquer associação entre uns e outros.
Cabe agora rebater a primeira resposta. Quem disse que não existe absolutamente nada entre estas três figuras também errou redondamente. No Brasil, em diversos momentos, tanto o Tiradentes como Prestes tiveram suas imagens construídas de uma maneira que os aproximassem da representação de Jesus. Vamos a este ponto, portanto.
Da aparência de Jesus, o que sabemos é que não há quanto a ela nenhuma referência nos evangelhos canônicos. Inclusive, nas primeiras imagens cristãs, produzidas sob influência da arte romana, nelas era Ele representado como um jovem sem barba. Mas, no século VI (evidentemente que d.C.), os religiosos do mosteiro de Santa Catarina, no Egito, produziram um ícone que apresenta Jesus de barba, longos cabelos repartidos ao meio e feições muito próximas do tipo semítico (em suma, buscando uma certa reconstituição histórica de Seu aspecto). Este ícone, conhecido como “o Cristo Pantocrator do Sinai” (Pantocrator, “Senhor de tudo”, em grego) tornou-se um modelo desde então e sua representação seria ainda mais reforçada pela descoberta do Santo Sudário de Turim em 1357. Se, mais tarde, Sua imagem de um poderoso rei envolto em seu majestático manto metamorfoseou-se na de um mártir seminu e ferido, e suas feições, sobretudo a partir do século XIX, foram cada vez mais europeizando-O, alourando-O, isto é uma outra história que não cabe aqui. O que importa é que, para todos os efeitos, e todos o sabem, Jesus usava barba e tinha longos cabelos – para um homem, judeu, de Sua época, seguidor da lei mosaica, era este o código de conduta (confrontem o Levítico ou o Deuteronômio, não lembro agora) – é só mais tarde que caberá ao romanizado Paulo (1Co 11:14) instituir a voga dos cabelos curtos.
Do nosso Tiradentes cabe dizer que ele não foi muito querido em seu tempo, nem pela maior parte do século XIX. Mal é abordado nos livros de história do período (um pouco para fazer média com D. Pedro II, já que não caía bem exaltar alguém morto a mando de sua bisavó); quando Castro Alves, em 1875, sedento de heróis, cantará a Revolução de Minas, será Tomás Antônio Gonzaga, e não o alferes, o homenageado. Mas quanto à aparência do Tiradentes, sabe-se apenas que era um bocado alto e que tinha um olhar “espantado”: talvez fosse um pouco estrábico ou tivesse os globos oculares um tanto projetados para frente, é o que imagino. Coube à República transformá-lo em nosso grande herói, e por vários motivos: era militar, como muitos republicanos de primeira hora; tentara romper com a dinastia dos Bragança, como, finalmente, fizera a República; necessitavam, os golpistas de 1889, de um herói e, de preferência um mártir. Assim, fizeram o Tiradentes à imagem e semelhança do “Mártir dos mártires”: Jesus Cristo. Daí a longa cabeleira e a barba com que é retratado (quem tiver interesse maior sobre o tema, pode encontrá-lo nos livros O Manto de Penélope, de João Pinto Furtado, e Formação das Almas, de José Murilo de Carvalho, dentre outros). A própria Ditadura Militar (1964 – 1985) invocará Tiradentes nos mesmos moldes.

O que me surpreendeu foi saber, recentemente, num simpósio, que até mesmo um jornal comunista, a Voz Operária, na edição de 1° de janeiro de 1955, retratou Luiz Carlos Prestes de uma maneira que evocava o Tiradentes, e, claro, o próprio Jesus Cristo. Se duvidam, comparem as imagens: é ou não é de espantar?

É verdade que existem fotografias de Prestes, dos tempos de sua famosa Coluna, em que o mesmo está barbudo e desgrenhado. E com um lenço ao pescoço. Mas daí a figurá-lo como o laço de uma forca...E o sol que brilha ao fundo de um, e a claridade, também ao fundo, na imagem do outro? Até uma criança de escola perceberia que não se trata de mera coincidência.
Assim, como vêem os leitores, somos um dos países mais curiosos do mundo. Aqui, direita, esquerda, centro, católicos, ateus, positivistas e agnósticos bebem as águas do mesmo regato e as engarrafam – com marcas de nomes diferentes – como se ninguém percebesse a origem das mesmas. E, de fato, pouca gente percebe isso…
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 25 de outubro de 2008].
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