quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Um Fantasma de carne e osso

Durante um certo tempo, morando numa cidade cujo nome não vem ao caso, freqüentei um determinado bar. Ou melhor, botequim. Era limpo, realmente limpíssimo, para o seu gênero. E o cardápio até que era interessante, mas curiosamente nunca vi ninguém comendo por ali. Interpretei tal fato como uma espécie de conselho, velado. E nunca me arrisquei a provar de suas iguarias. Deixo a outros tal aventura.
A clientela do lugar, como é comum em tais estabelecimentos, era bastante variada, mas com certa predominância de pessoas de meia-idade e idosas. De modo que era um sítio bastante silencioso, livre da algaravia e do barulho para além do limite que fazem os jovens depois de três ou quatro cervejas. Quanto à conversa, ali, ela não era das melhores, pelo contrário. Aliás, acho que ia até lá, justamente, porque não havia conversa nenhuma, ou quase nenhuma. Ninguém tergiversava absurdamente sobre política ou economia, não havia aquela vã e enfadonha falação esportiva, não se via ninguém aficionado por crimes, acidentes, catástrofes. Foi, por assim dizer, durante alguns meses, o meu Clube Diógenes. Os leitores de Conan Doyle sabem a que me refiro: um lugar calmo e tranqüilo, onde ninguém aborrece quem quer que seja e onde o silêncio é quase uma lei. Frise-se o quase: afinal, conversávamos um pouco por lá.
Vez ou outra, aparecia um velho promotor de justiça, aposentado, fã de Vicente Celestino e de antigos filmes. Discutimos sobre os faroestes clássicos de nossas preferências, mas nossos assuntos começaram a murchar quando descobri que ele era um entusiasta da Atlântida, “e seu papel definitivo na história do Egito e dos Incas”, segundo suas próprias palavras. Aí também era pedir demais...
Um dos mais expansivos clientes do botequim era um instalador de pára-raios. Sim, senhores, há especialistas neste assunto e, como ele me explicou, há uma grande diferença entre “a mera colocação de antenas” e “a complexa instalação dos pára-raios”: suas funções, garantiu-me, eram muito mais “intrincadas” que as de um “simples eletricista”. Tinha lá suas teorias meio visionárias, como a de que os terremotos que vêm assolando nosso país se dão por conta da exploração do petróleo, a qual estaria criando buracos sob as placas tectônicas. Tais idéias até que não são desprovidas de um certo sentido, mas ele apregoava-as qual um profeta, com a voz cava, profunda, e com uma ênfase que fazíamos com que nos víssemos à beira do Juízo Final.
Excentricidades à parte, devo dizer que ele me foi muito útil, revelando certos aspectos da cidade – nova, para mim – que eu desconhecia, bem como alguma coisa dos próprios freqüentadores daquele botequim. E, mais especificamente, quanto a um tipo que me chamou a atenção desde meus primeiros dias por ali.
A pessoa em questão era um homem por volta dos seus cinqüenta e tantos, senão sessenta. Negro, bem-apessoado, mas um pouco fora de forma, trajava, invariavelmente, um agasalho esportivo completo, calça e jaqueta, uma camiseta de um time de futebol que desconheço, um boné, alusivo à mesma agremiação esportiva,enfiado na cabeça, e nos pés, um par de tênis, impecavelmente limpos, bastante novos, mas que, notava-se, não eram de primeira categoria.
De todos os freqüentadores, ele era o mais assíduo, e o mais silencioso. Bebia sua cerveja em pequenos goles, enquanto contemplava o nada. Era tal sua parcimônia em beber que pensei que assim procedia porque seus recursos eram parcos: em geral, quem bebe vagarosamente é porque não pode pagar uma segunda rodada. Porém, mal terminada a garrafa, ele adormecia. Às vezes, levantava-se, pagava sua conta e partia sozinho. Noutras, era levado por um rapaz, qual um inválido, um desmemoriado.
Perguntei ao meu conhecido quem era aquele homem, afinal. Falou-me seu nome que, para mim, nada significou. Então explicou-me, mais detalhadamente, algo sobre o personagem em questão.. Ele fora, durante muito tempo, centro-avante e capitão de um time de futebol, cuja camisa ainda vestia, sempre e sempre. Não ficara rico: deixara apenas de ser miserável. Por não ter estudado, não conseguiu obter nada, depois de seus dias de triunfo.Tivera alguma fama, mas somente regional: velhos torcedores ainda se lembravam dele, de vez em quando. Vivia, portanto, daqueles fumos, daqueles fiapos de uma efêmera glória passada. Ouro-de-tolo fora o seu quinhão na vida; o seu patrimônio, amealhado por toda uma existência, valia o mesmo que nada. O nada que lhe consumia os últimos dias e que tinha sempre ante seus olhos. O vazio absoluto.
Apiedei-me do sujeito. Ninguém merece ser transformado numa espécie de máquina, com uma única função e que, quando não está mais eficiente, é jogada fora. Homem é homem, não é coisa, não é engrenagem que, explanada, deve ser atirada no lixo, substituída por outra mais nova. Talvez ele tenha lá sua culpa por não ter se reciclado, este termo da moda, que diz tudo e nada ao mesmo tempo. Mas será que lhe foi permitido? Será que esta sociedade que criamos não reifica muitos de nós, tornando-nos coisas, e depois nos descarta como coisa inútil? A julgar por tantas pessoas transformadas em mercadoria — modelos, jogadores de futebol, celebridades de programas abomináveis na televisão — estamos vivendo em tempos modernos muito piores do que os sugeridos por Chaplin, que tanto criticou o fato do homem ser reduzido à condição de máquina. Pois, ao poucos, vemos pessoas que vão se tornando numa nova espécie de fantasmas, desconhecida dos antigos, ou dos fantasmas de celulóide: os artistas do passado, mortos, que ainda vemos, vivos, no cinema.Não, o caso daquele velho jogador, é ainda pior. Ele, como muitos de seus parceiros de ofício, tornou-se um fantasma de carne e osso, sempre lembrado em relação aos seus feitos passados, nunca reverenciado, e sendo visto, por muita gente, como um estorvo, uma pobre relíquia de um passado fugaz. É hora de darmos um basta a isto. Não podemos mais permitir que tais aberrações, por tantos de nós insufladas, sejam criadas, novamente.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 1º de novembro de 2008].

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