Não faz muito tempo, conversando com amigos mais jovens do que eu, cheguei a comentar como algumas coisas na história podem mudar, ou acontecer, sem que tenhamos o menor indício, ou suspeita, de que venham a ocorrer.
O maior exemplo de todos talvez tenha sido a Segunda Guerra Mundial. A geração que lutou na Primeira, que assistiu a todos aqueles horrores, jamais imaginaria que eles pudessem se repetir, ampliados, aliás. Mas vinte e um anos depois do armistício, o Inferno tornou a abrir suas portas. Meros vinte e um anos. Este intervalo, hoje, parece grande, sobretudo aos jovens. Mas quem tem mais de trinta anos pesando-lhes sobre as costas sabe muito bem como duas décadas, na verdade, e na memória, parecem ser um hiato bem menor do que se imagina.
Um exemplo disso, e da teoria mais acima defendida, poderá ser verificado no próximo ano, em que serão recordados os vinte anos da queda do Muro de Berlim e do Massacre da Praça da Paz Celestial (que irônica combinação de palavras, “massacre” e “paz celestial”!). Sim, leitores, vinte anos. “Mas já? Parece que foi ontem”, dirão alguns. Pois é. E, puxando pela memória, quem seria capaz de dizer, em 1985, que, quatro anos depois, cairia o Muro de Berlim e, com ele, todos os regimes socialistas da Europa, inclusive a toda poderosa União Soviética? Pois respondo: ninguém. Absolutamente ninguém! O caso do massacre em Pequim é ainda mais curioso. Em primeiro lugar, ninguém imaginava, à época, que existisse mobilização suficiente junto à população chinesa para protestar daquela maneira. Em segundo lugar, ninguém imaginava que o governo chinês, que dava mostras de uma certa abertura (que supúnhamos ser política), reagiria com tal violência, como o fez., para motivo de indignação do mundo inteiro. Em terceiro lugar, ninguém seria capaz de acreditar que, ao invés da abertura política, a China marcharia resolutamente para uma das formas mais vorazes e predatórias de capitalismo jamais vistas na História. E, em quarto lugar, como uma suprema ironia, que o modelo seguido pelos chineses poderia ser reverenciado, senão invejado, pelo resto do mundo, como o é hoje!
Mas o que talvez seja o máximo daquilo que não se esperava, daquilo que sequer era previsto até pelo maior visionário, seria a eleição de um negro de nome Barack Hussein Obama para a presidência dos Estados Unidos da América. De fato, está ai uma coisa inconcebível até bem pouco tempo atrás. Hussein? Como Saddam Hussein? Obama? Lembra Osama, é, o bin Laden, o “inimigo público número um” da América.Sem falar no fato de que é negro, uma condição que é um verdadeiro anátema para muitos caipiras bairristas protestantes norte-americanos (a grande massa do eleitorado de lá). E, ainda assim, ele foi eleito. Um senador pelo estado do Havaí. Em termos brasileiros, creio não haver algum tipo de comparação, até porque somos muito medíocres quanto às rejeições. Mas, se houvesse um equivalente, seria algo como um índio, senador pelo Acre, chamado Solano López Maradona, ser eleito Presidente do Brasil. Vêem, portanto, como somos rasos...
O que é inegável, entretanto, é que ninguém imaginava que o pleito deste ano, nos EUA, poderia abrigar um tal candidato. E que ele seria aclamado pelas urnas. O nosso Monteiro Lobato, oitenta e tantos anos atrás até que especulou sobre o tema. Mas tratou-se, na época, de um grande tiro no escuro: sensacionalista, beirando o absurdo, e que resultou no pior livro que escreveu. Ou seja, nem um pouco fiel às condições da época.
Não tenho nada contra o novo presidente eleito dos EUA. Parece ser gente honesta e muito menos caipira do que o atual. Mas há quem ache que ele não dure muito tempo. Se já mataram um presidente católico e irlandês, se já mataram um seu irmão, que lhe seguiria os passos, e um decente pastor protestante defensor dos direitos civis (tudo isto na mesma década), que o senhor Barack Obama se previna quanto ao lixo-branco do sul, dos fanáticos do meio-oeste e dos malucos da Califórnia. Mas, como dissemos, nada mais é capaz de ser previsto a curta distância...
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 8 de novembro de 2008].
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