quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Livros, outra vez...

Os leitores sabem que minha área de estudos é a História. Mas, por gosto, por escolhas particulares, por pessoas próximas a mim, transito um pouquinho pela história da Literatura. O que, aliás, facilita muito a compreensão do Passado como um todo. Saber o que as pessoas liam, numa determinada época, é meio caminho andado para se entender aquele mesmo período: da escolha dos nomes de batismo dos filhos às determinações políticas, práticas sociais, etc.
Estas ligações, num passado não muito remoto, eram mais rápidas de serem feitas. Quando se encontrava, por exemplo, alguém chamado Hernani, ou Ernani, sabia-se que algum de seus pais ou era leitor da obra teatral (1830) de Vitor Hugo (1802-1885) ou admirador do compositor Giuseppe Verdi (1813-1901), que adaptou aquela peça em formato de ópera em 1844. Hoje, tem-se um nome desses, geralmente, em homenagem a um avô de mesmo prenome, cuja origem, — da escolha, no passado — sequer é suspeitada. O mesmo se aplica a um nome que, dia após dia, cai no esquecimento: Djalma. Assim era chamado um príncipe hindu num longínquo, contanto famoso, romance de Eugène Sue (1804-1857), publicado como folhetim entre 1844-45: “O Judeu Errante”. No campo social, é mais do que conhecida a influência de algumas obras do filósofo Jean-Jacques Rousseau (1712-1778), escritas como romances, influência, reitero, na independência de muitos países, nas mudanças dos sistemas educacionais, na emancipação das mulheres, nas relações de trabalho, e, pode-se dizer, na própria construção do mundo atual. Há mesmo quem diga que Rousseau, com seus “livrinhos”, fez mais mudanças do que muitos generais com centenas de canhões. Como também há quem diga que “A Cabana do Pai Tomás” (1852), da norte-americana Harriet Beecher Stowe (1811-1896), fez mais pela abolição da escravatura nos EUA, do que dezenas de leis aprovadas pelo Congresso daquele país. O próprio presidente americano Abraham Lincoln (1809-1865) teria dito à autora que fora ela quem teria dado causa, por conta de seu livro, à Guerra Civil Americana (1861-1865).
Mas voltando à crua realidade, e ao tema de hoje, gostaria de dizer, sem falsa modéstia, que desde alguns anos tenho estudado as listas de livros indicadas para os principais exames vestibulares do país. Este meu acompanhamento começou, na verdade, em 1988, quando a FUVEST escolheu um livro de autoria do escritor maranhense Coelho Neto (1864-1934) para ser avaliado (um tema que, salvo engano meu, rendeu vinte questões, de um total de vinte e quatro, para a área de Literatura). Coelho Neto! Naquela época, além de morto e sepultado, sua obra parecia ter recebido o mesmo destino que seu corpo. Ninguém mais lia uma só linha de Coelho Neto! Para muitos, pareceu que a escolha remetia a uma espécie de invocação dos mortos, meio baldada: na falta de um espírito de prol, que venha o primeiro que se apresentar! Foi o Coelho Neto que se apresentou na nossa mesa branca? Pois que seja! Que seja dada a ele a palavra. E, assim, fez-se a prova.
Da maneira como falo, pode parecer que o autor não era lá essas coisas. Ledo engano. Ele era bom, respeitado em seu tempo, quando então o chamavam de “o último dos helenos” — i.é., tão bom quanto um grego dos velhos tempos. Mas se o seu vocabulário se tornou “grego” para nós, no sentido da anedota, a culpa não é sua. Os muitos anos que passamos cevando-nos de Modernismos e outros ismos, nos tolheu, um tanto, os sentidos, o bom-gosto. E quando lembramos que foram estes senhores, e seus discípulos, que determinaram o que era o bom, e o que era ruim, o que deveríamos ler, e o que não ler, quais inquisidores a comporem seu index librorum prohibitorum, então vemos que é possível discordar destes que escolhem por nós. Pois, com que direito se arvoram a tal prática? O direito da tradição? Mas não são eles os primeiros a criticarem a tradição?
Daí que digo há muito tempo que alguma coisa precisa mudar. Machado de Assis (1839-1908) é ótimo, para dizer o mínimo. Assim como José de Alencar (1829-1877), Martins Pena (1814-1848), Raul Pompéia (1863-1895), Lima Barreto (1881-1922), Graciliano Ramos (1892-1953), Drummond (1902-1987), Bandeira (1886-1968), Mário (1893-1945) e Oswald de Andrade (1809-1954) e Guimarães Rosa (1908-1967). Todos gênios, por assim dizer. Mas a literatura nacional não é só feitas de luminares escolhidos por alguns poucos. Há muita coisa boa, curiosa, instigante, que vem sido negligenciada nos últimos anos. As universidades mineiras, gaúchas, catarinenses e pernambucanas, dentre outras, têm despertado quanto a isto, incluindo em seus vestibulares autores locais, de merecido talento, junto aos “ídolos” acima citados. Os próprios leitores tem reagido nesta questão, a ponto de um autor como João do Rio (1881-1921) — do qual ninguém falava até uns dez anos atrás —, estar sendo reeditado; como, da mesma maneira, muitas análises de sua obra têm vindo à luz.
Reitero, para concluir, que muitos bons livros, e autores, podem ainda ser retirados das trevas nas quais, sem terem culpa, foram lançados. É mais do que passada a hora de reler Araújo Porto-Alegre (1806-1879), França Júnior (1838-1890), Carlos de Laet (1847-1927), Arthur de Azevedo (1855-1908), Virgílio Várzea (1863-1941), Gonzaga-Duque (1863-1911), Afonso Arinos (1868-1916), Afrânio Peixoto (1876-1947), Valdomiro Silveira (1873-1941), Cornélio Pena (1896-1958), dentre tantos outros. Pois nenhuma literatura nacional é composta apenas de jóias deslumbrantes e faustosas. Dela fazem parte, também, os delicados ouropéis, discretos e elegantes camafeus, pingentes de bom feitio, brincos mimosos e até bijuterias que, no entanto, nos são caros aos olhos, e que nos provocam cálidas lembranças, além de despertarem, para o nosso gosto, outras formas de beleza.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 15 de novembro de 2008].

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