Durante alguns instantes da última quarta-feira, o mundo parou em razão das notícias referentes a uma seqüência de mortes tão brutal quanto aparentemente sem sentido. E com o mundo, parou também o Brasil, que faz parte dele — ainda que, algumas vezes, pareça com ele conviver numa relação de certo afastamento quanto ao tempo, espaço e idéias verificadas noutras partes do globo. Mas não tão distante de certos centros, como veremos.
Dizer que o Brasil parou talvez seja um certo exagero. Salvo no Carnaval, durante uma Copa do Mundo, no último capítulo da “novela das oito” (que ainda é chamada assim, embora seja exibida às nove), na final do “BBB”, ou do campeonato paulista, ou do brasileiro, o país nunca pára. Mas que as atenções nacionais e os comentários, em geral, concentraram-se, naquele dia, sobre um incidente macabro e sangrento, não resta dúvida. E qual foi ele?
Não, não se trata do maior atentado ocorrido nos últimos tempos em Bagdá, que ceifou a vida de mais de duzentas pessoas. E nem seria diferente. Acostumados que estamos com o derramamento de sangue no Oriente Médio, alguns mortos a mais ou a menos não parece nos sensibilizar. Depois, o próprio montante de vítimas — mais de duzentas — é meio que inconcebível: não forma uma imagem clara na nossa percepção e acaba se confundindo, como se fosse abstrata demais. Soa mais à estatística do que a um episódio envolvendo pessoas reais.
Nem, tampouco, do saldo da guerra entre traficantes do Rio de Janeiro, que abateu cerca de dezenove cidadãos brasileiros. Pois tal evento deve ter sido até comemorado por muita gente — ou melhor, por criaturas, que se consideram gente. Afinal, para muitos, todo favelado é culpado de alguma coisa por antecipação. E quando se trata de favelado carioca, então não se tem dúvida da culpa do sujeito. Daí muitos proporem determinadas práticas de erradicação do crime a serem aplicadas naqueles locais — acompanhadas de algumas bem específicas “políticas sociais” — que fariam muitos europeus e sul-africanos empalidecerem de horror, pela lembrança das décadas sombrias em que tais idéias eram acolhidas.
Pois no mundo, e no Brasil, todos os olhos e corações se voltaram para um único fato, cruel e covarde, sem dúvida, que foi a soma dos feitos e vítimas do rapaz que matou trinta e nove pessoas, e feriu outras tantas, numa universidade americana. Repitamos: foi cruel e foi covarde. E acrescentemos: dramático, infame e abjeto. Pranteemos as vítimas, que merecem, e condenemos o autor. Mas a verdade é que “massacres” perpetrados por atiradores solitários nos Estados Unidos são, no fundo, tão comuns quanto morticínios no Oriente Médio, tiroteios no Rio de Janeiro, etc. A única surpresa, talvez, seja em razão do número, que é alto. O rapaz, de origem sul-coreana, parece ter estabelecido um novo recorde. E o temor seja , talvez, de que algum americano nato procure reivindicar “o título” para o time da casa...
Mas, convenhamos, teria o procedimento do estudante Cho Seung-Hui alguma coisa de diferente daquele praticado por Eric Harris e Dylan Klebold, os autores do massacre da Columbine High School, na cidade de Denver, Colorado, e que gerou até um filme? Ou de qualquer outro assassínio coletivo praticado nos Estados Unidos? Não seguiu ele a mesma e surrada cartilha que é a base de todo desajustado daquele país para semelhantes feitos? Como não ver, na sua base, as influências, no campo da ficção, de filmes como “O Franco Atirador” (The Deer Hunter, 1978), ou “Motorista de Táxi” (Taxi Driver, 1976 — a cena do psicótico, vivido por Robert De Niro, diante do espelho, intimidando potenciais e imaginários alvos de sua “justiça”, é considerada um clássico da dramaturgia norte-americana) e, por que não, até mesmo “Rambo” (First Blood, 1982)? E quanto ao seu visual, enviado por ele próprio, via fotografia e vídeo, para a rede televisiva NBC, portando uma pistola em cada mão, o boné com a viseira voltada para trás — qual atirador da SWAT — e aquele jaleco preto à la FBI, que vemos em tantos filmes de Bruce Willis e quejandos, e que até a nossa polícia tem copiado? Querem comportamento mais genuinamente norte-americano do que este?
Assim, que a comunidade sul-coreana dos EUA não se alvoroce, e que os patriotas estadunidenses — que, em tais ocasiões, atiram primeiro, e perguntam depois — sosseguem antes de lançarem-se a uma cruzada. Pois o feito do estudante seguiu à risca a tradição dos atiradores desajustados e norte-americanos de nascimento. Como não reconhecer, em sua atitude, ecos do pistoleiro calado e sem nome que, hostilizado por uma comunidade, dela decide se vingar? Não lhe serviu de modelo o caubói solitário, que a mitologia americana proclamava ser exemplar, e que vemos em vários filmes em que Clint Eastwood, é o protagonista, o “forasteiro sem nome”?
O rapaz era americano na essência. Ou como diria Guimarães Rosa, “até na escuma do bofe”. Matou, e morreu, como muitos doidos norte-americanos matam e morrem. É fato que não se valeu de uma pistola Colt, de um revólver Smith & Wesson ou de uma carabina Winchester — “ferramentas da civilização americana”, como magistral, e contundentemente notou Ruy Castro na edição da Folha de S. Paulo da quarta-feira — mas o iter criminis, o desenrolar das etapas que se sucederam desde o momento em que surgiu a idéia do delito, até a sua consumação, é clara, e inequivocamente americano.
Por justiça, e piedade, pranteemos os mortos. Todos eles. Os de Bagdá, do Rio de Janeiro e dos Estados Unidos, sem distinção entre vítimas e algozes. Pois a doença, o mal de nossa civilização, não reside num único local. Ela emana de vários outros pontos, e campeia com vigor, alastra-se, solidifica-se. Até parecer banal.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 21 de abril de 2007].
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