sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Uma questão atual

Quando assisti pela primeira vez ao filme “Tiros em Columbine” (Bowling for Columbine, EUA, 2002), do cineasta Michael Moore, um documentário que trata da obsessão norte-americana pelas armas de fogo, confesso que minha atenção voltou-se somente ao tema principal, e vários outros assuntos de permeio escaparam-me. Recentemente, assistindo a uma reprise, dei-me conta de um curiosa relação que e o diretor faz entre dois aspectos da sociedade americana aparentemente desligados um do outro. Em dado momento — para ser mais preciso, na parte do desenho animado dentro do filme —, o narrador menciona que juntamente com a expansão dos direitos civis aos negros americanos (ou afro-descendentes, como preferem ser chamados por lá), houve também a mudança de inúmeras famílias de classe média branca dos bairros onde tradicionalmente viviam, nas cidades, rumo aos subúrbios e aos condomínios mais ou menos fechados.
Ou seja, enquanto os negros americanos conquistavam direitos — que, entre nós, brasileiros, sempre foram muito mais do que evidentes — como poderem viajar nos bancos da frente dos ônibus, poderem usar sanitários e bebedouros públicos que não os explicitamente dedicados à sua cor, e por ela não serem discriminados na tentativa à admissão num emprego ou numa escola, em suma, passavam a efetivamente interagir no meio urbano, a classe média branca fugia daquele mesmo meio urbano, reinventando-o em moldes conservadores na orla das grandes cidades.
Essa migração preconceituosa ocorreu nos Estados Unidos a partir da década de 1950. O Brasil — que a partir daquela época passou a copiar tudo o que a sociedade norte-americana tinha de pior, só que com atraso, e alterando completamente a lógica original das coisas, mas não para melhor — deus à luz suas primeiras experiências em matéria de condomínios fechados no início da década de 1970. Alphaville, em São Paulo, foi o primeiro exemplar e o modelo consagrado do gênero, para todos que o seguiram pelo Brasil, e data de 1974. Diz-se que seu nome, ou assim pretendiam os empreendedores do condomínio, seria uma “contraposição” ao tipo de sociedade “ideal” criada como cenário, e personagem do filme Alphaville (França, 1965), do cineasta Jean-Luc Godard.
Pusemos em aspas os termos contraposição e ideal por dois motivos. Em primeiro lugar, consideramos a citação do nome de uma infelicidade atroz, por que a cidade do filme nada tinha de ideal, o que já justificam as aspas da segunda palavra. Porque a Alphaville do cineasta franco-suíço é uma comunidade dominada por um computador, o Alpha-60, que controla todos os acontecimentos e toda liberdade de expressão de seus habitantes, vigiando a todos o tempo todo, mas não impedindo que vários horrores acontecessem.
Assim, é curioso notar que antes mesmo que se falasse em violência urbana, ou melhor, antes de que esta fizesse parte de nosso quotidiano, a classe média paulistana, certamente mais levada pelo espírito de cópia, de macaquice, do que vitimada por um medo real, pela violência também real, já procurava abandonar o ambiente urbano, trocando-o por um mundo quase de faz-de-conta.
Não temos nada contra os condomínios propriamente ditos. Compreendemos, aliás, que no contexto de crimes que envolve este país há tanto, onde a segurança individual é praticamente nula, as pessoas deixem as cidades por lugares mais seguros. Mas a proliferação de tais lugares de moradia acabam por se tornarem prejudiciais à sociedade como um todo. Pois além de avançarem, freqüentemente, sobre áreas de mananciais, reservas naturais, florestais, etc., acabam também por gerarem demandas sociais novas, pois toda uma infra-estrutura urbana tem de ser criada para levar recursos básicos até áreas muitas vezes distantes dos centros tradicionais. Nesse processo, perdem as cidades, vítimas do natural descaso de uma população que cada vez mais delas se afasta, freqüenta, olha por ela. E , o que é pior, esgarça violentamente o tecido da sociedade, a noção de igualdade entre os homens, de fraternidade entre cidadãos, na medida em que acabam por criar duas naturezas de seres: os que vivem dentro dos muros e os que vivem fora. Uns achando-se quase que pertencentes a uma linhagem real ou divina, olhando para fora com olhos aterrorizados e preconceituosos. Outros espichando o olhar por cima do muro, vislumbrando, distorcidamente, o que lá se passa como algo invejável, ou algo que deva ser destruído. É uma questão sobre a qual vale a pena refletir.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 17 de agosto de 2005].

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