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sexta-feira, 31 de dezembro de 2010

Cerveja, publicidade e atraso

Considero, em geral, os publicitários pátrios de uma falta de sensibilidade, de gentileza e de cultura atrozes. Esses vendedores de cerveja – porque a grande comenda que gostam de exibir no peito é a de terem feito a campanha de tal ou qual marca de cerveja –, por mais que se digam ligados ao mundo, parecem que, com ele, nada aprendem. Vejamos alguns exemplos, no campo, justamente, das cervejas.
Uma cervejaria holandesa, cujo produto vem numa garrafa verde – sabem muito bem da qual se trata – fez um anúncio divertidíssimo. Nele, um grupo de mulheres, recebido na casa de uma amiga, é acolhido pela anfitriã em seu closet. Dado o espaço do mesmo, perfeito para se acomodarem roupas, sapatos, e tudo o mais, as visitas irrompem em gritos de felicidade, pasmo, êxtase, se não quase histeria, quer por inveja, quer por reconhecimento à amiga que fez por merecer tais dependências, e a qual, é de se supor, emprestaria às outras o que se conservava ali. Mas no meio de seus gritos, são interrompidas por outros, os de seus maridos ou namorados, que ecoam de um outro canto da casa – que, em sua natureza e diapasão, são idênticos aos primeiros – pelo fato do anfitrião mostrar uma câmara frigorífica, do mesmo tamanho do closet de sua senhora, mas abarrotado de garrafas da dita cerveja. Uma peça publicitária concisa, sutil, que prescinde de qualquer palavra e se torna praticamente universal. E justa: homens e mulheres são tratados da mesma maneira.
Já uma outra cervejaria belga põe a cena num vagão-bar de um trem onde um garçom esforça-se por tirar um chope perfeito, mas é impedido graças aos solavancos da composição. Tomando-se de brios, deixa o vagão e volta um pouco depois, conseguindo, finalmente, servir a bebida como deveria. E no fim vemos como ele se livrou do movimento do trem: soltando o vagão. Qual a mensagem? A cerveja é tão boa que deve ser apreciada da maneira correta: ela vale mais do que todo o resto.
E nós, somos brindados com o quê, por aqui? É curioso notar que nenhuma, absolutamente nenhuma, grande cervejaria nacional faz propaganda de seus produtos enaltecendo o sabor dos mesmos. Ou a qualidade. A ênfase recai sobre o fato da cerveja estar gelada, mas o gelo, convenhamos, não vem de fábrica. E estupidamente gelada, bebe-se, de fato, qualquer uma. No máximo fala-se que uma “desce redondo”, o que não quer dizer que é boa, só, talvez, mais bebível do que as da concorrência. Outra alega a sua tradição, feita desde fins do século XIX. Mas quem se lembra do gosto da mesma antes de ser comprada pela atual proprietária, há de concordar que, da origem, só conservou o nome. E de uma outra ainda, confesso que não compreendi a verdadeira intenção dos anúncios: querem vender cerveja ou uma loura norte-americana?
Mas a campeã de mau-gosto é a dos guerreiros. Aquela que colou, qual sanguessuga, à pífia seleção patrícia de futebol do último mundial: os tais guerreiros, que se mostraram muito mais cervejeiros e cascateiros do que tudo mais. Agora veio com uma peça em que um bando de homens sem camisa e pintados como torcedores europeus trazem letras no corpo para se transformarem numa espécie de cartaz humano. Da televisão, suas noivas, mulheres ou o que forem, interpretam a palavra como “amar”, como se a mesma fosse dita simplesmente assim, como se no modo infinitivo, e solto esse verbo significasse alguma coisa. Porém, logo depois, chega o resto do bando de homens e forma o nome da cervejaria – o que é uma tremenda bobagem, convenhamos: cores do time ou mesmo o nome dele, até que vai, mas torcedor fazendo propaganda de cerveja? Só se for paga. E o anúncio conclui com a vingança das moças frente à baldada declaração de amor: beberão toda a cerveja deles. Que pobreza de concepção! Que machismo chulo e ultrapassado! Que diferença do exemplo da cervejaria holandesa!
Com publicitários destes podemos entender o estado de mendicância das idéias neste país. E por que bebemos cervejas tão ruins.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 13 de novembro de 2010].

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Pantofagia

Os bons dicionários registram que a pantofagia (do grego pan-, “tudo”, e -fagia, “comer”), é o hábito de comer de tudo, indiscriminadamente. Assim, somos todos um pouco pantófagos perante um bufê de churrascaria ou de restaurante “por quilo”, quando nos servimos de torresmo com camarão, sushi e lingüiça, mussarela de búfala com picanha de búfalo, etc. Mas a Etnologia trata os hábitos pantofágicos com mais rigor, para além da gula irrefletida dos habitantes das cidades. Segunda aquela ciência, em tais práticas incluem-se aqueles que se alimentam de insetos, não só a popular içá, mas também grilos e outros, dentre os quais aquela lesma de taquara que salvou da fome tantos desbravadores e que ainda é ingerida por recrutas do exército em certas incursões às matas: menos por necessidade e mais por uma espécie de “batismo de macheza”. E para a lista entram também os comedores de terra, os geófagos, tanto aquelas crianças que, infestadas de verminoses, sentem um desejo incontrolável por tal “iguaria”, quanto até mesmo adultos que, no entanto curados, não perderam o hábito, ou vício — em algumas feiras populares de lugares nem tão remotos assim do Brasil, podem ser encontrados tabletes de terra para o consumo de tão seleta freguesia.
Há outros hábitos pantofágicos que ora não vem ao caso relatar, a maior parte deles relacionados a rituais das mais variadas culturas. A ingestão de bebidas alucinógenas, de gosto medonho e preparadas com os ingredientes mais exóticos, conta-se entre eles. Da mesma maneira, as práticas canibais de nossos antepassados tupinambás, aimorés, etc. Quem tiver interesse que leia aquele ótimo livro que é A Pantofagia ou as Estranhas Práticas Alimentares na Selva (Companhia Editora Nacional, Coleção Brasiliana, em co-edição com o MinC/Pró-Memória/INL, São Paulo, 1987), do escritor, historiador e folclorista paraense Abguar Bastos (1902- 1995), pesquisador sério e homem de letras de talento, infelizmente meio esquecido nos dias de hoje, junto com muita gente de valor.
Como todos podem ver, comer é uma coisa muito séria. Mesmo o que nos parece repulsivo, pode ter seu caráter sagrado. Os deuses do Olimpo tinham suas comidas e bebidas especiais, assim como os têm as divindades indígenas das Américas, as africanas e afro-brasileiras. Tanto os gregos quanto os hebreus sacrificavam os melhores animais de seus rebanhos (dos quais algumas partes eles próprios, sacrificantes, comiam): os primeiros, aos seus deuses, os segundos, a Iavé. E não podemos nos esquecer que o Cristianismo tem a sua essência diretamente ligada a um sacrifício e a uma ceia, santa, aliás, em boa parte alegórica, é fato, mas uma ceia.
Não seria por acaso, também, que o escritor modernista Oswald de Andrade (1890-1954), talvez um dos mais revolucionários pensadores da cultura brasileira, tenha dado ao seu libelo mais radical o título de Manifesto Antropofágico (1928), repleto de influências de Marx, Freud, Montaigne e Rousseau. Para quem não se lembra, naquele texto, de um modernismo que já dava provas de maturidade, o autor identificava a maneira como os brasileiros “alimentaram-se” de referências culturais européias, “deglutiram-nas”, e criaram uma cultura própria, e mais forte, sustentava ele, que os modelos “comidos”. Qual os antigos canibais, que se nutriam apenas dos fortes e bravos, para incorporar suas virtudes. Ainda que polêmico, repleto de humor e nada metódico, o Manifesto incorporou-se ao pensamento nacional de maneira indelével.
O quê práticas, autores, estudos, manifestos querem dizer é uma só coisa: não há nada de errado em assimilar o estranho, ou o estrangeiro, desde que de maneira consciente e com uma finalidade benéfica. Senão, é o mesmo que entupir-se de comida, e de comida mal-feita, porque sentimos falta de uma coisa, a qual, todavia, não sabemos o que seja: compulsão como tentativa de sanar a frustração. E para piorar tal quadro, há um bando de gente ávida por nos deixar no mesmo ponto, cevando-nos com toda a sorte de porcarias.
As últimas semanas deram mostras evidentes de quanta ração nos foi enfiada goela abaixo, qual é feito com os gansos franceses, para a produção do foie gras que, literalmente, quer dizer “fígado gordo” — no nosso caso, leia-se “cérebro preguiçoso”. Aquele inútil Pan do Rio de Janeiro, o “apagão aéreo” como causa do acidente de Congonhas, as desculpas esfarrapadas do ministro apanhado em gestos obscenos, os “méritos” e os “momentos de ternura” de ACM, o “Cansei”, dos plutocratas de S.Paulo, e por aí vai. Em suma: estamos ou não estamos submetidos a uma dieta à força, e pantofágica? E o que é pior, sem qualquer benefício, sem um traço sequer do sagrado. Portanto, rejeitemos, rejeitemos estes pratos indigestos que nos servem e que são cobrados a peso de ouro. Temos o direito de escolher o que “comemos”, e não é nada disso que está sendo oferecido no “cardápio” nacional.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 4 de agosto de 2007].

Gado de engorda

Há exatos vinte anos era publicado um livro, no Brasil, que conheceu um imenso sucesso no mundo e por aqui também: em todas as casas onde havia livros, lá se encontrava um exemplar dele.Tratava-se do romance “O Turista Acidental”, da escritora norte-americana Anne Tyler, levado às telas no ano seguinte, com o mesmo nome e com igual êxito (recebeu dois prêmios Oscar, além de oito outras indicações). Confesso que achei a trama bastante aborrecida, dessas feitas para “fazer chorar”. Mas, pelo menos, era ainda literatura feita para adultos, muito acima, portanto, dos best-sellers de hoje, que investem na infantilização dos leitores.
Porém, o livro tinha uma idéia boa, em princípio. Seu protagonista, como alguns devem se lembrar, era um escritor de guias turísticos para pessoas que detestavam viajar e, acima de tudo, mudar seus hábitos. Ou seja, ele indicava hotéis, restaurantes, lojas e ambientes vários pelo mundo nos quais um norte-americano médio poderia sentir-se como se estivesse em casa: o mesmo aspecto em tudo, os mesmos sabores, etc. Durante muito tempo, considerei tal prática o mais rematado exemplo da caipirice e imbecilidade daqueles nossos “irmãos do Norte”. Mas então não havia ainda, propriamente falando, a globalização, ou mal a enxergávamos. Hoje, por mais que se invistam em “diferenciais” turísticos, a estrutura, no fundo, é absolutamente idêntica em toda parte. Aeroportos, saguões de hotéis, shoppings centers, muitos restaurantes e seus cardápios, parecem todos uns cópias dos outros, e sem uma matriz claramente discernível. E o público tem embarcado nestas canoas sem dó nem compreensão. Sei de gente, aliás, que a primeira coisa que faz quando chega a uma cidade desconhecida é procurar, no horizonte, o grande M amarelo da conhecida cadeia multinacional de lanchonetes. Em suma, não bastasse a nossa natural jequice, agora também copiamos outras estrangeiras.
Digo isso porque, recentemente, observei coisas espantosas numa viagem de gente que, embora desconhecendo a cidade, aferrava-se aos seus hábitos mais elementares. Querem exemplos? Vamos a eles.
O quê dizer de uma pessoa que, na sala onde era servido o café-da-manhã do hotel, diante de toda aquela fartura conhecida e frente a iguarias locais, típicas, resume sua escolha ao café com leite de todo dia, pão com manteiga e uma fatia de presunto? Frugalidade? Falta de apetite pela manhã? Mas como, se a mesma pessoa se empanturrou com três xícaras de café e seis — isto mesmo, seis, dei-me ao trabalho de contar — pães amanteigados e com o indefectível apresuntado? Agora imagine dezenas delas fazendo a mesmo coisa, o que também constatei: é ou não é o fim da picada?
E daqueles que, mal chegam, só querem saber onde fica o shopping center mais próximo? E, depois de conhecê-lo, que saber se há outros e não descansa até visitá-los, um a um. Dane-se a cidade, sua história, suas paisagens, suas peculiaridades. O que importa é a mesmice, o conhecido: a mudança, para os brocoiós, é um pesadelo. Conheço gente que viaja a outros países e não perde a oportunidade de ir a um cinema. Mas o que vêem? Alguma produção local, que dificilmente passaria por aqui? Nada! Vão assistir algum arrasa-quarteirão com algumas semanas de antecedência da sua estréia “nacional”... Numa viagem a uma cidade de praia, por exemplo, famosa pela qualidade de seus peixes e pelo preço baixo de seus pratos, vi pessoas felicíssimas por terem encontrado “um restaurantezinho legal, que faz um comercial com bife e batatas fritas baratinho”...
O que dizer de tais criaturas, que rodam o mundo e não parecem querer sair de seus próprios quartos? Que engole a primeira coisa que lhe impingem goela abaixo, e sem reclamar? Que, por fim, até acostumam-se com isso, que o anseiam acima de todas as outras coisas? Podemos chamá-las de humanos? Ou será que não estão mais para gado de engorda? Resta ainda especular quem é que lucra com esta ceva...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 8 de dezembro de 2007].

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Um tempo de abstinência, não de absurdos

A Quaresma vem chegando ao fim e, ao longo dela, pude notar as práticas mais estranhas de jejuns de que tinha até então notícia. Sei de casos de pessoas que, durante este período de reflexão, prática da caridade e conversão, deixam de lado certos hábitos cotidianos por motivos que me parecem bem outros, que não um testemunho de fé.
Há quem, por exemplo, promete se abster de alimentos gordurosos ou de consumo de açúcares. Foram advertidos por suas consciências? Não, mas por seus médicos, alertados por seus preocupantes estados de saúde. Vai então o penitente à marra, levantando em falso o nome do jejum, tentar reverter, em quarenta dias, e só enquanto estes durarem, tudo de errado que faz ao longo do ano. Ora, dieta é dieta, jejum é jejum.
Assim há aqueles que, por outro lado, abrem mão de certos alimentos, por assim dizer, durante a quadragésima, para literalmente se entupirem de outros durante o mesmo período. Tenho um conhecido que não bebe uma gota de bebida alcoólica ao longo deste tempo. Nada, nem uma reles cervejinha, nem um bombom com licor, absolutamente nada. Entretanto, quando se senta à mesa, come tanto, mas tanto, que ao fim de uma refeição, pensamos que ele está à beira de um ataque apoplético! E não se trata só da quantidade. Ele – que em geral se serve de qualquer coisa que se lhe ponha no prato – refina-se nesta ocasião. Faz questão de leitoas, cabritos, carnes de caça. Isto é que penitência! E, é claro, coroa o Sábado de Aleluia com uma bebedeira monumental.
Sei do caso de uma pessoa, fanática por chocolates, que não os toca durante esta época. Ela simplesmente os substitui pela mais variada gama possíveis de doces, em profusão. Abri, certa vez, sua geladeira, e esta em nada ficava devendo a um balcão de doçaria. Outra, que padece do mesmo vício, por sua vez, ataca sorvetes, baldes de sorvetes. Inclusive de chocolate, pois, segundo ela, “tecnicamente, um sorvete de chocolate, não seria, na verdade, chocolate”...
E os fumantes inveterados, jogadores compulsivos, viciados em sexo, que contêm ao máximo seus impulsos nestes dias, para irromperem em desbragadas orgias ao fim da “penitência”? O mesmo vale também para alguns desvairados amantes de churrascos, que parecem querer compensar suas “dolorosas privações” todas num dia só. Sei de um que fez uma farra de carnes tão grande, na véspera do Domingo de Páscoa, na qual havia entrado até carneiro e coelho. Coelho, na véspera da Páscoa? Carneiro, que remete simbólica e visualmente ao Cordeiro de Deus, o Agnus Dei, um dia antes da festa que celebra Sua Ressurreição? Não é, no mínimo, de muito mau-gosto? Para não dizer mórbido, e muito próximo de uma blasfêmia. Mas parece que isto nunca lhe passou pela cabeça.
Por um lado, parece que muita gente acredita que teríamos, na verdade, dois Carnavais, duas “festas da carne”, limitadas pelo início e pelo fim da Quaresma: uma de três dias, para os abusos da própria carne, e outra de um dia só, para os abusos das carnes alheias – se não há também quem usufrua de ambas, nas mesmas datas. Certamente há também os que se satisfazem com estes “dois Carnavais”, e pratiquem abusos pelo resto do ano, ainda que resguardem, com a cara mais lavada do mundo, os já citados quarenta dias de “interdição”.
Por outro lado, pareceu-me, neste ano, que as práticas mais convencionais de jejum, oração, reflexão, decresceram um pouco. O consumo de peixe, por exemplo, soube que caiu em relação ao ano passado. E o culpado, dizem as fontes, não foi tanto o preço, já que, a cada dia, mais variedades, e mais baratas, são postas no mercado: foi-se o tempo em que só havia bacalhau ou sardinha. A própria freqüência às igrejas pareceu-me também diminuir. Estive em diferentes cidades, no último mês, e gosto de visitar pelos menos suas matrizes ou catedrais. E tudo o que vi foram templos quase desertos. E nas próprias missas, a afluência era bem pequena. Podíamos pensar, então, que a meditação, a reflexão, em casa, certamente aumentaram, certo? Duvido. No último mês, vendeu-se, como nunca, celulares e planos de tv por assinatura. E quem consegue meditar, entregar-se à contemplação, “no aconchego do lar”, com tais estímulos ininterruptos?
Na verdade, tudo o que se quer, nestes dias, não são privações para além da natureza. Ninguém está falando em passar dias e dias a pão e água, nalguns dias nada, flagelação, o emprego do cilício, horas e horas de joelho ao pé do altar entoando intermináveis ladainhas. O que se quer é um pouco de moderação, de reflexão, de caridade, de abstinência, sim, mas parcial, das coisas mundanas como um todo. Ao mesmo tempo, um certo desconforto, para lembrarmos os tantos desconfortos dos quais padecem muitos. E que chegamos a um ponto em que possamos compreender que as coisas terrenas, por mais deliciosas que possam ser, não são tudo na vida. Aliás, Aquele cuja Ressurreição celebramos neste Domingo, justamente não dizia que Seu Reino “não era deste mundo”?
O que parece, todavia, é que, na corrida entre a abstinência e o absurdo, e com eles os abusos, de toda a natureza, vem ganhando espaço o segundo, acompanhado de seu séquito.O que será que ganharemos com tal vencedor?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 22 de março de 2008].

Moralismo e moralidade gastronômicas

Antes que o leitor se pergunte o que quero dizer com o presente título, devo explicar-me, já que ambos são de minha modesta autoria. Porém, acho necessário repassar dois conceitos. Moralismo, como todo mundo sabe, é o excesso de zelo quanto à moral, ignorando a própria realidade, e beirando as raias da irracional. Já Moralidade é o justo cumprimento da moral, á luz dos costumes de seu tempo e pautada pela racionalidade. Por exemplo: uma moça de biquíni, ainda que bem reduzido, tomando banho de sol na praia, é um grave problema para os moralistas, mas algo absolutamente comum do ponto de vista moral — desde que o biquíni também não seja microscópico, convenhamos. Já a mesma moça, com a mesma reduzida vestimenta do primeiro caso, usando-a no seu local de trabalho, digamos, um escritório contábil, tal já fere a moralidade. E para os moralistas, então, vocês podem imaginar... É verdade que, por vezes, ambas as correntes possam concordar entre si. Um noivo que queira se casar, ao pé do altar, de camiseta e bermuda, vai contra o moralismo e a moralidade. O mesmo noivo, ao fim da festa, à beira de uma piscina, que troque seu terno pela camiseta e a bermuda, juntamente com seus convidados mais próximos, incomoda tão somente aos moralistas, porque de acordo com a moralidade, não há nada de errado.
Por moralidade gastronômica, portanto, compreendo certos hábitos alimentares e também certos pratos que tenham os seus sentidos intrínsecos, que não seja exagerados ou absurdos. A pessoa que come uma lauta feijoada, com tudo o que tem direito, e após a sobremesa toma um café com adoçante, vai contra a moralidade gastronômica. Da mesma maneira quem mistura, no mesmo prato, nos “por quilos” da vida, sushi, torresmo, lasanha de ricota, feijão tropeiro, e um bife coberto de presunto e queijo. Francamente! Tudo que está ali pode ser muito bom, só que de maneira isolada. Mas, ao mesmo tempo, não resulta em nada que não numa tremenda confusão. Usando outro exemplo tomado de empréstimo da indumentária: uma pessoa pode ter uma linda gravata de seda importada; ótimos sapatos de finíssimo couro; o agasalho esportivo da marca mais cara; mas esta pessoa jamais poderá usá-los ao mesmo tempo, uns sobre os outros, não concordam? A mesma regra deveria valer para o “rodízio”, o “bufê”. E não vale. Vejamos outro caso de moralidade gastronômica.
Márcio Alemão, colunista da revista Carta Capital, que se orgulha de ser, como diz, um defensor da pizza e do camarão quanto a possíveis invencionices que estes possam vir a sofrer, move uma verdadeira cruzada, em suas linhas, contra a criação de pratos ou sabores de produtos completamente estapafúrdios. Segundo ele, tais “novidades” seriam invenções do Júnior, nome que dá aos presumíveis herdeiros de restaurantes ou fábricas de alimentos que viram as costas para as tradicionais fórmulas de sucesso e partem para o delírio, para uma má-viagem gastronômica. É o caso do fabricante de batatas fritas que , por exemplo, ao invés de fritá-las com um óleo melhor, menos danoso à saúde, mais enxutas, abre mão de tudo isto e lança uma linha de batatas “sabor bacon”, “ sabor peito de peru”, etc. Ou da fábrica de maionese que lança “a maionese sabor queijo”... Ora, quem quer bacon, que coma bacon, quem quer batata frita, batata frita, e assim por diante. Do contrário, onde vamos parar? No brigadeiro “sabor morango”? Na bolacha maisena “sabor chocolate”? Ou ainda, num caso, que já vi, o de uma horrenda pizza “aos cinco queijos”, sendo um deles, a própria massa: uma “bolacha” de provolone... Estão vendo que, moralidade, é bom senso?
É claro que não existe Júnior nenhum por trás de tais coisas. Tais regalos são fruto de pesquisas realizadas por grandes empresas junto ao público e que tiveram sua origem nos EUA, país que idolatra o conceito do “mais” (more) há décadas. Lá, e agora aqui, partindo de uma idéia, falsa, de “democracia do gosto”, as pessoas podem comer tudo o que quiserem, tudo deve sempre trazer algo mais (more) do que tradicionalmente traziam, que deve ser encontrado em toda parte. Alguém pode dizer que isto está absolutamente certo. Que as pessoas têm o direito de comerem o que bem entenderem, desde rato frito a feijão com leite condensado. Estão certas, é fato. Mas que não queiram que os outros digam que tais gororobas sejam boas. Nem as empresas devem abrir mão de pesquisas úteis — bons ingredientes, saudáveis e agradáveis ao paladar, em prol destas invencionices repletas de química de laboratório e de gosto duvidoso. Tais práticas, seriam, na verdade, uma verdadeira imoralidade gastronômica, da qual um dia trataremos com mais vagar.
Na outra ponta, há o moralismo gastronômico. Que concorda com as linhas acima, mais vai ainda mais longe, embora praticado por alguns poucos, na sua modalidade mais rígida. Na modalidade mais maleável, ou burra, na qual se situa a imensa maioria, encontramos, por exemplo, aqueles que, por comerem, há décadas, a insossa lasanha feita pela nonna, rejeitam toda e qualquer outra que não a que não for idêntica à da nonna. Da mesma categoria fazem parte aqueles que juram, de pés juntos, que nenhum hambúrguer se compara ao da carrocinha da esquina, e considera o x-tudo o supra-sumo da culinária mundial.
Já na mais rígida, ou exibicionista, cresce o número de seus adeptos vertiginosamente. São aqueles basbaques que só aceitam como presunto de Parma, o vindo daquela cidade italiana, os devotos da “designação de origem controlada”, um termo muito esperto cunhado pelo capitalismo mundial, que exalta a globalização mas que, por vezes, se ressente de seus efeitos, daí aceitam certa diversidade, que buscam controlar em suas mãos. Um tema que, aliás, vale uma crônica. Mas, voltando ao nosso caso, trata-se de gente para quem nada importa se há ótimos presuntos crus de outros locais. Como são puristas, qualquer variação cheira à blasfêmia. E aferram-se fanaticamente a determinados ingredientes, rituais na hora de servir, preciosismos que caberiam bem na corte de Luís XIV, mas que são completamente ridículos nos dias atuais e ofensivos frente aos milhões de famintos do mundo todo e às múltiplas possibilidades de combinações saborosas com novos elementos. Provincianismo, travestido de cosmopolitismo, é o que praticam estes novos “burgueses fidalgos”, sem a graça de um Molière para retratá-los — mas também porque não possuem graça alguma. E em seu moralismo, muitas vezes descambam, por sua vez, no outro lado do espectro da imoralidade gastronômica. Fica, aqui, algo a se refletir...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 19 de abril de 2008].

Minas Gerais, manjar da Pátria

Minas Gerais é uma região do país que, qual uma ótima e tradicional refeição, se aproveita aos bocados. Ela não se circunscreve à prática dos pratos-feitos. Nem o prazer de conhecê-la se resume ao rápido deguste de suas iguarias. E, evidentemente, a lógica dos rodízios não funciona nas Alterosas. Conhecer as Minas é saboreá-las aos poucos, sem pressa, sem gula – por mais que sintamos vontade de abocanhá-las de uma só vez, tal sedutora ao nosso paladar elas nos parecem.
Sua doçura, apreciada por quem vem de fora, é bastante conhecida. Seu calor, sentido, apreciado por quem nela nasce, e por quem a conhece, confirma-se como uma inequívoca sensação. Sua acidez, notada em seus comentários quanto aos desmandos do mundo, do Mundo, da Pátria e toda a terra e gente, ainda que apetitosa ao paladar, talvez seja um pouco ingrata aos estômagos mais acomodados às branduras de uma refeição convencional. Assim como o forte apimentado com que são temperadas as conversas locais. Todavia, estes últimos condimentos somente são deitados no repasto, público, quotidiano, que a boa gente da terra compartilha ente si. Ou com o qual recepciona um pequeno grupo de gourmets apreciadores de tais experiências. Afinal, os manjares são para poucos: não são da mesma natureza que as comilanças grotescas que se deitam garganta abaixo dos pantagruéis de turno: o mais reles mexidão, a mais tosca ermida, são capazes de saber mais ao paladar que a mais opulenta macarronada, que a mais macarrônica catedral no estilo gótico-bizantino...
Mas, aproveitando estas metáforas gastronômicas, as Minas Gerais, às vezes, são capazes de nos trazerem um certo gosto amargo à boca. Não falo dos dissabores que sentimos diante de tais ou quais mazelas sociais que vemos nos noticiários: estas são verificáveis em todos rincões do país. Nem do amargor que sentimos frente a determinadas situações políticas, ou diante de certos nomes que ocupam posições de escol independentemente de quaisquer atributos mínimos que os habilitassem para tal. No imenso pote de fel em que é cozida a realidade nacional, a bílis-amarela, — que empesteia nossas instituições — não é produzida somente entre as margens do Rio Doce e do Rio Grande, pelo contrário.
Um sabor um pouco azedo, muitas vezes, também é sentido ao se provar certos gostos que a terra dos Inconfidentes acha que, por bem, deveria oferecer ao resto do país. Qual picles excessivamente curtidos, ou pimentas excepcionalmente fortes, ambos, quais cunhas metidas em nossas bocas, quais cardos enfiados em nossos narizes, ofendem nossas sensibilidades, afetam nosso paladar, olfato, visão, tato e audição. Pois a contrário do que diz o vulgo, a perda de um sentido, causado por outro, não implica a valorização dos demais, e, sim, o colapso do sistema. Como dizia um amigo meu: “peça um acarajé ‘bem quente’ — duvido que pense em qualquer outra dor, ou sensação no corpo, enquanto durar o efeito do mesmo. E, no final, vai até sentir saudades de outros pratos bem apimentados”...Pode ser que isto funcione para alguns, mas, creio, quem tem língua, teme aqueles quem querem feri-la, amortecê-la, silenciá-la.
Como dizíamos, Minas Gerais é um manjar da Pátria. Dá a ela mais prazeres sensoriais do que toma. E é sempre constante no gosto do público. O que não quer dizer que seu paladar tenha de ser insosso, pelo contrário. Nem, por outro lado, demasiadamente apimentado, ou amargo, ou ácido. Seu sabor pode ser apreciável por todos, sem que se carregue as mãos nos condimentos. Em todo caso, considero muito melhor o cheiro do pão-de-queijo do sul de Minas, conquanto um pouco rançoso, do que o da rude, inculta e áspera mortadela da Moóca.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 31 de janeiro de 2009].