Minas Gerais é uma região do país que, qual uma ótima e tradicional refeição, se aproveita aos bocados. Ela não se circunscreve à prática dos pratos-feitos. Nem o prazer de conhecê-la se resume ao rápido deguste de suas iguarias. E, evidentemente, a lógica dos rodízios não funciona nas Alterosas. Conhecer as Minas é saboreá-las aos poucos, sem pressa, sem gula – por mais que sintamos vontade de abocanhá-las de uma só vez, tal sedutora ao nosso paladar elas nos parecem.
Sua doçura, apreciada por quem vem de fora, é bastante conhecida. Seu calor, sentido, apreciado por quem nela nasce, e por quem a conhece, confirma-se como uma inequívoca sensação. Sua acidez, notada em seus comentários quanto aos desmandos do mundo, do Mundo, da Pátria e toda a terra e gente, ainda que apetitosa ao paladar, talvez seja um pouco ingrata aos estômagos mais acomodados às branduras de uma refeição convencional. Assim como o forte apimentado com que são temperadas as conversas locais. Todavia, estes últimos condimentos somente são deitados no repasto, público, quotidiano, que a boa gente da terra compartilha ente si. Ou com o qual recepciona um pequeno grupo de gourmets apreciadores de tais experiências. Afinal, os manjares são para poucos: não são da mesma natureza que as comilanças grotescas que se deitam garganta abaixo dos pantagruéis de turno: o mais reles mexidão, a mais tosca ermida, são capazes de saber mais ao paladar que a mais opulenta macarronada, que a mais macarrônica catedral no estilo gótico-bizantino...
Mas, aproveitando estas metáforas gastronômicas, as Minas Gerais, às vezes, são capazes de nos trazerem um certo gosto amargo à boca. Não falo dos dissabores que sentimos diante de tais ou quais mazelas sociais que vemos nos noticiários: estas são verificáveis em todos rincões do país. Nem do amargor que sentimos frente a determinadas situações políticas, ou diante de certos nomes que ocupam posições de escol independentemente de quaisquer atributos mínimos que os habilitassem para tal. No imenso pote de fel em que é cozida a realidade nacional, a bílis-amarela, — que empesteia nossas instituições — não é produzida somente entre as margens do Rio Doce e do Rio Grande, pelo contrário.
Um sabor um pouco azedo, muitas vezes, também é sentido ao se provar certos gostos que a terra dos Inconfidentes acha que, por bem, deveria oferecer ao resto do país. Qual picles excessivamente curtidos, ou pimentas excepcionalmente fortes, ambos, quais cunhas metidas em nossas bocas, quais cardos enfiados em nossos narizes, ofendem nossas sensibilidades, afetam nosso paladar, olfato, visão, tato e audição. Pois a contrário do que diz o vulgo, a perda de um sentido, causado por outro, não implica a valorização dos demais, e, sim, o colapso do sistema. Como dizia um amigo meu: “peça um acarajé ‘bem quente’ — duvido que pense em qualquer outra dor, ou sensação no corpo, enquanto durar o efeito do mesmo. E, no final, vai até sentir saudades de outros pratos bem apimentados”...Pode ser que isto funcione para alguns, mas, creio, quem tem língua, teme aqueles quem querem feri-la, amortecê-la, silenciá-la.
Como dizíamos, Minas Gerais é um manjar da Pátria. Dá a ela mais prazeres sensoriais do que toma. E é sempre constante no gosto do público. O que não quer dizer que seu paladar tenha de ser insosso, pelo contrário. Nem, por outro lado, demasiadamente apimentado, ou amargo, ou ácido. Seu sabor pode ser apreciável por todos, sem que se carregue as mãos nos condimentos. Em todo caso, considero muito melhor o cheiro do pão-de-queijo do sul de Minas, conquanto um pouco rançoso, do que o da rude, inculta e áspera mortadela da Moóca.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 31 de janeiro de 2009].
A vaca estradeira
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