quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Ouro Preto enlutada

Na última terça-feira, Ouro Preto foi abalada por um forte baque espiritual e sentimental: morria o Padre José Feliciano da Costa Simões, o Padre Simões, pároco da Igreja de Nossa Senhora do Pilar, uma das mais antigas da cidade. Mas este episódio pouco parece ter a dizer para quem não conheceu aquele homem e aquela terra. Pois sua importância, ali, foi muito maior do que se possa imaginar, tanto para os habitantes locais quanto ao nosso país.
Mais do que um sacerdote de uma veneranda igreja, ele era um profundo conhecedor e defensor da história e do patrimônio artístico ouropretano, esta verdadeira jóia colonial que deslumbra nossos olhos até hoje.
Contava-se, por exemplo, uma história incrível a respeito dele. Dizia-se que, na década de 60, o Padre teria recuperado dezoito peças de arte sacra roubadas das igrejas históricas, por meios mais próprios de um romance detetivesco, não faltando, sequer, o uso de um disfarce: um insólito bigode postiço, capa e chapéu preto. Ria-se muito disto, mas o fato é que ele logrou seu intento.
À testa daquela paróquia havia mais de trinta anos, graças as seus esforços todas as igrejas sob sua jurisdição mantiveram-se a salvo das intervenções desastrosas, dos modismos, da demagogia, das bizarrices midiáticas que alguns chamam de renovação... E o mesmo se aplica à cidade: era um incansável crítico das reformas oportunistas, da descaracterização do ambiente, dos maus usos e abusos que nela queriam praticar.
De gênio forte, não era uma unanimidade local, pelo contrário: era tão admirado quanto detestado, mas mesmo quem o detestava o respeitava. Era, naturalmente, uma autoridade. Uma referência. Dizia-se mesmo que, em Ouro Preto, sua palavra tinha mais peso que a do Arcebispo de Mariana. Brincava-se, aliás, que era D. Luciano Mendes (1930-2006) quem beijava a mão do Padre Simões, e não o contrário. De fato, inúmeras historias corriam ao seu respeito.
De minha parte flagrei dois curiosíssimos feitos seus, ocorridos em diferentes missas, e, justamente, durante os sermões. No primeiro, ao reconhecer alguns viajantes franceses assistindo à cerimônia, proferiu todo o resto de sua prédica alternando entre aquele idioma, falado com fluência por ele, e nossa língua. Noutro, assisti a uma longa, barroca, refinada e graciosa digressão sua, numa sonolenta missa matutina, justificando, então, um gesto seu durante a consagração. Disse ele que, antes que o censurassem pela ligeira alteração de seu gestual, como uma tentativa de “inventar uma moda” ou “chamar a atenção”, se daquela maneira procedia era devido a uma pequena dor nas costas. Para logo em seguida relembrar as diferentes formas como muitos outros prelados locais erguiam o cálice na celebração. Brilhante! Quase hilário. E, no entanto, solene.
Era, de fato, um homem barroco: culto, corajoso, igualmente moderno e tradicional, quando tais qualidades eram necessárias. E, claro, um tanto quanto teatral. Foi-o até em seu último cortejo. Seu corpo foi conduzido pelas ruas da cidade pelo mesmo trajeto percorrido, há quase três séculos, pela procissão do Triunfo Eucarístico, talvez a maior cerimônia barroca ocorrida no Brasil. Em seu último cortejo, recebeu todas as pompas que lhe eram devidas e que seriam gratas ao seu temperamento: as janelas e sacadas cobertas por panos roxos e negros, o triste dobrar dos sinos de todas as igrejas, moças vestidas de anjos acompanhando seu corpo, Dragões da Inconfidência servindo-lhe de escolta. Até a natureza homenageou-o: a neblina encobriu a cidade, na véspera; a chuva caiu durante o dia todo, cessando apenas na hora da saída de sua fúnebre procissão. Se o céu local chorou por ele, estancou suas lágrimas, para não embaraçar a última cerimônia do Padre Simões.
Mas minhas palavras não dão conta para descrever o homem em toda a sua estatura. Assim, farei uso de algumas palavras suas que, creio, revelam seu vulto. Numa missa de uma Semana Santa de muitos anos atrás, ele argumentou, gravemente, que todos os homens são pecadores. Ele mesmo o era, acrescentou. E, brandamente, disse: “Assim, não posso dizer que não pequem, mas que procurem não pecar”. Se isto não demonstra grandeza, humanidade e compreensão, não sei o que possa demonstrar, nem o que devemos chamar de compreensão, humanidade e grandeza.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 24 de janeiro de 2009].

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