O escritor e humorista Millôr Fernandes, em sua página semanal da Revista Veja, edição de 1º de Março de 2006, devolveu-nos à memória o nome e uma pequena parte da obra de um celebrado escritor do passado, o conde (papal, não imperial), Afonso Celso de Assis Figueiredo Júnior (1860-1938), filho do visconde de Ouro Preto (último presidente do Conselho de Ministros do Império) e, como o pai, um monarquista empedernido. O conde de Afonso Celso, ou simplesmente Afonso Celso, como é mais conhecido, foi um autor que se não deixou uma obra prolífica, ao menos legou um razoável volume de produções, desde a poesia e prosa até memórias e ensaios. Pode não ter entrado para o cânone onde se encontram “os grandes escritores nacionais” — um grupo seleto que precisa ser aumentado — mas teve reputação suficiente em seu tempo para entrar na Academia Brasileira de Letras, da qual, aliás foi um dos fundadores. Não que isto deponha favoravelmente quanto ao seu talento, porque naqueles dias, como hoje, muitas nulidades também foram eleitas por compadrio ou política. Mas, pelo menos, ele contava com a admiração de seus pares do período, o que não podemos dizer a respeito de todos os eleitos nos últimos anos.
O nome de Afonso Celso passou para a posteridade em razão de um único livro — inexplicavelmente fora de catálogo nos dias de hoje — o famoso “Porque me ufano do meu país”, uma ode de amor descabelado ao país escrita em prosa, totalmente acrítica, exagerada até mais não poder e beirando o nonsense. Aliando às descrições das florestas “exuberantes”, à riqueza mineral e outros mil recursos, a “docilidade de nossa gente, desfila ante nossos olhos o maior repertório de absurdos possíveis para celebrar nossa Pátria. Não há como não deixar de citar as seguintes frases, que parecem resumir todas as fantasias do autor: “Ninguém, querendo trabalhar, morrerá de fome. Parece país de milionários, tão largamente se gasta”. E esta: “Feridas e amputações cicatrizam mais depressa do que nos hospitais do Velho Mundo”. Ou esta: “No Amazonas se conhecem albinos que entretêm grande familiaridade com animais. As onças aí são inofensivas. Serpentes gigantescas guardam as cabanas”. E, por fim, esta última: “O Brasileiro, em última análise, passa os dias mais felizes do que o alemão, o francês, o inglês, dias mais serenos, mais risonhos, mais esperançosos”. Para conhecer outras pérolas do autor, já que o livro é praticamente indisponível, que o leitor procure a citada edição da revista, na qual encontrará muitos motivos para rir e refletir.
O que mais estranha na opus magna de Afonso Celso é que todo o seu discurso é de uma irrealidade completa. No que ele se baseava para tais afirmações, até hoje é uma imensa incógnita. Pois não bastasse ter observado de perto as instâncias mais altas da política no tempo do Império — quer seja pelo convívio com o pai, quer porque foi eleito deputado geral quatro vezes por Minas Gerais, chegando a exercer as funções de 1º Secretário na Assembléia Geral, quer ainda porque acompanhou o Imperador em seu exílio — foi também um grande polemista ante uma República que se esforçava por desqualificar qualquer procedimento, prática ou ideal, por mais corretos que o fossem, desde que originários do Império. Assim, é de se perguntar como um homem de tal envergadura política e cultural meteu-se em tal esparrela.
Minha opinião é de que Afonso Celso planejou o seu livro como um panfleto destinado especificamente à seduzir imigrantes europeus a virem dar com os costados no Brasil, para que substituíssem a mão-de-obra negra e ex-escrava pela sua própria. Pontilhar a velha terra das três raças relativamente harmônicas no convívio com de trabalhadores brancos, que ajudariam no branqueamento do Brasil, tese muito cara ao Conde de Gobineau, amigo e mentor de Pedro II durante certo tempo — tese também abraçada por muitos cafeicultores e militares positivistas, e depois pela nascente República, obra destes senhores. Em suma, um projeto claramente racista, ultranacionalista — pois acreditava na assimilação imediata dos imigrantes dentro de um projeto de um “grande Brasil”, que remeteria negros, índios e mestiços à margem da sociedade — cujas conseqüências todos nós sentimos até hoje.
Voltaremos a este assunto.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 18 de março de 2006].
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