O sociólogo francês Roger Bastide, que morou no Brasil na década de 1930 e visitou nosso país umas outras tantas vezes, publicou um livro, em 1957, que se tornou famoso, muito questionado e consultado, que se chamava “Brasil, terra de contrastes”, o qual será republicado em breve, depois de estar por décadas esgotado.
Ainda que muito pouca gente o leia hoje em dia, foi durante longo tempo considerado um clássico dentre os estudos brasileiros. Foi, sem dúvida, uma das primeiras obras a abordarem os abismos existentes entre as classes sociais brasileiras, o caráter mais nominal do que efetivo do Estado, de uma certa hipocrisia travestida de educação, de fiéis com um pé na barca de Cristo e outro na piroga do Caboclo Sete Flechas, além dos demais contrastes e desequilíbrios vários com os quais até já nos acostumamos a conviver. Foi, também, à época de sua publicação, um tapa na cara de muitos dorminhocos que pareciam “deitados eternamente em berço esplêndido”. Daí que os defensores de Bastide, ou gente que só ouviu falar do livro, passaram a sacar contra o oponente a frase “Brasil, terra de contrastes” a cada disparate que viam. E os outros, propagandistas frouxos do “impávido colosso”, em sua defesa brandiam o bordão do “Brasil, País do Futuro”, título do livro escrito mais de uma década antes pelo austríaco Stefan Zweig, e também uma outra obra muito lida e hoje quase esquecida.
É verdade que a sorte pareceu pender mais para o lado de Bastide do que para o de Zweig. Por mais traumático que seja para os brasileiros, o diagnóstico do francês se cumpriu como realidade e como previsão deste futuro de desigualdades atrozes que hoje é o nosso Presente. Já o pobre austríaco, nestas terras, não teve muito futuro. Nunca nos esqueçamos que este apóstolo de um novo paraíso tropical acabou por dar cabo de sua vida e de sua mulher, tal o desespero que sentiu em nosso torrão bem amado. Mas é verdade também que são livros muito pouco lidos hoje, e que parecem ter se tornado mais em chavões invocados aqui e ali do que de alguma espécie de guia para a compreensão da terra pelos nativos.
Todavia há ainda alguns outros pontos, também, que parecem enfraquecer a possibilidade de uma ressurreição desta opus magna de Bastide. Pois ela parece meio velha, datada, como se descrevesse um mundo que não mais existe, partindo de pressupostos que hoje não parecem fazer mais sentido. E por quê? Porque ninguém pode ter dúvidas da imensa diferença entre o Brasil então retratado e o Brasil de hoje, que tem por intermeio nada menos do que o fim do governo Vargas, Juscelino e Brasília, Jango e a Renúncia, Jango e o golpe, a Ditadura, a tortura e a Transamazônica, a abertura e Tancredo, Sarney e a inflação, Collor e a bandalheira, Itamar e o Plano Cruzado, FHC e o “desmanche da Era Vargas”, Lula e sua apatia ingênua.
Ninguém pode perder de vista que o cenário em que Bastide escreveu seu livro era o da reconstrução da Europa, da extensão do conceito de “Bem-Estar Social” para classes da sociedade que até àquela época só conheciam salários de fome, analfabetismo, chicote e tacão de botas.
Não se pode esquecer ainda que havia uma União das Repúblicas Socialistas Soviéticas, com seus satélites e imitadores, que pareciam — sim, não se pode negar — um tipo de sociedade em que não havia a exploração do homem pelo homem, onde não havia ricos, mas onde também não havia pobres, e com educação, saúde, trabalho e moradia para todos; e eram, além disso, uma potência econômica, científica, militar e espacial, que seduzia meio mundo e que tinha como credenciais além disso, o fato de ter derrotado o nazismo.
Também naquele tempo, havia um país como os EUA que envergava no peito, como real condecoração que era, a reputação de ter, também, vencido o nazismo, e mais o expansionismo japonês; um país que marchava firme rumo às liberdades raciais e que passava a prodigalizar a seus cidadãos um nível de conforto doméstico como nunca se viu na história, conforto que afirmava ser extensível a todos que com eles compartilhassem do “sonho americano” e que encantava a outra metade do mundo.
Por fim, resta a própria questão do “contraste”, cara ao autor, da diferença, que hoje soa para nossos ouvidos de outra forma. Pois não vivemos sob o signo da aceitação das diferenças, da entronização da alteridade, do culto à diversidade? Se esta compreensão moderna foi insinuada, sem que nos apercebamos, pela argúcia de um mercado ávido por transformar em mercadoria tudo no que possa pôr as mãos — o que pode bem vir a ser — é coisa a ser estudada.
Se nos tempos de Bastide o cinema, a música, as artes plásticas, a literatura tomavam o modelo europeu, soviético ou americano como modelos, hoje são as peculiaridades dos mais diferentes povos a verdadeira tônica das produções. Não se trata mais de levar Beethoven ao Agreste, Verdi ao Cairo, Tchaikovsky a Pequim, ou Villa- Lobos ao Cerrado. Hoje escuta-se a música egípcia em Berlim, as composições chinesas da Rússia à Espanha, hoje queremos exportar os violeiros goianos para o mundo. Se preconizava-se a derrubada das favelas e a construção de moradias salubres e ordenadas no traçado urbano, já há mais de duas décadas prescreve-se à urbanização das favelas — quanto à eficácia disso, confesso, discordo veementemente, e por uma questão de humanidade, como também acredito que os ouvidos do Agreste sempre merecerão ouvir Beethoven, Verdi, Tchaikovsky e Villa-Lobos, mas isto já seria assunto para outra crônica. Em suma, “Brasil, terra de contrastes”, é um grande livro, talvez já um pouco impregnado pela pátina do tempo, mas a qual, longe de embaçar seu interesse, acaba por instigar ainda mais a procura pela matéria de que é feita: é saudável saber — depois que erramos — desde quando, por que e como erramos.
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 18 de dezembro de 2004].
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