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quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Um grupo disparatado

A crônica desta semana não tem história nenhuma. É, antes, um preâmbulo, ou prólogo, de outros episódios que virão. Ou, como se estampava nas segundas páginas das peças teatrais, quando impressas, uma espécie de, aumentado e comentado, dramatis personae, a relação do elenco dos personagens do drama.
Na sexta-feira da semana passada, combinei com alguns amigos de nos encontrarmos num bar que não fica muito distante de onde, provisoriamente, estou morando. O lugar tem a vantagem de ser sombreado e, posto numa esquina, bastante fresco: nossa mesa predileta situa-se justamente, “onde o vento faz a curva”, uma condição indispensável para aliviar o forte calor que assola o noroeste paranaense. E, como já disse, não é distante de minha casa. “Casa”, isto mesmo, escrita em itálico, ou posta entre aspas, porque a minha, mesmo, está a quinhentos quilômetros mais a nordeste do local de onde escrevo estas linhas. Aqui onde estou é, quando muito, um pouso temporário. Não é um “acampamento de caça”, porque, aqui, não caço nada, em qualquer sentido do termo. Como, também, não tem nada de acampamento, pelo contrário, é o mais urbano possível, como a toda hora me recordam, pelo barulho que produzem, meus vizinhos, de cima, do lado, etc.
Mas voltando à cena original, estávamos lá, quatro amigos, para umas cervejas ao cair da tarde. Da mesa faziam parte — além, é claro, da minha pessoa — o Tonico, o Zé Otávio e o Marçal, algumas das pessoas aparentemente mais díspares que poderiam se encontrar e que, no entanto, convivem perfeitamente bem.
O primeiro é pastor evangélico, de uma seita nova — mas ele não tem nada de sectário, como verão — grupo que ele não sabe muito bem em que ponto se situa entre o neopentecostalismo e o protestantismo tradicional. Ele e seus confrades não se assumem ainda como membros de uma Igreja — “é preciso ainda construí-la, assim como o seu ordenamento e um mínimo de hierarquia”, como ele mesmo disse. Mas, junto com seus irmãos, não é tão enfático na glorificação do Espírito Santo (prefere, acima de tudo, o Cristo Encarnado). Ele também defende que beber, com moderação, é “celebrar a vida” e, de tal prática, não se abstém. Por fim, nutre um verdadeiro horror à “teologia da prosperidade”, sendo, segundo suas palavras, os seus seguidores, “um bando de fariseus adorando os vendilhões do Templo”. E como é o único paranaense de nossa roda, brincamos que ele é nosso “guia nativo” e “intérprete”.
Zé Otávio é carioca, mas como diz o Marçal, “nada tem de marrento”, com o que concordamos todos. Dizemos isto porque, coroinha na infância, seminarista na adolescência e quase padre — “uma morena de olhos apertados e pernas longas”, como ele mesmo confessou, pôs-se entre ele e o sacerdócio. Assim, não teve tempo, ou ocasião, de se entregar à “malemolência” das praias cariocas. Deixando para trás a batina, e deixado pela mulher, cursou Ciências Sociais, fez-se marxista, está quase para se casar com uma moça de Goiás, e é um dos últimos, e ativos, defensores da Teologia da Libertação que conheço pessoalmente.
Marçal nasceu num estado do Nordeste que, pediu-me, não gostaria de ver mencionado. Filho de uma família tradicional — “da banda boa”, como faz questão de dizer, que foi alijada, politicamente, por umas “aves de arribação”, que lá meteram as garras e vão bicando, e se cevando, de tudo que lhes passa pela frente”. Declara-se como uma espécie de “auto-exilado”, e sua repulsa aos políticos de seu Estado só se ombreia a, como ele mesmo diz, “ao desgoverno de São Paulo”, que “tornou a locomotiva numa sucata, que não puxa nada nem leva ninguém a lugar algum”. Licenciado em Matemática, trocou os cálculos pela Filosofia. Mas de vez em quando ainda propõe-nos alguns problemas que só ele entende: nas duas áreas do saber.
É com este grupo heterodoxo, e em boa parte improvável, dada a disparidade entre seus integrantes, com quem tenho convivido nalgumas tardes do mês, neste meu “acampamento de fronteira”. Ainda que, em breve, eu o deixe de vez, sei que levarei comigo a amizade deles, que rendeu ótimas conversas, algumas das quais, em breve, passarei a relatar. E creio que a primeira será o que nós chamamos de “O Caso dos meninos ricos”. Ou o “Ocaso”, como pilheriou o Marçal. Portanto, aguardem.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 22 de novembro de 2008].

Médicos e monstros

De todos os livros que li na infância, o meu predileto era “A Ilha do Tesouro” (1883), de Robert Louis Stevenson (1850-1894). Aquela trama de um tesouro enterrado numa ilha distante e de um misterioso mapa indicando seu paradeiro, fascinavam-me. Sem falar no rico desfile de personagens magníficos, fossem eles “vilões”, fossem “heróis”. Jamais serei capaz de esquecer a cena em que um velho pirata, inteiramente maligno, o cego Pew, que, depois de assassinar um seu antigo camarada, e quase fazendo o mesmo ao protagonista, é encurralado numa ponte de madeira, e esmagado pelos cascos dos cavalos da guarda que rumavam em sua captura. O som daquelas patas nas pranchas da ponte ribombam até hoje em meus ouvidos. Quando li o romance, aquela impressão foi tão forte – a narrativa da cena, como um todo – que comuniquei ao meu pai o quanto eu sentira o vívido efeito do episódio. Confessou-me ele que, quando lera o mesmo livro, décadas antes, sentira a mesma coisa: um misto de terror e uma prova de verossimilhança que jamais se-lhe pagou da memória. Lendo algumas análises sobre o livro – hoje enclausurado na categoria de “literatura juvenil” – notei que inúmeros estudiosos, e amantes das belas-letras, compartilharam da mesma sensação. O grande escritor argentino Jorge Luís Borges (1899-1986) era um deles, como soube mais tarde.
Apesar de todos os piratas fascinantes, para o bem e para o mal, que o livro exibe, ressalta-se a bela sociedade formada pelos homens de bem que partem a caça ao tesouro. São, todos eles, notáveis, modelos de virtude, e dentre aqueles heróis, ressalta-se a figura do Doutor Livesey, médico, cavalheiro, Valendo-se, na mesma medida, da ação e do puro raciocínio: dispara sua arma com a mesma precisão com que trata dos feridos.
O mesmo Robert Louis Stevenson, não bastasse ter criado aquele clássico, foi capaz de trazer à luz um outro ainda mais espetacular, a semente de mil histórias de terror, contos fantásticos, o embrião de nove entre dez filmes de suspense. Este foi o caso do conto, ou novela curta, intitulado “O Estranho caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde” (1886), ou, como é comum dizer, “Dr. Jekyll e Mr. Hyde”, ou ainda, “O Médico e o monstro”. O conto, ou novela, demonstram, empiricamente, mais avanços sobre os estudos da mente – é um daqueles caso em que a Literatura antecipa-se à Ciência — do que toda a medicina da época fora capaz de elucidar. Da demência alcoólica à dependência de narcóticos, da esquizofrenia ao “Incrível Hulk”, tudo está esboçado em suas páginas. Inclusive a mania, suicida, comum à época, de muitos médicos transformarem-se, eles mesmos, em cobaias de seus próprios experimentos.
Treze anos depois, George Bernard Shaw (1856-1850), o mago dos palcos ingleses, em sua peça teatral “O Dilema de um Médico” (1906), atacará todo o sistema de saúde em seu país, o status da medicina enquanto uma espécie de “nova religião revelada”, a “síndrome de Deus” — da qual padecem muitos clínicos e especialistas —, como, também, a completa sujeição das populações, das mais variadas origens, ao “discurso médico”, esteja ele correto ou não. E, diga-se, a peça, em si, não é uma de suas melhores, mas o prefácio vale por uma aula: corroborando a visão de uma certa hipocrisia dos médicos do Passado, alertando quanto aos desmandos verificados em seu Presente, e alertando quanto ao Futuro — aspectos estes que, no século XX, seriam amplamente comprovados por estudiosos como o filósofo francês Michel Foucault (1926-1984), ou pelo historiador britânico Peter Burke (1937), dentre outros.
Certo, mas o que isto tudo tem a ver com a crônica desta semana? Tudo e nada, ao mesmo tempo.
Há muita gente séria no ramo da Medicina. Mas, também, uma bela soma de patifes, de entremeio. E grande parte das novas gerações que alega seguir os votos de Esculápio e o Juramento de Hipócrates, fraudam o primeiro e cometem perjúrio quanto ao segundo. Veja-se o caso dos estudantes de Londrina e a arruaça que fizeram. Veja-se o comentário do responsável pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, afirmando que a maioria das pessoas que quer seguir a carreira, abraça-a mais por uma expectativa de ganhos, e status, do que por vocação, respeito ao próximo, amor à Ciência...
Em suma, há médicos e há monstros, como há médicos que são verdadeiros monstros. Portanto, olho vivo. E que os profissionais de bem, valorosos, que são muitos, protejam a sociedade, livrando-a dos usurários da saúde, dos avaros dos exames, dos relapsos dos diagnósticos, dos que vêem seus pacientes mais como “clientes” e menos como “pacientes”. E que coloquem essa molecada insensível e mercenária em seu devido lugar. Será que isto é pedir muito? Será que, tanto os médicos de bem, de princípios, como os pacientes, não irão, efetiva, cristã e honradamente “ganhar” com isto?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 13 de dezembro de 2008].

De novo, os trotes

Há poucos dias, em Ouro Preto, conversava com um amigo que morou por muitos anos numa das repúblicas de estudantes mais antigas da cidade. Discutíamos o trote universitário e suas várias modalidades na cidade e no país. Ali, como é sabido, a coisa funciona mais ou menos como uma brincadeira. Obriga-se o calouro a vestir uma roupa ridícula e a pendurar no pescoço uma placa com o seu apelido e a informação “batalho uma vaga na República X”, ou Y, ou Z. Com esta indumentária e adereço, ele tem de circular pelas ruas durante um mês, pouco mais ou pouco menos. E enquanto o novato ou novatos não forem substituídos por um outro recém-chegado, são eles uma espécie de garçom, office-boy e lavador de pratos de todos os veteranos. Pode parecer meio pesado, à primeira vista, mas como dizia meu amigo, tais práticas não só socializam o calouro junto à comunidade, como também o ensinam a viver numa moradia coletiva. “Menino mimado aprende, rapidinho, a se virar aqui”, completou meu confrade.
Parece tudo muito idílico, falando assim. Todavia, às vezes, as punições podem ser pesadas, como no caso de um novato cometer alguma infração (o não cumprimento de uma tarefa na casa). Aí, ele tem de pagar. Quer seja “levando um vento” (quando os veteranos invadem o seu quarto e deixam tudo, literalmente, de pernas para o ar), quer tomando pinga para além do que ele agüenta, servida por todos na república – isto, sim, é violento e perigoso, mas sei de muita gente que adorou, apesar da ressaca.
Os trotes são uma modalidade de aceitação de um indivíduo num grupo. Uma espécie de ritual de passagem. Podem ser divertidos, até mesmo para quem o sofre, é claro, mas traz em si um componente inequívoco de humilhação e violência que, com freqüência, extrapola seus limites. São notórios os casos ocorridos em tradicionais instituições de ensino, civis e militares, nas quais a selvageria prevaleceu sobre o aspecto lúdico ou ritualístico de tais episódios. E nada justifica tais procedimentos: nem a longa tradição das escolas, nem o fato de serem disputadíssimas pelos alunos, por sua notável qualidade de ensino. Seja numa ESALQ, seja numa faculdade de beira de estrada, seja numa POLI ou numa universidade onde é maior o número de vagas do que o de inscritos, tais fatos não devem, jamais, ocorrer.
Nesta semana acompanhamos dois lastimáveis episódios desta natureza. O primeiro em Leme, vitimando um jovem estudante de Iracemápolis. Forçado a beber para além do que toleraria, a se arrastar por uma mistura de urina e excrementos animais, foi ainda espancado e arremessado na sarjeta por um psicopata – é este o termo, e não outro – quando chegou a bater a cabeça e perder os sentidos. Depois disto, foi internado como indigente. O segundo, mais recente, deu-se em Santa Fé do Sul. Lá uma moça, grávida, foi queimada com tíner e creolina, por uma veterana de Pedagogia (anotem: pedagogia! Que bela profissional será esta senhorita no futuro!). E paremos por aqui. A semana ainda não terminou, mas, com certeza, novas violências serão cometidas.
O curioso nisto tudo é que, ano após ano, tais violências ocorrem sem que ninguém faça nada para coibi-las. Muitas, nas próprias instalações universitárias. Outras, a poucos metros das mesmas. Todas, às vistas de qualquer passante, em locais bem conhecidos. Se a polícia, tão ocupada noutros casos, não quer intervir, até compreendo. Mas o que custa para as direções das faculdades destacarem um ou mais funcionários para, pelo menos, espiarem o que ocorre? Intimidarem, com suas presenças, os excessos? Identificarem, com mais prontidão, os agressores? Creio que todos os bons alunos e professores destas instituições agradeceriam qualquer esforço feito para que suas faculdades e universidades não tivessem seus nomes lançados à lama por meia dúzia de degenerados.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 14 de fevereiro de 2009].