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quinta-feira, 8 de julho de 2010

Entre cobras e lagartos

No sábado passado correu a notícia de que um terrível incêndio teria destruído o Instituto Butantã. Foi dito que mais de cem anos de pesquisa científica foram perdidos graças às chamas. Além de milhares de répteis e insetos vivos, mortos pelo fogo.
Pois é, nada como um dia após o outro: nesta sexta-feira as informações já eram bem diferentes. Sabe-se que pelo menos 42 livros que contêm o registro de coleção de serpentes foram recuperados, além de animais mortos conservados em formol, além de aparelhos e objetos vários. Quanto aos animais vivos, foram todos salvos pelos pesquisadores, que merecem nossos parabéns pela coragem: por mais que estejam acostumados a lidar com simpáticos bichos quais serpentes, lagartos, escorpiões e aranhas, enfrentar um incêndio para salvá-los, dão provas de sua grande abnegação e valor.
Mas o saldo da destruição, ainda assim, não foi pequeno: mais de 70 mil espécimes foram destruídos – e combalida, também, ficou à nossa língua, graças às matérias que transformaram espécimes em substantivo feminino (confusão motivada pela palavra espécie), à qual adicionaram o adjetivo conservadas (que proporciona um inequívoco pleonasmo, pois espécime é sempre algo já conservado). Tudo isto enquanto o prédio ainda fumegava... Aliás, o fogo deu-se justamente na ala do Instituto que abrigava a coleção relacionada à ecologia e à evolução das espécies. É de se imaginar que os Criacionistas devem estar dando graças à Javé por isto: “as chamas do Senhor queimaram as crias de Satã”, devem estar bradando, regozijados, em seu templos...
Voltando ao campo da razão, é realmente lastimável o que ocorreu. O Butantã sempre foi um centro de excelência na pesquisa científica e, nos últimos anos, tornou-se o maior fornecedor de vacinas e soro antiofídico do país. Ao mesmo tempo em que convivia com uma biblioteca repleta de goteiras, infiltrações e cupins, e até de uma sala, sem teto, que precisou ser interditada no início do ano por conta de um deslocamento de vigas. Sem falar nas instalações elétricas do complexo, improvisadas e abaixo das necessidades, as quais acabaram por dar causa ao incêndio. Como se vê, seus pesquisadores são, de fato, heróis: lidam com bichos pelos quais todo mundo tem horror, enfrentam o fogo para salvá-los e, ao mesmo tempo, trabalham, produzem, em condições precaríssimas.
A Secretaria estadual – está explicado! – de Saúde, à qual está subordinado o Instituto, procurou defender-se alegando ter investido R$ 2,6 milhões na infraestrutura nos últimos quatro anos. È de se perguntar onde foi parar tanto dinheiro visto que, por exemplo, a coleção de obras raras, que abriga publicações dos séculos XVIII e XIX, encapadas com pele de cobra, “está espremida em um armário de ferro comum, cheirando à naftalina”, segundo a bibliotecária responsável. E, acrescentou, para a reportagem de um grande jornal: “Faz dez anos que cheguei aqui e faz dez anos que peço para comprarem um armário novo”, para guardar as raridades. Façam os cálculos: já sabem que partido, e que pessoas, estavam no comando do estado de São Paulo há dez anos...
Que azar ronda o nosso estado! Que urucubaca! Por que tanta penúria? Por que tanta incúria? Que sombra negra é esta que paira sobre nós? Até a ciência padece nesta terra desolada, entregue às cobras e aos lagartos. E nem mesmo estes, como se vê, estão livres do perigo...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 22 de maio de 2010].

Novas notícias da prole de Adão

A imprensa mundial anunciou que a primeira análise em profundidade do genoma do Homo neanderthalensi, levada a cabo por cientistas alemães, revelou que indivíduos daquela remota espécie, muito semelhante ao Homo sapiens, chegaram a se acasalar com nosso ancestrais, e que a marca de tal intercâmbio genético estaria ainda presente no genoma do Homem moderno.
Da minha própria parte acrescentaria que, muito provavelmente, o tal Homem moderno formou-se, especificamente, do cruzamento do Homo sapiens, dos neandertais e de uns tantos daqueles outros grupos que habitaram a Terra no Passado. Um inequívoco exemplo disto, acredito, foi o daquele jovem que viveu há cerca de 24 mil anos, descoberto já como um fóssil, em 1998, na região do Vale do Lapedo, em Portugal, que, pela localização do achado, recebeu o nome de Menino do Lapedo. Então se verificou a existência inequívoca de traços mistos entre o Homem moderno e nossos primos distantes neandertais, sobretudo no aspecto do crânio e das mandíbulas.
Para nossos irmãos separados criacionistas, talvez se trate da própria caveira de Abel, deformada pela pedrada que lhe desferiu Caim, provavelmente por volta de 3900 e poucos anos a.C., segundo a Cronologia de Ussher, da qual já nos referimos aqui – e, curiosamente ao mesmo tempo em que já datavam de mil anos inúmeras culturas que viviam em aldeias, do Egito à China. É verdade que o tal fóssil do Menino do Lapedo indicava que o mesmo teria por volta dos 4 anos de idade quando morreu. Mas, se como diz a Bíblia, Adão faleceu aos 930 anos de vida, porque seu filho não poderia ser um pastor de ovelhas e sacrificante ao Senhor antes dos 5?
Controvérsias à parte, confesso, de antemão que entendo tanto de Genética quanto de Química, ou seja, o mínimo, somente aquilo que é necessário para não fazer feio em público e para não misturar, por exemplo, manga com leite: que pode não matar, sei muito bem, mas que dá uma dor de estômago dos diabos. Em todo caso, aceito, não digo de maneira dócil, mas cordata, um conhecimento científico de uma área que não domino, enunciado por alguém que desconheço e obtido e praticado através de formas que ignoro. Da mesma maneira que um criacionista ou um crédulo – não são sinônimos, friso – recorrem a um ortodontista para colocar um aparelho dental na boca dos filhos, a um professor para que os eduque, ou a um médico para que os cure, ao invés de deixar tudo ao encargo do Espírito Santo, ou da Santa Chaga do Ombro de Nosso Senhor Jesus Cristo, ou ainda da Hamsá, ou Mão de Fátima (a Fátima filha de Maomé, não a Virgem do santuário português de mesmo nome – o qual, aliás, é bem próxima de onde acharam o Menino do Lapedo). Afinal, deve se dar o crédito a quem é de direito.
Pois o meu campo de estudos, os leitores já sabem, é a História, da Arte e da Cultura, e da Sociedade, e, a seu tanto da Literatura, o que engloba também a Religião e a Mitologia, porque não há cultura sem sociedade, sem literatura, arte, religião ou mitologia (esta, aliás, em grande parte, o fundamento daquela última: pois revelação não que dizer, necessariamente, ditado, podendo muito bem ser compreensão, que se difunde pelo meio literário, como bem o souberam São Jerônimo e Martinho Lutero). E tais descobertas acerca deste “hibridismo entre espécies” – obviamente não estéril, daí as aspas e, afinal, nós mesmos, enquanto seres viventes – ao lado de comprovações, também atuais, de que o Homo sapiens foi responsável pela expulsão dos neandertais, numa primeira etapa, ou pelo seu posterior extermínio, todos esses fatores, em suma, nos permitem pensar numa série de hipóteses várias acerca do destino de uns e de outros, de nós mesmos e de nossa Cultura.
Tendo a acreditar num longo período, sujeito a contendas mútuas, guerras e violências várias, durante o qual houve, efetivamente, uma assimilação entre uns e outros. Não só a Antropologia e a Etnologia dão vários exemplos de situações análogas, como a própria História da América recente (depois da chegada dos europeus), confirma tal suposição. O encontro com o Outro (ainda que horrível, para ambos os lados), nunca impediu a miscigenação ou a troca de culturas. O primeiro Silva Leme que se tem notícia, tronco cujos ramos posteriores fundariam a cidade de Leme, além de várias antes dela, outro não era que não o Cacique, tupi, Tibiriçá. E os descendentes de índios e portugueses abundaram, isolados ou integrados, ao longo de nossa história, assim como os de espanhóis e incas, ou desse e astecas.
Aqueles conúbios em tempos tão recuados (falamos de muitos milhares de anos) ajudariam a explicar vários mitos recorrentes de toda Europa, como aquela casta de homens e mulheres selvagens chamada de sátiros, “homens verdes” (por viverem nas florestas – dos quais já tratamos noutra ocasião, quando das possíveis origens do Papai Noel) ou o Homo selvaticus (cujos sobreviventes, alega-se, viveriam ainda em meados do século XV d.C.: ou seja, pouco antes da descoberta da América). E, cabe destacar, no século XVII, os orangotangos de Sumatra e Bornéu, foram identificados pelos cientistas europeus que a eles tiveram acesso como Simia satyrus, “macacos sátiros”, por supostamente atacarem mulheres, como seus predecessores da mitologia grega. Diante de tal caso, caberia investigar o quanto entrariam os sátiros na designação do animal: em razão dos naturalistas encontrarem semelhanças de comportamento entre uns e outros ou por os julgarem os últimos descendentes, ou remanescentes, dos primeiros? Para a ciência daqueles tempos, esforçando-se ainda para não romper com a tradição, tal hipótese era ainda muito plausível.
E daí para o mito – não para a existência real, faço questão de dizer – de outros seres prodigiosos, mais ou menos modernos, é só um pulo. Pulo do Pé-grande? Pode ser. Ou de Hércules. Ou, em certa medida, de Sansão. Ou ainda de Enkidu, da epopéia de Gilgamesh. Pois os mitos, na maioria das vezes, se equivalem. Somente por um ato de força é que um pode anular o outro.
E como fica o nosso pobre Adão, ou melhor, como ficamos todos nós, seus descendentes, diante dessa história toda? Somos feitos do barro, e insuflados pelo sopro divino, ou da cruza de uma humanidade ainda em formação, que evoluiu sabe-se lá como, e porque motivo? Ou, por fim, somos um híbrido da evolução de um outro, rumo a algo que desconhecemos, por vontade de uma Força Superior, chame-se Ela como melhor Lhe aprouver, já que, em princípio, Ela, ou ELE, é Absoluto?
Em minha opinião, isto pouco importa. Filhos ou não de um Deus, seja porque maneira for, intermediados por um macaco, um sapo ou uma bactéria, até nossa forma final, creio que esta, de fato, nasce com a nossa consciência, formada não sabemos como, nem quando, e que nos permite tanto aceitar como renegar a suposta, ou real, existência de uma divindade, que talvez – ou certamente, como se queira – seja aquela mesma que nos permitiu a própria formulação de tal dúvida. Creio, portanto, que qualquer ligação de um fiel à sua religião, deve se dar mais em razão do cumprimento de seus deveres ao próximo, mesmo que o próximo seja o outro (todas as grandes religiões são unânimes neste ponto, mas o mesmo não posso dizer das várias seitas que hoje se alastram): deixando as questões de outra natureza, que não teológica, para quem está capacitado e livre de entraves dogmáticos. Afinal, onde mesmo foi dito que o “cumprimento da Lei” superaria a “pureza de origem”?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 15 de maio de 2010].

sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Auto-ajuda? Para quem?

Até alguns atrás, freqüentemente, podiam ser encontrados em bancas de jornal livros populares com títulos instigantes como “O Segredo da loteria”, “Fique rico agora mesmo”, “A Loteca desvendada”, “Seja você também um milionário”, coisas assim. Antes disso, quando os cassinos eram legalizados, circulava um material parecido, que anunciava maravilhas aos seus leitores: “A roleta sem mistério”, “Quebre a banca” e que tais. No conjunto, todas prometiam “receitas de sucesso”, que davam mesmo certo, pois seus autores ficaram ricos pura e tão somente por meio daqueles métodos, divulgados a todos, a partir daí, em razão do desejo dos mesmos de que outros pudessem gozar da mesma felicidade.
Mas à vista dos livros, uma dúvida sempre surgia aos menos incautos: se tudo aquilo era verdade, por que aqueles “benfeitores” entregavam o segredo por uns reles trocados? Por acaso eles não temeriam a concorrência? Mais gente apostando, e ganhando, levaria à diminuição dos prêmios. Outro tanto, com as mesmas “práticas empresariais”, digamos assim, reverteria toda a lógica dos negócios, pondo por terra a fórmula mágica. As respostas a estas indagações o grande público nunca soube. Souberam-nas os donos de gráficas, editoras, jornalistas e mesmo a polícia: os autores de tais livros não ficaram ricos pela aplicação dos procedimentos anunciados, mas porque venderam milhares daquelas fantasias impressas a milhares de basbaques. Este era o truque.
Com as expansões do mercado editorial brasileiro, e mesmo do público leitor, somadas à instabilidade econômica, às mudanças nas relações trabalhistas, intra-empresariais, etc., e mesmo a uma certa crise religiosa bastante verificável nas últimas décadas, os livros de auto-ajuda parecem, para muita gente, uma verdadeira tábua de salvação encontrada em meio ao oceano de incertezas que se tornou o mundo moderno. Seu sucesso de vendas pode ser facilmente verificado numa ótima matéria da revista Carta Capital desta semana, que trata do assunto como um todo, com suas várias e múltiplas implicações. Dentre os aspectos mostrados, dois deles chamaram-me a atenção, na medida em que vinha ao encontro da minha própria impressão quando da leitura — movida por pura curiosidade — de certos “clássicos” do gênero.
Em primeiro lugar, o discurso prolixo e errático, misturando conceitos da psicologia com estratégias do marketing mais vulgar, a ciência mais moderna com a superstição mais arcaica, num palavrório que desafia qualquer noção de lógica, coerência e coesão, muito próximo do charlatanismo, aliás, na medida em que agrega tudo e qualquer coisa numa mesma frase, num mesmo corpo de conceitos.
O historiador britânico Peter Burke é autor de dois livros deliciosos, dentre os vários que escreveu, nos quais trata dos diversos usos da linguagem ao longo do tempo. Num deles, Línguas e jargões: contribuições para uma história social da linguagem. (São Paulo, Unesp, 1997. 267p.), há um ensaio de Roy Porter (co-autor do livro) intitulado “Perplexo com palavras difíceis”: o uso do jargão médico. Nele, o autor expõe minuciosamente como o vocabulário técnico dos médicos soava falso e estranho para a população em geral entre os séculos XVI e XVIII. Tal falar arrevesado era a prova cabal de seu charlatanismo para muitos e, especificamente, para os curandeiros e práticos da medicina sem longos estudos regulares. Mas com o tempo, ele ganhou credibilidade. Daí então foi a vez dos charlatões inventarem um jargão mais impenetrável, empolado e esdrúxulo. Podemos dar um desconto tanto a um quanto ao outro campo dos adversários pelo fato de que a ciência, ou melhor, as ciências em geral, naquele período estavam se firmando nas suas bases empíricas: deixava-se o campo da autoridade deste ou daquele autor como fonte das verdades e passava-se para a pesquisa e a experiência como origem do saber. Pois naqueles tempos, desde os mais doutos estudiosos até o mais inculto camponês, do Papa ao ateu mais impenitente, todos viam a intervenção dos astros na vida e na saúde humanas, praticavam sangrias em pessoas exangues e acreditavam em outros mil procedimentos que hoje julgamos risíveis, e que todavia gozaram do papel de certeza científica para alguns, e arrematado bom senso, com o aval da tradição, para outros. Mas que matavam quase tanto quanto às guerras e pestes daqueles dias.
Os tempos atuais têm seus campos bem delimitados. Quando um automóvel é posto em funcionamento ninguém associa a combustão da gasolina à ação do “volátil elemento ar, ativado pelo sublime elemento fogo, produzindo uma transubstanciação do denso elemento terra em sua forma líquida, o petróleo, presidida pelo planeta Mercúrio” — que seria o discurso produzido no período já citado para explicar este processo. Da mesma maneira, ninguém de bom discernimento na atualidade pode reputar a “baixa auto-estima” como um fator determinante de seu próprio malogro profissional numa época em que a demissão em massa é política das grandes empresas. Os fatores são outros, que não passam diretamente pelo indivíduo, tomando-o como causa, mas que o levam de roldão como conseqüência.
Outro ponto delicado é a pretensa divinização do indivíduo, proposta por tais livros. Se por um lado não passam de exercícios espirituais sem espírito algum, jesuitismo sem Jesus, um catecismo de egoístas pregando a salvação da carne pela carne, mesmo se valendo da carne do próximo, se acharem preciso, por outro assemelham-se a adaptações grosseiras dos antigos manuais de corte, que ensinavam ao cortesão a melhor maneira de conciliar seus interesses e frustrações frente à boa-vontade d’El Rei — ou do chefe ou do patrão, nos dias atuais.
Em suma, que o leitor tenha sempre em mente: a melhor “auto-ajuda”, é fruto de reflexão próprias — daí o auto — ajudada pela leitura daqueles magníficos homens e mulheres que sondaram a vida nos seus mais recônditos esconderijos: os grandes filósofos, teólogos, escritores e pensadores. O resto é conversa fiada. Pois um sujeito que se propõe a escrever um livro de auto-ajuda só está pensando é na sua própria ajuda.
Voltaremos a este assunto.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 12 de novembro de 2005].

O fim e o começo. Ou seria o contrário?

Quando faltavam exatos dez dias para o fim de 2005, tomei uma modesta resolução: decidi que não leria mais jornal ou assistiria a qualquer noticiário pela televisão até o dia dez de janeiro. Assim, passei exatos vinte dias cuidando da vida, pondo as leituras em ordem e, de vez em quando, vendo um ou outro filme. E pelo que vejo, agora que retornei àqueles hábitos por tão pouco tempo suspensos, não perdi quase nada.
Todo final de ano tem sido a mesma coisa na grande imprensa e na televisão. Numa, vemos as edições minguarem de tamanho, até alguns cadernos saem de circulação. Noutra, é a mesma charanga de sempre, os mesmos “especiais de fim-de-ano”, que de tão repetitivos tornam-se a verdadeira antítese da palavra especial. Sempre os mesmos rostos, cantando as mesmas músicas, repetindo coreografias que de início já eram sem imaginação. Poupei-me também de assistir àqueles programas que se pretendem “inventivos”, testando “novos formatos”, e que na verdade nunca passam do velho folhetim que vem dos tempos áureos do rádio, só que com imagens moderninhas e piadas um pouco mais picantes.
Outras coisas realmente aborrecidas de que me livrei, graças à minha singela resolução, foram daquelas mal-fadadas retrospectivas do ano. Que time ganhou o campeonato, qual foi rebaixado, quem morreu, quem foi preso, quem bateu não sei qual recorde, quem disse as maiores bobagens ao longo do ano, se um terremoto na Ásia matou mais gente do que um furacão na América, ou se uma nevasca na Europa fez mais estrago do que uma inundação sabe lá onde, e tudo costurado no mesmo saco, como se feitos da mesma matéria e como se tudo aquilo fizesse algum sentido na vida. Foi bom também não assistir àqueles gurus, profetas, videntes e quejandos — e incluam-se aí também os economistas e cientistas políticos palpiteiros — com seus prognósticos, expectativas, profecias, ou que nome queiram dar, e todas elas se não impossíveis, certamente improváveis.
Por fim, gostei bastante de não ser forçado a engolir toda aquelas idênticas propagandas natalinas, fosse para vender brinquedos, planos de capitalização ou celulares, com suas crianças fingindo pureza, e algum tosco Papai Noel anunciando as maravilhas disto ou daquilo, “pelo menor preço”. Uma coisa tem de ser dita, entretanto, a respeito destas peças publicitárias, das poucas que vi: neste ano elas foram extremamente sinceras. Nada daquela hipocrisia de outros Natais, quando se falava em paz, concórdia e amor como mero disfarce para as intenções reais, que era vender um determinado produto, uma espécie de anestesia antes da facada. Não. Este ano a publicidade nem sequer fingiu boas intenções, só queria vender, vender, vender, sem apelar para qualquer espírito natalino ou às nossas consciências porventura culpadas. Deve ser por isto que a figura de Jesus foi integralmente banida da televisão. Jesus não vende máquinas de lavar roupa nem panetone. Papai Noel vende até o Nada, e embalado para presente. Merecia o prêmio de profissional de marketing do ano.
Pois bem, chegou o dia dez de janeiro e abri o jornal. E ainda se falava daqueles famigerados Valério, Delúbio e o mensalão (indiscutivelmente, a gíria do ano), e uma CPI tão longa que mais parece ir se constituindo já num quarto Poder, ao lado do Executivo, do Legislativo e do Judiciário. Li que um general brasileiro se matou no Haiti, sem qualquer motivo aparente, depois de um dia absolutamente normal, e sem deixar um bilhete sequer. Um caso que, certamente, entrará para os anais dos estudos sobre o suicídio, de tal maneira é atípico. Soube que o Primeiro-ministro de Israel está prestes a esticar as canelas porque, disseram-me, na véspera de seu primeiro derrame almoçara hambúrgueres, bifes com molho chimichurri, costeletas de cordeiro, espetinhos de carne, salada e duas porções de bolo de chocolate. Mas há quem diga que na verdade ele sofreu uma praga de um grupo de religiosos. Seja como for, parece mesmo que ele há de morrer pela boca: pela sua, glutona, ou pela dos rabinos, fulminantes.
Em suma, quase nada que nos diga respeito diretamente. Pois nossa vida prosseguirá a mesma, quer com a punição de fulano e beltrano, ou não, com um general a mais ou a menos, sem este ou aquele primeiro-ministro seja lá de onde for. Mas duas notícias realmente são de assustar. A primeira é a que prevê alterações drásticas no clima do Planeta, não mais para daqui a dez anos, mas para este ano mesmo. E a segunda, que surge qual evento do Apocalipse, é a tal gripe aviária, a um passo da evolução para um estágio mais letal, não mais passando das aves para o homem, mas de homem para homem. Tal qual a Peste Negra, surgida no extremo Oriente, e que no início se limitava aos ratos e que entrou na Europa também pela Turquia.
Ao que parece, neste ano assistiremos ao começo de algo muito ruim. Ou será que assistiríamos já ao fim? Melhor batermos na madeira e, de preferência, madeira de reflorestamento.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 15 de janeiro de 2006].

A incessante marcha do mau-gosto

Duas exposições, que certamente causarão um grande impacto junto ao público, foram abertas por estes dias no Parque do Ibirapuera, em São Paulo, naquele local conhecido como Oca — assim apelidado em razão de suas formas possuírem uma vaga semelhança com a moradia de nossos índios tupis, mas cuja aparência remete mais à moradia dos esquimós, o famoso iglu (e, como este, impessoal e frio por fora, ao mesmo tempo que quentíssimo, um verdadeiro forno, por dentro).
A primeira tem como tema a vida e a obra do célebre artista italiano Leonardo da Vinci (1452-1519), e dela trataremos em breve. Já quanto à segunda, que é o nosso assunto de hoje, trata-se da exposição “Corpo humano: real e fascinante”, que exibe ao público dezesseis cadáveres de homens e mulheres e duzentos e vinte e cinco órgãos dissecados e preservados graças a um processo conhecido como “polimerização”, o qual dá aos corpos uma aparência e textura semelhantes à do plástico, e que impede a sua decomposição.
Esta nova edição do tradicional Gabinete de Horrores — pois por este nome eram intituladas certas seções destinadas a tal temática ou assuntos correlatos nos museus de cera do século XIX — foi organizada por Roy Glover, professor de anatomia da Universidade de Michigan, EUA. Entretanto, não se trata, sequer, de uma idéia original: pois em Berlim, Alemanha, no ano de 2001, o médico Gunther von Hagens, inventor do tal processo de conservação dos corpos — à época chamado de “plastinação” — conquistou a atenção mundial graças a uma exposição semelhante e que se chamava “Mundo dos Corpos”. E nela não exibia os meros dezoito corpos de sua congênere paulistana, mas, sim, duzentos.
Todavia, por mais que as exposições se pareçam, elas possuem suas diferenças. A atual, da Oca, alega mostrar os restos mortais embalsamados sob uma ótica que se diz “científica”. Já a de von Hagens, ainda que alegasse ser igualmente “científica”, chegou a expor os corpos de uma maneira “dramática”: foram dispostos de tal maneira que sugeriam ao espectador desempenharem verdadeiras cenas teatrais (um corpo ajoelhado, com as mãos postadas como numa prece e, sobre elas, o coração, real, do “modelo”); ou, ainda, sob a aparência de uma explicação científica, uma horrenda linha da vida humana pelo método mais brutal: uma série de corpos dispostos qual se obedecessem a uma narrativa, e da qual faziam parte vários fetos humanos “plastificados” exibidos em seqüência até atingirem o estágio de um bebê. Ficou também famosa a adaptação que o médico alemão fez de uma pintura de Salvador Dalí cujo tema era a “Vênus de Milo”. Se, por um lado, o pintor espanhol fez uma releitura daquela estátua clássica, inserindo gavetas no corpo da figura (dizem uns que para criticar a mania ocidental de tudo reduzir a compartimentos fechados, dizem outros que para declarar que aquela obra de escultura, como referência cultural, banalizara-se a tal ponto que mais se assemelhava a uma cômoda), por outro, o médico alemão adaptou a idéia de Dali para fins mais “didáticos”: nas gavetas de seus corpos, viam-se os órgãos correspondentes. Homenzinho sutil este von Hagen, não?
Por maiores diferenças que a exposição de Berlim e a de São Paulo possuam, uma coisa elas têm em comum. Trata-se do fato das “peças” exibidas terem a mesma procedência: foram fornecidas por uma universidade chinesa que se vale de corpos de criminosos condenados à morte para seus estudos. Os organizadores negam, e alegam que os corpos são de pessoas que tiveram morte natural e, ainda em vida, optaram por doar seus restos em benefício da ciência e da educação na China. Mas você, leitor, acredita? Por mais que os afoitos de sempre acalentem, nos dias atuais, a adoção da pena capital na terra brasileira, não podemos nos esquecer de que as execuções chinesas são notórias pela sua falta de humanidade: o processo é perverso, o direito à defesa é mínimo e a família do condenado ainda arca com os gastos da execução: paga pela bala que deu cabo do infeliz. Isto lá é justiça? Dá para acreditar em “doação”? E, por outro lado, é moral exibir os corpos destes pobres diabos, quase que eternamente?
Autoridades religiosas várias, na Alemanha, condenaram o episódio. E a Igreja Católica naquele país resumiu as queixas numa declaração em que alegava que a exposição exibia a morte de maneira banal, como se nela estivesse excluída a presença de Deus. E está certa. Para milhões de pessoas no mundo, a morte não é só física. Claro que o direito de quem quer doar seu corpo para transplantes deve ser respeitado, ou até, melhor dizendo, incentivado. Mas para a ciência? Jeremy Bentham (1748-1832), filósofo e jurista britânico que provou a inutilidade da pena de morte enquanto noção coercitiva do crime (ou seja, que ela não funciona enquanto intimidação aos criminosos), doou seu corpo para a Faculdade de Medicina de Londres. Mumificado, ficou ele, ou o que restou dele, exposto numa vitrine até poucos anos atrás. E com que finalidade? Escrevam se souberem de uma.
Creio que seja indiscutível a necessidade dos estudantes de medicina terem contato e experiência com a dissecação de corpos humanos. Por maiores conhecimentos que possuam de anatomia, através de livros e imagens, o desafio de cortar a carne, sentir sua resistência, avaliar seu aspecto, e chegar a uma conclusão do que foi visto, é indispensável no saber médico. E, também, no fazer médico: pois por meio de tais pesquisas ajustam, desenvolvem, aprimoram o peso ou a leveza de suas mãos em quem não precisa reclamar de dor, e assim resguardam seus futuros pacientes. Pois alguém, por mais boa vontade que possua, ou alertado para o fato, cederia sua própria pele para a aprendizagem alheia?
O mesmo pode ser dito quanto aos estudantes de enfermagem e áreas afins, pois um suficiente conhecimento do assunto no seu aspecto mais “duro”, é ponto pacífico.Como também para os de Direito, já que a Medicina Legal é uma disciplina obrigatória nas boas faculdades. Mas, por outro lado, o que leva uma pessoa comum, alheia a estes campos do saber, a visitar uma exposição desta natureza? Curiosidade em relação à anatomia humana? Ou será que não se trata de uma completa falta de abstração ou poder de imaginação, para não falar em clara morbidez? Porque nada que esteja ali nunca deixou de ser mostrado — seja como ilustração ou fotografia, e até nos livros didáticos mais reles — ao redor do mundo e há bem um século. Assim, a questão, no fundo, não é proibir a exposição ao público, longe disso. É a de argumentar quanto ao tipo de público que está interessado nela.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 3 de março de 2007].

O IgNobel, o Nobel e certas práticas ignóbeis

Já tratei, anteriormente, neste espaço, do Prêmio IgNobel, uma sátira ao Prêmio Nobel criada pela revista Annal of Improbabel Research (Anais da Pesquisa Improvável), que, desde 1991, vem agraciando diversos cientistas, em razão dos estudos a que se dedicam e dos resultados obtidos, aparentemente ridículos. A justificativa dos organizadores do evento seria homenagear pesquisas e experiências que, à primeira vista, causam riso, mas depois dão o que pensar. Ao mesmo tempo, a publicidade dada a tais trabalhos serviria como um tributo à imaginação, além de uma maneira de ampliar o interesse das pessoas pelas ciências como um todo. E, por este motivo, a lista das categorias contempladas pode variar, dependendo da qualidade e natureza das pesquisas tidas como mais curiosas.
Se, por um lado, existe uma constância quanto à Medicina, à Paz, à Literatura, por outro, já foram concedidos prêmios à pesquisa nas áreas de Estatística, Entomologia, Aeronáutica, e por aí afora. Mas é injusto pensar que tudo não passa de uma simples chacota, quando não verdadeiro escárnio. Pois os prêmios são entregues na célebre e prestigiadíssima Universidade de Harvard, pelas mãos, justamente, de ganhadores do Prêmio Nobel.
É claro que, muitas vezes, é difícil levar a sério uma pesquisa como a que ganhou o IgNobel de Medicina deste ano: uma investigação de Dan Meyer e Brian Witcombe quanto aos efeitos colaterais a que estão sujeitos os engolidores de espadas. Mas, se pensarmos bem, estes artistas do picadeiro não merecem também a atenção da ciência, quanto à preservação de sua saúde? Houve,por exemplo, uma pesquisa ganhadora do prêmio de 2001, na mesma área, de autoria de Peter Bass, da Universidade McGill, do Canadá, dedicada aos ferimentos causados às pessoas pela queda de cocos sobre elas. Parece uma bobagem, mas cientistas de muitos países tropicais se interessaram por ela. Bem como agências de turismo e companhias de seguro: num mundo globalizado, onde as pessoas escolhem as mais variadas rotas turísticas, é de se compreender seu sucesso.
O Ignobel da Paz, de 2006, concedido a Howard Stapleton, do País de Gales, é, na minha opinião, um dos mais curiosos. O autor se dedicou a inventar um aparelho que emitiria uma onda de som em alta freqüência audível, supostamente, apenas por adolescentes, com a finalidade de afastá-los de determinados espaços públicos, evitando assim a depredação do patrimônio. Todavia, para a sua infelicidade, o efeito foi o inverso: o som revelou-se agradável aos jovens, tornando-se um toque de celular utilizado por eles para falarem e trocarem mensagens durante as aulas sem que os professores percebessem. Está certo que foi um desastre, mas que a idéia era boa, ninguém pode ter dúvida. Pensemos em todos aqueles menores de idade que, ilegal e impropriamente, bebem e fumam em postos de gasolina até altas horas, ou na freqüência, também ilegal, dos mesmos em casas noturnas, ou naqueles que se lançam, com sprays de tinta em punho, a emporcalhar prédios, monumentos, etc. Se o aparelho tivesse funcionado a contento, a lei, a ordem, o patrimônio e a saúde pública seriam preservados, sem a necessidade de deslocamento de policiais, assistentes sociais, membros dos conselhos tutelares, sem o desgaste dos pais.
Tratamos, portanto, até agora, do que parecia absurdo, e que no entanto não é, nas obras dos ganhadores do IgNobel. Mas o que dizer dos comportamentos, por vezes ignóbeis, dos ganhadores do Prêmio Nobel?
Há alguns meses, o escritor alemão Günter Grass, Nobel de Literatura em 1999, considerado por décadas uma espécie de consciência crítica de seu país, por não se negar a pôr o dedo na chaga ainda aberta do nazismo, que muitos preferiam esquecer, declarou ter sido um membro, por sinal voluntário, da temível Waffen-SS, tropa de elite do regime nazista, notória por suas atrocidades na Segunda Guerra. Já era sabido, e confessado publicamente por ele, que participara da Juventude Hitlerista. Até aí, nada de mais. Naquele tempo, quase não se tinha escolha, salvo se a pessoa contasse com um pistolão que a livrasse. Para a maioria, era a participar ou ser enviado a um campo de concentração. Foi o que aconteceu, ao que tudo indica, por exemplo, com o então jovem Joseph Ratzinger, hoje, S.S. Bento XVI. O que incomoda é: por que Grass só agora confessou tal fato? Para que tal declaração não lhe roubasse prêmios, prestígio, leitores? Por medo de que a verdade viesse à tona pela voz de outro que não ele?
Depois veio o norte-americano James Watson, não o simpático e correto John Watson, médico e companheiro de aventuras de Sherlock Holmes, mas o descobridor da estrutura molécular do DNA — juntamente com Francis Crick e Maurice Wilkins —, ganhador do Nobel de Medicina de 1962. Eis que, no domingo passado, numa entrevista, o pesquisador afirmou-se “inerentemente pessimista quanto às perspectivas da África” porque “todas as nossas políticas sociais estão baseadas no fato de que a inteligência deles é a mesma que a nossa – enquanto que todos os testes dizem que não é assim”. Ele também afirmou desejar (!) que todos fossem iguais, mas argumentou que “pessoas que têm de lidar com empregados negros descobrem que isso não é verdadeiro”. A estas brutalidades desse renomado pesquisador, somam-se outras, vindas do passado, e relembradas agora: a crença numa exacerbada sexualidade existente nos homens negros (idéias defendidas pela Ku-Kux-Klan, a famigerada fraternidade racista estadunidense, para encher de medo as mulheres brancas, vítimas potenciais de tais “algozes naturais”); sua proposta de permitir livremente o aborto quando descoberta a possibilidade “genética” (!) da criança se tornar um homossexual; e, por fim, sua declaração de vontade quanto à extinção futura das pessoas consideradas feias, através de um certo “planejamento genético”. Quanto a esta última, só posso pensar que tenha sido dita para “fazer uma média”, como falam por aí. Porque ele é feio que dói.
Para coroar o rol de frases imbecis ditas por ganhadores do Prêmio Nobel, a escritora britânica Doris Lessing, agraciada este ano, afirmou esta mesma semana que os atentados de 11 de setembro de 2001 nos Estados Unidos “não foram tão terríveis”, se comparados aos ataques do Exército Republicano Irlandês (IRA) na Grã-Bretanha e na Irlanda do Norte. De fato, foram 3.700 mortes, nas ações do IRA, contra 3.000, nas Torres Gêmeas. Só que, quanto ao primeiro caso, as baixas se deram ao cabo de 30 anos de conflito, num Império em boa parte decadente. Quanto ao segundo, tudo se deu num único dia, num Império ainda em expansão e que, por conta de tal feito, alterou a geopolítica do planeta inteiro sabe-se lá ainda por quanto tempo mais.
Não quero dizer, aqui, que o IgNobel é melhor que o Nobel. Mas seria interessante considerar se, diante da genialidade de uns, não seria preferível, ético, moral, acolher a aparente comicidade de outros. Decerto que nem sempre. Mas de vez em quando, pelo menos.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 27 de outubro de 2007].

quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

No deserto de homens e livros

Há certo tempo, mencionei um livro, dentre os muitos que formam a cultura ocidental que jamais foi publicado no Brasil. Para quem se lembra, era, no caso, Le Vite delle più eccellenti pittori, scultori, ed architettori..., de Giorgio Vasari, um monumento histórico sem par, um verdadeiro diamante. Mas há outras pedras preciosas da erudição, que, lapidadas, já se tornaram jóias, converteram-se em tesouros em muitos países, e que, por nestas nossas plagas desoladas, nem sequer poderíamos chamá-las de pedras brutas ou diamantes sem jaça. Aqui, são verdadeiros minérios desconhecidos.
Poderíamos começar por Aristóteles (384 - 322 a.C.), um dos pilares de nossa civilização, para o bem e para o mal, cuja obra nunca foi publicada, nesta terra, na sua integralidade, e de forma sistemática. Plínio, o velho (24 - 79 d.C.), escreveu um compêndio de tudo, ou quase tudo, daquilo que o mundo – que hoje chamamos de “antigo” – conhecia, em termos de ciência, história, costumes, etc. E não era só uma obra de “gabinete”, longe disto. Plínio era um pesquisador de campo. Tanto que quis verificar, in loco, uma erupção do vulcão Vesúvio, por conta da qual, vítima, e senhor, de seu zelo, acabou por perecer. Ele e as cidades de Pompéia e Herculano. Mas isto é anedótico. O fato é que compôs, em seu tempo, uma espécie de “enciclopédia”, um resumo do saber humano de então. Como também o fez Santo Isidoro de Sevilha (560 – 636), por alguns considerado, hoje, o santo padroeiro dos (bons) usuários da Internet. E já que falamos em enciclopédias, não existe, sequer, uma boa versão da Enciclopédie dos iluministas franceses, base da teoria moderna do conhecimento humano, e das noções, ainda, felizmente, atuais, de Liberdade, Igualdade e Fraternidade – um direito de toda a humanidade, e não só uma legenda da Franco-Maçonaria.
Mas a lista é infindável. As ausências, em muitos casos, são bem mais evidentes que as presenças. E não me refiro apenas aos livros da Antigüidade. Muitos modernos, ou nem tão modernos, permanecem inéditos em nosso país. Veja-se o caso, por exemplo, dos Tristes Trópicos, de Claude Lévy-Strauss. Análise implacável do Brasil, publicado na França, nos anos 1930, só foi editado por aqui há meros dois anos.
Outras obras fundamentais, todavia, nem sequer tiveram esta sorte. Costumo dizer que, no nosso país, ainda vivemos num Universo no qual a Terra é o seu centro, num modelo em que é o Sol e os outros planetas que gravitam ao redor dela, e não o contrário. Absurdo? Qual o quê! Até hoje não existe uma tradução brasileira do livro de Copérnico (1473-1543) Da revolução das esferas celestes, de 1543, que virou tudo de pernas para o ar e mandou muita gente para a fogueira: Galileu Galilei (1564-1642), por exemplo, dela escapou por muito pouco. Como vêem, da teoria heliocêntrica, conhecemos só de ouvir falar...
Citam-se anjos a torto e a direito, metem-nos na astrologia, nos relacionamentos, nas dietas, fazem deles verdadeiros mascotes, aqui e ali, são invocados por nomes que só a mais recôndita teologia os conhece e, no entanto, a obra fundamental sobre eles, Da Hierarquia Celeste, do século V, jamais foi vertida para o português do Brasil.
Vê-se, portanto, que nossa terra ainda é aquele deserto de homens e livros de que falava o poeta... Livros, não os há, nem quem os publique!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 12 de julho de 2008].

Máquinas do tempo

Dizem as más línguas que os historiadores adoram velharias. Não é verdade. Não colecionamos telefones de baquelite, ferros de passar roupa aquecidos a carvão, antigos estribos, luminárias de trens, e coisas do gênero. Temos curiosidade quanto a estes objetos e, não raro, alguns de nós têm, de fato, alguma velharia em casa. Mas a maioria delas, se ali se encontra, deve-se mais por um fator afetivo do que a um verdadeiro “culto”: são frutos de herança, ou um achado num antiquário, ou ainda algo que nos sirva de lembrete quanto às mudanças no correr do tempo.
Também é exagero dizer que os historiadores vêem as cidades ditas “históricas” como uma espécie de “parque de diversões” de usufruto exclusivo da “categoria”. Amo Ouro Preto graças a motivos que me são muito particulares e porque, também, é uma beleza de cidade. Por outro lado, tenho colegas que não trocam São Paulo por nada, pouco se lixam quanto à preservação do patrimônio histórico, e preferem os arquivos, os textos antigos, a qualquer “atmosfera”, “cenário”, ou como se queira chamar o ambiente das nossas venerandas urbes com seus antiqüíssimos prédios.
Outro engano que precisa ser desmentido trata do “sonho” dos historiadores de que fosse criada uma máquina do tempo, a qual permitiria uma visita ao Passado. Não nego que, por mais absurdo, e improvável, por tudo que se conhece da Física, tal invento desperta, às vezes, uma certa vontade de que ele existisse. Mas não para que fizéssemos aquilo que a imensa maioria das pessoas gostaria de fazer. Não voltaríamos a Roma para impedir o assassinato de Júlio César, ou a Jerusalém para impedir a crucificação de Cristo, ou ainda para o México ou para o Peru com o fim de revelar aos astecas e aos incas que os conquistadores não eram deuses. Tais atitudes alterariam de tal maneira o futuro, que poriam em risco até a nossa própria existência. A propósito desta complicação e de suas possíveis conseqüências, é freqüentemente citado o “paradoxo do avô”. Imaginemos que um sujeito – vamos chamá-lo de José – volte no tempo e, acidentalmente, mate seu avô. Com o homem morto, nem José, nem seu pai, teriam nascido, logo José jamais poderia ter voltado ao Passado; mas, no entanto, ele voltou, e matou sem querer seu avô, porém com o avô morto ele não poderia ter partido. Vejam, é um círculo vicioso, e lógico, que impede a coisa por si só. Confesso que não gosto muito deste exemplo. É radical por demais. Prefiro um que eu mesmo elaborei, mais amplo, mais sujeito ao acaso que uma intervenção no Passado poderia criar. Imaginemos que, com as roupas e o dinheiro apropriado – tudo para não destoar do tempo – voltemos à cidade de São Paulo nos anos 1920 e entramos num bonde, apinhado de gente, ocupando o lugar de alguém “destinado” a tomar aquela mesma condução. Eis que esse alguém carregava uma carta que solucionaria alguma questão complicada e urgente. Mas tomamos seu lugar, ele se atrasou, o destinatário, sem resposta, matou-se, e seu colega de quarto, abalado pela perda e pela súbita compreensão da efemeridade da vida, ao invés de voltar para a terrinha e desposar sua noiva, decide tentar a sorte no Mato Grosso. Agora imaginemos que este colega de quarto do falecido, cuja carta nunca chegou, porque tomamos o lugar do seu emissário no bonde, fosse nosso avô. Teria ele, decerto, seus netos mato-grossenses, mas não nós. E como poderíamos ter viajado ao Passado?
Sei que as impossibilidades apresentadas no primeiro exemplo, e no segundo, são praticamente as mesmas. Mas cada exemplo fala por si próprio quanto à extensão do dano possível ao Futuro em ambos os casos: quer seja a interferência radical (“morte do avô”) quer seja incidental (“viagem do avô”).
E a quantidade de senões, em razão destes paradoxos, cresce de forma exponencial. Imaginemos que pudéssemos voltar, por exemplo, à Roma Imperial, levando autênticas moedas do período. Como seria possível que coexistissem as nossas moedas (antigüidades) e as mesmas, as mesmíssimas peças, que então correriam livremente? E ainda que as cunhássemos a partir do ouro de jazidas recém-descobertas, correríamos o risco de provocar uma inflação de preços ou de financiar atividades que não estavam “previstas” na História.
Ou seja, por maior que seja a vontade de espiar alguns momentos do Passado, para compreender desde aspectos mais importantes como trivialidades do dia-a-dia, esta seria uma viagem que nenhum historiador faria. Historiador responsável, quero dizer. Para os irresponsáveis, felizmente, temos ainda as impossibilidades físicas e tecnológicas a barrarem-lhe os caminhos.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 20 de setembro de 2008].

Médicos e monstros

De todos os livros que li na infância, o meu predileto era “A Ilha do Tesouro” (1883), de Robert Louis Stevenson (1850-1894). Aquela trama de um tesouro enterrado numa ilha distante e de um misterioso mapa indicando seu paradeiro, fascinavam-me. Sem falar no rico desfile de personagens magníficos, fossem eles “vilões”, fossem “heróis”. Jamais serei capaz de esquecer a cena em que um velho pirata, inteiramente maligno, o cego Pew, que, depois de assassinar um seu antigo camarada, e quase fazendo o mesmo ao protagonista, é encurralado numa ponte de madeira, e esmagado pelos cascos dos cavalos da guarda que rumavam em sua captura. O som daquelas patas nas pranchas da ponte ribombam até hoje em meus ouvidos. Quando li o romance, aquela impressão foi tão forte – a narrativa da cena, como um todo – que comuniquei ao meu pai o quanto eu sentira o vívido efeito do episódio. Confessou-me ele que, quando lera o mesmo livro, décadas antes, sentira a mesma coisa: um misto de terror e uma prova de verossimilhança que jamais se-lhe pagou da memória. Lendo algumas análises sobre o livro – hoje enclausurado na categoria de “literatura juvenil” – notei que inúmeros estudiosos, e amantes das belas-letras, compartilharam da mesma sensação. O grande escritor argentino Jorge Luís Borges (1899-1986) era um deles, como soube mais tarde.
Apesar de todos os piratas fascinantes, para o bem e para o mal, que o livro exibe, ressalta-se a bela sociedade formada pelos homens de bem que partem a caça ao tesouro. São, todos eles, notáveis, modelos de virtude, e dentre aqueles heróis, ressalta-se a figura do Doutor Livesey, médico, cavalheiro, Valendo-se, na mesma medida, da ação e do puro raciocínio: dispara sua arma com a mesma precisão com que trata dos feridos.
O mesmo Robert Louis Stevenson, não bastasse ter criado aquele clássico, foi capaz de trazer à luz um outro ainda mais espetacular, a semente de mil histórias de terror, contos fantásticos, o embrião de nove entre dez filmes de suspense. Este foi o caso do conto, ou novela curta, intitulado “O Estranho caso do Dr. Jekyll e do Sr. Hyde” (1886), ou, como é comum dizer, “Dr. Jekyll e Mr. Hyde”, ou ainda, “O Médico e o monstro”. O conto, ou novela, demonstram, empiricamente, mais avanços sobre os estudos da mente – é um daqueles caso em que a Literatura antecipa-se à Ciência — do que toda a medicina da época fora capaz de elucidar. Da demência alcoólica à dependência de narcóticos, da esquizofrenia ao “Incrível Hulk”, tudo está esboçado em suas páginas. Inclusive a mania, suicida, comum à época, de muitos médicos transformarem-se, eles mesmos, em cobaias de seus próprios experimentos.
Treze anos depois, George Bernard Shaw (1856-1850), o mago dos palcos ingleses, em sua peça teatral “O Dilema de um Médico” (1906), atacará todo o sistema de saúde em seu país, o status da medicina enquanto uma espécie de “nova religião revelada”, a “síndrome de Deus” — da qual padecem muitos clínicos e especialistas —, como, também, a completa sujeição das populações, das mais variadas origens, ao “discurso médico”, esteja ele correto ou não. E, diga-se, a peça, em si, não é uma de suas melhores, mas o prefácio vale por uma aula: corroborando a visão de uma certa hipocrisia dos médicos do Passado, alertando quanto aos desmandos verificados em seu Presente, e alertando quanto ao Futuro — aspectos estes que, no século XX, seriam amplamente comprovados por estudiosos como o filósofo francês Michel Foucault (1926-1984), ou pelo historiador britânico Peter Burke (1937), dentre outros.
Certo, mas o que isto tudo tem a ver com a crônica desta semana? Tudo e nada, ao mesmo tempo.
Há muita gente séria no ramo da Medicina. Mas, também, uma bela soma de patifes, de entremeio. E grande parte das novas gerações que alega seguir os votos de Esculápio e o Juramento de Hipócrates, fraudam o primeiro e cometem perjúrio quanto ao segundo. Veja-se o caso dos estudantes de Londrina e a arruaça que fizeram. Veja-se o comentário do responsável pelo Conselho Regional de Medicina do Estado de São Paulo, afirmando que a maioria das pessoas que quer seguir a carreira, abraça-a mais por uma expectativa de ganhos, e status, do que por vocação, respeito ao próximo, amor à Ciência...
Em suma, há médicos e há monstros, como há médicos que são verdadeiros monstros. Portanto, olho vivo. E que os profissionais de bem, valorosos, que são muitos, protejam a sociedade, livrando-a dos usurários da saúde, dos avaros dos exames, dos relapsos dos diagnósticos, dos que vêem seus pacientes mais como “clientes” e menos como “pacientes”. E que coloquem essa molecada insensível e mercenária em seu devido lugar. Será que isto é pedir muito? Será que, tanto os médicos de bem, de princípios, como os pacientes, não irão, efetiva, cristã e honradamente “ganhar” com isto?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 13 de dezembro de 2008].