quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

No deserto de homens e livros

Há certo tempo, mencionei um livro, dentre os muitos que formam a cultura ocidental que jamais foi publicado no Brasil. Para quem se lembra, era, no caso, Le Vite delle più eccellenti pittori, scultori, ed architettori..., de Giorgio Vasari, um monumento histórico sem par, um verdadeiro diamante. Mas há outras pedras preciosas da erudição, que, lapidadas, já se tornaram jóias, converteram-se em tesouros em muitos países, e que, por nestas nossas plagas desoladas, nem sequer poderíamos chamá-las de pedras brutas ou diamantes sem jaça. Aqui, são verdadeiros minérios desconhecidos.
Poderíamos começar por Aristóteles (384 - 322 a.C.), um dos pilares de nossa civilização, para o bem e para o mal, cuja obra nunca foi publicada, nesta terra, na sua integralidade, e de forma sistemática. Plínio, o velho (24 - 79 d.C.), escreveu um compêndio de tudo, ou quase tudo, daquilo que o mundo – que hoje chamamos de “antigo” – conhecia, em termos de ciência, história, costumes, etc. E não era só uma obra de “gabinete”, longe disto. Plínio era um pesquisador de campo. Tanto que quis verificar, in loco, uma erupção do vulcão Vesúvio, por conta da qual, vítima, e senhor, de seu zelo, acabou por perecer. Ele e as cidades de Pompéia e Herculano. Mas isto é anedótico. O fato é que compôs, em seu tempo, uma espécie de “enciclopédia”, um resumo do saber humano de então. Como também o fez Santo Isidoro de Sevilha (560 – 636), por alguns considerado, hoje, o santo padroeiro dos (bons) usuários da Internet. E já que falamos em enciclopédias, não existe, sequer, uma boa versão da Enciclopédie dos iluministas franceses, base da teoria moderna do conhecimento humano, e das noções, ainda, felizmente, atuais, de Liberdade, Igualdade e Fraternidade – um direito de toda a humanidade, e não só uma legenda da Franco-Maçonaria.
Mas a lista é infindável. As ausências, em muitos casos, são bem mais evidentes que as presenças. E não me refiro apenas aos livros da Antigüidade. Muitos modernos, ou nem tão modernos, permanecem inéditos em nosso país. Veja-se o caso, por exemplo, dos Tristes Trópicos, de Claude Lévy-Strauss. Análise implacável do Brasil, publicado na França, nos anos 1930, só foi editado por aqui há meros dois anos.
Outras obras fundamentais, todavia, nem sequer tiveram esta sorte. Costumo dizer que, no nosso país, ainda vivemos num Universo no qual a Terra é o seu centro, num modelo em que é o Sol e os outros planetas que gravitam ao redor dela, e não o contrário. Absurdo? Qual o quê! Até hoje não existe uma tradução brasileira do livro de Copérnico (1473-1543) Da revolução das esferas celestes, de 1543, que virou tudo de pernas para o ar e mandou muita gente para a fogueira: Galileu Galilei (1564-1642), por exemplo, dela escapou por muito pouco. Como vêem, da teoria heliocêntrica, conhecemos só de ouvir falar...
Citam-se anjos a torto e a direito, metem-nos na astrologia, nos relacionamentos, nas dietas, fazem deles verdadeiros mascotes, aqui e ali, são invocados por nomes que só a mais recôndita teologia os conhece e, no entanto, a obra fundamental sobre eles, Da Hierarquia Celeste, do século V, jamais foi vertida para o português do Brasil.
Vê-se, portanto, que nossa terra ainda é aquele deserto de homens e livros de que falava o poeta... Livros, não os há, nem quem os publique!

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 12 de julho de 2008].

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