quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Meio-dia no cemitério

O título da crônica desta semana sugere uma paródia às histórias ou filmes de terror. Porém não se trata disso. Está mais para um apólogo moral, ainda que com ares de anedota. E, o que é mais curioso, inteiramente verídico. Mas vamos à história.
Tudo aconteceu no último domingo, nas idas e vindas de uma pesquisa que eu realizava, numa gélida e escura sacristia de uma igreja de Ouro Preto, debruçado sobre um missal de 1798, fazia já umas duas horas. Para desentorpecer um pouco as pernas e aquecer-me um pouco ao sol, saí para o adro, acendi um cigarro e pus-me a pensar na vida. Mas antes de que qualquer idéia me viesse à mente, eis que um conhecido, professor universitário de Goiás, de quem não tinha notícias havia certo tempo, surge, como se do nada, à minha frente. A conversa correu lindamente, ele contando-me suas descobertas, e eu alguns modestos achados, a ponto de quase ter me esquecido do que tinha ido fazer ali. Despedimo-nos e retornei aos meus afazeres. Mas quando retorno à sacristia, dou com a cara na porta. Bato nela. Nada. Espio pelas vidraças e vejo apenas o missal sobre o arcaz, com minha lupa e meu caderno de notas ao lado. Nenhum sinal do Presidente da Irmandade, meu anfitrião. Quando já pensava em ir procurá-lo em sua casa, vi seu vulto acenando-me do cemitério, contíguo à igreja. E fui até ele.
Encontrei-o conversando com um velho paroquiano, que conhecia de vista, tratando de assuntos pontuais da confraria, assuntos que, absolutamente não me diziam respeito, mas dos quais não declinei de participar: é, de fato, uma espécie de honraria, para alguém de fora, ser admitido em tais palestras. E enquanto discorríamos sobre uma nova reforma do cemitério, aproximou-se de nós o coveiro da irmandade, trazendo numa das mãos um saco plástico, de cujo conteúdo, no mesmo instante, intuí a natureza: não havia dúvida de que se tratava de uma ossada. Entre a estranheza e o decoro, por educação e piedade, contemplamos, todos, aquele macabro invólucro. Mas o velho paroquiano não se conteve e perguntou ao coveiro:
– Ô, Félix, quem é que está aí?
– É o Seu Cesário.
– O Cesário? Nossa... E como é que ele está?
– Até que está bem. Quer ver?
E, sem a menor desfaçatez, nem qualquer incentivo de nossa parte, o Félix, o coveiro, enfiou a mão dentro do saco, meteu um dedo na cavidade que envolvera o olho esquerdo do falecido, como se a mesma fosse uma espécie de alça, e expôs o crânio descarnado do falecido seu Cesário perante nós, sob o pleno sol do meio-dia.
Não sou pessoa de assustar-me à toa, de enojar-me com facilidade, ou de surpreender-me por bobagens. Mas, confesso, a visão de uma ossada não é, nem de longe, algo agradável, ou curioso: há uma infinita distância entre os corpos de uma aula de anatomia e a coisa real, recém-tirada de uma cova. Dizer que é algo meramente desagradável é muito pouco. E, homens, e cristãos, como éramos todos ali, não se podem dar à leviandade de se recusar a enfrentar uma semelhante visão. Ainda que com desconforto.
Assim, aceitando com toda a dignidade que de nós era esperada, no momento, aquela situação, eis que o Félix nos surpreendeu, mais uma vez, com seus comentários:
– Olhem só, ele está muito bem, não é verdade? E vocês não imaginam o quanto. O osso da bacia, depois de alguns anos, geralmente é encontrado quebrado. Mas vejam como o dele está inteirinho – e enfia novamente a mão no saco plástico e exibe para nós os ossos do quadril do Seu Cesário.
Para nós, porém, foi a gota-d’água. Fizemos o sinal-da-cruz e despedimo-nos do coveiro.
Ao deixarmos o cemitério, o velho paroquiano nos confidenciou algo que, no fundo, todos sentíramos:
– Não deixa de ser engraçado. Somos pessoas de fé. E, ao mesmo tempo, vivemos na era da ciência. Tive a curiosidade de ver o que restou de um velho amigo, achando que olharia seus ossos como olharia para uma ossada de um animal ou para uma espécie de manequim. Mas a humanidade, a humanidade reside ainda em cada centímetro daqueles restos.
De minha parte, tão constrangido estava quanto o homem, acrescentei, sem notar um certo grau de impiedade em minhas palavras, frente a uma pessoa idosa:
– Uma humanidade que é tênue, e eterna como nós sabemos. O que nós vimos, e o que nos dói, é o que todo mundo sabe há séculos: um vislumbre do nosso verdadeiro futuro.
– Do rei ao mendigo. Do jovem ao velho. O meu futuro, o de vocês e o daquele menino ali, empinando seu papagaio, e o de seus netos e dos netos de seus netos – respondeu ele.
E nos separamos: ele rumo à sua casa. Eu, para minhas pesquisas.
Tudo do que tratei nesta crônica não traz, essencialmente, algo de novo. Registro tais fatos porque se deram, literalmente, como ocorreram e para além de qualquer imaginação. Foi tão verdadeiro quanto a moralidade que este episódio encerra e exemplifica. Como, também, tão perturbador, em sua absoluta simplicidade.

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 19 de julho de 2008].

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