O cenário onde se desenrolaram os fatos narrados na presente crônica é quase idêntico ao da semana passada [19 de julho de 2008]. Os motivos que me levaram até lá foram, também, os mesmos. E idêntica era minha mesa de trabalho. Novamente, eis que me encontrava numa sacristia de capela, pesquisando velhos livros e documentos ainda mais antigos, dispostos sobre uma imensa cômoda de jacarandá, quando os fatos vieram ao meu encontro. Devo dizer, entretanto, que, nessa ocasião, a luz era bem melhor, o frio muito menos intenso, mas, por sua vez, meu anfitrião, o zelador, era muito mais loquaz. Foi difícil conciliar minhas pesquisas com a vontade de conversar que o homem tinha, interrompendo-me a todo instante. Compreendi, naquele lugar, porque muitas pessoas preferem o silêncio dos arquivos à busca de documentos em seus locais de origem. Mas, ainda assim, não justifico tal escolha. É no convívio com os velhos guardiões de papéis e igrejas que se descobre o melhor, seja das pesquisas, seja da vida.
Estava, então, como dizia, consultando antigos documentos de uma irmandade quando, fui interrompido, mais uma vez, pelo zelador. Ele arrumava um grande armário quase às minhas costas, retirando toda sorte de objetos e dispondo-os sobre toda e qualquer superfície elevada e plana da sacristia. E já sem ter onde depô-los, passou a acumulá-los sobre a minha mesa de trabalho. Por todo o cômodo viam-se velhos castiçais, santinhos impressos, cadernos de contas, folhas e folhas de papel, incontáveis velas, de todos os tamanhos, descorados paramentos litúrgicos, equilibrados sobre mesas, cadeiras, baús. Mas, sobre a cômoda, e quase à minha frente, quis o homem deixar uma grande imagem de gesso da Sagrada Família.
Dizer que uma imagem é feia, sobretudo uma imagem sacra, pode parecer pouco caridoso. E, sobretudo, bastante ímpio. Isto é verdade quando aplicamos tal juízo ao tema representado. Entretanto, nada nos proíbe de considerá-la feia em razão de sua execução, do resultado final da obra ante aos nossos olhos. A Igreja, aliás, recomenda que as imagens conservem sempre uma relação, não necessariamente de beleza, mas de decoro, de conveniência, entre a peça e o assunto que a motivou. Mas nada disso se encontrava ali. A imagem era tremendamente feia, quase ridícula, enorme, e, ao mesmo tempo, desproporcionada. O São José lembrava um macaco. Nossa Senhora parecia sofrer de algum grave distúrbio nos olhos e o Menino Jesus de sérias dificuldades de locomoção.
Assombrado frente a possibilidade de que tão medonha peça pudesse vir a ser exibida num dos belíssimos altares barrocos da capela, não me contive e indaguei do zelador sobre a origem e o destino que pensava dar àquele objeto. E contou-me, então, o seguinte.
Havia certo tempo, celebrara-se, ali, um casamento e a imagem fora um presente aos noivos. Como estes partiram no mesmo dia, carregados de bagagem, alegaram não poder levar a peça na ocasião, pediram que fosse guardada na capela e que a retirariam tão logo voltassem. A questão é que, de fato, eles retornaram à cidade, mas nunca mais apareceram para resgatar a imagem. E assim ela dormitava, esquecida, fazia meses, ali. O zelador, um tanto bisonhamente, acreditava que seus donos a levariam para casa, mais dia menos dia. Da minha parte, olhando bem para ela, conclui que, involuntariamente, a capela acabara de ganhar mais uma peça para o seu acervo...
E, então, dei-me conta da terrível ironia de toda aquela situação. Um casal, no início da vida, ganha uma imagem que representa uma família num recomeço de vida. Aceita-o? Não. Dão as costas aos recém-chegados do exílio, remetendo-os a uma nova errância, desta vez, do armário para a cômoda de uma sacristia, e vice-versa. Vá lá que a peça seja tremendamente feia. Ainda, assim, acho que merecia um melhor acolhimento: não se põe porta afora quem acabou de chegar...
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 26 de Julho de 2008].
A vaca estradeira
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