quinta-feira, 21 de janeiro de 2010

Os Pequenos Hércules mineiros

Hércules, como todos devem se lembrar, foi o mais célebre herói da mitologia greco-romana. Conhecido no mundo grego como Heracles, sua fama é milenar e seus variados feitos influenciaram outros tantos atribuídos a dezenas de outros heróis e criaturas míticas das mais diversas culturas, desde lendários guerreiros indianos, ao bem conhecido, e histórico, Alexandre, o Grande (356 a.C. – 323 a.C). Especialistas notam ecos das aventuras de Hércules nas façanhas do bretão Rei Artur. E houve mesmo quem vislumbrasse correlações entre o semi-deus helênico e certos episódios da vida de Cristo, conforme os interpretou a tradição popular ao longo de séculos. Aliás, a etimologia, grega, de seu nome se confunde com a das próprias palavras herói, semideus sagrado, santo e divino.
De Hércules, o que mais se lembra são os “doze trabalhos”, perigosíssimos, que realizou a mando de seu primo, Euristeu, rei de Micenas e de Tirinto. Mas como pouquíssima gente, de fato, recorda quais eram aqueles trabalhos, segue aqui um rápido lembrete: o herói deu um fim ao Leão da Neméia (1º. trabalho) e à Hidra de Lerna (2º. trabalho); alcançou, na corrida, a veloz corça de chifre de ouro e pés de bronze (3º. trabalho); capturou o javali de Erimanto (4º. trabalho); limpou os estábulos do rei Augias (5º. trabalho), sendo preciso desviar dois rios para isto; no lago Estínfalo, matou um bando de aves gigantescas, com cabeças e bicos de ferro (6º. trabalho); venceu um poderoso touro lançado pelo deus dos mares, Posídon, contra a ilha de Creta (7º. trabalho); castigou o cruel Diomedes (8º. trabalho), filho do deus Ares (ou Marte); venceu as lendárias guerreiras amazonas, apossando-se do cinturão mágico de sua rainha, Hipólita (9º. trabalho); matou o gigante Gerião, um monstro de três corpos, seis braços e seis asas, e tomou-lhe os bois que eram guardados por um cão de duas cabeças e por um dragão de sete frontes (10º. trabalho); colheu os pomos de ouro do Jardim das Hespérides, depois de buscá-lo por todo o mundo, enfrentar um dragão de cem cabeças e sustentar o céu nos ombros (11º. Trabalho); e, por fim, desceu ao palácio de Hades, rei dos infernos, e de lá trouxe vivo o Cérbero, feroz cão de três cabeças que vigiava a entrada daquele reino subterrâneo e sombrio (12º. Trabalho).
Exageros e alegorias à parte, que são muitas, sempre tive especial predileção por um episódio da vida daquele herói transcorrido ainda em sua infância, que conheço desde menino, contado por meu pai. Segundo a mitologia, Hércules, ainda bebê, estrangulara com as próprias mãos duas serpentes postas em seu berço por inveja, e ciúme, da deusa Hera, que o pretendia castigar por ser filho de Zeus, marido da deusa, e de uma mortal. Intrigas adulterinas à parte, para mim, tal aventura, o triunfo do menino sobre as serpes, sempre foi o máximo!
Pois bem, eis que nos últimos dias, duas notícias relativas a fatos ocorridos em Minas Gerais surpreenderam-me por seus relevos, pode-se dizer, mitológicos.
No dia 22 de julho, um menino de 11 anos, morador de Sabará, livrou-se de um ataque de um cão, da infame raça dos pit bulls, atracando-se com a fera e a repelindo graças às mordidas que aquele inocente desferiu no corpo da besta. Como se ensina, ou se ensinava, nas redações do jornais, um cão mordendo um homem não é notícia, mas um homem mordendo um cão merece uma primeira página.Quando se trata, então, de uma criança a realizar tal proeza, contra um animal de nome Titã, não há como não pensar senão em termos épicos!
Depois, houve o caso de um bebê de nove meses, da cidade mineira de Pedro Leopoldo, que mordeu uma cobra coral, por ela foi picado, em represália, e, ainda assim, foi capaz de sobreviver ao veneno.
Ora, convenhamos: tais episódios são ou não são mitológicos, em sua essência, aparência e repercussão? Beiram à lenda e, no entanto, são absolutamente reais. Ocorreram, de fato. Estão registrados. Onde se vê esta sorte de coisas? Onde crianças alçam-se quais novos Hércules? Onde as lendas parecem renascer a cada dia? E depois me perguntam por que eu gosto tanto de Minas Gerais...

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 2 de agosto de 2008].

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