Depois de uma eleição mais uma vez polarizada na reta final, cabendo a nós escolher pela manutenção do ruim ou pela eleição do péssimo, cujo resultado já se sabe, julguei conveniente indicar alguns absurdos ditos durante a campanha, ao lado de velhos preconceitos que, aparentemente, justificam certas cretinices ditas do alto dos palanques.
Uma das maiores bobagens que se falam a respeito do nosso país é que ele começou muito mal e, como “prova”, é citada a carta de Pero Vaz de Caminha. Nela, o escrivão da armada cabralina, depois de descrever o que viu em Porto Seguro — e que todos sabemos — pede ao Rei que “mande vir da ilha de São Tomé a Jorge de Osório”, seu genro. Para os afoitos e caluniadores de plantão, instaurou-se aí o favoritismo, os privilégios, “o jeitinho brasileiro”. Como se, naquele tempo, um súdito fosse livre para transitar por onde quer que quisesse, sem permissão régia... Além do mais, ao Rei, instância máxima do Estado, tudo era submetido, todas as leis dele emanavam, todas as provisões, cargos, mercês, pensões, e o que mais houvesse. De tudo era ele inteirado, dele provinha a prerrogativa de acolher ou negar os pedidos e demandas. E, o que é curioso, a tudo ele respondia. É certo que as coisas mudaram muito desde então, mas pensemos nos dias de hoje, se algum amigo nosso, sentindo-se vítima de uma injustiça, dissesse que escreveria ao Presidente da República para que este olhasse pelos seus direitos: ou riríamos dele, ou, em silêncio, pensaríamos que nosso amigo endoidou de vez...
Outra grossa asneira que se conta a respeito do Brasil é que a concessão de empregos públicos aos amigos próximos do poder assinalam nossa história desde seus primórdios. Ela faz recordar aquela velha difamação levantada contra os Papas, da Idade Média até quase o Iluminismo, acusados de distribuírem os melhores cargos da Cúria romana entre seus parentes e, mais precisamente, aos seus sobrinhos: daí a expressão “nepotismo”, derivada da palavra latina nepos, e também do italiano nipote, que quer dizer, justamente,“sobrinho”.Ora, criticar tal prática só demonstra a profunda ignorância quanto à importância das relações familiares naquela sociedade e naquele período, pois a família de então — diferentemente de muitas que vemos hoje, o que é triste constatar — era um grupo coeso, íntegro, baseado na confiança mútua e na defesa de seus membros: o mais sólido baluarte contra os ataques do mundo exterior.
Mas o que talvez seja a maior sandice já dita, não só durante a campanha, mas desde pelo menos duas décadas, é este absoluto contra-senso que afirma ser o Brasil “dominado por uma mesma elite há quinhentos anos”. A afirmação, diria, é manca de ambas as pernas.
Em primeiro lugar, há uma confusão do que seja realmente “elite”, pois esta, nada mais é do que o melhor que uma sociedade produziu e, portanto, deve ser valorizada. A elite de um país é composta pelos seus políticos honestos — poucos, em nosso caso, mas que existem —, por pesquisadores de escol, por professores dedicados, por juristas corajosos, por artistas verdadeiramente talentosos, por funcionários públicos de inegável capacitação, por empresários conscientes e justos, por comerciantes honrados, por trabalhadores experientes e honestos, por bons alunos. Em suma, por gente que pode fazer o melhor possível por si mesmo, mas que age também com vistas a fazer o melhor pelo todo. Pois “elite” e “dinheiro” não são sinônimos: podem vir juntos, mas não necessariamente. Daí o absurdo de se chamar de “elite “um bando de endinheirados boçais e sem qualquer comprometimento moral ou público. Ou seja, confunde-se num só termo, no Brasil, e geralmente com finalidades políticas, o conceito de “elite” (o melhor da sociedade), com o de “oligarquia” (um grupo pequeno que se reveza no poder) e este com o de “plutocracia” (pessoas ricas que detêm cargos públicos ou que têm grande influência no Estado).
Em segundo lugar, há um flagrante erro histórico na afirmação que completa a anteriormente citada. Nenhuma “elite”, sobretudo nativa, “governa o país há quinhentos anos”. De 1500 a 1822, éramos uma colônia: portanto, o Brasil pouco mais era do que uma mera referência geográfica dentro do Império português.
Da Independência à República, tivemos, é certo, o predomínio de certas oligarquias junto ao governo. Mas vejam os nomes e sobrenomes daqueles que detiveram o poder então, e dos que o detêm hoje: praticamente não houve sucessão. E o mesmo pode ser dito quanto à República Velha, senão mesmo com certos atenuantes: os Presidentes da chamada “República do Café-com-Leite”, eram, em sua grande maioria, de origem humilde, e não deixaram herdeiros políticos de vulto.
Getúlio e Jango pertenciam, de fato, a famílias influentes, quase caudilhescas, e no entanto foram os que mais avançaram as reformas sociais. Juscelino foi quase miserável na infância e Jânio, um pé-rapado.
Castelo Branco, de fato, era um aristocrata decadente do Nordeste. Mas Costa e Silva era um gaúcho bronco, segundo seus contemporâneos, o que o inviabiliza, naturalmente, à categoria de “elite”, seja lá o critério que se empregue. Da “trinca de espadas”, ou Junta Militar, também conhecida como “Os Três Patetas”, não há o que dizer, dada sua efemeridade. Quanto à Garrastazu Médici e Geisel, seus próprio nomes já proclamam a impossibilidade de terem pertencido à qualquer oligarquia tradicional. Quanto a Figueiredo, bem-nascido, fez o que pode, oscilando entre o princípio de casta e o populismo. Sarney, nunca nos esqueçamos, apesar de seus ares de coronel, fez-se praticamente sozinho. Collor, do qual se pode traçar uma certa linhagem, deu no que deu. Itamar, filho de honrados funcionários públicos, e ele próprio honrado, não se encaixa evidentemente no perfil de pertencente às “elites”. Já Fernando Henrique, sim. Mas ele não disse quase a vida toda que era marxista e ateu? Restou-nos Lula, que fez parte, indiscutivelmente, da elite do movimento operário, mas cuja origem é das mais modestas, bem pouco diferente de muitos ricaços de hoje em dia, que recebem toda a atenção da crônica social e da grande imprensa e cujos avós ou pais, quando não eles mesmos, fizeram-se do nada, expulsos de suas terras como os nossos retirantes o foram das suas plagas nordestinas.
É possível, então, falar de uma elite cinco vezes centenária a comandar o país?
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 11 de novembro de 2006].
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