Não há quem possa negar que as alterações no clima, previstas desde muito tempo, se tornam, dia após dia, mais evidentes ao redor do mundo. Vimos, nesta semana, as temperaturas mais díspares afligindo diversas regiões do globo. Um calor mais do que excessivo nos EUA e na Europa (lembremos que o verão deles está só começando) e um frio tenebroso na nossa vizinha Argentina — 22 graus negativos, e neve em Buenos Aires, coisa que não se via, dizem, desde 1908, ou por aí.
Portanto, não deixa de ser curioso o fato de que nós, brasileiros, pouco temos sofrido com isso. De fato, atravessamos um período de secas. Mas ele não é natural nesta época do ano? Por outro lado, não sentimos, por ora, o frio que sentíramos outrora. Mas isto seria um dissabor? Sou nostálgico do frio, porque gosto de roupas de lã e de um alívio ao sol embrutecedor a que estamos sujeitos na maior parte do ano. Mas quando pensamos na massa de miseráveis, que são cidadão como nós, e que padecem com as baixas temperaturas, não obstante as sempiternas “Campanhas do Agasalho”, somos levados a desejar uma temperatura mais constante, e tépida. Pois, acredito, que se danem as lãs, a elegância, as peles, se um meu irmão passa frio — irmão que não o tenho, natural; tenho-o em Cristo, e como cidadão, e que, portanto, me basta. Mas frio, frio mesmo, ainda não tivemos neste ano, nem nos últimos, nem, praticamente, nesta década.
Se esse nosso quinhão pátrio, a República Federativa do Brasil, não tem sofrido as agudezas climáticas de outras plagas, nada nos autoriza a dizer que assim será por todo o sempre. É verdade que a Bacia Amazônica tem sua capacidade reduzida ano a ano, tanto por razões globais, quanto pelo desmatamento criminoso da qual é vítima, desmatamento predatório que, na grande imprensa, é tratado, ao som de fanfarras e elogios vários, como “abertura de uma nova fronteira agrícola”. Mas, ao que tudo indica, continuaremos no mesmo patamar climático: calor, calor sempre, mas não de matar; e o frio, só um pouco abaixo da medida.
Em razão disso tudo, não há como não lembrar a velha máxima de que o Brasil é “o país do futuro”, expressão esta cunhada pelo escritor austríaco Stefan Zweig (1881-1942) — que, trágica, e ironicamente, suicidou-se, com sua mulher, justamente nestas nossas plagas. Todavia, esta antevisão de progresso é bem anterior. Os primeiros missionários que por aqui puseram os pés e difundiram suas palavras, os franciscanos, carmelitas e, principalmente, jesuítas, avaliaram os possíveis sucessos destas terras desde o princípio: grande riqueza vegetal, mineral e animal; terras férteis; povo dócil; climas variados, etc. Se depois, instalou-se um certo terror frente às nossas possibilidades, foi por outros motivos. Mas que a idéia perdurou, perdurou... Pois quem não se lembra da previsão — profecia? — de D. João Bosco (1815-1888), canonizado em 1934, como S. João Bosco, segundo a qual o planalto central brasileiro abrigaria a capital do terceiro milênio? É difícil, hoje em dia, imaginar Brasília, como a fonte de algo novo, benéfico e universal. Levando-se em conta as criaturas que, em razão de nossos votos, ali foram instaladas, é de se duvidar que seja um berço de grandes, e nobres, realizações. Se pensarmos, também, que dela emana esta nova política insensata, perniciosa, monopolista, latifundiária e excludente, a da superprodução da cana-de-açúcar para fins combustíveis — com sabor de maná oferecido pelo Anticristo —, também não podemos vislumbrar um amplo e belo horizonte.
E, em vista do exposto, somos levados a pensar se a “profecia” de D.Bosco, conquanto nos pareça absurda perante nossos olhos, não tem uma certa razão nos dias de hoje: o Brasil, cuja capital encontra-se no planalto central, será destinado a um grande sucesso. Tudo bem. Mas pelo monopólio dos combustíveis? Duvido. Passaremos para a história, acredito, não por nossas realizações, mas por nosso clima ameno, equilibrado entre os rigores do Norte e do Sul. E nada mais do que isto.
E que viva o Brasil, São D. João Bosco e o Futuro — se sobrevivermos a eles...
[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 14 de julho de 2007].
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