sexta-feira, 22 de janeiro de 2010

Natal mecânico

Há alguns dias fui a uma loja de departamentos para comprar algo bem prosaico. Logo à entrada, contudo, deparei-me com um andar inteiro destinado à venda de objetos de decoração natalina. E no meio das árvores e guirlandas, lá estavam os bonecos de Papai Noel animados, cada vez mais ruidosos e coloridos e mais variados quanto aos movimentos que executam.
Havia bonecos que riam, roncavam, tocavam instrumentos musicais e até mesmo um que se gesticulava muito, em sintonia com aquela velha música que Frank Sinatra cantava, “Let it snow! Let it snow! Let it snow!”, e que não obstante ser cantada por uma das maiores vozes da música americana, ficou conhecida por tocar nos filmes da série “Duro de Matar” (nestes, entretanto, quem canta é um certo Vaughn Monroe).
O curioso nesses brinquedos — se é que podem ser chamados assim, já que o ato de brincar pressupõe a noção de interação entre o objeto e aquele que brinca, o que absolutamente não ocorre no caso, trata-se de uma mera contemplação e alheamento quase completo entre as partes — é que eles no fundo são subprodutos de uma ciência, ou técnica, muito antiga: a automação.
Na cultura ocidental, há notícias da criação de autômatos desde a antiga Grécia. Dédalo, aquele que construiu o misto de palácio e labirinto de Creta para o rei Minos, teria sido o primeiro criador de uma dessas engenhocas. Mais tarde, Roma e Constantinopla criaram também os seus. O mundo árabe, Índia e China, igualmente os confeccionaram. Mas o grande avanço deu-se somente no final da Idade Média, com o desenvolvimento dos relógios mecânicos e das figuras animadas que executavam verdadeiros rituais junto aos mostradores das horas, colocados em prédios importantes nas praças de cidades ricas da Europa. E sua produção avançou pelos séculos: tornaram-se famosas peças como “o jogador turco de xadrez”, construído no século XVIII e que foi exibido como uma grande atração pelo mundo afora até meados do século XIX. Algumas delas, em escala menor chegaram a inspirar diversas obras de arte noutros meios de expressão: é o caso da personagem Coppélia, o autômato que é a protagonista de um conto do escritor romântico alemãoe E.T.A Hoffmann (1776-1822), “O Homem de Areia” (1815), e do famoso balé de 1870, de Léo Delibes (1836-1891). No século XX, a peça teatral “Os Negros” (1958), do escritor francês Jean Genet (1910-1986), teve como ponto de partida uma caixa de música, do século XVIII, na qual quatro autômatos representando jovens negros, trajando libré, inclinavam-se perante uma princesinha de porcelana branca. Há até um ótimo livro a respeito: História de autômatos: da Grécia Clássica à Belle Époque, de Mario Losano, publicado no Brasil e, infelizmente, esgotado.
Quem mais tomou partido dos autômatos, entretanto, foi o cinema, só que este, também, influenciado pela literatura. Graças ao romance R.U.R, publicado nos anos 1920, do tcheco Karel Capek (1890-1938), caiu da moda a palavra autômato: ele criaria o hoje universalmente conhecido termo “robô” (da palavra robota, que em tcheco significa “trabalho forçado” e em eslovaco simplesmente “trabalho”). E desde então eles entraram em nossa imaginação, por meio de clássicos como Metropolis (1927), de Fritz Lang (que se talvez não seja o iniciador do gênero, foi o primeiro grande filme a abordar o assunto), até a platitudes como O Homem Bicentenário (1999) e outros mais. Mas não só em nossa imaginação como na dos cientistas também. E o que era antes pouco mais do que uma técnica para a fabricação de brinquedos cindiu-se, dando lugar a uma verdadeira ciência, a Robótica. Ou seja, os sofisticados robôs que se fabricam hoje no Japão, no fundo não passam de primos destes bonecos que animam as lojas.
Mas será mesmo que animam? É curioso o efeito dos autômatos desta natureza. Ainda que prendam vivamente nossa atenção, à princípio, logo os descartamos como uma bobagem, uma ninharia. Pois se eles tem uma certa graça toda própria até concluírem seus limitados enredos de gestos e sons, quando o reiniciam, tornam-se para nós, senão um martírio, ao menos uma grande amolação: é quando vemos seus defeitos e que seus parcos recursos de convencimento saltam aos olhos. O que era “mágica” — e ponha-se este termo dentro das aspas que ele merece — revela-se puramente técnica: o ato único e perfeito que vemos no começo, converte-se numa eterna repetição, metódico e de sentido estreito.
É inegável que estas traquitanas evoluíram ao longo do tempo. Lembro que tive um Papai Noel desses, que ao som de “Jingle Bells”, executado com a mesma qualidade da que se escuta num cartão musical, só que um pouco mais estridente, balançava uma sineta e caminhava alguns centímetros, até cair e ficar badalando o sino, embalado continuamente por aquela musiqueta sem nuances e agitando as pernas qual um inseto agonizante, até que o desligássemos. Ganhei o presente quanto tinha uns doze anos — era indicado para um público entre seis e oito anos de idade, e me pergunto se, hoje, tendo em vista como são as crianças desta faixa etária em nossos dias, a classificação não deveria diminuir — mas naquele tempo em que toda bugiganga importada era um tesouro, o boneco foi considerado um grande presente. Não duvido, aliás, que, até hoje, tenha ele um lugar de destaque na decoração natalina de uns parentes meus: ninguém tem culpa quanto aos presentes que recebeu nem quanto aos parentes que tem.
E resta, ainda, a pergunta: para que eles de fato servem? Para animar? Quem, ou o quê?

[Publicado originalmente no jornal A Notícia, de Leme, SP, em 25 de novembro de 2006].

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